segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Artigo: O sumiço das abelhas - Najar Tubino




Conhecido cientificamente como Desordem do Colapso das Colônias, esse fenômeno já virou um problema nos EUA e na Europa, inclusive para a polinização de culturas comerciais como a soja e o milho. Autoridades sanitárias suspeitam que o problema é gerado pelos inseticidas, apesar da negativa das grandes companhias de agroquímicos. O artigo é de Najar Tubino



O nome científico é Desordem do Colapso das Colônias, traduzido do inglês. Um fenômeno que ganhou relevância nos Estados Unidos, particularmente, na Califórnia em 2006, quando milhões de colmeias desapareceram. O cálculo do sumiço em 27 estados era de 1,4 milhão de colmeias para um total de 2,5 milhões. As abelhas não morrem, elas somem. Não deixam rastro. É como no navio fantasma Maria Celeste, cuja tripulação sumiu em 1872, daí chegaram a apelidar o evento de “Maria Celeste”.

O problema aumentou quando o sumiço atingiu vários países da Europa, incluindo, Alemanha, França, Espanha, Portugal, Suíça, entre outros. Começaram a levantar as causas do problema. Das antenas de celulares, ao estresse de percorrer milhares de quilômetros transportando abelhas dentro de caminhões acompanhando as safras de várias culturas. Das 250 mil espécies de plantas com flores, 90% são polinizadas por animais, na maioria insetos, e na sua maioria abelhas – cálculo de 40 mil espécies no mundo, três mil no Brasil.

A polinização das plantas é obrigatória para a reprodução, enfim, garante a continuidade da espécie, a variedade genética e, principalmente, a produtividade. É o caso da maioria das culturas comerciais, como soja, milho, a maioria das frutas. Enfim, calculando em dinheiro o valor atinge US$200 bilhões no mundo inteiro, US$40 bilhões nos Estados Unidos. Em janeiro desse ano, as autoridades sanitárias da Europa (EFSA), controla a segurança dos alimentos, determinou que fossem submetidos a exames detalhados três inseticidas, da classe dos neonicotinoides (origem da nicotina), fabricados pela Bayer – clotidianidina e imidacloprida – e tiametoxan, da Syngenta.


Inseticidas suspeitos

A EFSA argumenta que os inseticidas por meio de resíduos na terra, no néctar e pólen são alto e grave risco para as abelhas na forma pelo qual são aplicados em cereais, algodão, canola, milho e girassol, entre outras plantas. O órgão regulador determinou a avaliação de risco muito mais abrangente para o caso das abelhas e introduziu um nível mais alto de atenção na interpretação dos estudos de campo, ressaltando que não tem dados para concluir que os inseticidas contribuem para o colapso das colônias. Mesmo assim países como Itália, França, Alemanha e Eslovênia proibiram ou suspenderam o uso dos venenos.

A Syngenta divulgou uma declaração de que “esse relatório não é digno da EFSA e seus cientistas”. Já a Bayer, que fatura 800 milhões de euros com os neonicotinoides, informou que os produtos químicos não causam danos as abelhas se usados da maneira pela qual foram aprovados na Europa. Existem 18 casos relatados na literatura mundial de mortandade de abelhas, segundo os pesquisadores Maria Cecília de Lima e Sá de Alencar Rocha, em um amplo estudo publicado no ano passado pelo IBAMA, chamado “Efeitos dos Agrotóxicos sobre abelhas silvestres no Brasil”.

“O que diferencia essa ocorrência é que as chamadas escoteiras ou exploradoras não estão retornando às colmeias, mas deixando para trás a ninhada (abelhas jovens), a rainha e talvez um pequeno grupo de adultos, provocando o enfraquecimento da colônia. Além disso, não são encontradas abelhas mortas dentro do ninho, nem ao redor das colmeias”, registra o trabalho dos pesquisadores. 

Mais interessante é que as colmeias não são saqueadas por outros insetos, como formigas ou besouros. Também é importante ressaltar que as abelhas, que existem há 60 milhões de anos, formam um sistema mutualista com os vegetais, seguramente, é um dos sistemas mais importantes de suporte da vida no planeta. O físico Albert Einstein deu uma declaração há muitos anos, dizia o seguinte:

“No dia em que as abelhas desaparecerem do globo, o homem não terá mais do que quatro anos de vida”.

Um estudo da Escola de Saúde Pública de Harvard realizado em Wocester Country, Massachussets, com 20 colmeias, usando aplicação dos inseticidas citados, determinou que a partir da 23ª semana, 15 de 16 colmeias tinham desparecido. Usaram uma dosagem do inseticida menor do que a encontrada no ambiente. O Programa de Meio Ambiente da ONU (PNUMA) apresentou um relatório sobre o caso em 2011, também faz referência ao uso indiscriminado de agrotóxicos no mundo.


Circula com a seiva

Claro, o desmatamento também é outra causa. Nos últimos anos, mais de 100 milhões de hectares de floresta foram perdidos no mundo, se contar outros usos das terras, a agricultura avançou em quase 500 milhões de hectares. Dos 13,066 bilhões de hectares ela ocupa 38,3%. Mas também está mais do que evidente que o consumo de agrotóxicos aumentou muito mais do que a área expandida da agricultura. 

Os neonicotinoides são considerados uma classe de inseticidas que agride menos o meio ambiente, comparado com os organofosforados, piretroides e carbamatos. Mas a função dele é matar insetos. Todos eles. Além disso, tem ação sistêmica, ou seja, ele se espalha pela planta e atinge a seiva e passa a percorrer todo o organismo. Outro ponto: os agricultores fazem tratamento das sementes com os inseticidas. Isso significa que, ao germinar, a planta já traz o veneno na seiva, contaminando o pólen e o néctar, alimento das abelhas e das suas crias.

No Brasil não existe avaliação sobre colapso ou contaminação de colmeias. Existem muitos casos registrados em vários estados, como o Piauí, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Minas e São Paulo. Todos ligados a produção de colmeias localizadas nas cercanias de áreas agrícolas, como soja, cana ou milho. O presidente da Federação Internacional de Apicultura, Gilles Ratia, diz que no Brasil em função do uso indiscriminado de agrotóxicos a perda das colônias atinge 5 a 6%, das cerca de dois milhões de colmeias consideradas, um número em torno de 350 mil apicultores. Esta é uma atividade da agricultura familiar no Brasil, e o grande crescimento ocorre no Nordeste, onde a atividade cresceu 290% nos últimos anos. O Piauí é o segundo produtor nacional de mel, com quase cinco mil toneladas, atrás do RS, que produz quase oito mil toneladas. Os dados são do SEBRAE, de 2009.


