quarta-feira, 17 de junho de 2009

Rotacização do L nos encontros consonantais


Estou relendo o livro de Marcos Bagno - A língua de Eulália, de 1997. A importância dele para mim é muito grande.

Quando entrei na USP em 2001, foi uma das questões que mais me marcaram o fato dos professores de língua portuguesa insistirem para que os alunos perdessem o preconceito linguístico. É como se dissessem a eles: mudem o programa de seu computador-cérebro.

As pessoas não falam errado, ou "não sabem falar". Elas falam variedades de língua.

A questão da língua única no Brasil também é outra balela, é mito.


ROTACISMO

Marcos Bagno nos explica que existe na língua portuguesa uma tendência natural em transformar em R o L dos encontros consonantais.

Quem diz broco em lugar de bloco não é "burro", não fala "errado" nem é "engraçado", mas está apenas acompanhando a natural inclinação rotacizante da língua.

Vejam abaixo como funciona isso através da etimologia das palavras. O que era L em latim permaneceu L em francês e em espanhol, mas em português se transformou em R.


LATIM..... FRANCÊS...... ESPANHOL.... PORTUGUÊS

ecclesia- ....église .........iglesia ...........igreja
Blasiu- .......Blaise .........Blas ..............Brás
plaga- ........plage ..........playa ............praia
sclavu- ......esclave .......sclavo ...........escravo
fluxu- ........flou .............flojo .............frouxo

O português não-padrão também é coerente às tendências da língua.

"Os falantes do português não-padrão só conhecem encontros consonantais com R. Na variedade deles simplesmente não existem encontros consonantais com L", nos diz Bagno.

Para finalizar o tema, vejamos duas frases com a mesma explicação histórica, onde uma achamos "correta" e a outra "ridícula e engraçada":

- "Cráudia fala ingrês e gosta de chicrete"

- "A igreja de São Brás é perto da praia"


E aí, que tal termos menos preconceito linguístico? Basta entendermos que o objetivo da língua é comunicar e que as pessoas se comunicam de acordo com a variedade vigente no meio onde vivem ou de onde vieram.

William

domingo, 14 de junho de 2009

Corrida




Depois de séculos, corri 30' hoje. Estou fora de forma.

Mas a corrida foi boa.

Neste fim de semana assisti a dois filmes muito bons: O Leitor e A Troca. Ambos concorreram ao Oscar e ganharam alguns prêmios.

Poema - Deus tempo


O tempo é Deus.
O demiurgo.
O tempo como um ente... mitológico...
Se ente... consciente.
Então... busca-se nas dobras do tempo,
o passado, o futuro. E o presente?
Já virou passado.

Então o Deus, Deus tempo...
A questão é se autor narrador,
ou ator narrador: primeira pessoa.

Pro meu conceito: é autor distante.
Explico: demiurgo em estilo indireto
livre.
Descreve: passado, futuro. O presente...
não existe. Já virou passado.
Tempo. O Deus tempo.

Stream of consciousness: fluxo de pensamento.
O tempo onisciente. Onipresente.
Estilo irônico: distante.
Não é onipotente: narra, descreve.
Não interfere: observa.

Entretanto, influencia: esquecimento.
Dizem que cura: deixa sequelas.
Talvez por isso eu não o encontre,
o Deus. Ele é o tempo.
E ninguém tem tempo.

O tempo passa. Mas falta tempo.
Uns dizem:
“Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.”


Digo: o tempo é Deus.
Tudo está nas dobras do tempo.
Talvez até o amanhã. (que pode ter sido o ontem)
Às vezes são tão iguais!


É por isso que não acho Deus.
É o tempo:
Eu nunca acho tempo.
O tempo é meu Deus.
É preciso tempo.
Tempo para depurar. Tempo para amar.
Tempo para buscar o tempo:
passado, futuro.
Tempo pro presente.

Quando o tempo passa, o Deus tempo,
não volta mais: passado...
como agora, que não existe mais.


Wmofox 9.12.03

Leitura: Estrela da manhã - Manuel Bandeira, de 1936



Refeição Cultural

Este é outro livro fantástico de Bandeira da fase modernista.

Vejam abaixo alguns poemas que eu diria serem bem duros e realistas, imagens nuas e cruas de uma época (diria até de todas as épocas):

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POEMA DO BECO

Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do 
                         [horizonte?
- O que eu vejo é o beco.

1933

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Outro poema que gostei bastante é:


MOMENTO NUM CAFÉ

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.

Um no entanto se descobriu num gesto largo 
         [e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz 
         [e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.

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TRAGÉDIA BRASILEIRA

Misael, funcionário da Fazenda, com 63 anos de idade.
     Conheceu Maria Elvira na Lapa - prostituta, com sífilis, dermite nos dedos, uma aliança empenhada e os dentes em petição de miséria.
     Misael tirou Maria Elvira da vida, instalou-a num sobrado no Estácio, pagou médico, dentista, manicura... Dava tudo quanto ela queria.
     Quando Maria Elvira se apanhou de boca bonita, arranjou logo um namorado.
     Misael não queria escândalo. Podia dar uma surra, um tiro, uma facada. Não fez nada disso: mudou de casa.
     Viveram três anos assim.
     Toda a vez que Maria Elvira arranjava namorado, Misael mudava de casa.
     Os amantes moraram no Estácio, Rocha, Catete, Rua General Pedra, Olaria, Ramos, Bonsucesso, Vila Isabel, Rua Marquês de Sapucaí, Niterói, Encantado, Rua Clapp, outra vez no Estácio, Todos os Santos, Catumbi, Lavradio, , Boca do Mato, Inválidos...
     Por fim na Rua da Constituição, onde Misael, privado de sentidos e de inteligência, matou-a com seis tiros, e a polícia foi encontrá-la caída em decúbito dorsal, vestida de organdi azul.

1933

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E, por fim, dos poemas "duros" fecho com este:

CONTO CRUEL

A uremia não o deixava dormir. A filha deu uma injeção de sedol.
     - Papai verá que vai dormir.
     O pai aquietou-se e esperou. Dez minutos... Quinze minutos...Vinte minutos... Quem disse que o sono chegava? Então ele implorou chorando:
     - Meu Jesus-Cristinho!
     Mas Jesus-Cristinho nem se incomodou.

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Dos poemas mais leves, gosto bastante do "Trem de ferro", "Rondó dos cavalinhos" e "Os voluntários do Norte" (este dedico ao presidente Luís Inácio Lula da Silva)

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TREM DE FERRO

Café com pão
Café com pão
Café com pão

Virge Maria que foi isso maquinista?

Agora sim
Café com pão
Agora sim
Voa, fumaça
Corre, cerca
Ai seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força

Oô...
Foge, bicho
Foge, povo
Passa ponte
Passa poste
Passa pasto
Passa boi
Passa boiada
Passa galho
De ingazeira
Debruçada
No riacho
Que vontade
De cantar!

Oô...
Quando me prendero
No canaviá
Cada pé de cana
Era um oficiá
Oô...
Menina bonita
Do vestido verde
Me dá tua boca
Pra matá minha sede
Oô...
Vou mimbora vou mimbora
Não gosto daqui
Nasci no sertão
Sou de Ouricuri
Oô...

Vou depressa
Vou correndo
Vou na toda
Que só levo
Pouca gente
Pouca gente
Pouca gente...

