domingo, 16 de setembro de 2012

Poema - Gritar, não posso! Gritou o rock na cabeça!


Ainda sigo procurando...

Desafios pessoais… vivi às custas deles.

Breaking all the rules (Peter Frampton)
Superei o tempo de gangues, violência,
miséria, trabalhos duros.

Another one bites the dust (Queen)
Apesar de minha origem no povo,
muitos bem-nascidos comeram poeira.
Contábeis na Fito-Osasco. Concurso do BB.
Letras na USP eu fiz.

You shook me all night long (AC/DC)
Não poderia dizer que não vivi amores.

Thunderstruck (AC/DC)
Atordoado! Fizemos muita coisa
que nos deixaram atordoados.

2 minutes to midnight (Iron Maiden)
Vivemos sempre a dois minutos da próxima guerra:
civil, mundial, pessoal, contra a morte (até da razão).

Aces High (Iron Maiden)
Voei. Saltei... 14 experiências.
A sensação do super-homem.
Subi montanhas, fiz rapel. Me superei.
Em cavernas afundei. Humildade senti.

I still haven’t found what I’m looking for (U2)
Pois é, aos 43 anos
sigo procurando o que não encontrei ainda...


Wmofox
16.09.12

Filme: A caminho de casa - Luo ye gui gen (2007)


Apresento abaixo a sinopse do Canal Futura e teço rápido comentário em seguida.

Poster do filme.

Refeição Cultural

Cine Conhecimento parte numa odisseia pela China: A caminho de casa

Os amantes da sétima arte já têm programa para o feriado de 7 de setembro: o filme A Caminho de Casa, em cartaz, na sessão do Cine Conhecimento. O diretor chinês Zhang Yang, autor de obras primas como Banhos (1999) e Flores do Amanhã (2005), traz para a tela do Canal Futura uma emocionante história de amizade, lealdade e tradições.

A Caminho de Casa (2007) conta a odisseia de um operário que decide levar o corpo de um amigo, morto repentinamente enquanto conversavam e bebiam num bar, até o distante vilarejo onde vive a família do falecido, para que, assim, ele seja enterrado em sua terra natal, seguindo as tradições chinesas. 

Neste road movie, o personagem principal se vê obrigado a embarcar numa viagem pelo interior da China, cruzando muitos e muitos quilômetros, com o corpo do amigo a tiracolo. Várias situações vão surgindo diante dele e transformando o seu modo de ver o mundo.

Apesar da temática se apresentar um tanto dramática e macabra, o que se revela diante dos olhos é um filme cheio de ternura e muito bom humor. Zhang Yang faz graça com situações que envolvem a morte. Não tem desgraça que não vire piada – um jeito de fazer assuntos pesados ficarem mais leves. A Caminho de Casa privilegia principalmente os detalhes, exatamente porque é isso que sobra no caminho da vida: lembranças, reminiscências e o riso.

O título original da obra, Luo ye gui gen, é um provérbio chinês que significa “a folha que cai, retorna às suas raízes”. E resume o espírito do filme, bem como simboliza o desejo de que a história da nossa vida seja eterna.


COMENTÁRIO

O filme é muito bom.

Enquanto assistia ao filme, eu me lembrava tanto do Quincas Berro D’água (2010) de Jorge Amado quanto do filme Uma história real (1999) de David Lynch.

São filmes que trabalham com situações cotidianas de pessoas comuns e transmitem ao mesmo tempo a dureza e a beleza dos bilhões de vidas humanas pelas superfícies do globo terrestre.

Enquanto Zhao atravessa milhares de quilômetros para levar o corpo de seu amigo Liu de volta à sua comunidade e família, ele cruza com pessoas e situações diversas que vão nos mostrando a cultura do povo chinês e as mudanças que estão em andamento naquele país.


Denúncias sociais

É muito comovente ver o relato de uma mãe, pessoa humilde e que vende o próprio sangue para ter algum dinheiro, contar a Zhao que está na cidade porque o filho está na faculdade financiado por ela, porém o filho não quer que ela apareça porque ele tem vergonha da situação dela.

Imaginem a velocidade atual das mudanças culturais do gigante chinês. A China é um canteiro de obras. A parte do filme que aborda as realocações de aldeias e comunidades pela construção de represas nos lembra bem isso. Aliás, sobre o tema recomendo o filme brasileiro Os narradores de Javé (2003).


Amor, lealdade e humor

Além das denúncias sociais, o filme também é tocante na maneira como aborda o amor, a lealdade e o humor.

A cena mais bonita do filme é a de Zhao com o corpo do amigo em cima de um caminhão cortando os prados e as montanhas chinesas e gritando que está muito feliz, afinal ele estava cumprindo uma promessa e levando Liu para casa.

Vale a pena assistir ao filme!

---

Post Scriptum (16/9/23):

Revi o filme hoje. A data coincidiu com a data da postagem no blog onze anos atrás. Que filme maravilhoso! Acabei revendo o filme após o curso do professor Elias Jabbour no ICL - "Compreendendo a China" - ter aguçado em mim o interesse pela país socialista e o povo chinês (comentário sobre o curso aqui). Encontrei o filme na internet com legenda em espanhol.

O filme nos emociona em vários momentos como, por exemplo, quando Zhao encontra o casal e o filho que viraram apicultores e vivem na estrada em seu caminhão porque a mulher da família sofreu um acidente de trabalho - uma caldeira explodiu e queimou seu rosto - e a família prefere manter menos contato com as pessoas vivendo sem fixar residência.

Enfim, filmaço!

sábado, 15 de setembro de 2012

Poema - AAAAAAAHHHHHHHHHHHH





A day in the life.
Um dia como o outro:
sem rotina, mas sempre igual.
Vai entender!

Antes, vislumbrava uma moto,
uma garota, uma casa, paz.
Agora, um grito por liberdade!

Soltar a fera em si.
Repousar na solidão.
Sem máscara, sem multidão.

Já estou indo...
E nem peguei as coisas que eu quis.

Engrenagem.
Carne moída.
Eis o que somos!


Wmofox
14.09.12

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Paradoxos do darwinismo social - Lendo Frans de Waal


Frans de Waal. Fonte: Wikipedia.

Hoje li mais um capítulo do excelente livro A Era da Empatia de Frans de Waal. A leitura nos faz pensar muito sobre a vida em sociedade.

