sexta-feira, 31 de maio de 2019

310519 - Diário e reflexões - 15M, 30M e 365 dias




Refeição Cultural

As manifestações lideradas pelos estudantes e professores que ocuparam as ruas do Brasil nos dias 15 e 30 de maio foram dois momentos importantes em uma longa jornada de lutas em defesa da educação pública brasileira e em defesa de outros direitos da cidadania como, por exemplo, a luta pela manutenção da previdência pública. Fazer parte dessas manifestações foi gratificante.

Como disse hoje de manhã na TV 247 o jornalista Breno Altman, do site Ópera Mundi, as manifestações foram exitosas dentro do contexto em que se enquadram como formas de resistência aos ataques desferidos pelo novo regime contra o direito a educação pública e universal. No entanto, se considerássemos como uma luta de boxe o embate entre o regime bolsonarista e o povo brasileiro contrário a ele, as manifestações 15M e 30M seriam como socos bem aplicados no adversário, mas isso não significa em absoluto o fim da luta, muito menos vitória. Serão longos rounds e o povo precisará acumular muitos socos bem aplicados como esses dois para acumular forças contra o fascismo de cunho ultraliberal. A elite brasileira lesa-pátria está unida e tem comando internacional para entregar a previdência e o resto do patrimônio nacional aos donos do mundo, alguns banqueiros americanos e seus satélites.

Hoje completa um ano que deixei de representar a classe trabalhadora através de mandatos eletivos. Minha última experiência na representação popular foi na entidade de saúde dos bancários do Banco do Brasil. Foi uma experiência muito intensa, na qual trabalhei entre 8 e 16 horas por dia, praticamente durante os 4 anos de mandato. Nunca havia dormido tão pouco em minha vida, nunca havia enfrentado os representantes do sistema capitalista de forma tão permanente durante os dias do ano. Nunca havia enfrentado em minha vida de representação tanta falta de conhecimento, intolerância e ingratidão por parte de segmentos dos trabalhadores da ativa e aposentados. 

Somada essa última experiência de representação à ingratidão do povo brasileiro em relação à Lula, ao PT e às esquerdas progressistas, povo que é majoritariamente pobre, negro e mestiço e do gênero feminino, povo que elegeu grupos e humanos que não têm a classe trabalhadora como foco e prioridade, somado tudo isso, ainda não superei meu desacorçoo em relação ao ser humano. Hoje, vendo as cisões e rachas no movimento sindical organizado, do qual fiz parte por cerca de duas décadas, não sinto estímulo algum para me engajar em alguma frente de luta popular sabendo que teria que escolher lados e grupos nos quais militei em unidade por tanto tempo. O ódio inoculado no povo brasileiro como estratégia de destruição da esquerda e das políticas dos governos do PT chegou ao seio do movimento organizado. Todos perdem com isso. Todos.

Ao retomar depois dos 50 anos os estudos de línguas, linguagens e comunicação e ter contato novamente com as teorias linguísticas e discursivas e saber que a base da linguagem verbal é a comunicação entre os seres humanos, e pensar o quanto ando sem vontade de interação com os seres humanos que foram influenciados por sistemas totalitários de manipulação comportamental, fica cada vez mais difícil de escrever e falar o que penso. Não represento ninguém e de certa forma falamos para quase ninguém. Não tem sentido escrever opiniões sobre algo e o texto ser lido por alguns nobres leitores. As merdas feitas pelos nossos adversários, com as técnicas modernas, são vistas, ouvidas e redistribuídas por milhões de seres.

Apesar de tudo, sempre estarei na torcida pelo meu lado da classe, a classe trabalhadora mundial. Odeio o capitalismo, odeio os representantes desse sistema. Não me importo se vierem as guerras que alimentam esse sistema de exploração da imensa maioria dos seres humanos por uma ínfima parcela deles.

segunda-feira, 27 de maio de 2019

270519 - Diário e reflexões - Tempus Fugit


Imagem da internet.

Refeição Cultural

Estava pensando a respeito das expressões latinas memento mori, memento vivere e carpe diem quando vi na internet a imagem de uma moeda com essas expressões. Junto a elas, vemos uma ampulheta ao centro onde o tempo escorre, da vida para a morte, com a expressão tempus fugit. Fiquei impressionado pela profundidade da imagem e pelos significados contidos nela.

Após ver a imagem, li a respeito dos significados das expressões em questão e outros conceitos que vieram com a leitura como, por exemplo, o estoicismo. Todos trazem reflexões a respeito de como lidar com a vida, com a morte, com o cotidiano; como encarar tristezas e frustrações, como aproveitar melhor o tempo indeterminado que temos de existência, que pode ser longa, que pode ser breve. Como ter a humildade de se lembrar que todos somos mortais, mesmo aqueles que estão por cima em determinado momento.

A existência humana tem pelo menos duas dimensões perceptíveis em seu cotidiano, por sermos dotados de características evolutivas distintas dos demais seres vivos: além de lidarmos com o aqui e o agora, usamos nosso cérebro para o ontem e o amanhã. Temos a relação com o mundo exterior em que habitamos e temos a relação conosco mesmo, para dentro de nós. Ambas dimensões são extremamente complexas e com relação de dependência para uma existência satisfatória.

Em algum momento de nossa existência passamos a perceber mais a questão da passagem do tempo, do tempo que voa ou "foge"; ou talvez nunca percebamos o tempo, dependendo do estado de consciência ou do tempo de existência mesmo. 

A percepção do tempo sempre esteve presente em minha existência. Quando olho para o ontem, quando vejo na memória meus tempos vividos, e quando tento me lembrar da sensação e percepção daqueles tempos, percebo como era tensa a minha relação com cada tempo de insatisfação que vivia: na infância; na adolescência; na fase adulta das últimas décadas.

Aqui e agora, percebo mais ainda que o tempo foge, voa; escoa. Ao mesmo tempo em que a consciência adquirida com as décadas de existência quer o carpe diem, o memento vivere, o corpo que habito, marcado com toda a história das dores e labores que carrega, vai me lembrando do memento mori, que o tempo é implacável na existência dos seres vivos. Tempus fugit...

As escolhas que passamos a fazer nessas condições do aqui e agora vão ficando cada vez mais difíceis porque tempus fugit. Olhamos para fora e olhamos para dentro e vemos tanta incompletude, tanta coisa a se fazer, e tanto tempo que seria necessário... 

Difíceis são as escolhas a serem feitas em nossa única existência. Os tempos lá fora são de total destruição de tudo que ajudamos a construir em décadas. O tempo cá dentro deveria ser de busca de um pouco de paz.

Paz parece ser algo tão distante! Seja lá fora; seja cá dentro.

William

segunda-feira, 20 de maio de 2019

200519 - Diário e reflexões - Visão do Paraíso


Natureza morta - adormecida  - e céu azul.
Foto de William Mendes, 03/7/16, DF.