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RONDÓ DOS CAVALINHOS

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
Tua beleza, Esmeralda,
Acabou me enlouquecendo.

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
O sol tão claro lá fora,
E em minhalma — anoitecendo!

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
Alfonso Reys partindo,
E tanta gente ficando...

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
A Itália falando grosso,
A Europa se avacalhando...

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
O Brasil politicando,
Nossa! A poesia morrendo...
O sol tão claro lá fora,
O sol tão claro, Esmeralda,
E em minhalma — anoitecendo!

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OS VOLUNTÁRIOS DO NORTE

                     (São os do Norte que vêm!) 
                              Tobias Barreto

Quando o menino de engenho
Chegou exclamando:- “Eu tenho,
Ó Sul, talento também!",
Faria, gesticulando,
Saiu à rua gritando:
- "São os do Norte que vêm!"

Era um tumulto horroroso!
- "Que foi?" indagou Cardoso
Desembarcando de um trem.
E inteirou-se. Senão quando,
Os dois saíram gritando:
- "Ê vêm os do Norte! Ê vêm!…"

Aos dois juntou-se o Vinícius
De Morais, flor dos Vinícius
E Melo Morais também!
- "Que foi?" as gentes falavam…
E os três amigos bradavam:
- "São os do Norte que vêm!"

Nisso aparece em cabelo
O novelista Rebelo,
Que é Dias da Cruz também!
Mais uma voz para o coro!
E foi um tremendo choro:
- "Ê vêm os do Norte! Ê vêm!…"

E o clamor ia engrossando
Num retumbar formidando
Pelas cidades além…
- "Que foi?" as gentes falavam,
E eles pálidos bradavam:
- "São os do Norte que vêm!"

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Um deles, um DA SILVA, na luta feito LULA da Silva, veio e mudou o Brasil pra melhor, como nunca se falou, como nunca se viu!

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Bibliografia;

BANDEIRA, Manuel. Libertinagem & Estrela da manhã. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.

sábado, 13 de junho de 2009

Caminhada com a família


Desenho de Mário Augusto.


É verdade. Hoje caminhei com a família. Andamos uns 5 km.

É lógico que o objetivo não foi o nobre esporte e saúde. Ele ficou como pano de fundo (mas tudo bem).

Saímos a pé para conhecer o tal Shopping União de Osasco. Por sinal, é um absurdo a prefeitura de Osasco concordar em abrir um local público ainda em obras. Lamentável!

Depois fomos até o outro shopping, o Super Shopping Osasco.

Leitura: Libertinagem - Manuel Bandeira, de 1930



Refeição Cultural

Reli hoje o livro de poemas Libertinagem, de Bandeira. Eu o releio vez por outra porque ele é muito bom e é um livro de cabeceira, em se tratando de poesia.

Lembro-me que até entrar na USP, no ano de 2001, eu não lia poesia. Eu não tinha a mínima compreensão a respeito da arte da poesia e achava que perderia tempo com aquilo.

Estou nas leituras modernistas neste feriado. Estou terminando de reler Macunaíma, de Mário de Andrade, escritor-chave da semana de arte moderna de São Paulo.

Dos poemas que mais gosto no livro, posso destacar:


CAMELÔS

Abençoado seja o camelô dos brinquedos de tostão:
O que vende balõezinhos de cor
O macaquinho que trepa no coqueiro
O cachorrinho que bate com o rabo
Os homenzinhos que jogam boxe
A perereca verde que de repente dá um pulo 
           [que engraçado
E as canetinhas-tinteiro que jamais escreverão 
           [coisa alguma.

Alegria das calçadas
Uns falam pelos cotovelos:
- "O cavalheiro chega em casa e diz: Meu filho, vai 
           [buscar um pedaço de banana pra eu acender o 
           [charuto. Naturalmente o menino pensará: 
           [Papai está malu..."

Outros, coitados, têm a língua atada.

Todos porém sabem mexer nos cordéis com o tino 
            [ingênuo de dimiurgos de inutilidades.
E ensinam no tumulto das ruas os mitos heróicos 
            [da meninice...
E dão aos homens que passam preocupados 
            [ou tristes uma lição de infância.


Comentário: décadas depois a imagem do poema é a mesma de hoje!

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O CACTO

Aquele cacto lembrava os gestos desesperados 
            [da estatuária:
Laocoonte constrangido pelas serpentes,
Ugolino e os filhos esfaimados.
Evocava também o seco Nordeste, 
            [carnaubais, caatingas...
Era enorme, mesmo para esta terra 
            [de feracidades excepcionais.

Um dia um tufão furibundo abateu-o pela raiz.
O cacto tombou atravessado na rua,
Quebrou os beirais do casario fronteiro,
Impediu o trânsito de bondes, automóveis, carroças,
Arrebentou os cabos elétricos e durante 
            [vinte e quatro horas privou a cidade 
            [de iluminação e energia:

- Era belo, áspero, intratável.

(Petrópolis, 1925)


Comentário: esse seria o Bandeira da época em uma autoimagem? Belo, áspero, intratável!

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E agora, o maravilhoso poema Poética!


POÉTICA

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto 
          [expediente protocolo e manifestações 
          [de apreço ao Sr. diretor

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar 
          [no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo

Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja 
            [fora de si mesmo

De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário 
            [do amante exemplar com cem modelos 
            [de cartas e as diferentes maneiras de agradar 
            [às mulheres, etc

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

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E agora, vamos ao apaixonante Evocação do Recife!!!

EVOCAÇÃO DO RECIFE

Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritssatd dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois - 
           Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância

A rua da União onde eu brincava de chicote-queimado 
     [e partia as vidraças da casa de dona Aninha Viegas
Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê 
     [na ponta do nariz
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada 
     [com cadeiras, mexericos, namoros, risadas
A gente brincava no meio da rua
Os meninos gritavam:

              Coelho sai!
              Não sai!

A distância as vozes macias das meninas politonavam:

              Roseira dá-me uma rosa
              Craveiro dá-me um botão
              (Dessas rosas muita rosa
              Terá morrido em botão...)

De repente
                    nos longos da noite
                                                      um sino

Uma pessoa grande dizia:
Fogo em Santo Antônio!
Outra contrariava: São José!
Totônio Rodrigues achava sempre que era São José.
Os homens punham o chapéu saíam fumando
E eu tinha raiva de ser menino porque não podia 
       [ir ver o fogo

Rua da União...
Como eram lindos os nomes das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame de Dr. Fulano de Tal)
Atrás de casa ficava a Rua da Saudade...
                            ...onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora...
                            ...onde se ia pescar escondido

Capiberibe
- Capibaribe
Lá longe o sertãozinho de Caxangá
Banheiros de palha
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
                          Foi o meu primeiro alumbramento

Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços 
       [redemoinho sumiu
E nos pegões da ponte do trem de ferro os caboclos 
       [destemidos em jangadas de bananeiras

Novenas
                      Cavalhadas

E eu me deitei no colo da menina e ela começou 
        [a passar a mão nos meus cabelos

Capiberibe
- Capibaribe

Rua da União onde todas as tardes passava 
        [a preta das bananas com o xale vistoso 
        [de pano da Costa
E o vendedor de roletes de cana
O de amendoim
                     que se chamava midubim e não era 
                     [torrado era cozido
Me lembro de todos os pregões:
                       Ovos frescos e baratos
                       Dez ovos por uma pataca
Foi há muito tempo...