O autor nos fala do filósofo Herbert Spencer (século XIX) que levou para os negócios suas teorias biológicas.


PARADOXOS DA SOCIEDADE AMERICANA (E OCIDENTAL)

O primeiro grande paradoxo do cenário político americano é sua relação de amor e ódio com a biologia. Apesar da teoria evolucionista ser bastante popular entre eles, em debates políticos parte importante dos candidatos diz não acreditar na evolução.

"O darwinismo social é bem aquilo que Gordon Gekko chamou de 'espírito evolucionário'. Ele descreve a vida como uma luta em que os mais fortes não devem se permitir atrapalhar pelos mais fracos. Essa ideologia foi introduzida pelo filósofo inglês Herbert Spencer, que, no século XIX, traduziu as leis da natureza para a linguagem dos negócios, cunhando a expressão 'sobrevivência dos mais bem adaptados', muitas vezes atribuída, indevidamente, a Darwin. Spencer condenou as tentativas de nivelamento do terreno onde se desenrola a vida em sociedade. Segundo ele, seria contraproducente que os 'adaptados' sentissem algum tipo de obrigação para com os 'inadaptados'. Em densos volumes que venderam centenas de milhares de cópias, Spencer afirmou a respeito dos pobres que 'todo o esforço da natureza é para se desfazer deles, limpando o mundo de sua presença e deixando espaço para os melhores."

O segundo paradoxo é a pregação da religiosidade cristã ao mesmo tempo que não aceitam nenhum tipo de compaixão e solidariedade com aqueles que não venceram na vida.

"Esse ponto de vista religioso - visível até hoje na chamada Direita Cristã - constitui o segundo grande paradoxo. Enquanto o livro encontrado na maioria dos lares americanos e em todo quarto de hotel recomenda a compaixão pelo semelhante, o darwinismo social ridiculariza esse sentimento, que apenas impede a natureza de seguir seu próprio curso. A pobreza é desdenhada como uma demonstração de preguiça, a justiça social, como uma fraqueza. Por que não deixar simplesmente que os pobres pereçam? Acho difícil entender como os cristãos conseguem abraçar uma ideologia tão implacável na ausência de um estado colossal de dissonância cognitiva, mas muitos parecem capazes de fazê-lo."

O terceiro paradoxo é a liberdade econômica despertar o melhor e o pior nas pessoas.

"O terceiro e último paradoxo é que a ênfase na liberdade econômica desperta tanto o melhor quanto o pior nas pessoas. O pior é a já mencionada falta de compaixão, pelo menos no nível governamental. Mas existe também um lado bom, (...) que é o de ser uma sociedade baseada no mérito. Berço de ouro, títulos pomposos, legados de família, tudo isso é reconhecido e respeitado, mas não é nem de longe tão valorizado quanto a iniciativa pessoal, a criatividade e o esforço puro e simples. Os americanos sentem admiração pelas histórias de sucesso e nunca recriminam aqueles que 'chegam lá' de maneira honesta. Isso é verdadeiramente emancipador para os que se sentem dispostos a encarar o desafio."


FALÁCIA NATURALISTA

Da mesma forma que o darwinismo social serviu para lavar a consciência da burguesia exploradora do século XIX adiante, serviu também para estabelecer o regime liberal nos Estados Unidos, o país formado por emigrantes europeus.

"O darwinismo social procurou fornecer o endosso científico almejado por uma nação de imigrantes que havia desenvolvido naturalmente um forte senso de individualismo e de autossuficiência." (pág. 49)

E:

"O problema é que não se pode deduzir os objetivos da sociedade dos objetivos da natureza. A tentativa de fazer isso é conhecida como a falácia naturalista. A falácia naturalista é cometida sempre que se confunde 'o que é' com 'o que deve ser'. Se os animais se matassem uns aos outros em grande escala, isso não significaria que deveríamos fazer o mesmo. Do mesmo modo, caso os animais vivessem em perfeita harmonia, isso também não significaria que temos a obrigação de fazê-lo. A natureza pode nos oferecer informação e inspiração, mas não nos oferece prescrições."


COMENTÁRIO

O pior é que essa falácia naturalista está incrustada no cérebro do povo e da classe trabalhadora, que só reproduz os interesses da elite (ideologia da classe dominante).

William Mendes


Bibliografia:
WAAL, Frans de. A era da empatia. Companhia Das Letras. 2010 SP.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

A Era da Empatia - Os mitos de origem, de Frans de Waal


Capa do livro.

Refeição Cultural

A leitura do primeiro capítulo do livro nos leva a pensar muito sobre o ser humano e a sociedade em que vivemos. Também nos coloca a refletir sobre os mitos criados para se justificar como sendo "natural" a dominação por parte daqueles humanos que pertencem ao status quo atual - o sistema capitalista.

Cito abaixo alguns excertos que gostei do capítulo (já fiz outra postagem com algumas coisas legais deste mesmo capítulo).

CAPÍTULO 1

BIOLOGIA, ESQUERDA E DIREITA

"Os que enfatizam a liberdade individual quase sempre consideram os interesses coletivos uma ideia romântica, coisa de maricas e comunistas. Eles preferem a lógica do 'cada um por si'."

E

"Muitos animais sobrevivem cooperando e compartilhando os recursos, e não aniquilando-se uns aos outros ou conservando tudo para si mesmos. Isso se aplica mais claramente aos animais que caçam em bando, como os lobos e as orcas, mas também aos nossos parentes mais próximos, os primatas."

OU SEJA,

"Se o homem é o lobo do homem, isso é verdadeiro em todos os sentidos, e não apenas no sentido negativo. Não seríamos o que somos hoje se nossos ancestrais tivessem vivido isolados uns dos outros." (Muito bom!)

O VÍNCULO É IMPORTANTE PARA A FELICIDADE

"O vínculo é um elemento essencial para a nossa espécie. Não há nada que nos faça mais felizes (...) A busca da felicidade mencionada na Declaração da Independência dos Estados Unidos é antes de tudo um estado de satisfação das pessoas com a própria vida (...) Não é o dinheiro, o sucesso ou a fama o que mais faz bem às pessoas, mas o tempo que elas passam com os amigos e a família."

COMENTÁRIO: 

Aqui, não tem como não me lembrar da descoberta do jovem Chris McCandless (Na Natureza Selvagem) que descobriu que - "HAPPINESS ONLY REAL WHEN SHARED" (a felicidade só é verdadeira quando é compartilhada).

