domingo, 24 de novembro de 2019

Leitura: Nocturno de Chile - Roberto Bolaño


Roberto Bolaño. Foto divulgação.

Refeição Cultural

Neste semestre, tive o prazer do contato com a literatura e a poética do escritor chileno Roberto Bolaño, que faleceu muito jovem aos 50 anos de idade, quando suas obras já se destacavam na literatura de língua espanhola e também já eram traduzidas para diversos países.

Para o trabalho de conclusão da disciplina, a professora Laura Hosiasson nos pediu para pensarmos em algo que nos tenha chamado a atenção nas leituras que fizemos do autor. Eu gostei bastante da poética de Bolaño, sobretudo gostei do livro Nocturno de Chile (2000). 

Esta postagem sobre a leitura da obra foi base para minhas reflexões no trabalho da disciplina que fiz. Foi um período bastante atribulado para mim. Eu gostaria de ter podido ler mais textos críticos a respeito do livro e incluir algumas questões apontadas pelos autores, mas isso não foi possível dentro do prazo que tinha; as leituras ainda serão feitas por mim.

Gostei muito dos contos que lemos também de alguns de seus livros. Um dos textos que mais me marcaram foi o relato "Literatura + enfermedad = enfermedad", do livro El gaucho insufrible (2003). Fiquei muito pensativo após a leitura do texto, muito.

O texto abaixo sobre o romance de Bolaño, contém citações e análises de suas partes - spoiler - de forma que o ideal seria que eventual interessado em ler este livro visse as reflexões contidas aqui depois da leitura.

NOCTURNO DE CHILE – AINDA A TORMENTA

O romance é um convite à reflexão por diversos motivos, a começar por sua estrutura pouco tradicional em relação a romances: a narrativa se dá em apenas dois parágrafos, sendo o primeiro com mais de uma centena de páginas e o segundo e último parágrafo com uma linha de extensão.

A narrativa também é inovadora porque poucas obras ousaram tanto no uso da técnica do fluxo de consciência, em que o narrador em primeira pessoa passa a descrever os acontecimentos, pensamentos ou sentimentos de formas variadas e normalmente ininterruptas.

No século passado, o mundo havia se surpreendido com o lançamento de Ulisses (1922), do escritor irlandês James Joyce, que experimentou várias técnicas narrativas em um romance que marcaria a história da literatura mundial.

No último capítulo de Ulisses, a personagem Molly Bloom inicia um fluxo de pensamento que se estenderá por dezenas de páginas do livro, praticamente sem pontuações e mesclando os assuntos mais variados possíveis.

A técnica narrativa coloca o leitor em contato com uma ideia bastante sugestiva de como funcionam os nossos pensamentos, que alternam diversas coisas ao mesmo tempo: memórias, reflexões, desejos, avaliações, sentimentos, projeções de futuro, criatividade etc.

O romance de Bolaño nos motiva muito a leitura porque além de ser uma obra bem feita nos planos estético, semântico e material, como se observa em bons livros de poesia e literatura, também abre possibilidades de leituras no plano dos sentidos - no caso, leitura política -, pois a interpretação e vinculação com a realidade de eventos ocorridos no Chile durante a ditadura de Pinochet são claras, ampliando assim os sentidos da obra. Da leitura política, podemos dizer o seguinte: Noturno do Chile – ainda a tormenta.

Para citar mais uma motivação sobre os encantos do romance Nocturno de Chile, chama atenção o uso de ferramentas e técnicas utilizadas na linguagem poética; o romance tem passagens belíssimas com uso de anáforas, metáforas, metonímias e outras figuras utilizadas nas estruturas do gênero lírico.


O CONTRATO ENTRE O LEITOR E O NARRADOR

O romance começa estabelecendo os parâmetros da narrativa que irá se desenvolver a partir de ali: quem está falando, sobre o que irá falar, como e por que vai narrar a história.

"Ahora me muero, pero tengo muchas cosas que decir todavía. Estaba en paz conmigo mismo. Mudo y en paz. Pero de improviso surgieron las cosas. Ese joven envejecido es el culpable. Yo estaba en paz. Ahora no estoy en paz. Hay que aclarar algunos puntos. Así que me apoyaré en un codo y levantaré la cabeza, mi noble cabeza temblorosa, y rebuscaré en el rincón de los recuerdos aquellos actos que me justifican y que por lo tanto desdicen las infamias que el joven envejecido ha esparcido en mi descrédito en una sola noche relampagueante..."

Temos um narrador em primeira pessoa, que vai falar sobre sua vida, está acamado e diz estar morrendo, mas vai se apoiar no cotovelo e de cabeça erguida irá buscar recordações que o justifiquem. Afirma também que fará isso por ter sofrido infâmias espalhadas contra ele por um tal jovem envelhecido.

Bom começo. A partir daí, o leitor vai acompanhar a narrativa em fluxo de consciência do personagem central, que se identifica logo em seguida como Sebastián Urrutia Lacroix, um cidadão chileno.

CHAVES PARA DESVENDAR A PERSONALIDADE DO NARRADOR

Com uma leitura atenta, é possível captar algumas características importantes do narrador e que serão de grande auxílio para compreender e interpretar os sentidos da narrativa que ele fará para nós, os leitores.

Ele afirma ser uma pessoa que não busca a confrontação, não quer saber de se envolver em conflitos e diz ser uma pessoa razoável.

"Yo no busco la confrontación, nunca la he buscado, yo busco la paz, la responsabilidad de los actos y de las palabras y de los silencios. Soy un hombre razonable. Siempre he sido un hombre razonable."

Aliás, sobre "os silêncios", ele nos revela que tem uma preocupação ou talvez atenção especial em relação ao silêncio, aos pensamentos e atos não falados (não revelados), e que só a Deus se prestaria contas definitivas sobre certas coisas não ditas, sobre certas cumplicidades na vida nunca ditas a ninguém.

"Uno tiene la obligación moral de ser responsable de sus actos y también de sus palabras e incluso de sus silencios, sí, de sus silencios, porque también los silencios ascienden al cielo y los oye Dios y sólo Dios los comprende y los juzga, así que mucho cuidado con los silencios. Yo soy responsable de todo."

O narrador em primeira pessoa estabelece com o leitor um contrato bastante claro a respeito da narrativa que irá contar. Ele vai buscar nos rincões da memória, atos que o justifiquem e vai escolher quais são eles e a forma como quer que saibamos deles, é a sua versão dos fatos.

E os objetivos são claros, nada que deponha contra ele, e sim que justifique uma vida correta, responsável e "imaculada" como ele diz de si mesmo: "Mis silencios son inmaculados".

LITERATURA E ALTA SOCIEDADE

Podemos dividir o longo fluxo de pensamento do narrador, senhor Urrutia - padre da Opus Dei, poeta fracassado e crítico literário - em alguns episódios e momentos de sua vida.

Na primeira parte das recordações do narrador, ele nos conta sobre sua formação religiosa e a forma como teve acesso aos espaços da alta sociedade, ao conhecer o crítico literário mais famoso do país, o personagem Farewell.

"Y poco antes o poco después, es decir días antes de ser ordenado sacerdote o días después de tomar los santos votos, conocí a Farewell, al famoso Farewell, no recuerdo con exactitud dónde, probablemente en su casa..."

Nestas recordações, ele nos conta da visita a propriedade de Farewell, do assédio sexual que sofreu (e tolerou), do contato com Pablo Neruda e outras personalidades da cultura em um sarau.

A técnica narrativa de Bolaño é excelente. Há passagens que nos lembram clássicos da literatura mundial.

A chegada de Urrutia à vila de Querquén "vacía de todo atisbo de personas" nos lembra tanto a chegada de Juan Preciado a Comala em Pedro Páramo (1955), de Juan Rulfo, como o comportamento dos pássaros gorjeando sons que "parecían decir quién, quién, quién" em meio à solidão da praça principal, descrição que nos lembra O corvo (1845), poema de Edgar Allan Poe, famoso pelo grasnar "nevermore".

Ainda nesta primeira recordação, o narrador nos conta de forma poética e metafórica a imagem que teve da casa de Farewell, uma espécie de porto seguro da literatura nacional.

"Me dije a mí mismo que mi anfitrión era sin duda el estuario en donde se refugiaban, por períodos cortos o largos, todas las embarcaciones literarias de la patria, desde los frágiles yates hasta los grandes cargueros, desde los odoríficos barcos de pesca hasta los extravagantes acorazados. ¡No por casualidad, un rato antes, su casa me había parecido un transatlántico! En realidad, me dije a mí mismo, la casa de Farewell era un puerto."


LITERATURA E VAIDADE

Nesta segunda parte das recordações, o senhor Urrutia narra o período em que passou a trabalhar na Universidade Católica do Chile, começou a publicar seus poemas e fazer críticas literárias.

Ele nos conta que ouviu uma voz interior, seu superego, e ela teve grande influência nas decisões e ações tomadas pelo narrador nesta fase. Urrutia criou um pseudônimo - H. Ibacache - para seguir criticando poetas e literatos (e elogiando a si mesmo) e planejou um futuro glorioso como poeta.

"Urrutia Lacroix planeaba una obra poética para el futuro, una obra de ambición canónica que iba a cristalizar únicamente con el paso de los años, en una métrica que ya nadie en Chile practicaba, ¡qué digo!, que nunca nadie jamás había practicado en Chile, mientras Ibacache leía y explicaba en voz alta sus lecturas tal como antes lo había hecho Farewell, en un esfuerzo dilucidador de nuestra literatura, en un esfuerzo razonable, en un esfuerzo civilizador, en un esfuerzo de tono comedido y conciliador, como un humilde faro en la costa de la muerte."