Refeição Cultural

"Não se quis, com efeito, mostrar o processo de elaboração, ao longo dos séculos, de um mito venerando, senão na medida em que, com o descobrimento da América, pareceu ele ganhar mais corpo até ir projetar-se no ritmo da História..." (sobre o mito de um suposto Paraíso Terreal, Holanda explicando sua obra)


Li o prefácio à segunda edição, de 1968, e o primeiro capítulo "Experiência e fantasia", da obra "Visão do Paraíso", de Sergio Buarque de Holanda, publicado pela primeira vez em 1959. Estou coletando informações para escrever um trabalho de faculdade sobre as manifestações e pontos de vista dos ibéricos, sobretudo os espanhóis, em relação ao período de conquista das Américas.

Texto muito interessante o de Holanda. Para mim, foram esclarecidas algumas dúvidas. Eu achava que Colombo não havia feito referências textuais em seus escritos de viagens a um suposto Éden ou Paraíso Perdido na terra. É que não acabei de ler ainda os textos relativos às quatro viagens. O primeiro é gigante e de leitura meio chata e repetitiva. Holanda diz que na terceira viagem Colombo faz referência a esse Paraíso das escrituras sagradas da fé católica.

"Ao chegar diante da costa do Pária, esse pressentimento, que aparentemente animara ao genovês desde que se propusera alcançar o Oriente pelas rotas do Atlântico, acha-se convertido para ele, e talvez para os seus companheiros, numa certeza inabalável que trata de demonstrar com requintes de erudição. Assim, na carta onde narra aos Reis Católicos as peripécias da terceira viagem ao Novo Mundo - 'outro mundo', nas suas próprias expressões, propõe-se seriamente, logo que tenha mais notícias a respeito, mandar reconhecer o sítio abençoado onde viveram nossos primeiros pais."

O ensaio de Holanda é muito interessante em diversas questões como, por exemplo, ao explicar a relação mais pragmática dos navegadores e escritores portugueses em relação ao maravilhoso, ao suposto evento metafísico. Os portugueses já tinham no século XV longa experiência em se lançarem ao mar rumo ao desconhecido, sendo os continentes africano e asiático os objetivos daquelas décadas do século XV.

"O gosto da maravilha e do mistério, quase inseparável da literatura de viagens na era dos grandes descobrimentos marítimos, ocupa espaço singularmente reduzido nos escritos quinhentistas dos portugueses sobre o Novo Mundo. Ou porque a longa prática das navegações do Mar Oceano e o assíduo trato das terras e gentes estranhas já tivessem amortecido neles a sensibilidade para o exótico, ou porque o fascínio do Oriente ainda absorvesse em demasia os seus cuidados, sem deixar margem a maiores surpresas, a verdade é que não os inquietam, aqui, os extraordinários portentos, nem a esperança deles..."

Enfim, conhecimentos interessantes adquiridos nessas leituras que estou fazendo nesta semana.

William

sexta-feira, 17 de maio de 2019

170519 - Diário e reflexões - Anacronismos


Veredas uspianas.
Foto de William Mendes.

Refeição Cultural

Os tempos são de capitalismo selvagem. Cada vez mais, menos homens têm toda a riqueza existente no planeta, e mais gente não tem nada, sequer para se manter viva. A ciência e tecnologia não foram usadas para o bem comum, e sim para concentrar bens nas mãos de uns poucos.

Os tempos são de tristeza, tempo de desemprego para a classe trabalhadora; tempo de retirada dos direitos da cidadania; tempo de desfazimento de um país de futuro promissor que foi colônia e buscava sua independência e se viu entregue novamente a outro império - sem sequer haver resistência.

Os tempos são de constrangimentos, tempo em que todo aquele que se importa com o outro se sente mal ao ver um pai que não pode pagar um pastel de feira a sua filha; tempo em que a miséria geral faz você se sentir um privilegiado por ter coisas básicas como casa, carro, comida, contas em dia.

Parte de nós é gente anacrônica, fora de seu tempo. Gente que defende distribuição de renda; que preferiria investimento em educação pública ao invés de armas e presídios; que acredita na inclusão do pobre no orçamento do Estado como parte da solução para a economia do país; que defende a tributação maior dos mais abastados.

Em alguns espaços, sei que estou meio fora de meu tempo. Noutros, minhas ideias e sentimentos carregam a certeza do acerto, em meio a uma onda de pestilência que invadiu o organismo social.

Retomar os estudos acadêmicos aos 50 anos faz você se sentir meio deslocado nos espaços juvenis. Fazer o que? Nos 20 anos anteriores dediquei cem por cento de minha vida a representação dos trabalhadores. Neste instante, não consigo me concentrar para fazer um trabalho escolar com prazo dado porque minha cabeça não desliga dos acontecimentos do país. Talvez tenha errado em querer voltar.

Por outro lado, em tempos de trumpismo, bolsonarismo, ascensão do fascismo, fake news como notícia e informação, ódio e intolerância enquanto regras de convivência social, cada um por si e dane-se o outro, e outras merdas do tipo, eu pertenço ao grupo de seres humanos que se situa no espectro político da esquerda, que defende a liberdade, a igualdade, a fraternidade, que é contra o preconceito e a discriminação de qualquer segmento social, que deseja o fim do modo de produção capitalista e que quer um mundo mais inclusivo e sustentável, mais cooperativo, com respeito ao ser humano e à natureza (enfim, mais comunista e socialista).

Ando me sentindo bem deslocado no mundo. Tem hora que dá vontade de pedir para o trem parar e saltar do vagão. Mas o trem é a vida e eu não desisto dela não. Mudemos a rota do trem, então.

William


Post Scriptum:

Caixa de Assistência (Cassi) - Hoje, fui ao terminal de autoatendimento do Banco do Brasil e depositei o meu voto como cidadão da comunidade de associados da Cassi e Previ, entidades de saúde e previdência dos trabalhadores da ativa e aposentados do maior banco público do país. Está havendo uma consulta sobre mudanças estatutárias na Caixa de Assistência. Foi uma sensação estranha. Depois de quase 20 anos de representação deste segmento social, onde participei da construção de quase todas as questões de direitos dos bancários da ativa e aposentados desta comunidade, foi a primeira vez que votei em algo que não participei da construção, não opinei, não decidi durante o processo. Após passar quatro anos lutando pelos associados, pela Cassi e seu modelo assistencial e por seus funcionários - lutando como uma mãe que defende a vida de seu filho -, e pelo respeito a escolha dos associados no processo eleitoral de 2018, decidi desde então não mais me manifestar publicamente sobre essa entidade tão querida por todos nós. Desejo que os associados e suas entidades representativas, a Caixa de Assistência e o patrocinador encontrem o caminho do fortalecimento e perenidade da autogestão mais importante do país, e que ela continue sendo uma Caixa de Assistência que acolha a tod@s.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

130519 - Diário e reflexões - Cristóvão Colombo


Flores nas veredas uspianas.
Foto: William Mendes.