Perde o rumo

Entretanto, nos países desenvolvidos a taxa de mortandade por contaminação de agrotóxicos alcança 40%, segundo Gilles Ratia.

A abelha “apis mellifera” é a espécie mais usada na polinização, principalmente das culturas comerciais. É um inseto social, que trabalha coletivamente e de forma organizada. É capaz de voar quase três quilômetros em volta da colônia. Ela avisa suas companheiras sobre o local onde está a fonte de alimentação, através de uma dança circular, e também por contato olfativo. Qualquer interferência nesse processo, ela perde a referência, não informa suas companheiras e, como está acontecendo agora, não memoriza o local da colmeia. Perde o rumo.

É conhecido internacionalmente o poder de fogo dos venenos usados nas plantações comerciais. O objetivo deles é atingir o sistema nervoso dos insetos. Por um motivo simples: eles foram fabricados para matar humanos, e o ponto central, era atingir o sistema nervoso. O sujeito contaminado entra em convulsão e morre rápido. O veneno penetra no espaço entre as células e acelera o processo, devido à transmissão contínua e descontrolada dos impulsos nervosos. O sistema nervoso central entra em colapso. 

O Brasil que é o campeão no uso de agrotóxicos com mais de um milhão de toneladas de consumo, sem contar o que entra contrabandeado. Até a aprovação da lei que regulamenta o uso desses venenos em 1989, as indústrias registravam os produtos com uma facilidade enorme, inclusive muitos já proibidos nos países de origem das mesmas empresas, como Estados Unidos e Alemanha. Aliás, ainda durante a ditadura, quando ocorreu a ocupação do Centro-Oeste e parte da Amazônia existia um Plano Nacional de Defensivos Agrícolas. O agricultor que procurava crédito rural destinava 20% na compra de insumos técnicos, como fertilizantes, venenos e sementes industriais.


Flores em Nova Friburgo

Agora, há quase três anos a ANVISA tenta reavaliar 14 princípios ativos desses agrotóxicos. Conseguiu banir um (tricloform), e outro já proibido em vários países – metamidofós -, está para ser banido. Mas o SINDAG, que representa as maiores indústrias recorreu na justiça, e nove ainda estão impedidos de ser reavaliados. Incluindo o glifosato, que foi aprovado como um agrotóxico classe IV, de baixa toxicidade.

Para completar o caso do sumiço das abelhas, vou citar alguns dados do trabalho de mestrado em saúde pública da pesquisadora da Fiocruz, do Rio de Janeiro, Marina Favrin Gasparini, sobre trabalho rural e riscos socioambientais, na região de Nova Friburgo, onde aconteceu a tragédia conhecida, com o desmoronamento de parte da serra. Ela morou na região e fez a pesquisa, entrevistando muitos produtores, todos pequenos, propriedades em média de 1 a 12 hectares, após o acidente. A região serrana do Rio de Janeiro é o segundo maior polo produtor de flores do país, atrás de Holambra, em São Paulo. Também é um dos maiores na produção de hortigranjeiros, como tomate e couve-flor. 

Tem um dos maiores índices de aplicação de agrotóxicos por área e por trabalhador, é cinco vezes maior que a média do Sudeste e 18 vezes a média do estado- 56,5 Kg por trabalhador rural/ano. Segundo levantamento da empresa de pesquisa agropecuária do Rio – PESAGRO -, dos 32 agrotóxicos mais usados, 17 sofrem restrições em outros países, oito já foram proibidos. “Elevados índices de contaminação ambiental e humana foram encontrados nessa região, como decorrência do uso intensivo destes agentes químicos”, registra a pesquisadora.


Rosa fluminense envenenada

Começando pelo deslizamento, dos 657 pontos vistoriados na região serrana pelo Ministério do Meio Ambiente, 92% já tinham sofrido algum tipo de alteração, somente 8% mantinham mata nativa original. A produção de flores iniciou em Nova Friburgo na década de 1950, por descendentes de suíços e alemães que ocuparam a região desde 1819. Mas ganhou forma depois dos anos 1970, quando a Holanda, maior produtor mundial de flores – 85% da Europa -, começou a implantar polos nos países latinos. Casualmente, logo depois que o livro de Rachel Carson sobre os efeitos dos venenos no ambiente e para a saúde humana foi publicado. A Holanda, se considerarmos o uso de agrotóxicos per capita e por área, é a campeã no uso.

As flores mais produzidas são de clima temperado – rosa, crisântemo e palma. Mas outras 30 variedades são produzidas. Também mudas de rosa. Com toda a beleza, a cultura da rosa é a que mais aplicações recebe. No mínimo, uma por semana, no verão, quando os insetos e fungos atacam mais, de duas a três aplicações por semana. Trata-se de uma produção familiar onde todos os membros da família estão expostos. Os produtores, em função do envolvimento intensivo na produção e comercialização, compram os produtos dos representantes da indústria ou das casas comerciais da cidade. Ganham em troca análise de solo baratinho, ou de graça.

Não reconhecem o risco de usar os agrotóxicos. Vários dos entrevistados sentiram problemas de contaminação, mas não chegam a registrar o caso. Procuram atendimento médico em último caso. É assim em todo lugar. A indústria além de fabricar o veneno, ainda joga no usuário o problema da contaminação. É sempre ele o culpado. Nova Friburgo é cortada por três rios e está integrada em duas zonas de conservação permanente- Macaé de Cima e o Parque Estadual Três Picos.

Pegando esse gancho, vou sugerir aos sambistas da Vila Isabel, que receberam R$3,5 milhões da BASF, para produzir o samba enredo campeão do carnaval carioca de 2013, que se inspirem em outro tema para 2014. Quem sabe: “a rosa fluminense envenenada”. A BASF comemorou como ninguém o campeonato do carnaval. O patrocínio “faz parte de uma estratégia maior da companhia em ações de valorização do produtor rural, conseguimos levar nossa mensagem a uma audiência enorme”, como declarou ao site da empresa, o vice-presidente da Unidade de Proteção de Cultivos, Maurício Russomano, como eles chamam a unidade que vende inseticidas, fungicidas e herbicidas, e faturou em 2011, 4,1 bilhões de euros. Ela é líder mundial na venda de “defensivos agrícolas”, como eles chamam os venenos.