Não poderia faltar o tom poético com que Bolaño descreve o episódio narrado em fluxo de pensamento pelo poeta Urrutia, com anáforas: "en un esfuerzo", "en un esfuerzo"...

A narrativa nos apresenta histórias dentro de histórias. Falando sobre pureza poética, Urrutia nos conta um episódio na casa de um diplomata, Salvador Reyes, que por sua vez vai falar sobre pureza em outro episódio com o escritor alemão Ernst Jünger, ocorrido na Paris ocupada durante a 2ª Guerra Mundial. Dentro desta história, será narrado novo episódio com um pintor guatemalteco e seu quadro "Paisaje de Ciudad de México una hora antes del amanecer".

Ao contar essas histórias dentro de outras histórias, o personagem principal Urrutia confessa aos leitores estar com melancolia, o mal que, segundo ele, ataca pessoas pusilânimes, e com isso nos dá outra chave para compreender a personalidade e o estado mental do narrador.

"melancolía, morbus melancholicus, el mal que ataca a los pusilánimes (...) la bilis negra, esta bilis negra que hoy me corroe y me hace flojo y me pone al borde de las lágrimas al escuchar las palabras del joven envejecido"

Ainda dentro dessas lembranças da visita a casa do diplomata, Urrutia e Farewell saem para comer e nova história é contada por Farewell, a história do sapateiro súdito do imperador austro-húngaro: "la historia de la Colina de los Héroes o Heldenberg". As reflexões em questão abordam a temática da mortalidade e a fugacidade das coisas.

Antes de nos contar sobre sua colaboração com a ditadura de Pinochet, o sacerdote Urrutia narra mais um diálogo que teve com Farewell sobre a igreja e os papas, e nos revela ser da Opus Dei.

De passagem em passagem de uma história a outra, o jovem envelhecido retorna nas citações do narrador. Às vezes, as acusações e cobranças dessa voz são agressivas como neste exemplo:

"Seamos civilizados, susurro. Pero él no me oye. De vez en cuando alguna de sus palabras llega con claridad. Insultos, qué otra cosa. ¿Maricón, dice? ¿Opusdeísta, dice? ¿Opusdeísta maricón, dice?"

Nessa altura da narrativa de Urrutia, sabemos que o jovem envelhecido é a voz de sua consciência, que cobra dele as escolhas que fez, a sua pusilanimidade e os silêncios que manteve durante os piores momentos na vida de seu país. Cobra também a responsabilidade pela literatura ser o que é em seu país - pouco expressiva -, e aqui vemos a crítica de Bolaño também.


LITERATURA E PODER DO ESTADO

Entramos em outra parte da história do senhor Urrutia/Ibacache: sua relação com agentes do Estado ou próximos a setores do Estado, não fica muito claro isso, começa através do contato com dois agentes de uma empresa contratada por setores da igreja, cujos nomes são Medo e Ódio, invertidos.

"Fue por aquellos días cuando conocí al señor Odeim y más tarde al señor Oido."

Ao que parece, a estratégia que os setores mais conservadores do Estado e/ou da igreja desenvolveu para se aproximar do padre Urrutia foi propor a ele um trabalho bem interessante, feito à medida para ele, viajando pelo continente europeu, estudando as técnicas de conservação das igrejas seculares de lá. Ele aceitou.

"La Casa de Estudios del Arzobispado quería que alguien preparara un trabajo sobre conservación de iglesias. En Chile, como no podía ser menos, nadie sabía nada acerca de este tema. En Europa, por el contrario, las investigaciones iban muy avanzadas y en algunos casos se hablaba ya de soluciones definitivas para frenar el deterioro de las casas de Dios. Mi trabajo consistiría en ir, visitar las iglesias punteras en soluciones antidesgaste, cotejar los distintos sistemas, escribir un informe y volver."

Depois da realização do estudo feito pelo padre Urrutia, ele vai voltar ao Chile, encontrando um país em ebulição; período de eleições gerais; Allende chega ao poder; golpe de Estado e início da ditadura de Pinochet. Essa parte nos é narrada após a sua estadia na Europa, que vemos a seguir.

A TÉCNICA DE CONSERVAÇÃO DAS IGREJAS NA EUROPA

Esta parte da obra é uma das mais interessantes em relação à técnica narrativa, com uso de imagens poéticas. A descrição da passagem do padre Urrutia por diversos países conhecendo as igrejas.

Em diversas igrejas, são utilizados falcões para caçar e afastar pombas dos monumentos porque as fezes delas são ameaças à conservação das construções pelo poder corrosivo que têm.

O leitor consegue facilmente perceber a simbologia em relação ao uso de aves predadoras e aves caçadas, entre falcões e pombas/estorninhos como algo relativo a regimes autoritários e democracia, entre o status quo e as camadas menos favorecidas e populares.

SÍNTESE DA PASSAGEM DE URRUTIA PELA EUROPA

- Pistóia, ITA, Igreja Santa Maria da Dor Perpétua, padre Pietro, falcão Turco;

- Turim, ITA, Igreja São Paulo do Socorro, padre Angelo, falcão Otelo;

- Estrasburgo, FRA, não falou nome da igreja, padre Joseph, falcão Xenofonte;

- Avignon, FRA, Igreja Nossa Senhora do Meio-Dia, padre Fabrice, falcão Ta Gueule (o mais sanguinário dos falcões); a descrição das cenas de caças de estorninhos em meio a um céu vermelho é impressionante, de arrepiar;

- Pamplona, ESP. Não utilizam a técnica dos falcões na conservação de igrejas. Urrutia tratou de questões particulares e da igreja, inclusive assinou contrato de publicação de suas obras;

- Burgos, ESP, padre Antonio (um velhinho), falcão Rodrigo (que não caçava pombas, o padre era contra caçar aquelas criaturas de Deus), ambos estavam decrépitos; a história narrada é de arrepiar. O falcão estava em condições precárias, num canto, preso, amuado. Com o estado febril do padre, Urrutia soltou o falcão, que reencontrou seus instintos, matou diversas pombas e desapareceu para sempre nos céus de Burgos. O padre Antonio se libertou também e faleceu naquela noite;

- Madri, ESP, Urrutia tratou de outros temas por lá, porque em Madri eles não ligam para essa questão de conservação de igrejas;

- Namur, BEL, Igreja Nossa Senhora dos Bosques, padre Charles, falcão Ronnie;

- Saint-Quentin, FRA, Igreja de São Pedro e São Paulo, padre Paul, falcão Febre; uma cena chocante aconteceu na cidade. O falcão do padre Paul estraçalhou uma pomba branca que deu início a jogos na cidade;

- O padre Urrutia foi para Paris e depois passou um tempo visitando países europeus até que retornou a América.

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FALCÃO SANGUINÁRIO, UMA METÁFORA DO QUE VIRIA NA HISTÓRIA

Avignon - A descrição que o narrador faz dos céus vermelhos em consequência da ferocidade do falcão Ta Gueule é impressionante:

"y fui a Avignon, a la iglesia de Nuestra Madre del Mediodía, en donde era párroco el padre Fabrice, cuyo halcón se llamaba Ta gueule y era conocido en los alrededores por su voracidad y ferocidad, y con el padre Fabrice tuvimos tardes inolvidables, mientras Ta gueule volaba y  deshacía ya no sólo bandadas de palomas sino de estorninos que por aquellos días lejanos y felices abundaban en las tierras provenzales, las tierras que recorrió Sordel, Sordello, ¿qué Sordello?, y Ta gueule echaba a volar y se perdía entre las nubes bajas, las nubes que bajaban de las mancilladas y al tiempo puras colinas de Avignon, y mientras el padre Fabrice y yo hablábamos, de pronto Ta gueule volvía a aparecer como un rayo o como la abstracción mental de un rayo para caer sobre las enormes bandadas de estorninos que aparecían por el oeste como enjambres de moscas, ennegreciendo el cielo con su revolotear errático, y al cabo de pocos minutos el revolotear de los estorninos se ensangrentaba, se fragmentaba y se ensangrentaba, y entonces el atardecer de las afueras de Avignon se teñía de rojo intenso, como el rojo de los crepúsculos que uno ve desde las ventanillas de un avión, o el rojo de los amaneceres, cuando uno despierta suavemente con el ruido de los motores silbando en los oídos y corre la cortinilla del avión y en el horizonte distingue una línea roja como una vena, la femoral del planeta, la aorta del planeta que poco a poco se va hinchando, esa vena de sangre fue la que vi en los cielos de Avignon, el vuelo ensangrentado de los estorninos, los movimientos como de paleta de pintor expresionista abstracto de Ta gueule, ah, la paz, la armonía de la naturaleza que en ningún lugar es tan evidente ni tan explícita como en Avignon, y luego el padre Fabrice silbaba y esperábamos un tiempo indefinible, mensurado únicamente por los latidos de nuestros corazones, hasta que nuestro tembloroso halcón se posaba en su brazo. Y luego tomé el tren y me marché de Avignon con gran tristeza"


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UM SONHO SIMBÓLICO DE URRUTIA, ANTES DE VOLTAR AO CHILE

Em Roma, antes de voltar para o Chile, o padre Urrutia teve sonhos estranhos durante sua estadia em Roma. Sonhou com falcões que atravessavam o oceano Atlântico rumo a América.

"Fui a Roma. Me arrodillé ante el Santo Padre. Lloré. Tuve sueños inquietantes. Veía mujeres que se rasgaban las vestiduras. Veía al padre Antonio, el cura de Burgos, que antes de morir abría un ojo y me decía: esto está muy malo, amiguito. Veía una bandada de halcones, miles de halcones que volaban a gran altura por encima del océano Atlántico, en dirección a América. A veces el sol se ennegrecía en mis sueños."