Refeição Cultural

Literatura Hispano-Americana: conquista e colônia

"La nacionalidad es un destino: un destino cargado de penas que han de purgarse y de glorias que han de ganarse, de dejaciones que duelen como pecados y de irredentismos que chisporrotean como esperanzas." (Ignacio B. Anzoátegui)


Um dos eixos temáticos da matéria é conhecer e analisar os documentos existentes - cartas, diários, relatos - sobre o período das invasões europeias às Américas, conhecidas por nós como período dos "descobrimentos". Cristóvão Colombo é um dos personagens que estudamos.

Colombo realizou quatro viagens às Américas. A epígrafe que coloquei na abertura está no prólogo de uma edição que apresenta as quatro viagens de Colombo, e o organizador da edição - Ignacio B. Anzoátegui -, nos informa que há dúvidas sobre a origem do navegador, se de Gênova ou da Galícia, mas que diz importar pouco a questão da origem para as façanhas que o destino reservou a Colombo.

O começo do relato é como um termo de compromisso. Colombo diz aonde vai e o que pretende, demonstra sua lealdade aos reis de Espanha e parte com três embarcações - Santa Maria (a Galega), Pinta e Niña.

"Vine a la villa de Palos, que es puerto de mar, adonde armé yo tres navíos muy aptos para semejante fecho, y partí del dicho puerto muy abastecido de muy muchos mantenimientos y de mucha gente de la mar, a 3 días del mes de agosto del dicho año en un viernes, antes de la salida del sol con media hora, y llevé el camino de las islas de Canaria de Vuestras Altezas, que son en la dicha mar océana, para de allí tomar mi derrota y navegar tanto que yo llegase a las Indias, y dar la embajada de Vuestras Altezas a aquellos príncipes y cumplir lo que así me habían mandado; y para esto pensé de escribir todo este viaje muy puntualmente de día en día todo lo que hiciese y viese y pasase, como adelante se verá..."

Minha leitura a respeito das viagens de Colombo está sendo feita em duas edições diferentes. Uma organizada por Consuelo Varela e outra por Ignacio B. Anzoátegui. Os textos são gigantes, é claro. Minha leitura está baseada em algumas passagens dos diários. É possível sentir o que foram as expedições e os eventos de chegada e permanência às terras desconhecidas a oeste da Europa a partir do século XV.

Colombo tinha dois controles de navegação, um com as milhas verdadeiras rumo a oeste, e outro com valores menores para não assustar sua tripulação. Lembramos que ao navegar a oeste depois dos pontos conhecidos por todos o destino era uma aposta.

Li a respeito da história de Colombo na Wikipedia em espanhol, estou lendo os diários da primeira viagem, entre 1492 e 1493 e revi o filme "1492, a conquista do paraíso" (1992), dirigido por Ridley Scott. Além disso, vi um programa espanhol sobre Colombo - "El enigma Cristóbal Colón". Já tivemos aula sobre o tema, no início do curso.

História é sempre um tema instigante, ainda mais no contexto em que estudo Letras, Língua e História.

William

quinta-feira, 9 de maio de 2019

090519 - Diário e reflexões - Que aprendi hoje?



Relva florida na USP.
Foto: William Mendes.

Refeição Cultural

Texto e Discurso em Língua Espanhola

Todo dia é dia de aprender algo novo. De reaprender algo, melhorando ou revendo conceitos. De ser menos ignorante que o instante anterior ao aprendizado. E, ao aprender algo novo, sermos mais conscientes e menos manipuláveis. 

Não por acaso, o regime fascista tem na destruição total da educação pública e autônoma um pilar de seu projeto de poder, porque ao eliminar as oportunidades de crescimento intelectual através de uma educação emancipadora, facilita-se a destruição do país e dos direitos do povo pela manipulação e desagregação das classes populares e trabalhadoras: dividir para governar.

Na aula de hoje, lemos um conto argentino para identificarmos as questões de linguagem que estamos estudando neste semestre. A temática desses dias é sobre objetos de discurso, referenciação, correferenciação, categorização e recategorização. 

O tema não é fácil para mim, pois tenho dificuldade em gramática, desde sempre, principalmente sintaxe. Em linhas gerais, nesta questão de rede referencial na linguagem vemos como os objetos de discurso são retomados ao longo do texto a partir de sua primeira aparição, seja por pronomes, por outras palavras, por frases e orações etc.

O conto que lemos é de Rodolfo Walsh - Esa mujer -, publicado pela primeira vez em 1965. O autor foi jornalista e escritor argentino, militante de esquerda, assassinado em 1977 pela ditadura civil-militar em seu país e é dado como desaparecido até hoje (li na Wikipedia sobre ele). Sem citar nome próprio, a personagem de quem se fala nos remete a Eva Perón e, por conseguinte, ao peronismo e ao golpe militar que destituiu Perón em 1955.

Além de aprender um pouco mais sobre o tema das referências textuais e suas retomadas ao longo do texto, o conteúdo da aula aguçou em mim a curiosidade para saber mais sobre o peronismo e Evita. Ademais de gostar muito de história geral e de literatura, tenho bastante afinidade pelas questões do mundo da classe trabalhadora, como o sindicalismo.

Eu não sabia da história do corpo embalsamado de Evita, que estava em exposição na sede da central sindical pela afinidade que ela tinha com a classe operária. O corpo de Evita sumiu após o golpe de Estado, e só se descobriu o paradeiro quase duas décadas depois.

É isso. Todo dia é dia para aprendermos algo novo, mesmo quando já passamos de meio século de existência.

William

domingo, 5 de maio de 2019

O Capital - O processo de troca (Karl Marx)




Refeição Cultural

"O dinheiro é um cristal gerado necessariamente pelo processo de troca, e que serve, de fato, para equiparar os diferentes produtos do trabalho e, portanto, para convertê-los em mercadorias. O desenvolvimento histórico da troca desdobra a oposição, latente na natureza das mercadorias, entre valor de uso e valor..." (P. 111, O Capital)


Retomando a leitura de Marx, agora do capítulo dois de O Capital, que trata na primeira parte da mercadoria e dinheiro, vamos nos acostumando com o estilo do filósofo, que por vezes é bastante irônico ao descrever fatos e apresentar ideias. Ele chega a dar vida e voz às mercadorias em seus textos como se fossem personagens de um romance.

"Não é com seus pés que as mercadorias vão ao mercado, nem se trocam por decisão própria. Temos, portanto, que procurar seus responsáveis, seus donos..."

Marx nos lembra que as mercadorias são coisas; coisas com valores de uso e valores. Como mercadorias serão trocadas, alienadas mediante consentimento e vontade de seus proprietários, gerando relações econômicas e jurídicas.

"Os papéis econômicos desempenhados pelas pessoas constituem apenas personificação das relações econômicas que elas representam, ao se confrontarem."

Para o proprietário, sua mercadoria não tem valor de uso direto; ele a leva ao mercado e lá ela é valor de uso para o comprador. O valor de uso para o proprietário é o fato de sua mercadoria ser depositária de valor, meio de troca.