Fonte: Carta Maior

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Artigo: Reflexão - Incomunicabilidade



Refeição Cultural

Estava pensando sobre a validade de escrever ou não na contemporaneidade. Quem lê? Os jovens que decidirão sobre o mundo amanhã estão lendo? Eu sinceramente não sei.

Se estão lendo, estão lendo o que? Mangás, tutoriais para roubar em fases de jogos virtuais, alguns talvez os livros da moda sobre vampiros que dão beijo na boca e se apaixonam...

Qual a validade de escrever aqui neste blog? Fiquei pensando se um dia, ao menos meu filho viesse a ele, sei lá, talvez depois de minha morte, para saber um pouco sobre o que o pai pensava.

Assisti a três filmes de Almodóvar e fiquei pensando muito sobre eles. O diretor é muito bom. Ele consegue trabalhar com todas as temáticas e dramas que envolvem o universo das minorias: preconceito, machismo, drogas, violência, problemas de saúde e misérias. O cara é muito bom. Mas hoje estou perguntando a mim mesmo pra que escrever sobre os filmes.

É isso. Não vou escrever nada não. Em meu diário, escrevi um pouco mais sobre a incomunicabilidade que sinto no mundo atual. Pra onde vai a língua e a linguagem humana?

William

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Artigo: Libertação - Quando terei a minha?


Arquivo X.
Episódios do 7º ano da série.


Refeição Cultural

Por que será que ando em busca de filmes, livros e coisas relacionadas com a liberdade, busca da liberdade ou atos de libertação?

Creio que a ideia de liberdade acompanha todo ser humano. Não sou diferente da grande maioria humana que vive em busca da liberdade.

Por que não sou livre ou não me sinto livre? Talvez esta seja a pergunta apropriada a ser feita e que mereça a reflexão necessária para a resposta.

Eu não estou preso neste momento, no sentido de estar privado de locomoção ou do direito de ir e vir. Então, por que não sou livre?

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ARQUIVO X - LIBERTAÇÃO (episódios 1 e 2)

Assisti novamente a um episódio duplo da antiga série Arquivo X. Os episódios são do 7º ano e se chamam Libertação - parte 1 (Sein und Zeit) e Libertação - parte 2 (Closure).

Os episódios são da mitologia da série, ou seja, episódios que não são casos independentes dos Arquivos X. Pelo contrário, episódios mitológicos têm relação com a vida dos personagens Mulder, Scully, Skinner, Dogget, Mônica Reyes, Canceroso etc.

O nome do episódio 1 faz referência a uma obra do filósofo Heidegger - "Ser e Tempo" - e tem relação com a busca pelo sentido da existência. O episódio 2 tem a palavra Closure que significa "encerramento, fim" em inglês, mas que também pode ter relação com a obra de Heidegger, quando ele se refere a World Disclosure (mundo revelado, manifestação das coisas e das relações delas no mundo).

No episódio duplo, Mulder busca por uma criança desaparecida nas mesmas circunstâncias em que desapareceu sua irmã Samantha quando era criança. Há muita tristeza nos episódios porque abordam o tema de rapto e assassinato de crianças, além de ser o episódio em que morre a mãe de Mulder, a senhora Teena. Mas tanto a garotinha desaparecida quanto a irmã dele não foram encontradas entre as dezenas de corpos de crianças mortas por um serial killer com décadas de crimes.

A teoria que prevaleceu sobre as desaparições sem corpos das crianças vitimadas (incluindo a irmã de Mulder) é que elas foram levadas pelos anjos andarilhos da luz, que salvam crianças momentos antes de mortes marcadas por grande sofrimento. Elas passam a andar nas luzes das estrelas.

Após Mulder ver sua irmã e outras crianças entre as luzes, ele afirma para sua parceira Scully que ele está livre... Sua busca terminou ali. A cena é muito forte e é difícil não se emocionar.

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AINDA NÃO ENCONTREI O QUE PROCURO

Minha existência tem sido uma busca desesperada por algo que ainda não encontrei ou que talvez não saiba nominar. Fui levado pela vida para situações às mais diversas possíveis nestas quatro décadas de existência. E tudo que sei é que falta algo, falta.

Se eu sou livre, por que é que não leio todas as obras literárias que desejo? Por que não me conduzi para viver e me sustentar em função da leitura e do estudo dos grandes autores?

Nos últimos anos, ficava olhando meu pangasius no aquário e refletia o que fazer com ele, porque eu não sabia se a condição dele era favorável ou não. Por um lado, ele tinha comida, água tratada e regularidade. Por outro lado, ele havia crescido, vivido mais de uma década e eu não tinha um habitat maior que aquele aquário de 200 litros para ele.

Eu pensava às vezes se ele não queria se libertar daquele lugar ou daquela existência "regular" e sem liberdade e perspectiva. Quantas vezes eu não fiquei deitado olhando pra ele e pensando que eu me sentia na mesma situação que ele, eu também vivia num aquário! Aí pensava quem se libertaria primeiro...

O pangasius viveu sua vida de peixe de aquário. Eu ainda vivo num aquário. Tenho as mesmas rotinas... não tenho tempo para minhas grandes leituras... não tenho rotina para uma atividade física regular... vivo em tese "livre", porém longe longe do sentimento de liberdade.

Mulder buscou por sua irmã por mais de vinte e cinco anos até que um dia encontrou a verdade. Se libertou.

Eu procuro uma resposta para minha insatisfação e incompletude há mais de trinta anos. Ainda não encontrei minha verdade e aquilo que me pacificará o ser. O pior é que no aquário em que vivo, jamais surgirão as oportunidades de encontrar o que procuro porque minha resposta não está naquele habitat.

Fim.