Tanto na história dentro do romance veríamos golpe de Estado e a instituição da barbárie contra o povo, como na vida real ocorreria nas Américas, naqueles anos de regimes autoritários, uma certa operação batizada de "Operação Condor", cujos predadores sanguinários aniquilaram milhares de presas, presos políticos.

LITERATURA E PODER DO ESTADO, 2ª PARTE

Urrutia/Ibacache volta ao Chile após sua passagem pela Europa. Seu fluxo de pensamento faz um panorama rápido do processo de eleição de Allende, crise política e golpe de Estado.

Bolaño descreve o narrador repassando toda a literatura clássica da humanidade - a grega, principalmente - durante o período em que o padre se internou em seus aposentos. Enquanto isso, a direita chilena derrubava o governo de Allende. Findo o processo do golpe, Urrutia pensa o seguinte após o bombardeio do palácio La Moneda, morte de Allende e o início da ditadura:

"qué paz. Me levanté y me asomé a la ventana: qué silencio. El cielo estaba azul, un azul profundo y limpio, jalonado aquí y allá por algunas nubes."

A paz do poeta e crítico Urrutia/Ibacache não foi tão completa ao que parece, porque o narrador nos conta que depois do golpe tentou escrever poesia e a coisa saiu meio demoníaca:

"Los días que siguieron fueron bastante plácidos y yo estaba cansado de leer a tantos griegos. Así que volví a frecuentar la literatura chilena. Intenté escribir algún poema. Al principio sólo me salían yambos. Después no sé lo que me pasó. De angélica mi poesía se tornó demoníaca."

Ao longo da narrativa em fluxo de pensamento, o narrador nos deu várias pistas a respeito de sua personalidade. Além de não querer confrontação, de se dizer razoável, e de afirmar no presente da enunciação que está melancólico, nos revela agora também questões bem íntimas sobre si mesmo: os desejos sexuais. Lidar com isso o deixa furioso:

"Escribía sobre mujeres a las que zahería sin piedad, escribía sobre invertidos, sobre niños perdidos en estaciones de trenes abandonadas. Mi poesía siempre había sido, para decirlo en una palabra, apolínea, y lo que ahora me salía más bien era, por llamarlo tentativamente de algún modo, dionisíaco. Pero en realidad no era poesía dionisíaca. Tampoco demoníaca. Era rabiosa. ¿Qué me habían hecho esas pobres mujeres que aparecían en mis versos? ¿Acaso alguna me había engañado? ¿Qué me habían hecho esos pobres invertidos? Nada. Nada. Ni las mujeres ni los maricas. Y mucho menos, por Dios, los niños. ¿Por qué, entonces, aparecían esos desventurados niños enmarcados en esos paisajes corruptos? ¿Acaso alguno de esos niños era yo mismo?"

AULAS DE MARXISMO A PINOCHET

Através dos senhores Odeim e Oido, Urrutia/Ibacache é contratado para dar aulas de marxismo à junta militar que tomou o poder no Chile. Essa parte das memórias é impressionante. O programa das dez aulas sobre marxismo poderia ser seguido à risca por qualquer um de nós para se conhecer um panorama geral sobre Marx e seus ensinamentos.

Ao final do curso, o senhor Urrutia volta a seus aposentos e não consegue dormir. Seus pensamentos são intensos. Chora.

"Me puse a dar vueltas por el cuarto mientras una marea creciente de imágenes y de voces se agolpaban en mi cerebro. Diez clases, me decía a mí mismo. En realidad, sólo nueve. Nueve clases. Nueve lecciones. Poca bibliografía. ¿Lo he hecho bien? ¿Aprendieron algo? ¿Enseñé algo? ¿Hice lo que tenía que hacer? ¿Hice lo que debía hacer? ¿Es el marxismo un humanismo? ¿Es una teoría demoníaca? ¿Si les contara a mis amigos escritores lo que había hecho obtendría su aprobación? ¿Algunos manifestarían un rechazo absoluto por lo que había hecho? ¿Algunos comprenderían y perdonarían? ¿Sabe un hombre, siempre, lo que está bien y lo que está mal? En un momento de mis cavilaciones me eché a llorar desconsoladamente, estirado en la cama, echándoles la culpa de mis desgracias (intelectuales) a los señores Odeim y Oido, que fueron los que me introdujeron en esta empresa. Después, sin darme cuenta, me quedé dormido."

Temos aqui uma reflexão possível por parte do narrador: O medo e o ódio foram responsáveis por suas desgraças intelectuais... talvez por sua pusilanimidade.

Vieram tempos tristes, sem graça, chatos. Por causa do toque de recolher, não podia haver saraus, encontros dos intelectuais e artistas. Essas são as lembranças que Urrutia narra nesse momento de sua história.

LITERATURA E BARBÁRIE

E então, aparece María Canales e, com ela, a oportunidade dos encontros e saraus em sua mansão: artistas e intelectuais voltam a se reunir de duas a três vezes por semana para beber, cantar, declamar poesias e passar as noites reproduzindo a cultura do país.

Falando a si mesmo e ao jovem envelhecido, sua voz da consciência, o narrador nos confessa: "Pero la historia, la verdadera historia, sólo yo la conozco. Y es simple y cruel y verdadera y nos debería hacer reír, nos debería matar de la risa. Pero nosotros sólo sabemos llorar, lo único que hacemos con convicción es llorar."

O final da história é um final duro, a descoberta do porão de tortura, da relação do casal com a CIA e com a ditadura, a convivência da cultura com a barbárie naquele espaço, tudo isso nos coloca a pensar sobre muitas questões, sobre o papel dos artistas, dos intelectuais, da produção artística e cultural em um país, sobre literatura e sociedade.

A personagem María Canales, a quem o padre Urrutia visitou muito tempo depois dos fatos e após o fim da ditadura, faz uma provocação a ele, dizendo que a literatura se faz assim, como se dava naqueles tempos. A questão fica martelando em sua consciência.

"y dijo que así se hacía la literatura en Chile. Yo incliné la cabeza y me marché. Mientras conducía, de vuelta a Santiago, pensé en sus palabras. Así se hace la literatura en Chile, pero no sólo en Chile, también en Argentina y en México, en Guatemala y en Uruguay, y en España y en Francia y en Alemania, y en la verde Inglaterra y en la alegre Italia. Así se hace la literatura. O lo que nosotros, para no caer en el vertedero, llamamos literatura."

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CONVITE A LEITURA DE NOCTURNO DE CHILE EM TEMPOS DE AUTORITARISMO NAS AMÉRICAS DO SÉCULO XXI

Uma obra de ficção literária é boa quando ela é completa em si, como neste caso do romance de Bolaño, a economia da obra dá conta da história, o leitor não precisa saber de nenhum contexto externo a ela para compreendê-la. O professor Antonio Candido nos ensina essa lição no texto “Os elementos de compreensão”. Vejamos o que diz sobre isso:

“Uma obra é uma realidade autônoma, cujo valor está na fórmula que obteve para plasmar elementos não-literários: impressões, paixões, ideias, fatos, acontecimentos, que são a matéria-prima do ato criador (...) o elemento decisivo é o que permite compreendê-la e apreciá-la, mesmo que não soubéssemos onde, quando, por quem foi escrita.”

A emoção estética se dá e se realiza quando lemos este romance de Bolaño. Os elementos internos nos permitem perfeitamente a compreensão do enredo, mesmo para um leitor não-chileno ou sul-americano conhecedor da história das ditaduras dos anos sessenta a oitenta.

Uma obra de ficção é melhor ainda quando ela permite ampliar a interpretação no plano dos sentidos. Neste caso, além do sentido material, presente no texto, podemos ampliar o sentido ao associarmos o texto com fatos e eventos no plano externo da obra.

O texto crítico de Grínor Rojo “2000 El ridículo espantoso (además de chileno) em Nocturno de Chile” nos abre um leque de interpretações incrível. As críticas contidas no romance em relação à política e à literatura, incluindo a relação dos escritores e demais produtores de cultura, amplia bastante os aspectos a serem considerados no plano dos sentidos.

Alguns dos aspectos elencados por Rojo citamos na leitura que fizemos como, por exemplo, a questão do jovem envelhecido como a consciência mais profunda de Urrutia ou o sonho simbólico dos falcões atravessando o Atlântico e as ditaduras que ocorreriam nas Américas naquele período.

Uma questão que fica latente nesse momento, nesse exato momento em que lemos o romance de Bolaño, seria a oportunidade que nos dá a leitura da frase final do livro, o 2º e último parágrafo, que talvez seja a própria voz do escritor e não do personagem, como diz Rojo e Moreno: “Y después se desata la tormenta de mierda.”.

Que expressão mais premonitória seria essa tormenta de merda, se pensarmos o cenário colocado em 2019 na região, Chile, Brasil, Bolívia, Uruguai, Argentina, Equador e demais países em face dos últimos acontecimentos políticos. Poderíamos tranquilamente reler esse clássico de Bolaño com a seguinte sugestão na denominação: Noturno do Chile – ainda a tormenta.

Enfim, a obra literária é muito sugestiva, tanto no plano interno do romance, quanto na ampliação da leitura no plano dos sentidos, a considerarmos neste início de século XXI a ascensão da direita nos países da América do Sul e a volta de pensamentos fascistas e antidemocráticos.

William Mendes


BIBLIOGRAFIA:

BOLAÑO, Roberto. Nocturno de Chile. Espanha: Debolsillo, 1ª edición; 2017.