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"Todas as mercadorias são não valores de uso para os proprietários, e valores de uso, para os não proprietários."
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Mas como as mercadorias têm de mudar de mãos, elas têm de realizar-se como valores, antes de poderem realizar-se como valores de uso.

E também tem a questão do trabalho humano inserido no valor das mercadorias:

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"Só através da troca se pode provar que o trabalho é útil aos outros, que seu produto satisfaz necessidades alheias."
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Em relação à questão que já lemos no capítulo anterior, sobre valor relativo e valor equivalente, temos que:

"Todo possuidor de mercadoria considera cada mercadoria alheia equivalente particular da sua, e sua mercadoria, portanto, equivalente geral de todas as outras mercadorias."

Mas todos pensam assim, aí está o problema. Depois nos é explicado que "apenas a ação social pode fazer de determinada mercadoria equivalente geral".


ANTROPOMORFISMO - Marx brinca com características e aspectos humanos nas descrições sobre a mercadoria.

"Igualitária e cínica de nascença, está sempre pronta a trocar corpo e alma com qualquer outra mercadoria, mesmo que esta seja mais repulsiva do que Maritornes."

E aqui vemos quão culto era Karl Marx, ao citar cientistas, filósofos, economistas, escritores e personagens de obras clássicas. Ele cita uma personagem de Cervantes, do Dom Quixote de La Mancha.

Segundo a Wikipedia, Maritornes é uma personagem da obra que era "...ancha de cara, llana de cogote, de nariz roma, del un ojo tuerta y del otro no muy sana. Verdad es que la gallardía del cuerpo suplía las demás faltas: no tenía siete palmos de los pies a la cabeza, y las espaldas, que algún tanto le cargaban, la hacían mirar al suelo más de lo que ella quisiera."

Por fim, ao explicar a questão da equivalência, Marx explica o papel do dinheiro que citamos no epigrama que começa a postagem. Ele diz que os produtos do trabalho se convertem em mercadorias no mesmo ritmo em que determinada mercadoria se transforma em dinheiro.

Paro a postagem por aqui e retomamos depois. Para ler as anteriores, clique AQUI.

Abraços, 

William
Um leitor


sábado, 4 de maio de 2019

Leitura - La invención del "Quijote" (F. Ayala)


Texto de Ayala está na edição da Alfaguara,
comemorativa do IV centenário da obra.

Refeição Cultural

Releitura do texto crítico de Francisco Ayala sobre a obra máxima de Miguel de Cervantes, Don Quijote de La Mancha (1605-1615).

O texto começa assim:

"Quien se proponga considerar el proceso de creación de la prodigiosa figura literaria de don Quijote, hará bien en detenerse, ante todo, a medir el alcance del siguiente hecho: para el lector actual, el protagonista de la novela - o, mejor dicho, la pareja protagonista - posee una existencia anterior al texto mismo. Don Quijote y Sancho constituyen ante él, en efecto, dos presencias inmediatas, dos seres ficticios de quienes ha oído hablar antes que hubiera pensado siquiera en ponerse a leer su historia, dos hombres cuya imagen ha visto reproducida muchas veces, cuyo carácter le es familiar, y algunos de cuyos hechos le han sido referidos o conoce como proverbiales..."

Ayala levanta questões de criação literária muito interessantes. 

Importante lembrar aos leitores que o clássico Dom Quixote passou por diversos tipos de interpretação ao longo de quatro séculos. A obra foi compreendida corretamente como sátira aos romances de cavalaria, comuns naquela época; mas teve também por parte de críticos e leitores interpretações das mais variadas formas, principalmente no período romântico, quando se viam sentidos metafóricos nas figuras do Quixote e de Sancho.

Com o passar do tempo, houve também uma inversão de percepção na leitura da obra. Para os leitores do século XVII, o cenário e o cotidiano descritos nas aventuras do cavaleiro manchego eram reconhecidos pelos leitores, tinham verossimilhança com o dia a dia deles. O que chamava a atenção dos leitores pelo ineditismo e loucura eram justamente as figuras estrambóticas de Dom Quixote e Sancho Pança.

Passados séculos de existência da obra, hoje o que nos é "comum" e conhecido são justamente as figuras dos protagonistas, mesmo para a imensa maioria de pessoas que nunca leu o clássico, e nos custa acreditar que o cenário e o cotidiano descritos no romance cervantino eram um espelho da realidade do século XVII.

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"El texto de 1615 cuenta ya con el conocimiento que el lector tiene de sus protagonistas como entes dotados de existencia autónoma. Y, en verdad, la posición de ese lector de 1615 frente al Quijote es esencialmente idéntica a la del lector actual, en contraste con la de aquel que en 1605 comenzara a leer las palabras: 'En un lugar de la Mancha...' Don Quijote existía ahora por sí mismo; Cervantes había operado con pleno éxito la creación de su héroe."
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Enfim, a releitura deste texto crítico reavivou em mim a figura fantástica do Quixote e de seu mais que encantador escudeiro, Sancho Pança.

Obra eterna. Chorei e ri muito quando li Dom Quixote.

William


Post Scriptum:

Leiam AQUI os comentários que fiz da leitura do texto de Ayala em 2008.

domingo, 28 de abril de 2019

Lula fala e denuncia a farsa contra ele (26/04/19)


Comentário do blog:

Reproduzo abaixo, pronunciamento do presidente Lula, divulgado pelo site da Fórum, no qual ele denuncia o processo espúrio orquestrado por forças opositoras para acabar com a soberania do Brasil e os direitos do povo brasileiro, processo que teve como etapas os ataques ao PT, o envenenamento do povo com um ódio aniquilador, o impeachment sem crime da presidenta Dilma e a prisão de Lula, que seria hoje o presidente do Brasil, caso não houvessem as fraudes que o impediram de concorrer às eleições presidenciais de 2018.

Compartilhem e divulguem para tod@s aqueles que não suportam mais tanta injustiça e destruição do Brasil e do povo brasileiro. 


Imagem e vídeo de Ricardo Stuckert.

Folha cortou pronunciamento que Lula fez antes da entrevista


Eu sei muito bem o lugar que a história nos reserva, meus companheiros e companheiras. E sei também quem estará na lixeira dos tempos, quando o povo vencer mais essa batalha”, diz um dos trechos da mensagem do ex-presidente

Fonte: Fórum

O vídeo divulgado neste sábado (27) pela Folha de S. Paulo como sendo a íntegra da entrevista concedida por Lula aos jornalistas Florestan Fernandes Júnior e Mônica Bergamo, do El País e da Folha, na última sexta-feira (26), na verdade, não mostrava a introdução gravada pelo ex-presidente.

Lula fala que vai fazer um pronunciamento antes das perguntas. Esta parte foi cortada. A Fórum mostra, de fato, a íntegra do vídeo (veja AQUI), filmado pelo fotógrafo Ricardo Stuckert, que acompanha o ex-presidente há anos.