William 


domingo, 3 de fevereiro de 2013

"O diabo, na rua, no meio do redemunho..." - Grande Sertão: Veredas


Redemoinho. Foto: Wikipedia.
Autor: Jeff T. Alu


Refeição Cultural

"Diadorim levantou o braço, bateu mão. Eu ia estugar, esporeei, queria um meio-galope, para logo alcançar os dois. Mas, aí, meu cavalo f'losofou: refugou baixo e refugou alto, se puxando para a beira da mão esquerda da estrada, por pouco não deu comigo no chão. E o que era que estava assombrando o animal, era uma folha seca esvoaçada, que sobre se viu quase nos olhos e nas orêlhas dele. Do vento. Do vento que vinha, rodopiado. Redemoinho: o senhor sabe - a briga de ventos. O quando um esbarra com o outro, e se enrolam, o dôido espetáculo. A poeira subia, a dar que dava escuro, no alto, o ponto às voltas, folharada, e ramarêdo quebrado, no estalar de pios assovios, se torcendo turvo, esgarabulhando. Senti meu cavalo como meu corpo. Aquilo passou, embora, o ró-ró. A gente dava graças a Deus. Mas Diadorim e o Caçanje se estavam lá adiante, por me esperar chegar. - "Redemunho!" - o Caçanje falou, esconjurando. - "Vento que enviesa, que vinga da banda do mar..." - Diadorim disse. Mas o Caçanje não entendia que fosse: redemunho era d'Ele - do diabo. O demônio se vertia ali, dentro viajava. Estive dando risada. O demo! Digo ao senhor. Na hora, não ri? Pensei. O que pensei: o diabo, na rua, no meio do redemunho... Acho o mais terrível da minha vida, ditado nessas palavras, que o senhor não deve nunca de renovar. Mas, me escute. A gente vamos chegar lá. E até o Caçanje e o Diadorim se riram também. Aí, tocamos." (p. 262)


O PODER DOS MITOS

Essa ideia do "algo" dentro do redemoinho é impressionante. Não sei como está isso nas grandes cidades, mas creio que até hoje no interior essa crença mexe com as pessoas.

Eu cresci cismado de nunca estar na frente de um redemoinho e deixar me envolver por ele.

Quando não é o saci-pererê é o demo...

Aff...

William


Bibliografia:

ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Editora Nova Fronteira. 19ª edição.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Crônica: Riobaldo e Diadorim - Metáforas de todos nós


Veredas mineiras: um amanhecer.
Foto: William Mendes


Refeição Cultural

Riobaldo e Diadorim – Metáforas de todos nós


GRANDE SERTÃO: VEREDAS


Neste nosso viver, nesse mundo duro e trágico, todo mundo, desde criança, precisa se fazer um pouco Riobaldo para sobreviver em seu meio.

Nesta nossa vida de desejos e sonhos impossíveis, todo mundo tem o seu Diadorim; a sua saudade, seus amores e seus pesares.

“Ao tanto com o esforço meu, em esquecer Diadorim, digo que me dava entrante uma tristeza no geral, um prazo de cansado. Mas eu não meditava para trás, não esbarrava. Aquilo era a tristonha travessia, pois então era preciso. Água de rio que arrasta. Dias que durasse, durasse; até meses. Agora, eu não me importava. Hoje, eu penso, o senhor sabe: acho que o sentir da gente volteia, mas em certos modos, rodando em si mas por regras. O prazer muito vira medo, o medo vai vira ódio, o ódio vira esses desesperos? – desespero é bom que vire a maior tristeza, constante então para o um amor – quanta saudade... –; aí, outra esperança já vem... Mas, a brasinha de tudo, é só o mesmo carvão só. Invenção minha que tiro por tino. Ah, o que eu prezava de ter era essa instrução do senhor, que dá rumo para se estudar dessas matérias...” (p. 248)

O entardecer em uma vereda da vida.
Foto: William Mendes


CISMANDO COM AS VEREDAS DO SERTÃO

Eu recheguei a uma conclusão: o Grande Sertão: Veredas não se lê de uma vez não.

Ele é um livro como aquele que usam chamar de "Minutos de Sabedoria".

É um belo livro como a bíblia, que é um antigo volume de histórias, salmos e sabedorias para aqueles que creem em um deus ou no mundo metafísico, pois ali se fala de amor, de solidariedade e também fala de vingança e poder – coisas tão humanas!

Eu posso viver com o Grande Sertão na cabeceira e ir colhendo minutos de profunda reflexão sobre a existência humana.

A beleza pura e agreste das e nas veredas.
Foto:  William Mendes


DIADORIM

Quando comecei a leitura do dia, acabei quedando e viajando nas ideias com as primeiras duas páginas. Pensei o mundo todo. Pensei a vida toda no dizer de Riobaldo citado acima.

Quem não tem na vida o seu Diadorim? Quem não está preso em uma circunstância ou vive com aquele vago desejo impossível ou aquela gastura daquilo que já se foi, passou e ficou queimando dentro de si – “é só o mesmo carvão só”.

Cada um de nós... Penso, por exemplo, meu pai com seu amor pela cidade de São Paulo...

Eu poderia citar uma espécie de Diadorim de cada pessoa próxima que conheço. E olha que o Diadorim de cada um vive lá no fundo no fundo e muitas vezes não é pronunciável...

Um certo luar nas veredas mineiras.
Foto: William Mendes


RIOBALDO

 “Eu estava meio dúbito. Talvez, quem tivesse mais receio daquilo que ia acontecer fosse eu mesmo. Confesso. Eu cá não madruguei em ser corajoso; isto é: coragem em mim era variável. Ah, naqueles tempos eu não sabia, hoje é que sei: que, para a gente se transformar em ruim ou em valentão, ah basta se olhar um minutinho no espelho – caprichando de fazer cara de valentia; ou cara de ruindade!” (p. 62)


Aí, lembrei-me do Riobaldo de cada um de nós. Eu cresci um menino de bom coração, até meio bobo lá naquela infância até meus dez anos. Aí, mudei pra Minas Gerais e caí num mundo estranho, duro, rude.

Tive que me fazer Riobaldo no bairro Marta Helena em Uberlândia, pra andar no meio das gangues, da Falange. Tive que olhar no espelho e fazer cara de ruindade. Pus muito esforço nisso. Deve ter dado certo. Passei a adolescência assim; carreguei isso comigo pra vida adulta. Hoje, vejo meu filho tentando fazer isso. E sei que o coraçãozinho dele é dos bons...