ALGUNS MITOS DE ORIGEM

1º) nossos ancestrais eram os reis da savana

"Pode ser que os nossos ancestrais tenham ocupado uma posição na cadeia alimentar superior à da maior parte dos primatas, mas definitivamente eles não estavam no seu topo. Eles precisavam se manter em permanente estado de alerta. Isso tem relação com o primeiro falso mito acerca do 'estado natural' da nossa espécie, o mito de que os nossos ancestrais eram os reis da savana. Como isso poderia ser verdade se, de pé, esses primatas bípedes não passavam de um metro e vinte de altura? Eles certamente viviam aterrorizados pelas hienas do tamanho de ursos que existiam naqueles tempos, e pelos tigres de dente de sabre que tinham o dobro do tamanho dos leões que conhecemos hoje. Em consequência disso, nossos ancestrais tiveram que se contentar em caçar num horário de 'segunda classe'..."

2º) a sociedade como criação voluntária de homens autônomos

"A segurança é a primeira e a mais forte motivação da vida social. Isso tem relação com o segundo mito de origem, igualmente falso, de que a sociedade humana é uma criação voluntária de homens autônomos. A ilusão, nesse caso, é a de que os nossos ancestrais levavam vidas independentes, não precisando de mais ninguém. O único problema é que eles eram competitivos demais, o que fez com que o custo de suas disputas se tornasse insuportável. Como eles eram animais inteligentes, decidiram abrir mão de algumas liberdades em troca da vida em comunidade. Essa história de origem, proposta pelo filósofo francês Jean-Jacques Rousseau sob o nome de contrato social, inspirou os fundadores dos Estados Unidos a criar a 'terra dos homens livres'. Esse mito permanece extremamente popular nos departamentos de ciência política e nas faculdades de direito, uma vez que ele apresenta a sociedade como um compromisso negociado e não como algo que ocorreu naturalmente com a nossa espécie."

COMENTÁRIO: 

Cara, pelo que li até agora da obra O Leviatã de Thomas Hobbes, ele também aborda essa questão de abrir mão da "liberdade de natureza" para conviver em sociedade.

SEMPRE PRECISAMOS DOS OUTROS: 

"Como ocorre com boa parte dos mamíferos, todo ciclo da vida humana inclui estágios nos quais dependemos dos outros (na infância, na velhice ou quando ficamos doentes) e nos quais os outros dependem de nós (quando cuidamos das crianças, dos velhos ou dos doentes). Precisamos uns dos outros para sobreviver."

3º) sempre nos dedicamos a guerra

"Chegamos assim ao terceiro e falso mito de origem, o de que a nossa espécie vem se dedicando à guerra desde seu aparecimento. Na década de 1960, após as devastações da Segunda Guerra Mundial, os humanos costumavam ser retratados como 'primatas assassinos' - em oposição aos verdadeiros grandes primatas não humanos, considerados pacifistas. A agressão era considerada a marca inconfundível da espécie humana (...) Geralmente, a decisão de entrar em guerra é tomada pelos homens de idade mais avançada que fazem parte do governo. Quando observo um exército marchando, o que vejo não é necessariamente o ataque em ação, mas sim o instinto de manada: milhares de homens em fileira cerrada, dispostos a obedecer a seus superiores."

COMENTÁRIO: 

Eu sempre digo nos cursos de formação ou nas reuniões políticas para as pessoas tomarem muito cuidado com o "espírito de manada" e para buscarem pensar e raciocinar sobre aquilo que fazem.

POTENCIAL PARA A GUERRA: 

"Nossa única certeza é de que nossa espécie dispõe de um potencial para a guerra. Sob certas circunstâncias, esse potencial manifestará sua face tenebrosa."

PORÉM: 

"Os laços com os estranhos asseguram a sobrevivência em ambientes imprevisíveis, possibilitando que os riscos da escassez de água ou de alimentos sejam repartidos entre os grupos."

COMENTÁRIO FINAL

Deu trabalho digitar esses excertos para os leitores, mas eles nos levam a reflexões profundas. Estou lendo lentamente o livro por falta de tempo. Leiam também. É bom.

William Mendes


Bibliografia:
WAAL, Frans de. A era da empatia. Companhia Das Letras. 2010 SP.

Os mitos de origem do macho - Frans de Waal


O pensador. Eu tento pensar... vou cismando

Refeição Cultural

Frans de Waal diz:

"Esqueçam os mitos de origem ocidentais, que retratam nossos ancestrais como seres ferozes, livres e destemidos. Liberados de compromissos sociais e impiedosos com os inimigos, eles parecem diretamente saídos dos filmes de ação. O pensamento político de hoje mantém-se apegado a esses 'mitos do macho', como deixam transparecer as crenças de que podemos tratar o planeta como bem quisermos, de que a humanidade continuará sempre a guerrear e de que a liberdade individual tem precedência sobre a vida em comunidade.

Nada disso está de acordo com o modo de vida ancestral. A dependência mútua, os laços sociais com os outros e a supressão das disputas internas e externas são elementos fundamentais desse modo de vida, uma vez que o controle dos meios de subsistência é tão frágil que o alimento e a segurança são assuntos de prioridade máxima. As mulheres coletam frutos e raízes e os homens caçam. Juntos, eles criam pequenas famílias que só sobrevivem graças à sua integração num tecido social mais amplo. Eles contam com sua comunidade e sua comunidade também conta com eles."


COMENTÁRIO

Este livro de Frans de Waal é muito interessante quando lemos sob a perspectiva de comparar a sociedade atual com aquelas do passado e ver o quanto o ser humano é o ser humano de sempre.

Eu creio que me engano quando faço minhas leituras pessimistas da sociedade atual. É porque sinto uma frustração imensa quando vejo disputas internas no próprio movimento social ao qual pertenço.

Porém, a explicação tem uma lógica. Os tempos são outros e como não enfrentamos um inimigo claro e não estamos sob risco de sobrevivência como em épocas distintas, sobra bastante tempo para o foco na disputa do poder pelo próprio poder.

Deixa começar a faltar os bens de necessidade vital, deixa o inimigo capitalista reassumir o poder institucional, que eu quero ver os "companheiros" dentro do movimento social ficarem somente com o foco na disputa interna...

O mesmo se dá com a natureza e o planeta, a hora que não tiver mais planeta para nos abrigar ou ele estiver em risco, vamos nos unir para sobreviver alguns milhares de nós, animais humanos.