Acompanhem a íntegra do pronunciamento de Lula antes da entrevista:


Minha condenação injusta e minha prisão ilegal há mais de um ano são mais que o resultado de uma farsa jurídica. São consequências diretas do fracasso social, econômico e político do golpe do impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff em 2016.

Aquele golpe começou a ser preparado em 2013, quando a Rede Globo de Televisão usou sua concessão pública para convocar manifestações de rua contra o governo e até contra o sistema democrático. Tudo valia para tirar o PT do governo, inclusive a mentira e a manipulação pela mídia.

Isso aconteceu quando nossos governos tinham alcançado nossas maiores marcas. Multiplicamos o PIB por várias vezes, chegamos a 20 milhões de novos empregos formais, tiramos 36 milhões de pessoas da miséria, levamos quase quatro milhões de pessoas às universidades, acabamos com a fome, multiplicamos de modo espetacular a produção e comércio da agricultura familiar, multiplicamos por quatro a oferta do crédito, e isso em meio a uma das maiores crises do capitalismo na história. E ainda assim praticamente quadruplicamos as nossas exportações.

O Brasil que estávamos criando junto com o povo e as forças produtivas nacionais foi retratado pela Rede Globo e seus seguidores da imprensa como um país sem rumo e corroído pela corrupção.

Nem em 1954 contra Getúlio, nem em 1964 contra Jango se viu tanta demonização contra um partido, um governo, um presidente. Centenas de horas do Jornal Nacional e milhares de manchetes e capas de revistas contra nós sem nenhuma chance de defender nossas opiniões.

Mesmo assim, em 2014 derrotamos os poderosos nas urnas pela quarta vez consecutiva.

Para quem não conhece o Brasil, nossas elites dizimaram milhões de indígenas desde 1500, destruíram florestas e enriqueceram por 300 anos às custas de escravos, tratados como se fossem bestas, colonos e operários tratados como servos, divergentes como subversivos, mulheres como objetos e diferentes como párias. Negaram terra, dignidade, educação, saúde e cidadania ao nosso povo.

Mas a Globo, o mercado e os representantes dos estrangeiros, os oportunistas da política e os exploradores da gente simples disseram que era preciso tirar o PT do governo para resolver os problemas do Brasil e do povo brasileiro. Hoje, o povo sabe que foi enganado.

Criamos o PT em 1980 para defender as liberdades democráticas, os direitos do povo e dos trabalhadores. O acúmulo das lutas do PT e da esquerda brasileira, do sindicalismo, dos movimentos sociais populares nos levou a consolidar um pacto democrático na Constituinte de 1988.

Esse pacto foi rompido pelo golpe do impeachment em 2016 e por seu desdobramento que foi minha condenação sem culpa e minha prisão em tempo recorde para que eu não disputasse as eleições.

Reafirmo minha inocência, comprovada por todos os meios de prova nas ações em que fui injustamente condenado pelo ex-juiz Sérgio Moro, sua colega substituta e três desembargadores acumpliciados do TRF-4.

Repudio as acusações levianas dos procuradores da Lava Jato e denuncio Dallagnol, que nunca teve a coragem de sustentar, ante meus olhos, as mentiras que levantou contra mim, minha esposa e meus filhos.

Mais de um ano depois de minha prisão arbitrária está cada dia mais claro para o povo brasileiro que fui injustiçado para não ser candidato às eleições presidenciais no ano passado, nas quais, segundo todas as pesquisas de opinião pública, teria sido eleito em primeiro turno contra todos os adversários.

O povo sabe que minha prisão teve motivos políticos. Posso reafirmar com a consciência tranquila por ser inocente. Os que me condenaram, não.

Fui condenado sem prova e sem crime. Minha pena ilegal foi agravada pelo arbítrio de três desembargadores do TRF-4, tão parciais quanto o juiz Sérgio Moro.

Os recursos de minha defesa laceados em argumentos sólidos foram ignorados burocraticamente pelo STJ. Meus direitos políticos foram negados, contra a lei, a jurisprudência e uma decisão da ONU pela justiça eleitoral.

Mesmo assim, minhas ideias e meus ideais continuam vivos na memória e no coração do povo brasileiro. Mantenho minha esperança e confiança no futuro num julgamento justo, por causa das generosas manifestações de solidariedade que recebo todos os dias aqui em Curitiba por parte dos companheiros maravilhosos da Vigília e de todos os cantos do Brasil e do mundo.

Eu sei muito bem o lugar que a história nos reserva, meus companheiros e companheiras. E sei também quem estará na lixeira dos tempos, quando o povo vencer mais essa batalha. Mais importante do que isso: sei que a injustiça cometida contra mim recai sobre o povo brasileiro, que perdeu direitos, oportunidades, salário justo, emprego formal, renda e esperança num futuro melhor.

Hoje, estou aqui para falar com jornalistas, como sempre fiz ao longo da minha vida. Na verdade, para falar com o nosso povo. Esse direito me foi negado por sete meses e durante o processo eleitoral, o que estava absolutamente fora da lei.

Mas guardo comigo uma certeza: preso ou livre, censurado ou não, tenho com o povo brasileiro uma comunhão eterna que o tempo não vai apagar. Contra todos os poderosos, contra a censura e a opressão, estaremos sempre juntos por um Brasil melhor, mais justo, com oportunidades para todos.

Obrigado!

Luiz Inácio Lula da Silva

sábado, 20 de abril de 2019

O Capital - Ainda o fetichismo da mercadoria no modo de produção capitalista



Refeição Cultural

"O reflexo religioso do mundo real só pode desaparecer quando as condições práticas das atividades cotidianas do homem representem, normalmente, relações racionais claras entre os homens e entre estes e a natureza. A estrutura do processo vital da sociedade, isto é, do processo da produção material, só pode desprender-se do seu véu nebuloso e místico no dia em que for obra de homens livremente associados, submetida a seu controle consciente e planejado. Para isso, precisa a sociedade de uma base material ou de uma série de condições materiais de existência, que, por sua vez, só podem ser o resultado natural de um longo e penoso processo de desenvolvimento." (Pág. 101, O Capital, Karl Marx, 1867 - o sublinhado é do blog)



Ao reler as quinze páginas da parte d'O Capital em que Marx fala do fetiche da mercadoria - "O fetichismo da mercadoria, seu segredo" -, a gente fica refletindo sobre um monte de coisas. (postagem anterior AQUI)


Outro dia, um colega de leituras me contou que na faculdade a turma dele estudou o ano todo O Capital e o professor disse aos alunos que entender a questão do fetichismo da mercadoria era algo importante. Me deu um certo alivio saber que o tema é espinhoso mesmo.


Os exemplos que Marx nos dá das diversas formas de produção material em determinadas sociedades ou comunidades baseadas na divisão social do trabalho, além da forma atual predominante, a do modo de produção capitalista, em que o objetivo da produção material é a produção de mercadorias, nos faz refletir que certos objetivos que perseguimos ao longo de nossa vida de representação e organização social da classe trabalhadora não são objetivos impossíveis, irreais ou utópicos; pelo contrário, são factíveis.