A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
                      Ao passo que nós
                      O que fazemos
                      É macaquear
                      A sintaxe lusíada
A vida com uma porção de coisas que eu 
      [não entendia bem
Terras que não sabia onde ficavam

Recife...
               Rua da União...
                                          A casa de meu avô...

Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade

Recife...
                    Meu avô morto.
Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro 
       [como a casa de meu avô.

Rio, 1925

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(Esse poema pode ser a minha oração)

ORAÇÃO NO SACO DE MANGARATIBA

Nossa Senhora me dê paciência
Para estes mares para esta vida!
Me dê paciência para que eu não caia
Pra que eu não pare nesta existência
Tão mal cumprida tão mais comprida
Do que a restinga de Marambaia!...

1926

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(Esse abaixo ofereço ao meu amigo Sérgio Gouveia, de Prudente)

ANDORINHA

Andorinha lá fora está dizendo:
- "Passei o dia à toa, à toa!"

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa...

---

(Este poema Profundamente é de uma profundidade...)

PROFUNDAMENTE

Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?

- Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente

*

Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

- Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.

---

O ÚLTIMO POEMA

Assim eu quereria o meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples 
      [e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem 
      [os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

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É um livro fabuloso. Quanto mais leio, mais sinto prazer em relê-lo. Sempre há um poema que serve para um tema atual. É completamente atemporal!

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Ainda sobre a natureza humana


Refeição Cultural

O mundo pode tanto melhorar quanto piorar, a depender da educação e do envolvimento das massas populares

Minha digestão cultural de hoje diz respeito ao homem e sua natureza destrutiva.

Assisti ao filme A queda - As últimas horas de Hitler, de 2004. Tenho lido também Eric Hobsbawn e seu livro fantástico Era dos extremos, que focaliza o mundo no século XX entre a 1ª Guerra Mundial e a Queda do muro de Berlim.




Minha reflexão em relação ao filme sobre Hitler e o Nazismo, foi pensar naqueles cidadãos alemães após a rendição incondicional no início de maio de 1945.

Por que refletir sobre os alemães e não sobre as vítimas dos nazistas ou da guerra em geral, que dizimou 50 milhões de vidas humanas?

Eu me peguei imaginando a vergonha e a humilhação daquela nação e daquelas pessoas nos dias, meses, anos e anos seguintes ao fim da guerra.

A Alemanha foi novamente fatiada, tutelada e controlada pelos vencedores como ocorreu ao final da 1ª Guerra Mundial.

Tem uma cena no filme onde Joseph Goebbels diz que o povo alemão, ou seja, os civis também, deve perecer junto ao exército, pois os ideais nazistas eram partilhados por ampla maioria da sociedade.

Volto a pensar na situação daquele povo quando o mundo passou a julgá-los por seus crimes de guerra contra judeus, comunistas, homossexuais, eslavos e pessoas com algum grau de deficiência. Estima-se em 10 milhões os mortos nos campos de concentração.

Não deixem de assistir ao filme O leitor, de 2008, vencedor do Oscar de melhor atriz para Kate Winslet.


Lendo sobre o período entre a 1ª e a 2ª Guerra Mundial nas aulas de Hobsbawn, fico conhecendo melhor o passado e observando os dias que correm nesta década primeira do século XXI e vejo semelhanças preocupantes.

Em 2008 estourou novamente uma crise econômica e mundial que tem levado os países a adotarem as mesmas medidas que ocorreram nas décadas de 20/30. Vemos a ascensão dos partidos de direita em diversos países da comunidade europeia. Estamos assistindo à crescente onda contra imigrantes e demais povos que simbolizam a alteridade do terceiro mundo frente ao chamado "primeiro mundo" em crise global.

Fico pensando sobre o que se passa na cabeça do povo italiano ao repetir o mesmo erro hoje (2009) com a eleição e manutenção de apoio àquela "coisa Berlusconi" como diz o escritor José Saramago. Nas primeiras décadas do século XX, ascendeu ao poder Mussolini e os italianos caminham no mesmo sentido nos dias de hoje. Será que não sentirão vergonha disso no futuro? Mas, pode ser tarde...

A eleição de Bush filho nos EUA trouxe uma instabilidade mundial e uma piora das relações internacionais em todo o globo terrestre, além de várias guerras de massacres promovidas pelos republicanos e seus parceiros conservadores e da indústria armamentista. O mundo passou a detestar o povo americano como um todo. Eles se envergonharam disso!?

Eu não sei para onde caminhamos, mas bate um pessimismo grande quando vejo que o homem não muda em relação à sua natureza destrutiva e em sua relação também destrutiva para com o planeta em que vivemos.

Ainda bem que a América Latina tem nos dado esperanças em relação a eleições de governos mais progressistas, mais à esquerda e mais identificados com os povos e com programas que priorizam as políticas sociais.

É fundamental que eduquemos nossos trabalhadores e nossas crianças para não caírem nas lábias das famílias que detêm os poderes econômicos e midiáticos e que continuemos na luta para que os povos participem tanto da vida sindical quanto política de seus países.

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Post Scriptum (7/09/15, à 1:08h):

Reli o texto e o achei bem atual para as crises com os imigrantes na Europa em 2015, para a ascensão fascista no mundo e no Brasil neste momento grave que vivemos.


Post Scriptum (madrugada de 15/5/16, domingo, 1:50h):

Releitura desta reflexão minha feita em 2009. Faz 4 dias que a direita fascista, partidos políticos e políticos canalhas e seres de aluguel, os donos dos meios de comunicação, os empresários, latifundiários e, principalmente, com anuência e silêncio dos órgãos que deveriam proteger a democracia, o Legislativo e o Judiciário brasileiros, afastaram a nossa presidenta Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores, reeleita com 54,5 milhões de votos em outubro de 2014. Afastada sem nenhum crime de responsabilidade ou algo ilegal, sem nada nada. O contrário de todos que a afastaram, ladrões de colarinho branco com acusações e fichas corridas que vão da Terra à Lua.

Estou tão indignado que estou pusilânime em relação a alimentar ilusões de que o golpe parlamentar possa ser revertido nas ruas, como ouço de algumas pessoas do meu campo ideológico. Não houve quebradeira, não houve paralisação do país, não houve invasão de nada pelo povo defendendo o governo e a democracia. 

Quando lembro da situação real do nosso país tomado por ladrões corruptos aparecendo o tempo todo como novos governantes nas teletelas do Grande Irmão Globo e asseclas da grande imprensa, me dá vontade de chorar, de fazer algo pela democracia de meu país. Às vezes, fico pensando em algo que descobri faz anos: que o conhecimento dói. Eu sei que o povo que eu represento, os trabalhadores e gente mais humilde, sei que eles vão se foder, e eles foram manipulados e parte apoiou, silenciou, permitiu, inventou desculpas para deixar o golpe ser aplicado.