William Mendes


Bibliografia:
WAAL, Frans de. A era da empatia. Companhia Das Letras. 2010 SP.

domingo, 9 de setembro de 2012

Correndo para encontrar minha energia vital

Pois é!

Minha vida sindical atual está acabando com a minha saúde. Não posso permitir isso. Devo achar lacunas nos meus dias de luta para correr e tentar recuperar energia vital, pois não estou bem de saúde.

No fim de semana passado, corri um trote leve no sábado (3k) e no domingo (4,5k). Com muito esforço, dei um jeito de correr no meio da semana (4k).

Ontem e hoje corri novamente. No sábado, corri 3k contra o relógio e fiz em 17' (vinha fazendo em 21') e hoje corri cerca de 4,5k em 30' com uma baita subida.

Decidi que vou voltar a correr a São Silvestre. Não participei da prova o ano passado pela primeira vez desde 2007 em protesto à palhaçada de mudarem o local de chegada por causa da festa da Rede Bobo. Fizeram milhares de corredores comuns irem parar lá no Ibirapuera onde não tem opções de transporte público para as pessoas irem embora.

Decidi hoje também encerrar minha conta no facebook porque acredito que meus blogs de cultura e sobre minha militância bancária já são suficientes para minha comunicação com as pessoas.

É isso!

Refeição Cultural - Há tempo pra recomeçar?


Neste domingo dia 9 completo vinte anos como funcionário do Banco do Brasil.

Destes vinte anos, dez deles trabalhei nas agências Rua Clélia, Barra Funda e Vila Iara. Outros dez, passei como representante eleito pelos bancários de São Paulo, Osasco e região em mandatos sindicais. Neste mesmo período, também tive várias representações sindicais a partir do Sindicato: atualmente, estou secretário de formação da Contraf-CUT e estou coordenando a Comissão de Empresa dos Funcionários do Banco do Brasil.

Nesta década de militância sindical, participei ativamente de toda a construção da campanha unificada de 2003 a 2012 e participei da metade da história dos 20 anos de Convenção Coletiva de Trabalho dos bancários. Sem nenhuma prepotência, posso dizer que também fui um tijolinho da construção da história recente da categoria.

PODERIA SER E NÃO FUI...

Eu poderia ter sido contabilista e talvez ter meu próprio negócio. Quando terminei minha faculdade de Ciências Contábeis em 1994, já estava no BB há uns dois anos. Seu Luiz, um cliente da agência Rua Clélia, me convidou para trabalhar com ele e ser seu sócio no escritório de contabilidade. Fiquei tentado, mas acabei não indo. Acho que foi pela minha característica mais para funcionário público concursado do que para micro empresário e empreendedor de negócios.

Eu poderia ter sido professor de educação física. Quando decidi mudar de vida em 1996, porque eu não suportava mais o massacre do governo do PSDB contra as empresas públicas e seus funcionários, entrei em uma faculdade particular em Mogi das Cruzes - o Náutico - para cursar educação física. Fui excelente aluno por quase dois anos e poderia ter sido um bom profissional. Precisei abandonar o curso por não conseguir pagar a mensalidade e aluguel ao mesmo tempo. Foi uma das maiores frustrações de minha vida.

Eu poderia ter sido um profissional das Letras. Em 2001, busquei novamente uma forma de sair do BB e fazer outra coisa da vida. Estudei alguns meses para a Fuvest e entrei no curso de Letras da USP. Logo percebi que o curso exigiria muito de mim, pois a carga de leitura era absurda para quem trabalha e estuda. Mas eu não teria que desistir por falta de dinheiro para pagar mensalidades. E não é que um ano depois de entrar na USP me convidaram para uma chapa do Sindicato e minha vida mudou radicalmente! Acabei as matérias obrigatórias do bacharelado faz pouco tempo, mas não teria hoje competência alguma para ser um profissional das letras. Virei sindicalista.

ACABEI SENDO...

Entre uma faculdade e outra, virei pai. Acabei mudando radicalmente como pessoa, por ter virado pai e depois por ter virado sindicalista. A mudança mais radical nestas duas situações foi desligar o botão do "foda-se!".

Passei a pensar um pouco mais nas consequências das coisas e dos atos.

HÁ TEMPO PRA RECOMEÇAR?

Tenho me perguntado isso várias vezes ultimamente. Minha vida está ruim. Está ruim!

Durante toda a minha vida busquei encontrar um sentido para viver. É engraçada minha situação atual, pois sei que meu papel social é importante. Sei que sou muito sério em minha militância e representação sindical e acho que até meus adversários devem perceber isso. Mesmo assim, não sei se tem valido a pena a minha doação total para a militância. Quanto mais você se dedica, mais aparece gente tentando puxar o tapete e focada somente na disputa de máquina sindical, ao invés de lutar contra os patrões e o capital. Isso sempre foi uma merda!

A mesma dúvida tenho em relação à família. Eu acho que fiz muito me adaptando para criar um filho e levar uma vida em função da família. Mas hoje não tenho o respeito de meu filho e vai saber se ele tem razão ou não. Esse negócio de relação familiar sempre foi uma merda! Todo mundo acha que tem razão e que é incompreendido.

E agora, José?

O que poderia fazer para me sustentar por mais alguns anos até morrer? Se eu ligasse novamente o botão do "foda-se!" teria que entender que meus dependentes iriam se foder mesmo.

Como faço para poder encontrar um pouco de paz para ler e buscar saciar minha sede de conhecimento? Onde arrumar tempo para praticar esporte, pois gostaria de correr inclusive uma maratona ainda?

O que sei é que minha natureza não me permite não ser bom naquilo em que me comprometo a fazer. Pelo menos tento ser bom. Me dedico. É o que faço tentando ser um bom sindicalista. Eu me esforço diariamente.

Mas depois de ser sindicalista, que vou fazer para ter um pouco de prazer na existência pessoal?

Tô cismando muito nisso...


PS: neste sábado, fomos ver a exposição do Caravaggio no MASP. Gostei! Foi emocionante ver o quadro "Medusa Murtola" de 1597.


sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Filme: METROPOLIS - Fritz Lang, Alemanha, 1927

Minha edição de Metropolis.