É possível nos organizarmos enquanto sociedade e enquanto seres livres de formas associativas e ou cooperativas para a produção material de tudo que necessitamos para nossa vida e respeitando a individualidade de cada participante daquele sistema social. É possível. Já foi prática comum de diversos povos e coletividades ao longo da história humana.


Num dos exemplos, a divisão social do trabalho se dá numa indústria patriarcal rural:


"Constitui um exemplo próximo a indústria patriarcal rural de uma família camponesa, que produz, para as próprias necessidades, trigo, gado, fio, tela de linho, peças de roupa etc. Essas coisas diversas são, para a família, produtos diversos do seu trabalho, mas não se confrontam entre si como mercadorias. As diferentes espécies de trabalho que dão origem a esses produtos - lavoura, pecuária, fiação, tecelagem, costura etc. - são, na sua forma concreta, funções sociais, por serem funções da família, que tem, como a produção de mercadorias, sua própria e espontânea divisão do trabalho. Diferenças de sexo e de idade e as condições naturais do trabalho, variáveis com as estações do ano, regulam sua distribuição dentro da família e o tempo que deve durar o trabalho de cada um de seus membros." (p. 99)


Noutro exemplo, Marx cita associativismo e cooperativismo de homens livres:

"Suponhamos, finalmente, para variar, uma sociedade de homens livres, que trabalham com meios de produção comuns e empregam suas múltiplas forças individuais de trabalho, conscientemente, como força de trabalho social. Reproduzem-se aqui todas as características do trabalho de Robinson (personagem Robinson Cruzoé, citado antes), com uma diferença: passam a ser sociais, ao invés de individuais. Todos os produtos de Robinson procediam de seu trabalho pessoal, exclusivo, e, por isso, eram, para ele, objetos diretamente úteis. Em nossa associação, o produto total é um produto social.  Uma parte desse produto é utilizada como novo meio de produção. Continua sendo social. A outra parte é consumida pelos membros da comunidade. Tem, portanto, de ser distribuída entre eles. O modo dessa distribuição variará com a organização produtiva da sociedade e com o correspondente nível de desenvolvimento histórico dos produtores..." (Pág. 100)


Reflexões

Vejam, amig@s leitores, tanto nesta citação acima, quanto na primeira que fiz como epígrafe da postagem, temos uma referência à palavra "desenvolvimento". Lembrei-me de nosso lema no movimento dos trabalhadores brasileiros durante os governos democráticos e populares de Lula e o 1º de Dilma, pouco tempo atrás, quando defendíamos o "desenvolvimento com distribuição de renda".

Níveis de desenvolvimento e condições de produção material de uma determinada sociedade são fatores importantes para a definição de que tipo de sociedade humana queremos para nós. 

Na epigrafe que citei, Marx fala em "relações racionais entre homens", inclusive racional em relação à natureza (pensem na questão contemporânea da sustentabilidade!); ele chama o processo de produção material de "vital"; ainda em relação ao processo da produção material Marx nos lembra da necessidade da livre associação entre os homens para tal; por fim, afirma a necessidade de um processo de desenvolvimento para se alcançar uma base material satisfatória.

Profundo, não?

A condição de produção material de uma sociedade tem influência sobre as diversas dimensões sociais dessa mesma sociedade. A situação de momento dos componentes de uma sociedade humana não é algo regido por leis naturais; as coisas não são como são porque têm que ser assim (por exemplo: má distribuição de bens e renda). A condição de momento dos componentes de uma sociedade não é como a lei da gravidade ou qualquer outra das ciências físicas, químicas e da natureza.

Nós somos o reflexo do mundo em que vivemos. Mas nós podemos alterar o mundo em que vivemos para sermos novamente reflexo daquele mundo novo em que vivemos.

As produções materiais das sociedades humanas ao longo da história da humanidade não tiveram como objetivo serem mercadorias como no modelo de produção capitalista, dentro do que Marx explica como valores de uso e valores de troca.

Com o avançar da leitura de O Capital, espero que vá ficando cada vez mais claro aquilo que já aprendi ao longo da existência como algo que não favorece a nossa vida de trabalhadores: os bens da nossa produção humana serem tratados como mercadorias.

Não é correto saúde ser tratada como mercadoria; educação ser tratada como mercadoria; direitos elementares à existência dos seres humanos serem tratados como mercadorias. Isso não é correto!


Síntese da reflexão

A produção material e a divisão social do trabalho em uma coletividade humana (com laços comuns como uma determinada nação, um Estado, uma sociedade) não precisam estar organizadas na forma capitalista de produção de mercadorias para suprir as necessidades humanas.

É isso, por enquanto!

William
Um leitor


Post Scriptum:

As postagens anteriores sobre a leitura de O Capital podem ser acessadas AQUI.

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Relembrando A Montanha Mágica - Thomas Mann



Refeição Cultural

"O segredo e a existência da nossa era não são a libertação e o desenvolvimento do eu. O que ela necessita, o que deseja, o que criará é: o terror." (Naphta, personagem de A Montanha Mágica)


Eu tive o privilégio de ler entre 2008 e 2009 esta obra monumental do escritor alemão Thomas Mann. A obra foi publicada em 1924, após a 1ª Guerra Mundial, mas o autor começou a escrevê-la no início da década de dez. O livro narra a história de um jovem chamado Hans Castorp, que passa um longo tempo nas altas e nevadas montanhas em Davos, na Suíça, cuidando de uma tuberculose.

Uma das temáticas que mais me chamaram a atenção na obra foi a questão das reflexões a respeito da subjetividade do tempo. Ao longo da minha existência, o tempo tem sido um fator de incômodo ao pensar na existência humana, na vida no planeta, no Universo. O tempo pode ser longo, pode ser curto. Muito mais que o tempo cronológico apurado através das leis da física, o tempo subjetivo é algo que fascina e ao mesmo tempo incomoda e assusta a todos nós humanos.

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"Lia-se avidamente nos alpendres de repouso e nas sacadas particulares do Sanatório Internacional Berghof - sobretudo entre os novatos e os pensionistas de curto prazo, pois os pacientes que ali permaneciam por muitos meses ou mesmo por vários anos, havia muito que tinham aprendido a matar o tempo sem distrações nem esforços intelectuais e a deixá-lo atrás graças a um virtuosismo interior. Declaravam até que era uma falta de habilidade, própria de sarrafaçais, essa de se agarrar à leitura. Quando muito admitiam que um livro repousasse sobre os joelhos ou na mesinha, o que já era suficiente para as pessoas sentirem-se abastecidas..." (p. 366)
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A minha edição da Nova Fronteira (2006) tem quase mil páginas, com tradução de Herbert Caro e apresentação de Antonio Cicero. É fascinante!

O livro tem passagens profundas de debates filosóficos em voga. E tem questões triviais que nos tocam, como a passagem abaixo. Eu não gosto de ler livros emprestados - nem de bibliotecas, nem de conhecidos - porque eu tenho por hábito meter o rabisco e anotações nos livros que leio.