BOLAÑO, Roberto. Noturno do Chile. São Paulo: Companhia da Letras; 2004. 

CANDIDO, Antonio. “Os elementos de compreensão”. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. 5ª ed. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1975, 1º vol., p. 34-36. 

ROJO, Grínor. “2000 El ridículo espantoso (además de chileno) en Nocturno de Chile”. Las novelas de la dictadura y la postdictadura chilena – Quince ensayos críticos. Volumen II. 1ª ed. – Santiago: LOM ediciones, 2016.

sábado, 23 de novembro de 2019

((((((((((((((((( Pátria amada, Brasil )))))))))))))))))


O ódio.
A violência.
A mentira.

O banqueiro é bolsonarista.
O ruralista é bolsonarista.
O rentista é bolsonarista.

Alguns parlamentares são bolsonaristas.
Alguns magistrados e juízes são bolsonaristas.
Algumas autoridades são bolsonaristas.

Marceneiro bolsonarista...
Porteiro bolsonarista...
Síndico bolsonarista...
- Sem noção!

O padrinho é bolsonarista.
O primo é bolsonarista.
O tio é bolsonarista.
- Sem noção!

O gay é bolsonarista.
A idosa negra é bolsonarista.
A sra. evangélica é bolsonarista.
- Sem noção!

A destruição da saúde é bolsonarista.
A destruição da educação é bolsonarista.
A destruição da previdência é bolsonarista.
A destruição do meio ambiente é bolsonarista.
A destruição do patrimônio nacional é bolsonarista.

Aff! A destruição dos direitos do trabalho,
que dão dignidade e cidadania,
é bolsonarista.

O amor ainda pode vencer
A solidariedade pode vencer
A unidade de classe pode vencer
A soberania nacional pode vencer
Vamos vencer?
Brasil.

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Risco totalitário avança mais rápido que nazismo



Opinião


(Atualizado às 9h50 de 22/11/19)

Não sou historiador. Poderia ter sido. Ainda decidia o que fazer quando me inscrevi para o vestibular da Fuvest 2001: Letras ou História? Optei por Letras porque achei na época que teria mais oportunidades de trabalhar na área e sair do assédio moral que sofríamos no Banco do Brasil sob o massacre das gestões dos tucanos.

Como diz um verso da música "Amazing" da banda de rock Aerosmith, música que gosto bastante, "Life's a journey not a destination" (A vida é uma jornada, não um destino), acabei não sendo nada que havia planejado: nem historiador, nem professor de Letras. Virei dirigente dos bancários e passei o restante de minha vida de bancário representando e lutando pela classe trabalhadora.

Mesmo assim, o meu desejo de conhecer a História nunca arrefeceu e sempre que posso estou lendo e estudando o tema, assim como é grande o desejo de ler as grandes obras literárias da humanidade. Minha curiosidade não para por aí, gostaria muito de conhecer os grandes filósofos e pensadores de todos os tempos.

ENFIM, POR QUE FALAR DE HISTÓRIA?

Pelo pouco que li e que sei, penso que não vai acabar bem o que tem acontecido no Brasil, na América Latina e no mundo, considerando os acontecimentos e tendências que têm marcado os últimos anos deste início de século 21, principalmente após a nova onda de desestabilização e derrubada de governos populares e progressistas nas Américas e também de governos tradicionais do Oriente Médio como temos visto ocorrer após o novo crash do capitalismo, o dos papéis subprime em 2007/08.

Acredito que caminhamos para o fim das liberdades, para o fim das democracias representativas, o fim dos estados democráticos de direito e o fim da legitimidade das eleições como as conhecemos. As novas formas de manipulação de massas por influência no comportamento e no voto via redes sociais e fake news alteram completamente o resultado das eleições. Caminhamos para um aumento desesperador da miséria das maiorias e da concentração de tudo para poucos mortais.

Basta analisarmos o Brasil, que viveu um ciclo recente de avanços consideráveis durante os governos democráticos e populares do Partido dos Trabalhadores, partido que ascendeu ao poder pelo voto popular após as experiências neoliberais fracassadas dos anos noventa, ocorridas após a ditadura civil-militar, que durou duas décadas, entre os anos sessenta e oitenta.

Os governos de Fernando Collor, seguido de Itamar Franco após seu impeachment, e Fernando Henrique Cardoso foram governos eleitos após a promulgação da Constituição Federal de 1988 (a constituição cidadã), e tiveram seus papéis em relação à transição do regime autoritário dos militares e seus patrocinadores, a elite do país, mas fracassaram no quesito de melhorar a vida do povo e do cidadão comum. Governaram para a mesma elite secular que estava com os militares golpistas.

Os governos do PT, os dois mandatos de Lula e o primeiro mandato de Dilma Rousseff, mudaram a cara do país, incluíram o pobre no orçamento do Estado, criaram com políticas reais oportunidades nunca antes oferecidas aos povos humildes, que tanto necessitam do apoio do Estado para alcançarem a cidadania prevista na Carta Magna. Basearam sua política econômica no aquecimento do mercado interno, na diversificação das relações comerciais com o exterior, na ampliação do crédito e no aumento do salário mínimo e na expansão dos direitos da classe trabalhadora. Incluíram milhões de pessoas nos direitos da cidadania através das políticas afirmativas. Mudaram a cara do Brasil, que passou a ser de gente feliz.

A elite econômica e os golpistas seculares não permitiram que o país seguisse melhorando a vida do povo. Faltavam muitos avanços ainda, no meu ponto de vista, e o povo seguia sem formação política (apesar da expansão do acesso a todos os níveis de educação); os meios de comunicação seguiam nas mãos de poucos barões e empresários; os banqueiros e rentistas seguiam sugando a renda do país. Apesar do povo trabalhador ter conquistado mais poder de compra com distribuição de renda, sonho do presidente Lula, o povo seguia sem formação política alguma. Isso foi um erro fatal.

As conquistas do povo, mais feliz e com direitos e sem nenhuma formação política, caíram como um castelo de cartas. Os avanços do povo via governos do PT viraram nos discursos ideológicos da direita "meritocracia". As dezenas de milhões de pessoas que ascenderam de classe teriam ascendido por mérito delas, nada a ver com o Estado... A descoberta do pré-sal pela Petrobras em 2011 incluiu o Brasil na lista de países que deveriam sofrer ataques e golpe por parte das potências hegemônicas do capitalismo. O Brasil se tornaria um player grande demais no mundo. Já havia dado um salto que incomodava muito! Deu no que deu...

Impeachment sem crime algum da presidenta recém-reeleita. Um sujeito bárbaro, parlamentar há quase 30 anos, não foi preso em flagrante ao votar em plenário em nome do torturador da cidadã Dilma Rousseff. Se não se combate a barbárie quando ela ocorre... Inventaram uma força tarefa para destruir a economia do país, prender o maior líder popular sem crime algum e estabeleceram um estado policial no Brasil.

Não houve resistência com mobilização de massas contra o golpe, novo modelo de golpe, desenvolvido em solo imperialista como sempre, com novo formato: lawfare - técnicas de burocracia judiciária para derrubar, prender e impedir que qualquer liderança popular chegue e se mantenha no poder de representação. 


Acabaram com a democracia no Brasil sem um tiro, sem reação alguma que expressasse correlação de forças no enfrentamento. As forças populares não estavam alertas e organizadas. Manipularam o povo e em menos de dois anos destruíram todas as conquistas políticas e sociais da classe trabalhadora, as conquistas do período lulo-petista e as do período varguista.

MOVIMENTOS FASCISTAS AVANÇAM, CRIAM PARTIDOS, SE ARMAM

O novo regime avança sem oposição alguma. As leis não são aplicadas contra os crimes diários e de hora em hora cometidos pelos grupos bárbaros e fascistas que tomaram as instituições do Estado brasileiro. O presidente já cometeu centenas de quebras de decoro parlamentar. Nada é feito. O sujeito interfere em todos os poderes do Estado. Nada é feito.

Um bando de selvagens chegou ao poder pela inoculação de ódio e desinformação no povo, com máquinas ilegais de reprodução de fake news, pelo poder de parte das igrejas pentecostais com gente de caráter duvidoso e que manipula milhões de pessoas; leis são mudadas ao desejo de algum brucutu no poder; as instituições do Estado viraram coisa pessoal, de compadrio, dos chegados. Vivemos num país destruído como se bombas tivessem arrasado tudo.

O que é pior é que não vemos reação do povo e de suas lideranças e entidades de classe. Pelo contrário, vemos adesão de parte do povo ao novo regime que caminha mais rápido rumo ao totalitarismo do que os partidos nazifascistas na Europa do período entre as duas grandes guerras. O que Hitler gastou quase uma década para conseguir, o clã de milicianos no poder está conseguindo em semanas, meses. Ninguém e nada param essa loucura.

O cenário demonstra que ou todas as forças democráticas, progressistas e humanistas se unem, e deixam suas diferenças para outro momento da história, ou teremos um regime totalitário pior que o de Hitler em muito menos tempo. E talvez com duração muito maior que os doze anos do nazismo. Regimes como o franquista e o salazarista duraram décadas por causa do domínio total da máquina do Estado e por ter adesão de parte da sociedade, a parte que tem poder econômico e/ou político. E enquanto Hitler queria conquistar toda a Europa por causa do "espaço vital" e exterminar o povo judeu, os regimes de Franco e Salazar se limitaram à dominação total em seus países.

UNIDADE DE CLASSE OU DIVISÃO ATÉ A UNIDADE (CADA UM POR SI)?