METROPOLIS – FRITZ LANG, ALEMANHA, 1927


“Einen mittler brauchen HIRN und HÄNDE”
A CABEÇA e as MÃOS precisam de um mediador

“Mittler zwischen hirn und händen muss das herz seint!”
O mediador entre a cabeça e as mãos deve ser o coração!


INÍCIO DE CONVERSA

Acredite se quiser, mas finalmente assisti pela primeira vez ao filme Metropolis, de Fritz Lang.

Com o filme, fica mais fácil compreender porque naquela época surgiram tantas obras apocalíticas, utópicas e distópicas como, por exemplo, Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley em 1931.

O mundo vivia um período posterior à Revolução Industrial e à 1ª Guerra Mundial. O capitalismo e o poder das corporações nos governos daquele período já mostravam que o mundo vivia uma crise de democracia e de falta de solidariedade e prioridade nos valores humanos.

Comecei meu feriado buscando algo que eu não conhecesse ainda das inúmeras coisas que tenho em casa – livros, revistas, filmes etc. Peguei um dos 22 filmes que comprei da Coleção Folha CINE EUROPEU.

A edição é muito boa. Ela traz 25 minutos de cenas inéditas encontradas recentemente na Cinemateca Argentina em 2008.


PRIMEIRAS IMPRESSÕES

Poster de 1927.
As imagens do filme nos deixam paralisados de tão espetaculares que são.

As expressões dos atores são algo só visto naquela época mesmo. Um ator de cinema hoje não faz mais aquilo, por melhor que seja sua técnica.

O filme é feito com imagens e encenação teatralizada. Expressões fortes, lentas e para envolver o espectador.

A trilha sonora é como se você estivesse ouvindo uma ópera ou uma peça de concerto clássico. É uma apreciação à parte. Aí, quando você junta com cada imagem que acompanha a música (ou o inverso) é o êxtase!

Enquanto você assiste, dá vontade de mandar todos os amigos e conhecidos verem aquilo na hora!

Ou seja, o filme tem imagem, enredo e música de arte, mas com grande produção já nos anos vinte.

O filme está dividido em três partes: Prelúdio, Intermezzo e Furioso.


REFLEXÕES RÁPIDAS

“Grande é o mundo e o seu criador, e grande é o homem”

(no entanto, enquanto a personagem Maria pregava aos operários nas catacumbas o episódio da Torre de Babel, ela lhes dizia que naquela época falava-se a mesma língua, mas aqueles homens não se entendiam...)


Imagem da edição Cine Europeu.
Dias atrás, vi meio sem querer, a regravação do filme O dia em que a terra parou. O extraterrestre vem à terra com a missão de exterminar a raça humana para que ela não destrua o planeta por ele ser um dos poucos habitáveis no universo.

Lembro também de algumas frases críticas legais vistas em filmes como, por exemplo, aquela do Smith em Matrix dizendo a Morfeu que o ser humano é como uma praga que destrói tudo por onde passa.

Voltando ao filme Metropolis, passados oitenta e cinco anos do seu lançamento, estamos em um mundo real que não mudou nada em relação às críticas sociais feitas no filme.


UM SÉCULO DE SOCIEDADE DO CONTROLE (E AUTODESTRUIÇÃO)

Imagem eternizada do robô-gente (gente robô hoje?)

Quando vi a primeira cena do escritório de Joh Fredersen na Torre de Babel, onde os seus funcionários acompanhavam e anotavam cada número de produção e controlavam tudo no mundo Metropolis, lembrei-me da tela do monitor do meu colega do Banco do Brasil.

Ontem, após uma reunião com os bancários, um colega mostrava a tela que controla tudo dentro da agência e que acende a luz vermelha quando algum índice ultrapassa um número determinado e tolerável – número de pessoas na fila do caixa, na fila das mesas de atendimento, na fila do telefone etc.

Olhar de Maria... o clone.
Os operários no filme que vão até o esgotamento total nas máquinas são iguaizinhos aos trabalhadores hoje, tanto nas fábricas, nas centrais de atendimento telefônico e nas agências bancárias.

Que merda e que lixo de mundo é esse que todos acham que está errado, mas poucos dão um pouco de si para mudá-lo!

A gente acaba dando razão para os extraterrestres dos filmes de ficção que chegam aqui para nos eliminar já que a gente só vai parar de destruir o mundo quando não houver mais mundo mesmo!


LUDISMO

“Lasst die maschinen verhungern jhr narron! Lasst sie verricken!!”
Deixemos as máquinas famintas seus idiotas! Acabem com elas!

“Schlagt sie tot – die maschinen!”
Acabem com elas... acabem com as máquinas!


Mundo das máquinas...
Numa referência aos círculos do inferno de Dante, os operários vivem entre os subterrâneos das máquinas, onde está o coração delas ou máquina-mãe, e o mundo mais abaixo, onde fica a vila dos operários. Lá na superfície vivem os herdeiros e filhos daqueles que detêm a propriedade e desfrutam das maravilhas tecnológicas produzidas pelas máquinas.

Por antagônico que possa parecer na história, quem incitou os operários a destruírem as máquinas foi o cientista Rotwang (através da robô-clone Maria, cujas expressões são fantásticas) e não a líder dos oprimidos Maria (que consegue ser totalmente diferente na expressão em relação à robô), pois esta pregava a paz e a conciliação de classes através de um “mediador”, que acabou sendo Freder, filho do dono de tudo.

O dono de Metropolis, Joh Fredersen (as melhores expressões do filme), pretendia que o robô Maria causasse a discórdia entre os operários, mas não a destruição de suas máquinas. Venceu o Rotwang e tudo foi destruído.

Mediador sela paz entre as classes.


POR ÚLTIMO

Se algum desavisado de seus vinte, trinta, quarenta anos... não tiver assistido ao filme ainda, por favor, assista! Vale muito a pena!

Abraços,
William Mendes (que segue tentando ser menos ignorante)

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Mamãe, eu te amo!


O que tenho de bom aprendi com essa mulher e com meu pai.
Os vícios aprendi com a vida diária.

Hoje minha querida mãe faz aniversário. Liguei pra ela e disse o quanto a amo.

Conversamos um pouco. Perguntei como estão as dores na coluna (ela está na cama com a coluna fraturada há mais de três meses). Como de praxe, perguntei de meu pai, pois ele também tem vários problemas de saúde. Sobrevivem.