Sertões...

William


Bibliografia:

ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Editora Nova Fronteira. 19ª edição.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Grande Sertão: Veredas - Sabedorias




Refeição Cultural

O VAZIO QUE FICA DA FALTA-DE

"Aí, ái, ôi, espécie de dor em meus cantos, o senhor sabe. Agora eu pateteava..." (p. 244)

"Vou reduzir o contar: o vão que os outros dias para mim foram, enquanto. Desde que da rede levantei, com aquele peso anoitecido, amanhecido nos olhos. Tempo de minha vazante. A ver como veja: tem sofrimento legal padecido, e mordido e remordido sofrimento; assim do mesmo que ter roubo sucedido e roubo roubado. Me entende? (p. 245)

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QUERER UMA OPINIÃO SÁBIA

"Conto ao senhor é o que eu sei e o senhor não sabe; mas principal quero contar é o que eu não sei se sei, e que pode ser que o senhor saiba. Agora, o senhor exigindo querendo, está aqui que eu sirvo forte narração - dou o tampante, e o que for - de trinta combates." (p. 245)

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MANÉRA NO SANGUE!

Riobaldo diz ao visitante que, se ele quiser, pode contar dezenas de batalhas da jagunçagem porque ele tem lembrança de todas. Aí, ele cita vários tipos de batalhas e termina falando que tem até aquelas de armas brancas, na faca. Mas consulta o visitante e concorda com ele que é melhor pular essa parte toda sanguinária.

"Isso é isto. Sobejidão. O senhor mais queria saber? Não. Eu sabia que não. Menos mortandades. Aprecio uns assim feito o senhor - homem sagaz solerte." (p. 246)

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TER RAIVA DE ALGUÉM É DEIXAR ELA MANDAR NAS SUAS IDEIAS

Riobaldo se lembra de uma sabedoria que Zé Bebelo uma vez explicou pra ele:

"Que era: que a gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva mesma nunca se deve de tolerar de ter. Porque, quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a ideia e o sentir da gente; o que isso era falta de soberania, e farta bobice, e fato é. Zé Bebelo falava sempre com a máquina de acerto - inteligência só. Entendi. Cumpri." (p. 253)

William


Bibliografia:

ROSA. João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Editora Nova Fronteira. 19ª edição.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Crônica: Morreu o Dógão, meu pangasius


Esta terça-feira, 29 de janeiro, foi um dia muito triste pra mim. Morreu meu peixe pangasius, carinhosamente chamado de Dógão por nós em casa.

Estou na faixa dos quarenta anos de idade e tive na minha vida dois animais de estimação. O cachorro pequinês Leique me acompanhou por uns treze anos, ou seja, toda a minha infância. Meu peixe pangasius esteve comigo uns treze anos também, desde o início dos anos dois mil.

Sempre gostei de aquarismo. Eu tenho aquários desde os vinte anos de idade.


Ao fundo, vemos meu pangasius em dezembro de 2012.

A famosa frase de O pequeno príncipe - "você é responsável por aquilo que cativa" - talvez esteja intimamente ligada ao fato de eu ter passado toda a vida adulta curtindo peixes e aquários, pois ter aquário requer uma certa rotina e disciplina para manter os aquários em boas condições para se ter peixes saudáveis e longevos.

Ou seja, ter e cuidar de peixes ornamentais é ir no sentido contrário à velocidade do mundo contemporâneo. Vou sentir muito a falta do meu Dógão. Sou dirigente sindical e militante político há uns dez anos e a nossa vida é uma coisa completamente extenuante e sem rotina.


Olha lá meu pangasius com casa cheia.
Meu filho tinha uns 7 anos. Ele, uns 3 anos.


Nos primeiros anos de movimento sindical, eu pelo menos atuava sempre na mesma região e não viajava. Depois de 2006, quando entrei para a Contraf-CUT, passei a viajar com frequência e nos últimos anos quase não sobrava tempo para estar em casa. Acabei jogando parte da responsabilidade de cuidar dos aquários para minha esposa.

Mas uma coisa tive que fazer religiosamente ao longo da vida adulta: fazer manutenção em aquário aos finais de semana, pelo menos a cada quinze dias. Além do prazer de ficar ali lidando com água e peixes e o gostoso que é vê-los saudáveis, também existe a obrigação de "cuidar daquilo que eu cativo" e isso me fazia dar um tempo na mente e no corpo.

Conforme os anos foram passando, eu já me perguntava quem de nós dois iria primeiro, porque nunca poderia imaginar um peixe ornamental durar tanto tempo. 


Até março de 2009, o Dógão tinha companhia.
Depois disso, deu alguma doença na água e os
balasharks morreram e o pangasius albino também.


Meu peixe sobreviveu a todos os peixes que chegaram e morreram no aquário. Sobreviveu várias vezes às doenças que pegou. Sobreviveu às pancadas nos vidros que esta espécie normalmente dá. 

Incrivelmente, sobreviveu a um tombo de um metro e meio de altura quando pulou do aquário em 2011 e fez a minha esposa superar o maior pavor doméstico que tinha na vida (medo dele) e ela teve a coragem de pegá-lo sozinha no chão e salvá-lo.

Sério, cheguei a pensar que esse peixe não morreria antes de mim! Pesquisei algumas vezes para saber quanto tempo viveria um peixe pangasius de aquário ornamental, mas não achei resposta. Normalmente, eles morrem quando crescem por se baterem no aquário.


Meu pangasius em julho de 2010. Eu viajo muito,
mas era muito legal ver os hábitos do Dógão
conforme o horário do dia, quando em casa.


Vou sentir muita falta dele. Da rotina de cuidar do aquário e dele nos finais de semana.

Nos últimos meses, eu ficava muito tempo curtindo ele nos poucos momentos em que estava em casa. Estava muito legal vê-lo comer de noite. Era uma festa suas manobras embaixo da cachoeirinha pegando comida.

As leituras na minha cadeira de praia na sala era uma rotina: ler e olhar pro meu aquário...

