terça-feira, 13 de outubro de 2026

Lendo sobre a retórica do ódio (1)



Refeição Cultural

"Eis a hipótese de meu trabalho: a guerra cultural bolsonarista, que se beneficia de uma técnica discursiva, a retórica do ódio, ensinada nas últimas décadas por Olavo de Carvalho, conduzirá o país ao caos social, à paralisia da administração pública e ao déficit cognitivo definidor do analfabetismo ideológico, outro conceito novo que apresento, e com o qual descrevo a negação da realidade e o desprezo pela ciência que estruturam o bolsonarismo." (CASTRO ROCHA, p. 23)


O professor João Cezar de Castro Rocha é um intelectual de mão cheia, um pesquisador que vem dedicando sua vida aos estudos dos grandes autores da literatura universal como, por exemplo, Machado de Assis e William Shakespeare, e também se dedica às causas populares, qualidade excepcional em um intelectual.

Ao se dedicar ao estudo da linguagem utilizada pela extrema-direita e as técnicas de manipulação de massas e colocar à nossa disposição os resultados de suas pesquisas, Castro Rocha presta um grande serviço de utilidade pública, é uma contribuição fundamental para entendermos e combatermos a destruição do mundo e das sociedades humanas por essa gente extremista de direita.

Victor Klemperer, filólogo alemão, estudou a Linguagem do Terceiro Reich (LTI), durante os doze anos do nazismo na Alemanha (1933-1945) e nos legou o livro com seus conhecimentos sobre as técnicas de manipulação de massas que levou o mundo à 2ª Guerra Mundial. Ler comentário sobre o livro aqui.

O professor Joao Cezar nos explica como se dá a "instrumentalização do ressentimento", uma das bases da técnica da retórica do ódio, e propõe uma "ética do diálogo" para enfrentar essa manipulação dos afetos das pessoas.

O desafio é grande, pois o bolsonarismo e outros grupos extremistas atuam com desinformação em massa com o objetivo de criar um caos cognitivo nas pessoas, é como uma lavagem cerebral mesmo, aquele desejo antigo dos donos do poder de dominar a mente das pessoas.

O autor nos fala de um "caráter agônico" no processo da retórica do ódio que vem com um impulso de eliminar o adversário. É algo pesado o que estamos enfrentando na disputa de hegemonia das ideias no mundo.

Me chamaram a atenção muitas informações trabalhadas pelo professor João Cezar na "Apresentação", "Introdução" e no "Capítulo um' do livro Guerra Cultural e Retórica do ódio - Crônica de um Brasil pós-político (2021). 

Uma delas foi o tamanho da influência de Olavo de Carvalho no processo de organização de uma direita brasileira dispersa e ou escondida desde o fim da ditadura de maneira formal, após 1985. 

Outra informação: 

"(...) Por fim, no Brasil, uma fissura geracional, nem sempre observada com atenção, originou um fenômeno novo: a emergência de uma expressiva juventude de direita, ágil no uso das redes sociais e hábil nas disputas das ruas - território tradicionalmente ocupado pela esquerda." (p. 27)

O primeiro capítulo é impressionante: "A ascensão da direita e o sistema de crenças Olavo de Carvalho". Vejam, é um "sistema" que organiza as crenças dessa multidão de gente aculturada na desinformação e na crença de coisas as mais estapafúrdias possíveis.

O objetivo de estudo do autor é um desafio à sanidade de qualquer pessoa. Ele leu a obra de Olavo de Carvalho, publicada em livros e redes digitais desde os anos noventa. Imaginem isso!

"Meu propósito é modesto, quase um sintoma das monomanias diagnosticadas pelo Dr. Simão Bacamarte, personagem de O alienista, de Machado de Assis. Almejo caracterizar a mentalidade bolsonarista por meio da guerra cultural, isto é, estudarei o resgate da Doutrina de Segurança Nacional, o alinhamento cego à matriz narrativa conspiratória do Orvil, a adesão náufraga ao sistema de crenças Olavo de Carvalho e, por fim, a crítica ruidosa a uma imaginária 'ideologia de gênero' como passaporte para a conquista do eleitorado evangélico e conservador." (p. 37/38)

Oposição aos governos

Antes das eleições do Partido dos Trabalhadores, as ruas eram lugar tradicional das oposições de esquerda aos governos. Após 14 anos no poder, segundo o autor, um novo fenômeno passou a ocorrer, a oposição ao governo passou a ser de direita e ocupar as ruas.

Aí entra o sistema de crenças de Olavo de Carvalho, que já existia desde os anos oitenta. Foi a direita organizada que possibilitou o Bolsonaro e não o inverso.

"(...) O bolsonarismo não possibilitou o triunfo eleitoral da direita, mas, pelo contrário, a ascensão paulatina da direita, articulada desde meados da década de 1980, preparou a vitória do Messias Bolsonaro." (p. 38)

Olavismo: solução violenta dos conflitos

"O resultado dessa técnica, transmitida por Olavo de Carvalho para dezenas, talvez centenas de milhares de pessoas, sobretudo jovens, por meio de cursos online ou simplesmente pelo consumo de uma miríade de vídeos disponíveis na Internet, é o ensurdecimento deliberado em relação a tudo o que não espelhe as próprias convicções, em geral radicais e, por isso mesmo, favoráveis à resolução violenta de conflitos." (p. 44)

Lavagem cerebral

"Eis o conceito-chave, obsessivo mesmo, de toda a obra inteira de Olavo de Carvalho: lavagem cerebral; noção à qual retornarei, e, como sempre, recorrendo às palavras do autor. E, ponto decisivo, em larga escala, vale dizer, um esforço deliberado de manipulação mental coletiva - nada menos do que isso." (p. 94)

COMENTÁRIO FINAL

Leitura muito instrutiva o livro do professor João Cezar, suas pesquisas nos dão subsídios para compreender melhor o fenômeno político e social, diria sociológico, pelo qual passamos nesta quadra da história do Brasil e do mundo.

Sigamos na leitura e na luta para evitar que o bolsonarismo volte ao poder executivo do Brasil, pois talvez não consigamos sair dessa tragédia se o filho do Messias das milícias do Rio chegar ao poder nas eleições dos próximos dias.

É Lula Presidente para defendermos a soberania do Brasil e os direitos do povo brasileiro.

William Mendes

Um comentário:

  1. Maravilhosa reflexão, meu amigo! Sai do Instagram justamente porque senti na pela a tal da bolha que me mostrava nosso Lulinha eleito no primeiro turno. Tenho medo! Esses tempos sombrios que vivemos... Um abraço, saudade de vocês meu amigos!

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