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"Tratava-se de livros de anatomia, fisiologia, biologia, redigidos em vários idiomas - alemão, francês, inglês - e que lhe tinham sido remetidos um belo dia pelo livreiro do lugar, evidentemente porque Hans Castorp os encomendara por sua própria iniciativa e clandestinamente, durante um passeio que dera até 'Platz' (...) Joachim perguntou por que Hans Castorp, se desejava ler esse tipo de literatura, não o pedira emprestado ao dr. Behrens, que certamente dispunha de um rico sortimento. Mas Hans Castorp replicou que preferia possuir os livros, e que a leitura era bem diferente quando o livro lhe pertencia; além disso, gostava de sublinhar e assinalar certos trechos a lápis. Durante horas a fio, Joachim ouvia do compartimento de sacada do primo o ruído da espátula que ia abrindo as folhas." (p. 368)
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Thomas Mann era um homem de seu tempo, um alemão de seu tempo naquele início de século XX. Vemos nas personagens encerradas naquelas montanhas por longo tempo as visões do mundo que surgia do século XIX e que culminariam na destruição total da civilização ocidental através das guerras mundiais. Veja abaixo uma passagem sobre a questão da ciência e da vida:

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"Que era a vida? Ninguém sabia. Ninguém conhecia o ponto donde brotava a natureza, e no qual ela se acendia. A partir desse ponto, nada havia na vida que não estivesse motivado ou o estivesse apenas insuficientemente; mas a própria vida parecia não ter motivo. A única coisa que se podia, talvez, afirmar a seu respeito, era que a sua estrutura devia ser de tal modo evoluída que não tinha, nem de longe, igual no mundo inanimado. Entre o pseudópode da ameba e o animal vertebrado, a distância era insignificante, desprezível, em comparação com aquela que existe entre o fenômeno mais simples da vida e a outra parte da natureza que nem sequer mereceria ser qualificada de morta, uma vez que era inorgânica. Pois a morte não era senão a negação lógica da vida; entre esta, porém, e a natureza inanimada abria-se um abismo por cima do qual a ciência em vão se empenhava em lançar uma ponte..." (p. 370)
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Interessante. Eu peguei o livro na estante porque reli uma curta postagem minha no blog (junho de 2008), onde comentava que estava lendo a obra de Mann. Reli, então, algumas passagens do episódio "Pesquisas", contido no capítulo 5. Reli também a apresentação de Antonio Cicero.

Amig@s leitores, é impressionante a sensação nítida de déjà vu que senti ao refletir que vivemos hoje o clima de intolerância e ódio estimulado que o mundo viveu nas décadas iniciais do século XX, e que levou à guerra que destruiria a Europa e mataria milhões de pessoas.

O final da história de Hans Castorp me levou à catarse, fiquei emocionado e arrepiado de forma que nunca me esqueci. Só de manusear a obra novamente, senti a mesma coisa.

O mundo em que vivemos hoje, o mundo da mentira que passou a ser a forma de vivência, que passou a ser aceita pelas pessoas de forma cínica, de forma burra, de forma inocente e o fim do papel das instituições políticas, sociais e estatais que regularam o mundo do pós guerras mundiais, como a ONU e um determinado estado de bem estar social, com respeito à alteridade e com freios e contrapesos, vai nos levar a uma terceira guerra envolvendo diversos países e povos, e creio que o mundo humano não sairá o mesmo como ainda saiu das duas primeiras guerras.

É isso! Quem não tiver lido ainda A Montanha Mágica, o momento mundial é muito propício para o contato com a obra de Thomas Mann, que é um romance de ficção, mas que nos leva a reflexões profundas sobre a realidade material.

William
Um leitor

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Marx - O fetichismo da mercadoria




Refeição Cultural

Com este tema do fetichismo da mercadoria, estou fechando a leitura do primeiro capítulo do volume I de O Capital, Crítica da Economia Política (1867). 

A minha leitura deste clássico não é apressada e o importante é o esforço para compreender o ensinamento de Marx. Não à toa, peguei o livro nestes dias e reli as 90 páginas que já havia lido.

Por curiosidade, assisti também ao filme O jovem Karl Marx (2017), com direção de Raoul Peck. Gostei do filme. Vale a pena ver.

Enfim, hoje sei um pouco mais sobre Marx e O Capital do que sabia meses atrás. Minha compreensão dos conceitos de valor de uso, valor de troca e mercadoria no modo de produção capitalista é melhor do que antes. Então, estou menos ignorante no tema. Isso é bom.

Vejam, vendo pelo índice, ainda me falta mais de uma centena de páginas para chegar ao tema da mais-valia. É mole? Após estudar sobre a "Mercadoria", agora vem "O processo de troca", depois vários tópicos sobre "Dinheiro"; a segunda parte vai falar da transformação do dinheiro em capital e só na terceira parte virá o tema da mais-valia.

Repito o que já disse em outras postagens sobre esta leitura de O Capital: não posso dizer que sou marxista, pois não tenho embasamento para isso. As postagens são como fichamentos de leitura, eu transcrevo trechos do próprio autor, faço as citações. É para estudo e releituras rápidas. O que não me impediu de ler quase 100 páginas de novo.

Amig@s leitores, posso dizer que vale a pena comprar o livro, é barato, e compensa sair do mundo das fake news e ler algumas horas por semana obras clássicas como essa. No mínimo não se perde nada e, por outro lado, pode-se ganhar muito com o conhecimento novo.

Isso sim seria uma forma de saber algo para não ser um idiota, parafraseando um sujeito que se diz astrólogo e filósofo, e que faz sucesso por escrever bobagens sem pé nem cabeça e enganar zilhões de desavisados por aí.

Leiam as obras clássicas, obras que influenciaram o pensamento mundial ao longo do desenvolvimento das sociedades. É o que penso.

William
Um leitor


O FETICHISMO DA MERCADORIA: SEU SEGREDO

Segundo Marx, a mercadoria tem um caráter misterioso. Em O Capital, já encontrei passagens descritas por ele de forma irônica, é bem interessante. Vejam essa, quando ele explica que uma mesa, após ser criada a partir da madeira, com trabalho humano, continua sendo de madeira:

"Mas, logo que se revela mercadoria, transforma-se em algo ao mesmo tempo perceptível e impalpável. Além de estar com os pés no chão, firma sua posição perante as outras mercadorias e expande as ideias fixas de sua cabeça de madeira, fenômeno mais fantástico do que se dançasse por iniciativa própria." (p. 93)

Em seguida, Marx reforça que não importa o tipo de mercadoria nem a habilidade humana que a produziu (tecelão, alfaiate etc), importa que as mercadorias são feitas por força de trabalho humano. E "Por fim, desde que os homens, não importa o modo, trabalhem uns para os outros, adquire o trabalho uma forma social".