O Dógão tinha uma rotina para cada hora do dia. Tinha a hora em que ele relaxava e ficava quietinho num canto... tinha a hora em que ele nadava de um lado para o outro, ia no rumo da bombinha, nadava contra as bolhinhas e voltava. Tinha os momentos de ficar embaixo da cachoeira do filtro externo. À tarde, ele gostava de dar voltas no aquário e subir, encher a boca de ar e afundar soltando bolhas pelas guelras...

A coisa mais impressionante do mundo, era ver o pangasius se recuperar fisicamente dos machucados e feridas. O bicho parecia imortal. Sempre sarava e se recuperava de cortes, feridas e doenças comuns em peixes ornamentais.




Vou sentir falta do meu peixe. A sala está um silêncio insuportável. Vazio. O barulho do aquário às vezes incomodava, mas estava no script.

Já se percebe que a gente chamava ele de Dógão porque viveu tanto quanto nossos cachorros de estimação, não era um peixinho comum que vem, fica um tempinho e quando morre no meio dos outros, é só mais um peixinho pra pegar com a redinha e jogar fora.

Ele não foi pra redinha nem pro lixo.

O pequeno príncipe explica isso. Uma flor em meio a várias, é uma flor. Quando você a cativa, ela passa a ser a SUA flor.

O Dógão não era um pangasius. Era o MEU pangasius. Foram muitos e muitos anos.

Nós lhe demos o tratamento respeitoso que merecia.

Estou triste. Mudar a minha rotina de não ter mais a minha rotina com ele vai ser estranho.

Tem uma coisa nas perdas que impactam muito na vida das pessoas, seja a perda de uma pessoa amada, de um animal de estimação, de um trabalho ou uma rotina de vida. Essas perdas quebram a sensação de estabilidade, de vínculo com algo, um voltar, um ter que fazer, que cuidar.


Sinto hoje um grande vazio na minha sala, na minha casa, nas minhas obrigações. No meu voltar, no que cuidar. Vou sentir falta do Dógão.

William

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Post Scriptum (14/11/13):


O BLOG E A RELAÇÃO COM AS PESSOAS DO MUNDO: A sensação de pertencer a uma rede mundial de comunicação é algo muito legal. Meu blog não é nenhum desses grandes blogs com milhares de acessos e pessoas responsáveis por cuidar dele. Eu o alimento com coisas que eu acho úteis para partilhar e conversar com as pessoas do mundo. Normalmente, esse blog tem uma centena de acessos por dia e isso é gratificante pra quem quer conversar com as pessoas e partilhar ideias e ideologias de uma forma propositiva e pacífica.

A minha postagem sobre meu pangasius que morreu no início deste ano já teve cerca de 500 acessos e, às vezes, tem comentários nas postagens pra liberar. Hoje liberei uma de alguém que chegou em casa e encontrou seu peixe querido morto... Isso torna o nosso diálogo com o mundo uma coisa tão humana e tão rica! Ao mesmo tempo é comovente e nos conforta porque acho que estamos fazendo algo legal... é isso!
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sábado, 19 de janeiro de 2013

Artigo: As aventuras de Pi – 2012 (Life of Pi)


Pôster do filme.


Refeição Cultural

Qual história você prefere?


(Aviso: o texto todo revela partes do filme)


Sinopse (Wikipedia)

Uma família de um dono de um zoológico localizado em Pondicherry, na Índia, decide se mudar para o Canadá, viajando a bordo de um imenso cargueiro. Quando o navio naufraga, Pi consegue sobreviver em um barco salva-vidas. Perdido em meio ao oceano Pacífico, ele precisa dividir o pouco espaço disponível com uma zebra, um orangotango, uma hiena e um tigre de bengala chamado Richard Parker. (filme dirigido por Ang Lee, baseado em livro de Yann Martel)


Introdução

A vida de Pi (acho mais apropriado o nome português que o brasileiro) é um filme com belas imagens, belíssimas para ser sincero.

Eu achei o filme cansativo. Acredito que possa ser uma sensação psicológica relacionada ao enredo, haja vista que o telespectador acaba se envolvendo com a história e, francamente, passar quase um ano perdido no meio do oceano cansaria qualquer um.

Feita a observação sobre a beleza e o cansaço, vamos ao meu comentário e à minha resposta sobre qual história eu prefiro como pergunta Pi ao entrevistador ao final do filme.


Busca por respostas no sagrado

Assim como Pi, passei boa parte da minha vida buscando respostas nas religiões e na fé para o sentido da vida humana e das coisas em si.

Minha curiosidade filosófica me fez crescer católico por influência dos pais, depois ir buscar respostas no espiritismo, na umbanda, na gnose e nos livros em geral – na leitura. O garoto Pi conciliou em sua busca o hinduísmo, o cristianismo e o islamismo. O mundo poderia ter centenas de deuses, poderia ter tido o próprio filho de um único Deus, que poderia inclusive ser chamado de vários nomes como, por exemplo, Alá.

Quando cheguei perto dos trinta anos, eu havia me tornado um ateu e não vi mais sentido algum em respostas esotéricas e metafísicas. Passei a viver em um mundo com visão completamente materialista e baseada nesta única e exclusiva existência minha e de todas as coisas no universo. Claro que eu e tudo permanecemos aqui, vamos e voltamos na forma de átomos.

O entrevistador de Pi lhe diz que o procurou para ouvir sua história e para que Pi o fizesse acreditar em Deus.


As duas histórias a escolher

1- O navio naufraga, sobram em um bote o garoto, o cozinheiro que destratou a família dele por eles serem vegetarianos, a mãe do garoto e o marinheiro asiático bonzinho que comia arroz com molho.

O cozinheiro mata primeiro o marinheiro com a perna ferida, usa ele como isca de peixe e pratica canibalismo. De forma horrenda, mata a mãe do garoto.

O garoto, de forma heroica e com uma fúria animal, consegue matar o cozinheiro. Daí adiante, ele fica por sua conta em alto mar por muitos meses.


2- O navio naufraga, sobram em um bote o garoto, um tigre de bengala, uma hiena, um orangotango e uma zebra.

A hiena mata primeiro a zebra com a perna ferida; depois mata o orangotango com uma mordida fatal no pescoço. O garoto que ia pendurado mais pra fora que pra dentro do bote seria a próxima refeição da hiena. Aparece então o tigre de bengala, escondido no bote e mata a hiena.