Falamos um pouco dos escapes da vida dura. Os passarinhos no quintal, as paraolimpíadas que ela está vendo na tevê, o tempo que esfriou um pouco. Conseguiram resolver o problema da comida, pois acharam um lugar para pedir marmita diariamente. A vizinha foi ajudá-la e limpou um pouco a casa.

Ê mãezinha! Como foi difícil ter um filho, heim? Seu corpo teimava em não segurar um bebê. Perdeu vários e, por fim, a senhora conseguiu dar à luz a um menino. Mãe, o que está a meu alcance fazer é levar uma vida correta e digna para honrar a pessoa que a senhora é. Estou fazendo isso e farei até meu último dia, mãezinha.

Nessa vida corrida que levamos, vivemos como autômatos. Robôs que levantam e saem pra fazer aquilo que está determinado no nosso contrato social. Vivemos presos ao Nome que temos, à Função que desempenhamos, ao Grupo gregário ao qual pertencemos. E a vida segue assim...

Mãe, sou uma pessoa comum.
Sou uma pessoa correta ao menos.
Sobrevivi na adolescência graças à senhora.
Naquela época de violência, meu freio foi a senhora.
Acabei escapando dali e partindo com a semente do bem.
A semente da luta e da índole devo à senhora e ao papai.
Obrigado por vocês estarem vivos e me ligarem ao mundo.

TE AMO MÃEZINHA QUERIDA!

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Ulisses - James Joyce (III)


James Joyce. Imagem de sites sobre ele.

ULISSES – JAMES JOYCE

CLÁSSICO IRLANDÊS de 1922

Parte I – Telemaquia

Episódio 3 – Proteu

Cena – A praia

Hora – 11

Arte – Filologia

Cor – Verde

Símbolo – Maré

Técnica – Monólogo (masculino)

“INELUCTÁVEL modalidade do visível: pelo menos isso se não mais, pensando através dos meus olhos. Assinaturas de todas as coisas estou aqui para ler, marissêmen e maribodelha, a maré montante, estas botinas carcomidas. Verdemuco, azulargênteo, carcoma: signos coloridos. Limites do diáfano. Mas ele acrescenta: nos corpos. Então ele se compenetrava deles corpos antes deles coloridos. Como? Batendo com sua cachola contra eles, com os diabos. Devagar. Calvo ele era e milionário, maestro di color che sanno. Limite do diáfano em. Por quê em? Diáfano, adiáfano. Se se pode pôr os cinco dedos através, é porque é uma grade, se não uma porta. Fecha os olhos e vê.


Stephen fechou os olhos para ouvir as botinas triturar bodelha e conchas tagarelas. Estás andando por sobre isso algoqualcerto. Estou, uma pernada por vez. Um muito curto espaço de tempo através de muito curtos tempos de espaço. Cinco, seis: o nacheinander. Exatamente: e isso é a ineluctável modalidade do invisível. Abre os olhos. Não. Jesus! Se eu cair de uma escarpa que se salta das suas bases, caio através do nebeneinander ineluctavelmente. Até que estou deslocando-me bem neste escuro. Minha espada de freixo pende a meu lado. Tateia com ela: é assim que se faz. Meus dois pés nas botinas dele estão no final de suas pernas dele, nebeneinander. Soa maciço: feito pelo malho de Los Demiurgos. Estou eu andando para a eternidade ao longo do areal de Sandymount? Tritura, tagarela, trila, trila. Dinheiro do mar selvagem. Domine Deasy sabe tudinho.


Não virás a Sandymount,
Madeline égua?”



O ACOPULADOR UNIUNIU OS SEXOS


Este é o começo do episódio com Stephen Dedalus andando na praia. Ele fecha os olhos e segue andando e começa seu fluxo de pensamento.


Veja abaixo as palavras criadas em uma sequência desse fluxo de pensamento: O ATO SEXUAL E A CONCEPÇÃO:




“Matrizado em pecadora escuridade eu fui também, feito que não gerado. Por eles, o homem com minha voz e meus olhos e a mulherfantasma com cinzas em seu hálito. Eles se uniuniram e se dividiram, fizeram o querer do acopulador. De antes dos tempos. Ele me quis e possa não querer-me longe agora ou jamais. Uma lex eterna paira junto a ele. É isso então a divina substância na qual Pai e Filho são consubstanciais? Onde está o caro pobre Ário para tirar conclusões? Guerreando a vida inteira quanto à contransmagnificandjudeibumbatancialidade. Heresiarca malzodiacado. Num lavatório grego deu o último suspiro: eutanásia. Com mitra de gemas e com báculo, refestelado no seu trono, viúvo de uma sé viúva, com omofórion empertigado, com traseiros coagulados.”




BELAS IMAGENS NAS PALAVRAS


E aí, gostaram? O livro inteiro é assim...


Vejam que legal a imagem abaixo das “camisas crucificadas” no varal e das “Conchas humanas”, ou seja, os barracões de pescadores:




“... Insalubres fofos de areia tocaiavam para sugar-lhe as solas caminhantes, exalando hálito de cloaca. Costeou-os andando cautelosamente. Uma garrafa de cerveja se alçava, enterrada até a cintura, na pastosa massa arenosa. Uma sentinela: ilha de sede terrível. Arcos partidos a beira-mar; em terra uma confusão de escuras redes astutas; mais além portas de fundos garatujadas a giz e no alto da praia uma corda de secar com duas camisas crucificadas. Ringsend: barracões de pilotos requeimados e mestres-marinheiros. Conchas humanas.”



MORTE DA MÃE DE JOYCE E DE DEDALUS


Dedalus como alter-ego de James Joyce. Veja abaixo o personagem em Paris recebendo telegrama avisando sobre a eminência da morte da mãe. Joyce também havia saído de Dublin em 1902 após conquistar diploma de letras e precisou retornar em 1903 com a morte de sua mãe.




“Ias realizar maravilhas, né? Missionário à Europa após o fogoso Columbano. Nos seus escabelos perros, Fiacre e Scotus entornados nos céus de seus canecos quartilhos, garlatingalhando: Euge! Euge! Fingindo falar inglês macarrônico no que arrastavas tua maleta, carregador três pences, ao longo do píer visguento em Newhaven (...) um telegrama francês azul-banzo, curiosidade para exibir:


- Mãe morrendo volta pai.”



LINGUAGEM LIVRE DE CENSURA


Quando a obra foi lançada em 1921 teve centenas de volumes queimados nos Estados Unidos e na Europa. Só começou a circular normalmente lá pelo ano de 1933.