Eu fico impressionado com o quanto o movimento "organizado" segue desorganizado, dividido, se odiando e se combatendo uns aos outros, com disputas com traços evidentes de personalismo, baseados em questões menores e pessoais, às vezes até por querelas ou vaidades, disputas de pequenos espaços de poder (que estão sendo dizimados pelo novo regime). Disputas que começaram por diferenças de concepção e prática também existem, mas que chegaram a um nível intolerável.

Ou os partidos que se afirmam de esquerda e progressistas se entendem, juntamente com as centrais sindicais, as correntes políticas, os movimentos populares e suas lideranças, enfim, ou nós classe trabalhadora criamos uma resistência unitária e de classe ou não vai sobrar nada para a manutenção de uma vida digna do povo trabalhador brasileiro.

Eu fico estupefato cada vez que pergunto para alguma liderança com algum mandato de representação, às vezes até para poder falar a respeito, pergunto se há alguma estratégia em andamento e um desejo em unir as forças e as lideranças do campo democrático e progressista, mais à esquerda e ao centro do espectro político, mais classista e humanista, e a resposta é sempre aquela cara de não sei. 


Será que o movimento organizado desaprendeu o que é planejamento estratégico, pontos fortes, pontos fracos, objetivos a alcançar, estratégias e táticas, revisita à estratégia e readequação dos objetivos, verificação do que já foi alcançado dos objetivos? E a organização de base? Como pode após mais de 3 anos de golpe de Estado não haver células organizativas de resistência em todos os estados, em milhares de cidades, nos principais ramos profissionais? Nos bairros, com jovens, grupos de igreja etc?

Ou se unifica os democratas ou teremos um regime que pode se estabelecer, com violência formal do Estado contra o povo e sem direito a qualquer questionamento ou oposição por muito tempo.

E olha que se as lideranças políticas quiserem, de coração aberto, com inteligência e priorizando o que nos unifica (sem priorizar o que nos divide), seria possível começarmos uma resistência organizada no instante seguinte à decisão racional de lutar contra o mal maior.

Enquanto eu escrevo essas reflexões, os grupos de direita que tomaram o país, que têm as ferramentas mais potentes de manipulação da população (e dinheiro, muito dinheiro), estão criando logotipos de partidos com cartuchos de balas, milicianos estão criando um partido para um sujeito que defende guerra civil, eliminação dos adversários políticos, tortura etc. Como disse acima, as leis não são mais aplicadas contra os crimes do novo fascismo.

Enquanto eu escrevo essas reflexões, os grupos de esquerda e progressistas estão pensando nas eleições municipais de 2020, nas eleições corporativas de suas categorias profissionais, nas eleições sindicais. Tem sentido pensar em eleições, pois são democratas. Mas parece que não se percebeu ainda que ao serem eleitos os representantes de esquerda serão processados, cassados, presos, tornados inelegíveis; parece que a vida segue "normal" como nos anos anteriores. Isso se vencerem as máquinas de fake news, que são montadas às custas de muito dinheiro, que normalmente é o adversário que tem, o capital, não os trabalhadores.

É minha leitura política do cenário em que estamos. Francamente, não é assim sem um planejamento estratégico e unidade na luta que nos salvaremos. 


Foi um desabafo! Não consigo fazer meus trabalhos de faculdade, de literatura, porque essa situação toda nos aprisiona, nos machuca, nos oprime. Ter consciência política é algo sem volta. E mais desesperador é ver as pessoas ao nosso redor, no condomínio, na academia, na escola, na igreja, na família, achando que tá tudo normal.

William


quarta-feira, 20 de novembro de 2019

A Cassi (2019)


(esse texto só pode ser reproduzido na sua totalidade)


O fim de uma história

A decisão sobre votar "Sim" ou "Não" na consulta ao corpo social que a Cassi fará a partir da próxima segunda-feira 18/11 tem sido nesses dias a decisão mais difícil a tomar nos últimos anos de minha vida de cidadão da comunidade Banco do Brasil, o lugar social ao qual eu poderia dizer que pertenço ou pertenci a maior parte de minha vida. A possibilidade de conjugação do sentimento no passado é porque pertencimento é algo profundo, você pertence se se sente parte de algo e esse algo tem que existir para você poder pertencer a ele.

Não é fácil situar no tempo o início das histórias, mas eu poderia demarcar a minha história com a Cassi mais ou menos entre os últimos meses do ano de 2013 e o início de 2014. Evidente que estou situando a parte da história relativa à gestão da entidade, à influência na história da própria Caixa de Assistência. Formalmente, somos (éramos?) todos associados da autogestão em saúde desde que entramos no BB (no meu caso, 09/09/1992) e eu ainda fiz parte do primeiro grupo eleito para o Conselho de Usuários da Cassi SP, lá no final do século passado (tô ficando velho... rsrs).

Em 2013 eu era dirigente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região e da Contraf-CUT, era secretário de formação na Confederação e coordenador da Comissão de Empresa dos Funcionários do Banco do Brasil (CEBB ou COE BB), órgão político da estrutura organizativa da Confederação e que assessora o Comando Nacional dos Bancários nas negociações nacionais entre trabalhadores e bancos. 

Eu já tinha mais de uma década como dirigente nacional dos bancários, tinha uma história de lutas na minha base política, São Paulo, e no movimento nacional da comunidade BB. Ajudei a construir a unidade nacional da categoria na campanha unificada entre bancos públicos e privados. Aprendi política no Sindicato e na Confederação cutistas. Sou muito grato por essa oportunidade que tive na vida, pois ela me transformou num ser humano melhor.

Foi naquele momento (2013) que companheiros de longa data conversaram comigo e perguntaram se eu poderia disponibilizar o meu nome para ser avaliado junto com o de outras lideranças para a construção de uma chapa para concorrer às eleições da Cassi em 2014. Faço questão de ressaltar uma característica que fez parte de minha história de representação da classe trabalhadora: eu nunca pleiteei cargos ou posições políticas no movimento sindical, nunca. 

Ser diretor do Sindicato e fazer trabalho de base junto a meus colegas bancários sempre foi o que mais me deu prazer e realização pessoal. Já era um sindicalizador dos bancários na base desde minha passagem pelo Unibanco, entre 1988 e 1990. Desde 2002, quando fui eleito diretor do Sindicato, as funções que ocupei no movimento foram por decisões coletivas e políticas e os convites vieram para que eu refletisse se aceitava ou não participar daqueles projetos coletivos. Aceitava como missões a cumprir e dava o melhor de mim para elas.

Essa breve retrospectiva anterior ao convite para disponibilizar meu nome para compor uma chapa para as eleições da Cassi em 2014 tem um significado nessa história que rememoro. Eu vivia naquele momento um dos períodos mais produtivos de minha vida sindical. Ser convidado para um projeto como o da Cassi era uma guinada radical nas perspectivas que tinha como liderança sindical no quadro nacional. 

Aceitar o desafio foi muito em consequência da minha formação política no coletivo de diretores do Banco do Brasil no Sindicato: o que somos é feito do que fomos, ensina o professor Antonio Candido, e minha formação sindical é oriunda do Coletivo BB, do dia a dia do trabalho de base do mandato no Sindicato, e da corrente política à qual percebi que pertencia a partir de um certo momento na vida de trabalhador, nessa ordem. Depois ampliaria meu leque de influências formativas: a Contraf e a CUT. Em termos cidadãos e partidários, eu diria o PT, mas minha vida foi sindical, nunca partidária.

Emolduro essa parte da história com o primeiro parágrafo no qual disse da difícil decisão a tomar sobre uma questão fundamental na nossa vida, a nossa vida pessoal e diria também a das nossas entidades da comunidade Banco do Brasil. A decisão agora é tão difícil quanto foi para mim a decisão de seguir em 2014 no movimento dos trabalhadores.

Quando aceitei participar de uma chapa nas eleições para a Cassi eu não pretendia abrir mão de meu mandato no Sindicato, mandato de primeiro grau na estrutura sindical, no qual representamos os trabalhadores e não entidades como ocorre nas demais estruturas de representação sindical: federação, confederação e central (estrutura vertical). Não queria sair do Sindicato até porque participar do processo eleitoral da Cassi em abril daquele ano não significava ser eleito, pois havia 4 chapas concorrentes, inscritas em janeiro. 

Eu sempre deixei isso claro nas discussões políticas, que minha prioridade era ser diretor eleito pelos bancários da minha base, o mandato sindical era a minha força motriz para os debates que fazia no movimento, mesmo quando os temas eram de difícil construção de consensos. Era na base que eu gestava e fortalecia as posições que defendia nas discussões políticas no movimento.

Eu entendo ser correta a discussão de não acumular mandatos de representação, e de preferência que esse princípio seja aplicado para todo mundo e não para algumas pessoas. Naquele momento, se tivesse que optar por uma representação, minha prioridade seria a do Sindicato. É claro que todas as representações nas estruturas são importantes. Estou aqui esclarecendo a minha preferência e não desrespeitando as outras.

A decisão coletiva na formação de chapa do Sindicato em fevereiro de 2014 definiu que eu ficasse fora da chapa. Eu não levei a discussão para a instância maior de decisão por entender que o fórum principal era o do meu coletivo de banco. Essa despedida do Sindicato não foi tranquila para mim. Eu fiquei muito mal. O pior é que eu tinha um desafio pessoal e coletivo para poucos dias ou semanas depois. Entrar na campanha das eleições Cassi, percorrer o país em março e abril, estudar e me preparar para uma eventual vitória e mudança radical de trabalho em nome dos trabalhadores e associados da entidade. 