A partir daí, garoto e tigre (de nome Richard Parker) passam meses perdidos no mar, duelam entre si na disputa pela sobrevivência, um tentando estabelecer o seu território em relação ao outro. Nos momentos de quase morte, homem e fera se compadecem juntos. O homem passa a alimentar a fera, por entender que dependia dela para sobreviver...


A história que escolhi

Ao final, Pi pergunta ao entrevistador qual história ele escolheria. O filme inteiro mostra a história do tigre de bengala. A outra versão, mais humana e mais sanguinária, foi contada rapidamente após a primeira. O entrevistador escolheu a história do tigre de bengala e Pi lhe mostra que com Deus é a mesma coisa.

Na minha leitura, Pi utiliza a questão da fé e das religiões de forma brilhante para conformar a sua história trágica.

A religião e a fé são criações do homem para dar uma conformação à natureza trágica da vida no mundo. O homem é o único animal que pensa e que sabe sobre a morte, sobre a solidão e sobre a sua fraqueza e insignificância perante o universo e a própria vida no planeta Terra com quase cinco bilhões de anos.

Para sobreviver e estar ali, Pi precisou domar a sua natureza humana animal, matar, comer animais mortos, e fazer tudo que qualquer animal faz instintivamente para sobreviver.

O filme dá várias dicas sobre isso. Vou ficar somente com as metáforas do tigre.

O tigre não é amigo do homem. Ao olhar para o tigre, o garoto só veria um reflexo de si mesmo. Mas não olhe muito e se arrisque tanto porque você pode ver o tigre que existe em você.

O cozinheiro despertou o tigre que existia no garoto. Ele libertou a fera. Na verdade, já na água garoto e tigre são um só. Após matar o cozinheiro, outros desafios viriam. Aquele garoto jamais sobreviveria se não permitisse a sua natureza de tigre. Matar e comer carne era preciso. A cena do peixe morto a pancadas e o choro do garoto é um grande momento. Era preciso alimentar o seu tigre para sobreviver. Depois foi preciso domar seu tigre para acompanhá-lo na empreitada pela vida.

Ao final, a cena mais comovente do filme: em terra, quase morto de fome, o tigre vai embora sem olhar para trás. Justo agora que o garoto poderia se “despedir” de seu tigre e recuperar parte de sua natureza anterior...

Mas não existe despedida ou aceno final para a fera que existe dentro de nós. Somos animais. Por isso, o tigre de bengala não olha para trás. O tigre está lá ainda, dentro de Pi.

Deus, segue sendo a melhor conformação do mundo e explicação para as coisas da existência trágica, como também da perfeição das coisas da existência do universo.


Comentário final

O filme me valeu ao menos para essas várias horas de reflexão sobre fé, religião, coisas da vida material, escolhas, idas e vindas, das feras que habitam em nós. 

Como diz o ditado: todo burrinho pedrês tem um corcel, um cavalo selvagem dentro de si.

É isso!

William

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Post Scriptum (26/5/16, quinta-feira de feriado):

Revi o filme na virada da madrugada. Havia acabado de chegar de uma viagem a trabalho de três dias em Curitiba, Paraná.

Nosso país vive, faz alguns dias, um Golpe de Estado. Afastaram a presidenta Dilma Rousseff e assumiu um bando de corruptos e canalhas. Em menos de duas semanas, estão destruindo quase três décadas de conquistas sociais do povo brasileiro.

Ao ver o filme e reler minhas reflexões nesta postagem, fiquei pensando novamente em nossa fera interior, para nos dar o instinto de sobrevivência nos tempos e condições de calamidade.

A minha fera está comigo, nunca me abandonou.
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sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Artigo de Izaías Almada: A síndrome Safatle/Dutra (II)


Apresentação do blog:

Novo texto do escritor Izaías Almada com relação à hipocrisia de alguns intelectuais do campo da esquerda e o jornalismo conhecido como Partido da Imprensa Golpista (P.I.G.). Muito bom! (os sublinhados são feitos pelo blog)

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Com a contextualização em relação ao título desses meus artigos feita no primeiro deles atempadamente pela amiga Conceição Lemes – do Vi o Mundo - volto ao assunto sobre as opiniões do professor Vladimir Safatle e do ex-governador gaúcho Olívio Dutra.

Por Izaías Almada, em Carta Maior


“Ao afirmar que os condenados do mensalão não seriam desligados do partido, ao aceitar organizar uma contribuição para manter tais condenados a pagarem as multas aplicadas pelo STF e, agora, ao achar normal que alguém condenado em última instância assuma uma vaga no Congresso, o PT age como um avestruz que coloca a cabeça na terra e erra de maneira imperdoável.”


Vladimir Safatle em artigo na Folha de São Paulo.


“... todos os que o conhecem nunca tiveram um minuto de dúvida quanto à sua integridade de caráter e quanto à limpidez de sua trajetória de vida. Entre eles estou eu, admirador que sempre o considerou um militante exemplo pela sua dignidade, a coragem e a lucidez...”


Prof. Antonio Candido, em carta ao deputado José Genoíno.


Com a contextualização em relação ao título desses meus artigos feita no primeiro deles atempadamente pela amiga Conceição Lemes – do VIOMUNDO - volto ao assunto sobre as opiniões do professor Vladimir Safatle e do ex-governador gaúcho Olívio Dutra. Vamos em frente.

Em 1997 tive o privilégio de coordenar, junto com os jornalistas Granville Ponce e Alípio Freire, o livro de memórias de prisioneiros políticos TIRADENTES: UM PRESÍDIO DA DITADURA. Privilégio acrescido com a honra de ter como apresentador da obra o professor Antonio Candido de Mello e Souza, um de nossos mais brilhantes intelectuais. No seu prefácio, o professor Antonio Candido destaca o seguinte trecho dos organizadores à página 16, referindo-se aos memorialistas: “Ninguém é vítima ao aderir a uma causa (a opção pela luta armada) de livre e espontânea vontade, mesmo considerando a possibilidade de uma ou de outra falha no recrutamento de um militante. É curioso notar, inclusive, que de todos os textos que recebemos, não há nenhum em que o autor faça qualquer alusão a uma eventual condição de vítima daquele processo de luta política. E só não comete erros quem não ousa”.