Mas ao ler esta reflexão que fiz 7 anos atrás, pensando o povo alemão que apoiou Adolf Hitler e todo o horror do 3º Reich, realmente fico pensando o mesmo em relação à massa de pessoas que me circulam, do meu convívio familiar (não mais de meu convívio), de meu convívio profissional (sou obrigado a conviver com eles), de meu convívio social em geral (que faço, vou embora de meu país?), enfim, estou nessas poucas horas ainda pós golpe pensando a respeito de como trato essa imensa parcela que apoiou novo golpe no Brasil, após termos gasto mais de duas décadas para livrar o país do golpe anterior em 1964.

Estou ainda meio que... por sorte, entre a noite do golpe (12/5/16) e a manhã deste sábado (14/5) tudo que fiz foi trabalhar de forma ininterrupta, quase que nem dormi. Aí não sobrou tempo sequer para pensar e lembrar que já vivia num país em regime de exceção. Estou destruído por dentro. 

E pior, quando a segunda-feira chegar, vestirei meu contrato social e sairei de casa para cumprir fielmente minha missão, meus compromissos assumidos com os trabalhadores que votaram em mim e depositaram sua confiança em meu trabalho na entidade de saúde que atuo. Só tenho o curto tempo do fim de semana para o lamento como cidadão, como ser humano, que é gente, que sofre e ri (nem tanto), adoece, tem emoções...

É isso!

William

O Leitor Crítico - João Alexandre Barbosa


Apresentação

Como aluno de Letras da Universidade de São Paulo tive acesso aos melhores professores e estudiosos da área e, consequentemente, às suas obras como mestres e escritores.

Lembro-me dos comentários do professor de matemática Paulo Cesar - o PC -, em meu curso de Ciências Contábeis na FITO - Osasco, que dizia que estudar na USP era ter acesso a bons professores e boas bibliografias e referências. Depois que entrei na FFLCH percebi o que ele queria dizer.

Até hoje guardo as toneladas de textos xerocados sobre críticas, capítulos de livros e demais documentos basilares para se conhecer sobre as letras e as literaturas mundiais.

Como muitos deles não existem na internet, vou disponibilizar alguns textos aqui neste blog de cultura. A maior parte é somente sobre trechos de livros ou pequenos excertos, de maneira que penso não estar fazendo nada além de contribuir para o conhecimento de todos os interessados.

Este texto do professor João Alexandre Barbosa é para mim o número 1. As partes sublinhadas são minhas marcações.


O LEITOR CRÍTICO


João Alexandre Barbosa
Pró-Reitor de Cultura e Extensão Universitária

(Trabalho apresentado no Simpósio Usos da leitura, ECA/USP/EDUSP, 1991)

Vou começar por um aparente paradoxo: ao leitor crítico deveria se opor ao leitor ingênuo; no entanto, não existe o leitor crítico sem o leitor ingênuo, quer dizer, aquele para quem a leitura da obra literária tem o seu início num movimento de simpatia e de empatia para com o que está lendo.

O paradoxo se desfaz se esta categoria de leitor crítico for pensada como um aperfeiçoamento de algumas qualidades que já se encontram no leitor ingênuo: sensibilidade, curiosidade, paciência, interesse pela leitura como fonte de prazer e mecanismo de acesso ao conhecimento.

Assim como Paul Valéry costumava dizer que há sempre um crítico dentro de todo verdadeiro poeta, é possível dizer que existe sempre um leitor ingênuo dentro de todo leitor crítico. Sem o que, desaparecem da leitura aqueles elementos de tensão e de sobressaltos que permitem as descobertas, as relações insuspeitadas, enfim, o conhecimento do novo.

Neste sentido, a leitura crítica não é aquela que despreza ou recusa o que constitui o fundamento de toda leitura - e que se tende a identificar com a leitura ingênua -, mas que está, por assim dizer, "condenada" a estabelecer relações, discriminar valores e, sobretudo, justificar tudo isso a partir daquilo que, já em 1948, um crítico norte-americano, Stanley Edgar Hyman, chamava de "visão armada", isto é, um conjunto de conhecimentos específicos na área de saber em que se exerce a leitura crítica.

Por que "condenada"? Porque a passagem do ingênuo ao crítico se faz precisamente pela necessária explicitação de uma justificativa de leitura.

Vou exemplificar, para o caso da poesia, utilizando-me de um pequeno trecho de ensaio do grande crítico canadense, recentemente falecido, Northorp Frye. Diz Frye, em "Yeats and the Language of Symbolism", incluído em Fables of Identity.

"In reading any poem we have to know at least two languages: the language the poet is writing and the language of poetry itself. The former exists in the words the poet uses, the later in the images and the ideas which those words express."

Deixando de lado outros desdobramentos possíveis do texto de Frye, e não são poucos, acho que duas ordens de preocupações devem ser levantadas: em primeiro lugar, chama-se a atenção para o conhecimento da língua em que o poeta escreve o poema, quer dizer, não apenas problemas de compreensão semântica que qualquer dicionário pode resolver, mas aqueles mais difíceis que somente longa experiência com a língua pode detectar.

Em segundo lugar, muito mais importante, trata-se de chamar a atenção para aspectos de historicidade da própria poesia que somente uma larga e longa experiência com a arte pode permitir. Isso significa que o leitor crítico da poesia está "condenado" ao conhecimento de uma tradição da poesia que está além do deciframento da língua em que está escrita.

É essa tradição que é a "linguagem da própria poesia". Uma linguagem que tanto pode significar o modo pelo qual este ou aquele poema passou a significar isto ou aquilo, para o leitor que agora o lê, quanto as relações possíveis entre o poema de agora e aqueles outros poemas com os quais constitui determinada tradição que se traduz, como diz Frye, em imagens e ideias.

A ação do leitor crítico se passa na reconstituição de tais imagens e ideias como movimento necessário de discriminação e de avaliação, e por aí ele explicitamente se justifica.

Daí uma consequência geral e duas resultantes restritas: a consequência geral é que a leitura crítica termina por ser sempre uma crítica da leitura. Isso significa que, no movimento crítico de leitura, o texto a ser lido é configurado a partir de uma existência histórica e concreta entre outros textos, já submetidos a outras leituras. Ler o novo texto, este de agora que se oferece à leitura, é necessariamente ler criticamente as leituras daqueles outros textos com os quais, ou a partir dos quais, o novo texto estabelece as relações indispensáveis para a sua própria existência.

A primeira resultante mais restrita diz respeito, sobretudo, à consideração daquilo que se pode chamar de perenidade das obras porque, de fato, não se trata de identificar a permanência das obras apenas à transmissão de valores reconhecíveis, mas de pensar na perenidade contínua de proliferação de significantes que criam significados em tempos diferentes.

Neste sentido, as obras que permanecem são aquelas que intensificam os intervalos entre significantes e significados, ampliando, por isso mesmo, as possibilidades de significação.

Daí, a segunda resultante, que é também uma consequência: a leitura crítica é sempre uma releitura, mesmo que dirigida a um texto singular que se desvenda pela primeira vez, porque ler significações, nos intervalos entre significantes e significados, é ler no texto de agora outros textos que, com ele suportam aquelas significações.

Chamem-se a estas ideias ou imagens como prefere Frye, ou valores, para ficar no mais geral, é nelas que o leitor crítico encontra-se, às vezes ampliado, com o leitor ingênuo.


quinta-feira, 11 de junho de 2009

Caminhada do feriado




Após uma boa leitura pela manhã, fui a pé até o Shopping Continental para almoçar. Comi um belo prato de paella.