Querem saber um dos motivos? A vanguarda na linguagem e a não-censura em dizer aquilo que se quer dizer.




“... Por sobre a cara dela desfeita pelo vento lhe caíam os cabelos. Atrás de seu dono a comparsa, indo, para a cidade grande. Quando a noite esconde as máculas do corpo dela chamando debaixo do xaile pardo sob uma arcada que cães tinham chafurdado. O homem-leno dela está engabelando dois soldados do Royal Dublins no O’Loughlin de Blackpitts. Beijoca-a, fode com sabida lenga de esbórnia, oh minha putinha fodedora. Uma brancura endemoninhada sob seus andrajos rançosos. O beco de Fumbally aquela noite: os cheiros do curtume.


Brancas mãos, rubra tua boca
E teu corpo é gostosura
Bebe comigo na cama
Beija, toma, é noite escura.


Morosa deleitação, chama-lhe o ventrudo Aquino, frate porcospino. Antes da queda Adão trepava mas não gozava. Deixá-lo chamar: teu corpo é gostosura. Linguagem nem um tiquinho pior do que a dele. Palavras de monge, contas de rosário parlapateiam em suas panças: palavras de esbórnia, duras pepitas tamborilam em seus bolsos.”



ORFÃO DEDALUS


Stephen segue em seus fluxos de pensamento voltando para a torre do farol.



“Cinco braças por aquela banda. Sob braças inteiras, cinco, teu pai jaz. À uma disse ele. Encontrado afogado. Maré alta na barra de Dublin. Vindo na frente um arrastre de entulho à deriva, vária malta de peixes, conchas cômicas. Um cadáver salbranqueado emergindo da baixa-toa, ziguezagueando rumo à terra, um tantinho um tantinho uma toninha. Aí está ele. Engancha-o rápido. Mesmo que imerso das águas sob os cendais. Temo-lo. Devagar agora.”



COMENTÁRIO FINAL


É interessante!


Eu estava há pouco, olhando textos na rede mundial e fui ler um blogue de um leitor confessando sua frustração por nunca ter conseguido ler Ulisses. Quando o li, logo compreendi o que ele sentia.


Por acaso, venci o desafio e li a principal obra de James Joyce. Por sinal, com a leitura de hoje, acabo de reler lentamente e com direito a fazer os comentários no blog a respeito do gostei ou do que é diferente e pouco comum.


Acabou meu fim de semana! Já adentrei a segunda-feira. Vamos dormir.




Bibliografia:
JOYCE, James. Ulisses. Tradução de Antônio Houaiss. Editora Abril, 1983.

sábado, 1 de setembro de 2012

Ulisses - James Joyce (II)


Olha aí o mestre James Joyce. Ao menos 
o óculos é igual ao meu! (kkk)

ULISSES – JAMES JOYCE

CLÁSSICO IRLANDÊS de 1922

Parte I – Telemaquia

Episódio 2 - Nestor
Cena – A escola
Hora – 10
Arte – História
Cor – Castanho
Símbolo – Cavalo
Técnica – Catecismo (pessoal)

PROFESSOR STEPHEN E A VITÓRIA DE PIRRO...

“- Você, Cochrane, que cidade apelou para ele?

- Tarento, senhor.

- Muito bem. E então?

- Houve uma batalha, senhor.

- Muito bem. Onde?

O rosto vazio do garoto interrogava a janela vazia.

Efabulada pelas filhas da memória. Mas o fato é que a houvera ainda que não tal como a memória a efabulara. Uma frase, então, de impaciência, ruflar do excesso de asas de Blake. Ouço a ruína de todo espaço, vidros estilhaçados e alvenaria derruída, e um instante de lívida chama final. E o que nos restou então?

- Esqueci-me do lugar, senhor, 279 a.C.

- Asculum – disse Stephen, lançando um olhar ao nome e data no livro sanguinirrajado.

- É mesmo, senhor. E ele disse: Uma outra vitória como esta e estamos perdidos.

Essa frase o mundo a retivera. Ócio embotado da mente. De uma colina por sobre a planície cadaverijuncada, um general falando aos seus oficiais, arrimado à sua lança. General qualquer a oficiais quaisquer. Eles aguçam a atenção.

- Você, Armstrong - disse Stephen. - Qual foi o fim de Pirro?

- O fim de Pirro, senhor?” (JOYCE, 1983, p. 33)

COMENTÁRIOS INICIAIS

Neste episódio o tema principal é Stephen Dedalus. Ele está dando aula e recebe seu soldo após a aula.

Há um debate entre o senhor Deasy e Stephen que aborda a história da Irlanda. Deasy chama o jovem professor de feniano, enquanto afirma que ele próprio descende de uma família que votou pela união com a Inglaterra.

“O senhor Deasy fixou os olhos gravemente, por momentos, por sobre o consolo da lareira, na corpulência bem torneada de um homem de saiote escocês: Albert Edward, Príncipe de Gales.

- O senhor julga-me um velho caturra e velho tóri – dizia sua voz pensativa. – Já vivi três gerações desde a do tempo de O’Connell. Lembro-me da epidemia de fome. Sabe que as lógias de orangistas agitaram pela repulsa da união vinte anos antes que O’Connell o fizesse ou antes que os prelados de sua comunhão o denunciassem como demagogo? Os senhores, os fenianos, os senhores se esquecem de certas coisas.

Gloriosa, piedosa e imortal memória. A lógia de Diamond em Armagh a esplêndida engalanada de cadáveres papistas. Rouca, mascarada e armada, a convenção dos fazendeiros. O norte sinistro e a verdadeira bíblia puritana. Cocos rapados, dobrai-vos ao chão.

Stephen esboçou um breve gesto.

- Tenho em mim sangue rebelde também – disse o senhor Deasy. – Do lado da roca. Mas descendo de sir John Blackwood, que votou pela união. Somos todos irlandeses, todos filhos de reis.

- Ah! – disse Stephen.

- Per vias rectas – disse o senhor Deasy firmemente – era a sua divisa. Votou por ela, e calçou suas botas de cano alto a cavalgar rumo a Dublin, desde Ards of Down para fazê-lo.

          Trota, trota, trota, rocim.
          A pedrenta estrada a Dublin.” (p. 42)

ESTUDOS SOBRE A IRLANDA

Fui dar uma estudada no assunto. Li sobre os fenianos que eram aqueles que defendiam o nacionalismo e a independência irlandesa.