De certa maneira, a autocrítica daquele processo de ousada luta política foi feita por muitos que após e experiência da luta armada se incorporaram à criação do Partido dos Trabalhadores, que teve o professor Antonio Candido como um de seus fundadores. Autocrítica que pressupunha a crença em valores democráticos ainda por conquistar. Entre eles estavam José Genoino e José Dirceu

Vencida a ditadura em alguns dos seus aspectos mais sensíveis e visíveis, como a liberdade de reunião e a volta dos sindicatos, das organizações estudantis, o fim da censura a imprensa, o retorno do ‘habeas corpus’, o direito de ir e vir, o cessar das mortes e desaparecimentos de opositores ao regime, parte representativa da esquerda e não só, organizou e fundou o PT. E partidos políticos, ao que se sabe, se organizam para chegar ao poder político, como é óbvio, e se possível chegar ao mais alto cargo governamental republicano, o que foi conseguido em 2002 com a eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. 

Refém de uma economia de mercado atrelada aos interesses rentistas e corporativos, nacionais e internacionais, bem como de um quadro político partidário anômalo, fisiológico e bastante conservador, o PT – como qualquer outro partido de esquerda progressista e democrático – apesar das seguidas vitórias eleitorais viu-se jogado às feras numa arena onde a plateia dividia-se entre a esperança e o medo. Diariamente, desde então, jornais, rádios, televisões, revistas semanais vêm tentando colocar o PT, seus militantes e seus eleitores no “seu devido lugar”. A casa-grande mostrava e continua a mostrar as garras através dos seus porta-vozes.

Visto pelas lentes da dialética pode-se dizer que para os seus eleitores, o PT trouxe a esperança; para os adversários, em particular os mais conservadores, o medo, o receio. Quem não se lembra da campanha contra Lula em 1989? Do ponto de vista interno, entretanto, há o natural medo de não se corresponder à imensa responsabilidade de governar o país consoante as expectativas criadas e, na contramão desse medo, a esperança dos adversários pelo fracasso nesse sentido. E governar não é ir para um baile de debutantes ou praticar boas ações para ganhar o reino dos céus. Essa, quando muito, será a visão edulcorada de um medievalismo tardio, de uma cultura acadêmica afrancesada, de tempos inquisitoriais ou de exacerbado e ingênuo recato quase religioso diante do poder econômico dominante.

Passados pouco mais de 40 anos, nos quais muito se fez para o estabelecimento de um pensamento único no mundo, após a queda do socialismo real na Europa, proclamando-se para isso até o fim da História, os vários discursos neoliberais vão tendo vencidas as suas datas de garantia de uso, a última delas em 2008, já com algumas trombetas de alarme soando na Europa, nos EUA e no Japão para dias futuros. 

Também após esses 40 anos é possível encontrar a sensibilidade e a solidariedade, entre centenas de milhares de brasileiros, de um professor Antonio Candido, por exemplo, que atento ao que se passa à sua volta, escreve a carta que escreveu ao deputado José Genoíno Neto, de cabeça erguida, ao contrário de outros que abandonaram, senão a luta, os caminhos escolhidos pelo PT.

Também durantes esses 40 anos, novas gerações de brasileiros se formaram e se prepararam para as mais diversas atividades no campo do saber e do fazer. E cada geração, mesmo bebendo nos clássicos a sua formação e especialização, e amparada pelo conhecimento já comprovado e contínuo pelas ciências exatas ou humanas, sabemos que será sempre influenciada pelo confronto das ideias no seu dia a dia, por novas descobertas e avanços da humanidade. Ou por teorias ainda carentes de comprovação, quando não estas são lançadas apenas como estratégia de espalhar a dúvida e a confusão. Nesse confronto, nessa batalha de ideias, será preciso algum discernimento e, se necessário, saber remar contra a maré, quando for o caso. 

Para os mais novos haverá sempre a tentação de reinventar a roda ao assumir a realidade do dia a dia como sendo a expressão de toda e qualquer realidade. Pedir a um partido que faça autocrítica das suas ações no atual contexto da política brasileira é direito que assiste a qualquer cidadão. Até porque, as condenações de uma ação penal ainda não concluída, é bom lembrar, não o foram em “última instância”, mas em ÚNICA INSTÂNCIA. Contudo, é preciso distinguir, no caso do PT, se tal avaliação provém de uma reflexão histórica consistente de quem vive o jogo político por dentro ou é fruto de um desejo subjetivo de escaramuças intelectuais obtidas em salas acadêmicas e redações midiáticas. Ou como diria o grande filósofo Millôr Fernandes: “Certas coisas só são amargas, se a gente as engole”.

Voltarei ao tema.


Escritor e dramaturgo. Autor da peça “Uma Questão de Imagem” (Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos) e do livro “Teatro de Arena: Uma Estética de Resistência”, Editora Boitempo.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Crônica: Férias na Praia Grande (SP)


Leitura, cervejinha, ócio...
Colônia Sinpro SP.


REFEIÇÃO CULTURAL - FÉRIAS NA PRAIA GRANDE SP

Passamos seis dias na colônia de férias do Sinpro São Paulo (Sindicato dos Professores) na cidade de Praia Grande - SP.

Sempre que possível, dou um jeito de irmos lá. É um dos poucos lugares em que eu realmente consigo descansar quando viajo e quando não estou no trabalho e militância.

O lugar é simples, bem simples, e isso é o que me agrada. A comidinha é com sabor caseiro, são poucas vagas – no máximo 20 famílias – e a própria região da praia também é organizada.

Já fui a várias praias dessas bem-conceituadas do Nordeste. Famosas e isso e aquilo. Certa vez, escrevi que não havia diferença alguma em estar em uma praia do Nordeste ou do Sul e estar nas praias da região de Praia Grande - SP. Eu reafirmo o que sempre digo.

Foram dias de leitura, corridinhas e caminhadas na praia, cervejinha na piscina, dormir depois do almoço, passeio na feirinha de artesanato, ócio e não fazer nada com hora marcada, jogar conversa fora...

Para descansar, eu não troco passar uns dias na Colônia por nenhum pacote de viagem desses pomposos de trocentos mil reais.

Fui feliz! Pena que acabou!

William

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Em homenagem à Praia Grande dos paulistas, segue o poema de Alberto Caeiro.


"O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que veem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele."

Alberto Caeiro