Após o almoço, segui com minha caminhada até outro shopping, na verdade até a Cobasi, para comprar alguns apetrechos do aquário, pois meu pangasius segue quebrando tudo com suas peitadas no aquário.

Caminhei cerca de 6 Km. Corrida que é bom... nada!


Leitura: Macunaíma - Mário de Andrade, de 1928



Refeição Cultural

Junho/2009

Macunaíma, o herói sem nenhum caráter


Assisti a um programa dias atrás que me deu vontade de passear pela obra de Mário de Andrade. Já li Macunaíma (em 1999) e o livro de poesia Paulicéia Desvairada (em 2001).


Agora pela manhã, peguei pra reler Macunaíma e posso dizer: - Cara, o livro é fantástico! É ímpar!

Nosso herói sem caráter (e põe mau-caratismo nisso!), vem lá do Mucambo dos Tapanhumas, filho da índia tapanhumas, povo preto retinto.

Como sempre, o que mais gosto em certas obras clássicas é o acúmulo de referências sobre crendices populares, ditos e frases, mitos e lendas.

Aliás, Mário de Andrade pensou mesmo em reunir todo o Brasil nesta rapsódia brasileira.

"Espinho que pinica, de pequeno já traz ponta." p.13

"Sofará aguentou a sova sem falar um isto!" p.14 (essa sempre ouvi minhas tias e avós falando: e a referência não é nada legal - violência)

Em 1928, Mário já falava do nosso bem conhecido açaí (na moda hoje em dia): "todas as manhãs passava coquinho de açaí nos beiços que ficavam totalmente roxos (Iriqui)." p.17

"no capoeirão chamado Cafundó do Judas." p.19 (essa já é da minha época)

Como Macunaíma fazia malandragem de gente grande ainda menino, a cotia pegou na gameleira e jogou caldo de aipim envenenado nele. Pegou no corpo inteiro, menos na cabeça. Ficou então com corpo de homem e cabeça "com carinha enjoativa de piá." p.21

"-Mãe, sonhei que caiu meu dente.
-Isso é morte de parente..." p.21 (eita! que essa é famosa!)

Deu uma "sapituca". Cara, meu tio Léo fala isso o tempo todo! "quando o herói voltou da sapituca (desmaio)." p.22

"O pecurrucho tinha cabeça chata e Macunaíma inda a achatava mais batendo nela todos os dias e falando pro guri:
-Meu filho, cresce depressa pra você ir pra São Paulo ganhar muito dinheiro." p.28

"Macunaíma foi visitar o túmulo do filho viu que nascera do corpo uma plantinha 
(...) Foi o guaraná. Com as frutinhas piladas dessa planta é que a gente cura muita doença e se refresca durante os calorões de Vei, a Sol." p.29

"-Que é isso!
-Chouriço!
" p.32

Macunaíma rezava pro Negrinho do Pastoreio diariamente. p.36

"Lá em São Paulo, a cidade macota lambida pelo igarapé Tietê." p.37

Cresci ouvindo esta da verruga no dedo se apontar pras estrelas: "matutava matutava roendo os dedos agora cobertos de berrugas de tanto apontarem Ci estrela." p.39

NO MATO, A NATUREZA; NA CIDADE, AS MÁQUINAS.

"Eram máquinas e tudo na cidade era só máquina!" p.42

"A Máquina era que matava os homens porém os homens é que mandavam na Máquina..." p.43

"Os homens é que eram máquinas e as máquinas é que eram homens." p.43

Os irmãos tapanhumas inventaram as 3 pragas brasileiras: o bicho-do-café, a lagarta-rosada e o futebol. (quer saber como? leia o livro: p. 49-50)

Macunaíma estava cheio de bosta de urubu e a estrela disse pra ele: "-Vá tomar banho! ela fez. E foi-se embora. Assim nasceu a expressão 'Vá tomar banho!' que os brasileiros empregam se referindo a certos imigrantes europeus." p.65

"-POUCA SAÚDE E MUITA SAÚVA, OS MALES DO BRASIL SÃO!" p.68

O capítulo IX. "Carta pras icamiabas" é muito especial. Macunaíma descreve para as amazonas o que é a terra São Paulo e os paulistanos. É hilária e muito divertida. Tem que se ler inteiro pra sentir o prazer da leitura. Além disso, é um momento de linguagem escrita, o inverso à da obra, toda de representação da linguagem oral brasileira.

“Macunaíma aproveitava a espera se aperfeiçoando nas duas línguas da terra, o brasileiro falado e o português escrito.” p.83

Aqui, a referência tem tudo a ver com o que defende Marcos Bagno no livro A língua de Eulália, de 1997. O livro desmitifica a ideia errônea de língua única no Brasil e diz haver diversas variedades da língua portuguesa no País, além de dezenas de línguas indígenas, todas brasileiras também.

Depois de pensamentar pensamentar.” p.84

Quem brinca com fogo mija na cama: “Foram pra casa botar pelego por debaixo do lençol porque por terem brincado com fogo aquela noite, na certa que iam mijar na cama.” p.88

As adivinhas:

O que é que é: É comprido roliço e perfurado, entra duro e sai mole, satisfaz o gosto da gente e não é palavra indecente?
- Ah? Isso é indecência sim!
- Bobo! É macarrão!
- Ahn... é mesmo! Engraçado, não?
- Agora o que é que é: Qual o lugar onde as mulheres têm cabelo mais crespinho?
- Oh, que bom! Isso eu sei! É aí!
- Cachorro! É na África, sabe!
- Me mostra, por favor!
- Agora é a última vez. Diga o que é que é:
Mano, vamos fazer
Aquilo que Deus consente:
Ajuntar pêlo com pêlo
Deixar o pelado dentro.
E Macunaíma:
- Ara! Também isso quem não sabe! Mas cá pra nós que ninguém nos ouça, você é bem senvergonha, dona!
- Descobriu. Não é dormir ajuntando os pêlos das pestanas e deixando o olho pelado dentro que você está imaginando?
” p.99

Depois de Macunaíma viajar por toda a geografia do Brasil no capítulo XI, a velha Ceiuci dá três conselhos ao tuiuti que valem ouro:

Neste mundo tem três barras que são a perdição dos homens: barra de rio, barra de ouro e barra de saia, não caia!” p.102

Arranjava um decumê por aí...” p.109

Não me olhe de banda que não sou quitanda, não me olhe de lado que não sou melado!” p.110

De-tarde
De-noite
De-manhã

Carrapato já foi gente que nem nós: é que vendeu fiado e depois quebrou e agora se agarra cobrando as contas. p.121

No capítulo XIV "Muiraquitã", Macunaíma descreve a origem do automóvel: rixa entre onça parda e tigre, e na fuga da onça ela vai virando automóvel.

- Era uma vez uma vaca amarela, quem falar primeiro come a bosta dela!” p.133

O GRANDE AMOR DE MACUNAÍMA

Então pensou muito sério na dona da muiraquitã, na briguenta, na diaba gostosa que batera tanto nele, Ci, Ah! Ci, Mãe do Mato, marvada que tornara-se inesquecível porque fizera ele dormir na rede tecida com os cabelos dela!...” p.133

Oi que Sol de inverno chuva de verão choro de mulher palavra de ladrão, eieiei... ninguém não caia não!” p.140

PAPAGAIO COME E PERIQUITO LEVA FAMA!