Também estudei um pouco sobre os nacionalistas irlandeses e os unionistas protestantes. É muito interessante conhecer um pouco mais sobre o tema.

Joyce viveu entre os séculos XIX e XX e toda essa luta pela independência da Irlanda frente ao imperialismo britânico fez parte das gerações da época.

A leitura me permitiu entender um pouco melhor também a divisão entre Irlanda católica e Irlanda do Norte protestante (mas com parte da população católica e nacionalista). Aqui entra o IRA – Exército Republicano Irlandês, ainda nos anos noventa.

NOVAS CRÍTICAS AOS JUDEUS

Ainda no debate entre o senhor Deasy e Stephen ocorre novamente forte crítica aos judeus. Deasy está falando sobre problemas com o gado irlandês e a peste bovina quando diz:

“Levantou o indicador e escandiu o ar com gesto de velho antes que sua voz falasse.

- Guarde minhas palavras, senhor Dedalus – disse. – A Inglaterra está nas mãos dos judeus. Nos mais altos postos: nas finanças, na imprensa. E são o sinal da decadência de uma nação. Onde quer que se juntam consomem a força vital da nação. Tenho visto sua aproximação nestes anos. Tão certo quanto estamos aqui os mercadores judeus já estão em seu trabalho de destruição. A velha Inglaterra está morrendo.

Deu umas passadas rápidas, seus olhos retomando vitalidade azul no que cruzavam um amplo raio de sol. Deu meia volta e retornou.

- Morrendo – disse, - se já não morta.

           Das ruas o refrão das rameiras enterra.
           Em sua vil mortalha esta velha Inglaterra.

Seus olhos escancarados em visão enfrentavam severos o raio de sol sob que parara.

- Mercador – disse Stephen – é quem compra barato e vende caro, seja judeu ou cristão, não é?

- Eles pecaram contra a luz – disse gravemente o senhor Deasy. – E o senhor pode ver a escuridão nos seus olhos. E é por isso que eles são errantes sobre a terra até os dias de hoje.” (p. 44)

PAUSA NA CRÍTICA AOS JUDEUS PARA CRITICAR AS MULHERES

O personagem Deasy aproveita o debate com Stephen para soltar o verbo contra tudo e todos. Agora ele faz uma pausa aos judeus e fala dos pecados das mulheres:

“O senhor Deasy olhou para baixo e reteve por instantes as abas das narinas pinçadas entre os dedos. Reerguendo a cabeça, deixou-as livres.

- Sou mais feliz do que o senhor – disse. – Cometemos muitos erros e muitos pecados. Uma mulher trouxe o pecado para o mundo. Por uma mulher que não era nem melhor nem pior do que deveria ser, Helena, a esposa fujona de Menelau, os gregos guerrearam em Tróia por dez anos. Uma esposa infiel foi a primeira a trazer estrangeiros a nossas plagas, a mulher de MacMurrough e de seu concubino O’Rourke, príncipe de Breffni. Também uma mulher provocou a queda de Parnell. Muitos erros, muitos malogros, mas não o pecado. Agora, ao fim de meus dias, continuo lutador. Mas combaterei pelo direito até o fim.

          Porque Ulster lutará:
          Seu direito vingará.” (p.45/46)

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COMENTÁRIO: já estudei um pouco tanto a queda do líder Parnell quanto Ulster. Foi assim que, antigamente, eu aprendia um pouco de cultura quando lia. Eu estudava as questões e as palavras enquanto elas apareciam na obra que eu lia.

EPISÓDIO TERMINA CRITICANDO JUDEUS

Após Stephen sair da sala de Deasy levando a correspondência que este lhe pediu para publicar nos jornais locais, Deasy corre atrás dele para lhe dizer mais uma coisa:

“- Senhor Dedalus!

Correndo atrás de mim. Basta de cartas, espero.*

- Um instantinho só.

- Sim, senhor – disse Stephen, voltando-se ao portão.

O senhor Deasy estacou, resfolegando forte e engulindo o alento.

- Queria apenas acrescentar uma coisa – disse. – A Irlanda, diz-se por aí, tem a honra de ser o único país que jamais perseguiu os judeus. Sabia? Não. E sabe por quê?

Pregueava duramente o cenho à luz brilhante.

- Por quê, senhor? – perguntou Stephen, principiando a sorrir.

- Porque nunca os deixou entrar – disse o senhor Deasy solenemente.

Uma expectoração de riso saltou-lhe da garganta arrastando consigo uma cadeia matracolejante de catarro. Revirou-se rápido, tossindo, gargalhando, os braços levantados ondeando ao ar.

- Não os deixou nunca entrar – clamava de novo por entre o gargalhar no que esmagava com os pés borzeguinados o saibro da aleia. – Eis aí a razão.

Por sobre seus sábios ombros através da marchetaria das folhas o sol arremessava lantejoulas, dançarinas moedas.” (p. 47)

*eis um fluxo de pensamento do personagem Stephen (discurso indireto livre)

COMENTÁRIO FINAL

Os bons livros são sempre fonte de conhecimento e de compreensão. Quando li a obra de Thomas Mann – A montanha mágica, vimos ali os antecedentes da primeira guerra mundial.

Este livro data das primeiras décadas do século XX e explicita a questão judaica com transparência até chocante.

Vendo o personagem Deasy falando neste episódio, fiquei lembrando as cenas da máquina de propaganda nazista nos anos trinta falando do mesmo jeito sobre o povo judeu.

Também vimos isso em filmes e documentários como Arquitetura da destruição e aquele que comentei na postagem anterior sobre o nascimento do Estado de Israel em 1948, após o fim da 2ª Guerra Mundial e da tragédia humana do Holocausto.

ATOS DE LEITURA: esse é o típico ato de leitura que gostaria de poder fazer sempre. Ler e estudar sobre o que estou lendo, ou a partir da curiosidade do que estou lendo.

Infelizmente, hoje minha realidade não permite mais isso. Pois daqui a pouco já tenho que retomar minhas obrigações que demandam tempo e eu não vivo (sobrevivo) da leitura.

A terceira postagem sobre a obra segue aqui.

Tchau!


Bibliografia:

JOYCE, James. Ulisses. Tradução de Antônio Houaiss. São Paulo, Editora Abril, 1983.