Eu fiquei tão mal naqueles dias que durante uma semana vivi o meu "luto" pela perda de algo que já fazia parte da minha vida. Só minha companheira sabe o que passei. Pensei seriamente em desistir de concorrer e voltar para o dia a dia no Banco. Foram dias muito difíceis e eu decidi virar a página e estar inteiro para o desafio que me designaram. Muitos amig@s e companheir@s foram importantes no apoio que recebi para superar as tristezas daquele evento e seguir nas lutas. 

Enfim, o episódio serviu como mais uma lição de vida: divergências, derrotas e vitórias fazem parte da política; elas são normais e não são pessoais, diga-se de passagem. Tudo passou e construímos juntos muita coisa boa depois disso, eu e o movimento sindical ao qual pertencia.

Cassi, o fim de uma história

O mandato eletivo de diretor de Saúde e Rede de Atendimento na Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil, entre junho de 2014 e maio de 2018 foi um dos períodos mais intensos de minha vida. Eu tinha clareza que minha passagem pela Cassi não poderia ser mais do mesmo em relação a outras forças políticas que haviam passado pelas gestões de nossa Associação.

Algumas concepções e práticas sindicais teriam que ser base de nossa conduta na representação dos associados na maior e mais antiga autogestão em saúde do país. E mais: minha experiência na organização coletiva, na formação sindical e na área de comunicação, no contato com os trabalhadores e no enfrentamento entre capital e trabalho através das negociações coletivas também estariam presentes em nossa passagem pela gestão da Cassi. E assim fizemos.

Todos os problemas reais e os inventados que estão em discussão na reforma estatutária da Cassi já estavam presentes em 2014. Todos. As questões colocadas pelo patrão são ideológicas, muitas delas absurdas e de intromissão descabida na gestão da Caixa de Assistência, cujos donos são os trabalhadores e o Banco é o patrocinador. O custeio insuficiente da Caixa tem grande responsabilidade do BB e a Cassi não teria problemas de governança se o patrocinador não gastasse todo o seu tempo na gestão focando em disputa ideológica com os associados por sua natureza de banco e de patrão. 

O patrocinador tem uma natureza autoritária e entende que sua palavra deve ser lei e numa gestão paritária as coisas não podem ser assim. E não me venham com interpretações dúbias. Não é uma questão pessoal o que estou reafirmando. Não é joão ou maria, associado indicado pelo patrocinador, que seria autoritário na gestão; é o Banco que determina o que seus representantes vão votar e propor e quem não obedecer, tchau, pode ser substituído como permite o Estatuto! Não existe aquele papo de "aqui é tudo irmão, tudo associado, e temos o mesmo objetivo na gestão". Por dever formal, os indicados fazem o que manda a direção do Banco, o Governo; se não fizerem, saem. E aí começam os problemas: a entidade de saúde deve estar em função das pessoas assistidas, dos trabalhadores, e não em função do patrão e da empresa.

A Cassi não avançou na expansão da Estratégia Saúde da Família (ESF) em parte por culpa do patrocinador na gestão, que aceitou mas nunca acreditou no modelo assistencial e dificultou ao máximo que a cobertura crescesse como estava definido no Planejamento Estratégico desde o lançamento do programa em 2003: cobrir com a ESF o conjunto dos participantes do Plano de Associados, 400 mil vidas. A expansão só ocorre se houver investimentos destacados para tal no orçamento. Nada anda nas áreas internas da Cassi sem a concordância do Banco, nada! Ou seja, tudo de bom e tudo que não funcionou na gestão da Cassi tem o dedo do patrocinador.

Coube a nós durante os 4 anos de mandato mostrar que a ESF é eficiente, dá resultados, que as despesas assistenciais das pessoas vinculadas ao modelo são de 20% a 40% menores em relação a graus de complexidade idênticos em pessoas não cuidadas pela ESF. A tal empresa contratada após o Memorando de Entendimentos ganhou uma bela oportunidade de conhecer os fatos positivos do modelo assistencial Cassi. Deve ter sido uma das melhores experiências adquiridas por ela ter estudado o Sistema de Saúde Cassi, um corpus que mais tenha agregado conhecimento a ela, Know How. E mesmo assim, bastou montar o relatório final, no início de 2018, para sugerirem um monte de coisas que o patrocinador queria implantar na gestão da Cassi: mandonismo.

Após a reforma estatutária de 1996, o mesmo Banco patrocinador contribuiu para dificultar o equilíbrio entre receitas e despesas cada vez que suas gestões deixaram de recolher o adequado para a Cassi como ocorreu por uma década em relação aos funcionários pós-1998 (recolher 3% e não 4,5% como reza o Estatuto), ao congelar salários e dar abonos e outras formas de remuneração sem impacto na arrecadação do Plano de Associados etc. Se eu fosse descrever todas as coisas que o Banco contribuiu para que a Cassi não estivesse tão bem quanto poderia, eu iria longe. 

Não é correto jogar toda a culpa do déficit na inflação médica, nos custos de aquisição de serviços no mercado de saúde, que tem variação muito maior que a inflação oficial, porque a Cassi deveria comprar menos serviços no mercado, essa é uma questão básica! As receitas poderiam ser suficientes ou a necessidade seria bem menor do que calculam (perto de 14% das folhas de ativos e aposentados) se houvesse cobertura para 100% dos participantes com Atenção Primária e ESF (e os programas preventivos e linhas de cuidados para crônicos), uma maior verticalização na estrutura própria, regulação adequada, parcerias estratégicas com a rede credenciada, sistema de tecnologia melhor e população corretamente orientada. 

E reafirmo o que disse por 4 anos: um dos principais papéis do Banco nunca foi exercido como se poderia: ser o agente orgânico e nacional do incentivo de adesão e vinculação ao modelo assistencial. O Banco tem capilaridade e fácil acesso aos 95 mil associados da ativa. Em 15 anos de modelo assistencial, o Banco nunca teve uma campanha permanente de esclarecimento e incentivo em se conhecer e participar da ESF. Afirmo isso porque estive lá e sei que nunca foi feito. A Cassi e a ESF seguem desconhecidas de seus associados porque não é foco da comunicação e marketing do sistema. Por outro lado, quando a Cassi e o patrocinador querem, fazem campanhas massivas e exitosas para divulgarem o que definiram como prioritário.

E assim, chegamos ao momento presente. Uma consulta ao corpo social entre os dias 18 e 28 de novembro, para os associados definirem se aceitam ou não a proposta de reforma estatutária que desfaz a Caixa de Assistência solidária e com gestão paritária que os trabalhadores do Banco do Brasil construíram em décadas de lutas, derrotas e conquistas. Na minha avaliação de conhecedor da gestão da Cassi, do Plano de Associados e dos direitos dos trabalhadores, nós já perdemos nossos direitos, seja com o resultado de aprovação da proposta, seja com a não aprovação e as consequências posteriores, pouco sabidas por nós, mas que podem ser uma proposta alternativa da governança reduzindo drasticamente direitos, processos políticos e judiciais que se arrastem por anos, mobilização e reabertura de processo negocial entre as partes envolvidas, liquidação da entidade, sei lá o que mais.

Minha leitura sintética sobre a proposta

A proposta de reforma estatutária que será apreciada pelos associados entre os dias 18 e 28 de novembro de 2019 é muito ruim na minha opinião, ela cria uma nova instituição, apesar de continuar com o mesmo CNPJ.

A proposta que vai a votação é fruto de um desejo antigo do patrocinador, de impor a sua autoridade de patrão e ex-patrão à entidade de saúde criada em 1996 para ser independente e autônoma em relação ao Banco do Brasil no trato da saúde de seus trabalhadores e familiares.

Ela quebra a base de sustentação do modelo de custeio mutualista intergeracional e solidário, ao passar a cobrar por titulares e dependentes e não mais pelos titulares do Plano de Associados. Aliás, ela não só passa a cobrar de forma desigual, cobrando mais de quem tem mais dependentes como também já passa a cobrar por idade de forma disfarçada, pois ao cobrar o dobro do 1º dependente do aposentado em relação ao da ativa é porque entende que aposentado tem que pagar mais. Que saibamos, em geral, aposentados são pessoas de faixas etárias maiores que as faixas etárias da ativa, em volumes de assistidos.

O recurso que o patrocinador vai colocar provisoriamente na entidade de saúde a título de taxa de administração vai cessar logo adiante e o sistema de receitas e despesas operacionais terá que se virar para manter equilíbrios dentro da mesma lógica que já está colocada na atualidade: o déficit é fruto de comprar mais serviços no mercado de saúde privado do que o volume que se arrecada de seus associados e patrocinador. A cada exercício contábil nos próximos anos, a entidade de saúde terá que fazer as contas de quanto precisa arrecadar e quanto pode gastar. Essa lógica de cabeça de planilha não irá a lugar algum, pois o principal sempre é deixado de lado: o modelo assistencial que deveria ser implantado e não é por falta de compreensão, interesse e apoio dos agentes envolvidos - Banco, gestores e associados do sistema e usuários.

E, por fim, as mudanças na governança inviabilizam de vez qualquer desejo de mudança pró-associados através da gestão eleita, na minha opinião de ex-gestor eleito que enfrentou um sistema já engessado para mudanças, porque a força do patrocinador é enorme na gestão, e engana-se aqueles que acham que o funcionamento e manutenção da Cassi se dá somente através das reuniões mensais do Conselho Deliberativo. Não. O dia a dia de funcionamento da máquina administrativa e do Sistema de Saúde Cassi se dá nas atribuições e autonomias que existem em cada diretoria e nos direitos e deveres afetos a cada uma delas. Não vou escrever aqui o que explicamos em 635 postagens e em 170 reuniões presenciais com a base social da Cassi. (ler aqui)

Eu suponho o que quer o patrocinador ao manter a exigência de voto de minerva naquilo que estão chamando de questões meramente administrativas. Afirmo aos associados e lideranças representativas que nossa gestão eleita entre 2014/18 não poderia ter feito praticamente nada do que fizemos (nada!) se essa proposta de governança estivesse em vigor em junho de 2014. Se fortalecemos os conselhos de usuários e a participação social foi porque enfrentamos todas as tentativas das burocracias em nos manter calados, sentados na cadeira de diretor na sede em Brasília e não aceitamos ser burocratas, ao contrário, saímos a campo para mostrar o que é a Cassi, seu modelo, como funciona, e para pedir apoio de todos na defesa da entidade; para isso percorremos órgãos regionais do Banco, entidades representativas e conselhos de usuários. 