Então todos os papagaios foram comer milho na terra dos ingleses. Porém primeiro viraram periquitos porque assim, comiam e os periquitos levavam a fama” p.151

A aventura de nosso herói termina quando ele se enche desta terra e decide ir pro céu. Hoje ele é a Constelação Ursa Maior (não é o saci, não!, que ainda tá por aí). Quem contou a história de nosso herói foi um papagaio - aruaí - que sobrou lá nas terras dos índios tapanhumas, no beira-rio do Uraricoera.

COMO DIZ Manuel Bandeira: "Tão Brasil!"

William

Lendo e estudando em casa...



A cena é esta:

Eu, na frente do computador, em casa, com a latinha de cerveja do lado, ouvindo o CD do Eddie Vedder, trilha do filme Na natureza selvagem, com meu filho dormindo ao lado (ele quem pôs o CD), à 1 hora da manhã.

Estava digitando e estudando história com o livro Era dos extremos, de Hobsbawm. Livro fantástico, por sinal.

Amanhã é feriado.

Agora é banhar-me e dormir.

Lendo Hobsbawm - Era dos Extremos



Refeição Cultural

A REVOLUÇÃO MUNDIAL

A Revolução Russa se deu no chamado outubro vermelho - que na verdade era o novembro vermelho, pois outubro era pelo Calendário Juliano, enquanto o mundo ocidental seguia o Calendário Gregoriano.

"A onda radicalizada de seus seguidores inevitavelmente empurrou os bolcheviques para a tomada do poder. Na verdade, quando chegou a hora, mais que tomado, o poder foi colhido. Diz-se que mais gente se feriu na filmagem da grande obra de Eisenstein, Outubro (1927), do que durante a tomada de fato do Palácio de Inverno em 7 de novembro de 1917. O Governo Provisória, sem mais ninguém para defendê-lo, simplesmente se esfumou" p.69

Esperava-se que a transformação socialista russa se transformasse em revolução mundial, destruindo totalmente a burguesia russa e europeia.

PAZ PUNITIVA DE BREST-LITOWSK

Hobsbawm diz que o novo regime aguentou firme à paz punitiva imposta pela Alemanha em Brest-Litowsk.

"Os aliados não viram motivo para ser mais generosos com o centro da subversão mundial. Vários exércitos e regimes contra-revolucionários ("brancos") levantaram-se contra os soviéticos, financiados pelos aliados, que enviaram tropas britânicas, francesas, americanas, japonesas, polonesas, sérvias, gregas e romenas para o solo russo" p.70

"As únicas vantagens importantes com que o novo regime contava, enquanto improvisava do nada um Exército Vermelho eventualmente vitorioso, eram a incompetência e divisão das briguentas forças 'brancas' " p.70

TRÊS FATORES QUE FAVORECERAM E MANTIVERAM A REVOLUÇÃO:

-Partido Comunista forte
-Não houve fragmentação da Grande Rússia
-Distribuição das terras ao campesinato

POVOS, ESCUTEM OS SINAIS...

"Uma onda de revolução varreu o globo nos dois anos após Outubro, e as esperanças dos aguerridos bolcheviques não pareceram irrealistas. 'Völker hört die Signale' era o primeiro verso do refrão da 'Internacional' em alemão" p.71

Os aliados incentivaram a criação de diversos Estados-Nação de forma a criar um "cinturão de quarentena contra o vírus vermelho".

INTERESSES DO ESTADO SOVIÉTICO PREVALECEM SOBRE A REVOLUÇÃO MUNDIAL

"No fim, os interesses de Estado da União Soviética prevaleceram sobre os interesses revolucionários mundiais da Internacional Comunista, que Stalin reduziu a um instrumento da política de Estado soviético (...) A revolução mundial pertencia à retórica do passado, e na verdade qualquer revolução só era tolerada se a) não conflitasse com o interesse de Estado soviético; e b) pudesse ser posta sob controle soviético direto" p.78

IDEÓLOGOS ORGÂNICOS E TROTSKISTAS

"Sem o 'novo tipo de partido' de Lenin, cujos 'revolucionários profissionais' eram os quadros, é inconcebível que em pouco mais de trinta anos após Outubro um terço da raça humana se visse vivendo sob regimes comunistas (...) Os partidos comunistas orientados por Moscou perderam líderes por secessão e expurgo, mas até o movimento perder o ânimo após 1956 eles não cindiram, ao contrário dos grupos fragmentários de dissidentes marxistas que seguiram Trótski e os ainda mais fissíparos conventículos 'marxistas-leninistas' do maoísmo pós-1960" p.79

3ª INTERNACIONAL DE STÁLIN e 4ª INTERNACIONAL DE TRÓTSKI

"Poucos desses centros dissidentes contavam muito do ponto de vista político. De longe o mais prestigioso dos hereges, o exilado Leon Trótski - co-líder da Revolução de Outubro e arquiteto do Exército Vermelho - fracassou por completo em seus esforços políticos. Sua 'Quarta Internacional', destinada a competir com a stalinizada Terceira Internacional, foi praticamente invisível. Quando foi assassinado por ordem de Stálin em seu exílio no México, em 1940, a importância política de Trótski era insignificante" p.80

Ainda preciso de mais estudos para diferenciar Leninismo e Trotskismo.


Bibliografia:

HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos - O breve século XX, 1914-1991. Companhia das Letras. Tradução de Marcos Santarrita, 2ª edição, 33ª reimpressão.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Leitura: La Celestina - Fernando de Rojas, 1499




Os clássicos e suas existências


Minha leitura da obra clássica La Celestina foi bastante interessante. E por que digo isso?

Os livros clássicos trazem consigo uma história de leituras. Carregam uma carga de cumplicidade com os leitores de todas as épocas vindouras.

Quando alguém lê Dom Quixote espera encontrar ali aquilo que mais identifica a obra com a popularidade dela. Com a mitologia criada em torno dela.

Sem dúvida, os leitores do século XXI esperam encontrar no Quixote a famosa cena do embate do cavaleiro com os moinhos de vento. Já entram na obra encantados com seu escudeiro Sancho Pança. Têm uma ideia cristalizada do burrinho, do Rocinante e da donzela Dulcineia.

Da mesma forma, ao lermos Hamlet de Shakespeare, esperamos ansiosamente pela famosa cena do sepulcro, onde o jovem angustiado solta a famosa frase "-Ser ou não ser, eis a questão...".

Mal sabem os não leitores da obra que a frase é somente a abertura de uma angustiante reflexão filosófica sobre viver ou não viver, interromper a vida ou seguir vivendo, onde predomina a eterna dúvida cruel de não se saber se há algo além da vida terrena.

Os clássicos carregam séculos e séculos de vivência por mundos e mundos diversos, países e povos distintos, gerações e gerações de leituras e de ideias de leituras, imagens criadas e partilhadas ao longo do tempo de existência sempre crescente da obra.


Os clássicos e suas eternas surpresas nos novos leitores

Apesar da existência objetiva e cronológica de cada clássico, de sua trajetória até o novo leitor, passando por todo o conjunto de leituras já feitas, as grandes obras nunca perdem a sua capacidade de surpreender seus leitores novos.

Seja pelo prazer que a leitura fornece, seja pela surpresa de achar em coisa tão velha assunto ou tema tão atual e presente, seja por qualquer identificação nova no leitor novo.

Uma descoberta sempre agradável, na minha opinião, sobre as obras clássicas é ver que os ditos populares e frases de sabedoria vêm de nossos antepassados mais longínquos.

Eu já havia encontrado várias delas no Quixote, que é de 1605 e 1615.

Descobri na obra La Celestina, maior idade em vários ditos e frases populares. Eles envelheceram mais cem anos. Não tenho dúvida de que vão envelhecer mais, à medida que minhas leituras forem retrocedendo no tempo cronológico da história da literatura mundial.

Disse que minha leitura de La Celestina foi muito interessante porque eu não tinha imagem pré-construída ou conhecimento prévia da história da velha Celestina nem do casal Calixto e Melibeia.


A obra e seu autor

A história da obra traz consigo um dilema que perdurou durante séculos. A dúvida ou mistério da origem autoral. Chegou-se a aceitar a ideia de que até 3 autores distintos pudessem ter composto a obra.

Hoje, já há mais convicção em se dizer que seu autor é Fernando de Rojas. A primeira edição seria de 1499, com reedições e acréscimos em 1501, 1502 e 1514.

Há um livro de Stephen Gilman, La Celestina - Arte y Estructura, de 1956, com reedições e acréscimos até 1982, que traz um estudo profundo sobre o estilo de Fernando de Rojas e de toda a economia da obra La Celestina.

A edição que li e de onde retiro algumas frases e ditos populares é La Celestina – tragicomedia de Calixto y Melibea. Fernando de Rojas, Colección Austral n. 195. Undécima Edición, 1971. Espasa-Calpe, S.A. Madri.


Frases e ditos populares

1 - Diálogo de Semprônio e Celestina: Celestina relembra a importância dela como alcoviteira da região. Melhor que ela só havia sido a mãe de Pármeno - senhora Claudina.

"Su madre y yo, uña y carne. De ella aprendí todo lo mejor que sé de mi oficio"

Veja que legal ler obras do passado. Esta tem 500 anos e a expressão "unha e carne" existe até hoje.


2 - Veja esta frase falando do mal de se falar demais:

"!No se dice en vano que el más empecible miembro del mal hombre o mujer es la lengua!" p.52 (empecible = dañoso)


3 - E os ditos populares é que são muito interessantes e muitos deles são usados até hoje:

"Una alma sola, ni canta ni llora"
"Un solo acto no hace hábito"
"Una golondrina no hace verano"
"Un testigo solo no es entera fe"
"Quien sola una ropa tiene, presto la envejece" (todos na p.74)


4 - Encontrei mais dois ditos populares interessantes: da água que tanto bate até que fura e de Deus ajudar mais aos que têm fé (ou sorte) do que aqueles que cedo madrugam:

"Mucho puede el contínuo trabajo; una contínua gotera horada una piedra" p.79

"Más vale a quien Dios ayuda, que quien mucho madruga" p.79


5 - Eis mais um dito popular antiquíssimo, que temos dois ouvidos e uma só boca, então é calar e ouvir mais:

"Sempronio - Oírte ha nuestro amo; tendremos en él que amansar y en ti que sanar, según estás hinchando de tu mucho murmurar. Por mi amor, hermano, que oigas y calles, que por eso te dió Dios dos oídos y una lengua sola" p.96


6 - Quem tudo quer, nada tem!:

"Ahora que lo veo crecido, no quiere dar nada, por cumplir el refrán de los niños, que dicen: de lo poco, poco; de lo mucho, nada" p.108


7 - "¡Oh bien y gozo mundano, que mientras eres poseído eres menos preciado y jamás te consientes conocer hasta que te perdemos!" p.121

"Que cuando una puerta se cierra, otra suele abrir la fortuna" p.121

As duas frases são bem comuns até hoje e pertencem à sabedoria popular.


Observações finais

Um dos fascínios de se ler os clássicos da literatura mundial, além do próprio prazer da leitura, é nos encontrarmos conosco mesmo, ser humano, pois é fácil ver que nos reinventamos a cada momento, em cada lugar, a cada geração.

Nos reinventamos a partir do hoje e do ontem, numa eterna roda da vida.

Os clássicos têm me mostrado as frases que minha querida avó, recém-falecida, já dizia em seus quase cem anos de vida. Ela as ouvia de seus parentes ascendentes e contemporâneos.

Em momentos e lugares distintos, essas frases foram parar nas obras e/ou saíram das obras para a língua do povo, numa convivência sadia e que faz a língua viva.

O que nos reserva o amanhã senão essa mesma textura de frases de nossos jovens internautas que navegam com frases que variam desde "cair a ficha" (sendo que não existem mais fichas telefônicas) até sua recém-criada linguagem cibernética e "msmnica" ("dps", "fds", "rsrsrs...") e por aí afora?

Sem dúvida, o amanhã nos reserva a língua, a linguagem humana de amanhã.

William Mendes

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(Comentário: passei na matéria com a nota 7,0)

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Post Scriptum: para a leitura das postagens sobre a leitura da obra, é só clicar aqui e ir acessando a seguinte ao final da leitura.


BIBLIOGRAFIA:

ROJAS, Fernando de. La Celestina – tragicomedia de Calixto y Melibea. Colección Austral n. 195. Undécima Edición, 1971. Espasa-Calpe, S.A. Madri.

GILMAN, Stephen. La Celestina: arte y estructura. Taurus Ediciones, S.A. Reimpresión 1982, España.


sábado, 6 de junho de 2009

Caminhada de sábado e comentários de saúde




Hoje foi aniversário de meu tio-padrinho que mora no Rio Pequeno. Após a visita e o almoço, uma bela feijoada, voltei para casa a pé, coisa de 5,5 Km.

Li na revista Contra-Relógio de junho uma matéria falando sobre uma experiência que contesta a eficácia de se tomar muito vitaminas C e E, como antioxidantes. Elas inibiriam a defesa natural do corpo contra os danos oxidativos provenientes da geração de energia pelas células musculares ao metabolizar a glicose.

A ideia é que o corpo já tem uma reação natural para combater o oxigênio que causa danos aos tecidos do corpo.

Como é só um experimento, não convém alterar rotina alguma a respeito, mas é uma questão nova no tema.


Achei interessante os profissionais do esporte e saúde estarem se preocupando mais com o WELLNESS do que com o FITNESS.

É melhor se atentar para a saúde do corpo e aguardar um provável resultado estético que focar a estética em detrimento da saúde.


sexta-feira, 5 de junho de 2009

Crônica - Infância



Refeição Cultural

Infância! Aquele foi um bom tempo. As lembranças são flashs de coisas boas que ficaram. Até os dias de enchente eram legais.

Aquele barquinho azul que vinha boiando naquela água suja e marrom da enxurrada. Ele estava na sala, com água pela cintura, olhando pela janelinha da porta da sala daquele sobrado no bairro Rio Pequeno, quando viu o barquinho. Nas devidas proporções, o barco vinha naquele oceano só, abandonado, vindo não se sabia de onde, à procura de um porto (todo brinquedo precisa de uma criança e vice-versa). Ah! O menino ficou louco, começou a gritar dentro de casa que queria aquele barquinho. Tanto gritou, que seu pai saiu à rua e o pegou. Foi uma alegria só.