Mais ainda: se no dia a dia administrativo, o patrocinador mandasse mais do que manda, é provável que nossa diretoria não tivesse conseguido sequer fazer os estudos que fizemos para provar que a ESF dá resultado, porque tivemos que bolar estratégias que não existiam no sistema antiquado de TI e se o mandonismo imperasse, não nos deixariam fazer nada. E foi bom o que fizemos, mostramos a eficácia do modelo assistencial APS/ESF/CliniCassi/programas de saúde. 

E as CliniCassi, então? Se o Banco já mandasse na questão dos aluguéis, isso poderia ter sido uma tragédia durante os últimos anos de contingenciamento. Questionamos dentro das regras possíveis todas as propostas inadequadas que vinham sobre o tema porque as decisões não eram as melhores na nossa opinião de gestores das Unidades e CliniCassi. Gestores de banco tendem a achar que uma CliniCassi é uma agência bancária. Não tem a menor comparação. Provamos o quanto a estrutura Cassi é barata e as despesas administrativas são baixas. Imaginem se o mandonismo já existisse até nisso?

Não vou me alongar dizendo todos os prejuízos da proposta de mudança na governança em favor do patrocinador. Só sei que não me deixariam levar as informações à base nem com meus próprios recursos e com o de algumas entidades representativas que nos apoiaram, como fizemos (tentaram mudar as normas para o eleito não poder sequer viajar sem autorização da parte patronal, sendo que as normas permitem). Usei os recursos da remuneração de diretor para visitar o país e esclarecer a base sobre a Cassi. Nosso foco sempre foi fortalecer a autogestão, por isso pedi tanto apoio ao modelo assistencial ESF, porque é o melhor para a Cassi e o Plano de Associados. Colocamos as questões coletivas sempre em primeiro plano, mesmo quando os temas nos afetavam pessoalmente.

O fim da solidariedade

Entendo que é minha obrigação deixar registrado o que penso a respeito do fim da solidariedade no Plano de Associados da Cassi como tivemos por décadas.

A proposta de cobrar por dependentes que passaria a vigorar com a reforma estatutária quebra o modelo de solidariedade conquistado na Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil ao longo de uma história de lutas coletivas. O modelo de custeio solidário que temos hoje não começou assim como é, ele foi se aperfeiçoando ao longo do tempo, chegando ao excelente modelo de todos contribuírem com a mesma porcentagem da remuneração ou benefício, na ativa e aposentado, e usufruindo da mesma cobertura e direitos.

Solidariedade é uma construção da utopia humana. O conceito geral é bem mais amplo do que a questão específica e corporativa do modelo de arrecadação e rateio de recursos no Plano de Associados como está estabelecido no Estatuto Social da entidade desde 1996, que é o modelo em vigor.

Não se trata tão somente de inventar discursos para dizer se é justo ou não é, se é solidário ou não é, cobrar-se mensalidades diferentes de colegas da ativa e aposentados para as mesmas faixas de remuneração e benefícios como, por exemplo, uma faixa de 4 mil reais: 

R$160 de um titular sozinho; 
R$200 se casal da ativa;
R$230 se casal da ativa com dois filhos;
R$240 se casal aposentado;
R$270 se casal aposentado com dois filhos. 

Solidariedade não é só uma questão numérica, mas é também numérica e que pesa sim de forma diferente na vida de cada pessoa envolvida. Dizer que é solidário cobrar R$160 de um associado e R$270 de outro associado, ambos com recursos mensais de 4 mil é, no mínimo, um exagero.

Qualquer cálculo de custo de vida ou de pesos dos custos das necessidades básicas na vida da classe trabalhadora demonstra que quanto menos a pessoa ganha, mais difíceis são as possibilidades de manutenção de aquisição das coisas básicas porque quanto menor a remuneração, maior o comprometimento dos recursos com essas necessidades básicas. 

Um aposentado sozinho que receba 4 mil, um jovem bancário solteiro que receba 4 mil, um casal de aposentados que receba 4 mil, ou um casal jovem, ou ainda com dois filhos nesses casos que descrevi acima têm dificuldades diferentes em manter o plano de saúde dentro de suas economias domésticas porque todos têm outras despesas básicas que não poderiam cortar.

Mais ainda, essas mesmas condições que descrevi acima para colegas que recebem a remuneração de 4 mil, são condições diferentes para aqueles que ganham 7 mil, 10 mil, 20 mil etc. A pirâmide de remuneração ou benefícios de uma população como a comunidade de associados da Cassi, colegas da ativa e aposentados, é uma realidade que não se pode deixar de considerar. Será que a maioria da população Cassi tem altas remunerações e benefícios ou se situa bem mais abaixo na estrutura da pirâmide? Essa pirâmide tem base estreita e topo largo (a maioria ganha bem) ou o inverso?

Isso sem contar do absurdo do valor cobrado atualmente pelas coparticipações sobre consultas, terapias, exames médicos etc. As coparticipações definidas pela direção da Cassi são injustas, e os efeitos na economia doméstica dos participantes são extremamente danosos, se pegarmos o exemplo que dei acima para os colegas que ganham 4 mil nas diversas situações. 

Um aposentado, em geral doente crônico, ou um colega da ativa que já tenha comorbidades e necessite de medicamentos e acompanhamentos, esses colegas vão despender muito mais de seus parcos recursos nessa necessidade básica - saúde - do que seus pares nas funções e remunerações semelhantes sem doenças crônicas; que dirá se compararmos um aposentado crônico com um jovem saudável naquele instante da comparação.

Nem vou longe nas diversas hipóteses de maior necessidade de uso do sistema de uma hora para outra. O jovem saudável sofre um acidente com diversas fraturas e não se recupera; um jovem que casa e tem um filho com algum grau de deficiência que exija acompanhamento complexo e caro para o resto da vida; um colega que está bem e no dia seguinte descobre ter uma doença degenerativa ou algo do gênero. Sistemas não solidários, e que só visem equilíbrio nos balanços tendem a expurgar ou onerar quem é mais caro e com maior risco no sistema. É a lógica do mercado.

Entendo que é inadequado afirmar-se que a solidariedade está mantida no Plano de Associados ao alterar a condição atual do Estatuto Social da Cassi para o modelo de custeio de cobrança por dependentes. Mas como disse acima, a questão da solidariedade não é só uma questão específica e corporativa do Plano de Associados dos trabalhadores do Banco do Brasil. Durante os anos em que estivemos na gestão e defendemos a solidariedade criamos uma onda solidária e mesmo quem era contrário na essência, defendia conosco o modelo.

A solidariedade perdeu terreno, perdeu espaço na comunidade Banco do Brasil e na sociedade brasileira. Perdeu espaço no mundo. Nós que defendemos a solidariedade, a solidariedade entre os seres humanos, a solidariedade de classe, perdemos nesse momento da história. Perdemos.

A solidariedade perdeu quando 57.797.847 brasileiros e brasileiras votaram num candidato que pregou abertamente e por décadas o ódio, a tortura, a violência, a discriminação contra pessoas por origem, cor, raça, orientação sexual, crença, classe social. Um candidato que hoje como presidente governa para o topo da pirâmide, para os bilionários e diariamente age para prejudicar os direitos dos mais pobres. Que destrói patrimônio público e empresas públicas, fundamentais para distribuir riqueza e fornecer cidadania para o povo.

A solidariedade perdeu quando nas eleições Cassi em 2018 as diversas lideranças e correntes políticas do campo progressista e popular, mais à esquerda, decidiram lançar diversas chapas para concorrer em um cenário político que já se mostrava adverso para a classe trabalhadora em geral e para o funcionalismo das empresas públicas e do Banco do Brasil, categoria com diversos direitos específicos como jornada de 6h, PLR negociada, Convenção Coletiva e concurso público; o país vivia sob golpe de Estado desde 2016, os direitos da classe trabalhadora já vinham sendo destruídos de forma acelerada.

A solidariedade perdeu nas eleições Cassi em 2018, mesmo na época tendo maioria de votos. Nós havíamos contribuído durante o mandato para tirar de pauta temas como quebra de solidariedade, questionamentos sobre o modelo assistencial ESF, a importância das CliniCassi e os custos administrativos, dentre outros temas que o patrocinador sempre pautou de forma ideológica. Fortalecemos também a participação social na Cassi, questão que também incomoda os patrões e capitalistas.

A "defesa" da solidariedade estava presente nas propostas das três chapas compostas por integrantes de grupos e correntes mais progressistas e mais à esquerda. Chapas com propostas semelhantes e para disputar o mesmo público eleitor na base. Mas a minoria que defendia "flexibilizar" a solidariedade ganhou com a maioria dos votos no pleito de Cassi. Pela solidariedade foram 58.603 votos; pela flexibilização, uma outra visão sobre a Cassi: 36.942.

A solidariedade perdeu cada vez que o movimento sindical foi se dividindo, dividindo, dividindo. Central sindical que virou várias centrais. Correntes políticas que viraram mais correntes políticas. As divisões seguidas vão transformando instituições e programas políticos em grupos de joões e marias. Líderes com quantidades de "garrafas" a votarem com eles, como dizem no movimento. Enquanto isso, as discussões políticas e coletivas foram ficando em segundo plano. Não há solidariedade que sobreviva a isso.

E com as várias derrotas da solidariedade humana e de classe, chegamos no momento em que estamos hoje. Com a corda no pescoço. Com raiva de tudo e de todos. E sós. Estamos muito sós, porque pertencer a grupos de marias e de joões não tem a mesma força que pertencer a projetos coletivos, políticos e ideológicos para a classe trabalhadora.

Meu voto e o que espero

"É preferível errar com o coletivo do que acertar sozinho" (um princípio básico da esquerda, ou melhor, do movimento sindical e partidário)


A questão de votar "Sim" ou "Não" neste momento de nossas vidas, neste contexto político, econômico e social em que nos encontramos, é uma "Escolha de Sofia".

Estamos vivendo um regime de exceção, não estamos num estado democrático de direito. O país foi tomado por grupos de direita e autoritários, máfias e milícias e o Estado nacional está sendo rapidamente destruído. As instituições políticas estão fragilizadas: poderes legislativos, executivos e judiciários estão em frangalhos.

Votar "Sim" à proposta traz as consequências que descrevi acima. A Cassi deixa de ser solidária, não será mais para todos, ou seja, será privilégio de parte da comunidade BB e pode voltar a ter problemas de desequilíbrio financeiro em breve. A entidade ganha um fôlego de uns dois a três anos. É o que esperam os defensores dela.

Votar "Não" não equivale a evitar consequências semelhantes à que descrevi acima no que diz respeito à quebra da solidariedade, por exemplo, porque algo vai acontecer no plano material para que a instituição seja viável em seu funcionamento. Isso se o regime de exceção em vigor não liquidar de forma burocrática a Cassi e o patrocinador, o banco público BB. O novo regime político sabe que não há mobilização e correlação de forças prontas para a resistência.

Com a corda no pescoço e o fim dos prazos dados pela ANS, a direção da Cassi pode optar por reduzir coberturas e direitos que entenda serem excedentes à legislação, reduzir a qualidade da rede credenciada, pode-se alterar a essência do que é o Sistema de Saúde Cassi como descrevi rapidamente neste texto, pode-se onerar mais ainda aos associados através de cobranças que a legislação permita ou não proíba etc. Sempre tem espaço para se fazer maldades contra usuários de sistemas de saúde. Sempre!

Conversei durante os últimos meses com todas as forças e lideranças políticas que estão envolvidas no processo de solução para o Plano de Associados da Cassi. Com entidades sindicais e representativas, com lideranças à esquerda, ao centro e à direita do espectro político, inclusive com gestores que estão na direção da entidade neste momento. Dei minhas opiniões sinceras e honestas a eles sobre o que penso.

Com os amigos e companheiros que defendem o "Não" falei de dúvidas que tenho a respeito de algumas teses como, por exemplo, a do conceito de Benefício Definido em relação ao Plano de Associados e algumas apostas em defesas de direitos baseadas em disputas judiciais. Com os amigos e companheiros que defendem o "Sim" falei sobre o meu desagrado em afirmarem que a proposta não quebra a solidariedade e que o voto de minerva não afeta nossos direitos na gestão e, consequentemente, nossos direitos de associados.

A luta por manutenção e ampliação de direitos na história da classe trabalhadora é sempre a melhor alternativa. Nada vem de mão beijada na luta de classes. Por diversas questões que não cabe escrever aqui, tenho leitura que não há correlação de forças neste momento no cenário político, econômico e social para fazer um enfrentamento às forças que tomaram o poder e que têm poder de decisão contra nós da comunidade BB.

Quando escrevi uma contribuição aos debates de solução para a Cassi, na véspera do 30º Congresso Nacional dos Funcionários do Banco do Brasil (ler aqui), não o fiz para marcar posição, como se diz na política. A minha formação não me permite isso. Desde 2003, quando passei a ter mandatos de representação, aprendi que para contestar e negar uma proposta é necessário apresentar a contraproposta e ela deve ser exequível nas negociações coletivas. 

Parte do movimento sindical entendeu que minha sugestão não era viável, sequer deveria ser discutida. Paciência! Só acho muito chato terem feito interpretações equivocadas do que sugeri. Alguns companheiros chegaram a dizer que eu estava propondo assumirmos sozinhos a diferença do que o Banco contribui 4,5% e o que a Cassi necessitaria (14%). Eu não propus isso. Até porque sempre disse que a Cassi poderia se equilibrar com bem menos que isso, talvez uns 11% das folhas da ativa e aposentados. Sempre acreditei na força e capilaridade do movimento sindical. Disse que se quisermos falar com 100 mil bancários no país, de forma coesa e com uma proposta ousada de luta, é possível construirmos maioria na base. Afinal de contas, há uma centena de sindicatos em todo o país.

Em relação ao que propus, basta ler a contribuição. Disse que tínhamos que resgatar a Cassi pela importância dela, que poderíamos fazer contribuições maiores que os atuais 3%+1%, de forma temporária e extraordinária. Sugeri 7% e por 5 anos e sem mexer no modelo de custeio solidário e intergeracional. Sugeri na proposta lutar para que o patrocinador mantivesse a injeção de recursos que ele havia apartado em seu orçamento e proposto em maio (mais de 500 milhões). Sugeri metas de ampliação da ESF para chegarmos a 100% de cobertura do Plano de Associados. Nos bastidores, expliquei inclusive as estratégias para tirar o Banco do conforto de só negar qualquer proposta. Se tivéssemos maioria em uma proposta de colocar recursos na Cassi, poderíamos questionar ANS e patrocinador, sem aceitar deformar todo o Estatuto.

Enfim, eu estou cansado de escrever e se alguém chegou até aqui, também já encheu de ler. Não há soluções de fácil encaminhamento prático como é de conhecimento de todos. As discussões e soluções sobre nossa autogestão em saúde são discussões que precisam de maiorias qualificadas, 2/3 dos associados. Não se consegue isso com divisões e divisões como temos vivido no movimento sindical e associativo da comunidade BB. Não serão grupos sem capilaridade nacional que obterão maioria qualificada para alguma das teses colocadas.

Entendo que perdemos parte importante de nossas conquistas em direitos de saúde consubstanciados no Plano de Associados da Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil. Isso foi acontecendo conforme fomos perdendo a solidariedade entre nós. Que fazer, então? 

Eu vou optar por seguir a orientação das principais e maiores entidades sindicais do país, reunidas no Comando Nacional dos Bancários, entidades de luta dos trabalhadores bancários brasileiros e votar "Sim". Entendo que é obrigação formal e política dessas entidades nos representar, organizar e defender todos os direitos de classe, da classe trabalhadora, em nossa vida laboral e quando nos aposentamos.

Não sei se seguir essa orientação é a melhor decisão a tomar, mas sei que me sinto só e nesse momento gostaria que as nossas entidades de classe fizessem tudo o que está ao alcance delas pela nossa Caixa de Assistência, pela categoria bancária e pela classe trabalhadora brasileira.

William Mendes
Associado Cassi e Previ
Cidadão sindicalizado

Post Scriptum:

- Quando penso a autogestão Cassi que conheci por dentro como gestor, penso nos mais de dois mil trabalhadores que lá estão, as quase 150 equipes de família, profissionais de saúde e de outras áreas distribuídos por esse país continental. Mesmo tendo perdido a batalha pela solidariedade entre os próprios associados, penso que vale a pena preservar o emprego dessa pessoas ao evitar um risco imediato de liquidação da entidade, que independente das disputas políticas por poder da gestão e do custeio entre banco/governo e associados, acolhem e salvam a vida de milhares de pessoas diariamente. Respeito muito esses profissionais da Cassi, são um verdadeiro patrimônio da entidade.

Post Scriptum II:

Registro aqui o resultado da consulta ao corpo social que avaliou a proposta de mudanças estatutárias da Cassi, tema abordado neste artigo. A fonte é a revista da Afabb SP nº 164, de Janeiro/Fevereiro de 2020, página 17. Reproduzo o texto:

CD homologa resultado

O Conselho Deliberativo (CD) da CASSI homologou, em 29 de novembro, o resultado da consulta ao corpo social que aprovou a mudança estatutária da entidade.

A consulta ocorreu de 18 a 28 de novembro e dos 167.557 associados habilitados, 124.267 (74,16%) votaram. Foram 81.982 (65,97%) pelo Sim e 39.608 (31,87%) no Não, com 1.161 (0,93%) brancos e 1.516 (1,22%) nulos. Segundo a CASSI, considerando apenas votos válidos, a proposta foi aprovada com 67,42% dos votos.

Por haver questionamentos sobre se o quórum foi de fato atingido, a CASSI disponibilizou em seu site (www.cassi.com.br), nota onde destaca: "... a CASSI esclarece que a consulta ao corpo social aprovou a proposta de recuperação com 81.982 votos 'sim', atingindo o quórum de 2/3 dos votos favoráveis exigidos pelo estatuto vigente."

A proposta apreciada pelo funcionalismo, da ativa e aposentados, foi negociada pelas entidades representativas - Contraf-CUT, ANABB, AAFBB, FAABB - e diretoria do BB, diretores e conselheiros eleitos e indicados da CASSI.

EM TEMPO - A Contec enviou, em 29 de novembro, ofícios ao banco, à presidência e ao Conselho Deliberativo da CASSI, solicitando a impugnação do resultado da consulta.