Quantos anos de enchente! Os adultos choram, as crianças se divertem.

Quando seu pai saía para trabalhar depois do almoço naquele Fuscão 1600 ou depois no Chevette laranja, ele estava lá na rua da esquina, ora jogando bolinha de gude, ora jogando bola com "golzinhos" ou rodando peão. Papai buzinava para ele que corria na hora para pedir cinco centavos, ou para comprar geladinho (suco de fruta congelado em um saquinho plástico comprido que se passava por sorvete) na rua de trás ou para tomar guaraná ou Crush (refrigerante de laranja da época) lá na Avenida do Rio Pequeno.

Lembranças, lembranças!

Ele sempre afirmava que a melhor fase da sua vida foi até os 10 anos de idade: “Aos 10, fui feliz...”.

Na verdade, ele, mais ou menos, dividia sua vida em infância sadia até os 10 em São Paulo, Capital; adolescência, conturbadíssima até os 17 em Uberlândia, Minas Gerais; segunda adolescência, sofrida, mas dividida entre momentos de tristeza e felicidade em São Paulo; e fase adulta, que ele considerava estar vivendo na época (após sua separação e nascimento de seu filho).

(Cabe aqui um poema feito na passagem dos 30 anos de idade):

POEMA 1

Aos 10, fui feliz.
Aos 15, quis me matar.
Aos 17, parti.
Aos 20, enamorei.
Aos 25, enfureci.
Aos 26, me separei.
Aos 27, fui pai.
Aos 28, viajei, fui feliz.
Aos 30 estou só,
e só.

Wmofox, abril de 1999

Sua vida experimentou momentos tão distintos que ele tinha o desejo muito grande de deixar isso escrito, pelo menos para seu filho, pois ele acreditava na tese de que as pessoas podiam aprender com os erros dos outros e evitar alguns dissabores na vida e ganhar tempo na caminhada rumo a um fim digno.

Apesar de todos os erros que cometeu ao longo de sua vida, ele acreditava que o caráter e honestidade que tinha haviam sido adquiridos na sua infância. A maneira como sua mãe o educara, com amor e ao mesmo tempo com severidade, pois ela não pensava duas vezes antes de colocá-lo de castigo quando fazia coisa errada, isso foi crucial para o que ele era na época. E também foi o freio, o cabresto, que o impediu de estragar sua vida nos momentos negros por que passou.

Engraçado que quando ele tinha entre 6 e 10 anos de idade e fazia coisa errada, implorava para que sua mãe lhe batesse. É verdade! Ele ficava indignado por ver seus amiguinhos apanharem e logo em seguida estarem liberados para brincar novamente. Aquilo para ele era o fim.

Um dia estava na rua empinando pipa, já de tardezinha, quando o seu enroscou no fio bem em frente de sua casa. O fio estava descascado e ia direto para uma caixa de força no poste. “Pra que!”. Ele tanto puxou a linha tentando tirar a pipa do fio que de repente os fios se encostaram e começou a sair fogo para todos os lados. Na hora ele se jogou embaixo de um carro parado junto ao meio-fio. Sei que o saldo final da brincadeira foi que acabou a energia da rua inteira e sua mãe, assim como os outros vizinhos, saiu para ver o que havia ocorrido e lá estava ele, com a cara mais sem-graça do mundo. Resultado: Ficou de castigo dentro de casa, enquanto seus colegas voltaram a soltar pipa.

Também pregou muitos sustos em seus pais.

Só ensanguentado chegou umas quatro ou cinco vezes em casa. Teve 3 cortes na cabeça. Todos antes dos 10 anos. Uma latada, uma dentada e uma pedrada. Vamos a eles:

Um dia estava na frente da casa do vizinho, segunda casa à esquerda, depois da casa do Robson e antes da casa do Nenê (Wellington). Estava brincando com um menininho bem menor que ele. O menino estava na janela de cima do sobrado e ele na garagem. O menino com uma lata de óleo com linha amarrada a uma pedra e jogando a pedra lá embaixo, enquanto ele tentava pegar a pedra que fazia as-vezes de um pêndulo. Então, assim que ele conseguiu pegar a pedra, puxou-a com tanta força que o menino não conseguiu segurar a lata. Cara! que latada que ele levou bem no coco. Na hora ele só abaixou e pôs a mão na cabeça. Abaixou porque sua mãe estava na garagem ao lado. Quando ele tirou a mão da cabeça e a viu toda ensanguentada, começou a chorar. Aí sim correu para chamar sua mãe. Nesse dia levou dois pontos.

Outro dia, jogava bola na mesma esquina já citada, pois sempre brincava ali. Toda a molecada estava na parede da casa da esquina e havia um murinho baixo que separava a casa da calçada. Um menino ficava na rua jogando a bola na parede para cair dentro do corredor enquanto todos os moleques se espremiam e se jogavam em cima da bola para ver quem a pegava. De repente, ele pula em cima da bola e sente uma fincada bem atrás da cabeça. Era um dos meninos que havia caído com a boca aberta e acertado uma dentada nele. Como da outra vez, mão na cabeça, aquela dor e quando olha a mão, sangue. Corre de novo para sua heroína mãe com a cabeça escorrendo sangue. Dessa vez não houve pontos.

Terceiro episódio envolvendo cabeça e sangue. Estava no campinho soltando pipa com a turma. Naquela época, havia uma certa rivalidade entre os meninos do lado dele e do outro lado do rio (um córrego também chamado de Córrego Rio Pequeno que separava o Morro Branco do Jardim Ivana). Quando o vento estava para o lado deles, eles pegavam as pipas dos garotos do Morro Branco. E quando estava para o outro lado, eles dançavam, pois todas as pipas que vinham lá de cima da Avenida do Rio Pequeno, iam direto para o lado dos outros. Acontece que, quando o córrego estava muito baixo, mesmo sendo a água de esgoto, os moleques do lado de lá se atreviam a vir para o lado deles. Certo dia, começaram uma guerrinha de pedras contra eles. Meu! De repente os caras atravessaram o rio e vieram atrás da turma dele. Não é preciso nem dizer que os moleques do morro branco estavam em maior número. Foi pedrada para todo lado. No meio daquela chuva de pedra, ele começou a correr com as mãos protegendo a cabeça. Mas eis que uma pedra acertou sua cabeça, bem entre as mãos. Dor, sangue, lágrimas, corrida para debaixo da saia da sua mãe.

Quase se conclui sobre a famosa máxima popular de que ser mãe é padecer no paraíso...

Foram tempos de uma infância muito feliz... até que eles foram embora pra Minas, mas isso já é outra história.

DESCOBERTAS:

Reli o livro Libertinagem, de Manuel Bandeira, em 13.6.09, e no texto da Cronologia, tem uma referência sobre a infância de Bandeira que coincide com a minha infância. Fiquei encantado com a descoberta!

"Escreveu o poeta sobre esse período de sua infância (dos 6 aos 10 anos): 'Quando comparo esses quatro anos de minha meninice a quaisquer outros de minha vida de adulto, fico espantado do vazio destes últimos em cotejo com a densidade daquela quadra distante.' (itinerário de Pasárgada)"