Seguimos com o mistério das mercadorias: "A mercadoria é misteriosa simplesmente por encobrir as características sociais do próprio trabalho dos homens, apresentando-as como características materiais e propriedades sociais inerentes aos produtos do trabalho; por ocultar, portanto, a relação social entre os trabalhos individuais dos produtores e o trabalho total, ao refleti-la como relação social existente, à margem deles, entre os produtos do seu próprio trabalho". (p. 94)

O filósofo faz uma analogia entre a visão do olho e o que vemos, para nos mostrar que o olho reflete a imagem externa das coisas que vê para o nosso cérebro. E continua:

"Há uma relação física entre coisas físicas. Mas a forma mercadoria e a relação de valor entre os produtos do trabalho, a qual caracteriza essa forma, nada têm a ver com a natureza física desses produtos nem com as relações materiais dela decorrentes."

Marx nos explica que o produto do trabalho humano - mercadoria no modo de produção capitalista -, ganha uma espécie de autonomia que não lhe caberia porque as relações deveriam ser entre os homens e não entre as coisas:

"Uma relação social definida, estabelecida entre os homens, assume a forma fantasmagórica de uma relação entre coisas. Para encontrar um símile, temos de recorrer à região nebulosa da crença. Aí, os produtos do cérebro humano parecem dotados de vida própria, figuras autônomas que mantêm relações entre si e com os seres humanos. É o que ocorre com os produtos da mão humana, no mundo das mercadorias. Chamo a isso de fetichismo, que está sempre grudado aos produtos do trabalho, quando são gerados como mercadorias. É inseparável da produção de mercadorias." (p. 94)

O filósofo nos informa que o conjunto dos trabalhos particulares forma a totalidade do trabalho social. "Em outras palavras, os trabalhos privados atuam como partes componentes do conjunto do trabalho social, apenas através das relações que a troca estabelece entre os produtos do trabalho e, por meio destes, entre os produtores".

Nesse modelo de produção para troca temos: "relações materiais entre pessoas e relações sociais entre coisas, e não como relações sociais diretas entre indivíduos em seus trabalhos".

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"A igualdade completa de diferentes trabalhos só pode assentar numa abstração que põe de lado a desigualdade existente entre eles e os reduz ao seu caráter comum de dispêndio de força humana de trabalho, de trabalho humano abstrato." (p. 95)
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Marx escreve no século XIX, numa época em que várias áreas das ciências sequer existiam. Mesmo assim, ele é muito assertivo em suas afirmações. Vejam essa que ele faz a respeito da linguagem, muito antes das concepções da linguística:

"O valor não traz escrito na fronte o que ele é. Longe disso, o valor transforma cada produto do trabalho num hieróglifo social. Mais tarde, os homens procuram decifrar o significado do hieróglifo, descobrir o segredo de sua própria criação social, pois a conversão dos objetos úteis em valores é, como a linguagem, um produto social dos homens." (p. 96)


SEGREDO OCULTO

Marx segue analisando a mercadoria, o valor da mercadoria e as relações de troca.

"Nas eventuais e flutuantes proporções de troca dos produtos desses trabalhos particulares, impõe-se o tempo de trabalho socialmente necessário à sua produção, que é a lei natural reguladora (...) A determinação da quantidade do valor pelo tempo do trabalho é, por isso, um segredo oculto sob os movimentos visíveis dos valores relativos das mercadorias."


DIVISÃO SOCIAL DO TRABALHO NÃO É CRIAÇÃO DO CAPITALISMO

No início do livro O Capital, Marx já havia dito que a divisão social do trabalho não era uma criação do capitalismo, que, no entanto, precisa dela para a produção das mercadorias.

"No conjunto formado pelos valores de uso diferentes ou pelas mercadorias materialmente distintas, manifesta-se um conjunto correspondente dos trabalhos úteis diversos - classificáveis por ordem, gênero, espécie, subespécie e variedade -, a divisão social do trabalho. Ela é condição para que exista a produção de mercadorias, embora, reciprocamente, a produção de mercadorias não seja condição necessária para a existência da divisão social do trabalho." (p. 64, sublinhado meu)

Naquele momento, citou uma comunidade indiana como exemplo.

Nesta parte de considerações finais do capítulo I que trata da "Mercadoria" ele retoma vários conceitos. Aqui está falando a respeito de propriedades coletivas e trabalhos coletivos ou em comum.

"Constitui um exemplo próximo a indústria patriarcal rural de uma família camponesa, que produz, para as próprias necessidades, trigo, gado, fio, tela de linho, peças de roupa etc. Essas coisas diversas são, para a família, produtos diversos do seu trabalho, mas não se confrontam entre si como mercadorias. As diferentes espécies de trabalho que dão origem a esses produtos - lavoura, pecuária, fiação, tecelagem, costura etc. - são, na sua forma concreta, funções sociais, por serem funções da família, que tem, como a produção de mercadorias, sua própria e espontânea divisão do trabalho. Diferenças de sexo e de idade e as condições naturais do trabalho, variáveis com as estações do ano, regulam sua distribuição dentro da família e o tempo que deve durar o trabalho de cada um de seus membros." (p. 99)


PARA OS BURGUESES SÓ HÁ UM MODO CORRETO DE PRODUÇÃO: O DELES

Ainda nestas páginas finais do capítulo, em que Marx faz avaliações diversas - econômicas, políticas, históricas etc -, gostei desta nota que cito abaixo, tirada de sua obra de resposta à obra de Proudhon:

"Os economistas têm uma maneira de proceder singular. Para eles só há duas espécies de instituições, as artificiais e as naturais. As do feudalismo são instituições artificiais; as da burguesia, naturais. Equiparam-se, assim, aos teólogos, que classificam as religiões em duas espécies. Toda religião que não for a sua é uma invenção dos homens; a sua é uma revelação de Deus - Desse modo, havia história, mas, agora, não há mais." (nota 33, p. 103)


COM A PALAVRA, AS MERCADORIAS

O capítulo termina com as mercadorias dando a opinião delas, diante de tantas questões que Marx coloca para serem respondidas por burgueses e seus economistas e seguidores.

O filósofo fecha assim a questão do fetichismo da mercadoria:

"Sem maior avanço nesta análise, limitamo-nos a ilustrar com mais alguns elementos o fetichismo da mercadoria. Se as mercadorias pudessem falar, diriam: 'Nosso valor de uso pode interessar aos homens. Não é nosso atributo material. O que nos pertence como nosso atributo material é nosso valor. Isto é o que demonstra nosso intercâmbio como coisas mercantis. Só como valores de troca estabelecemos relações umas com as outras'." (p. 104)


Post Scriptum:

Para as postagens anteriores, clicar AQUI.

domingo, 14 de abril de 2019

Leitura: São Bernardo (1934) - Graciliano Ramos




Refeição Cultural

"Quanto ao comunismo, lorota. Não pega. Descansem: entre nós não pega. O povo tem religião, o povo é católico."


Ao reler postagens no meu blog, dei com uma sobre uma crítica literária de João Luiz Lafetá sobre a obra-prima de Graciliano Ramos, São Bernardo, publicado em 1934. A crítica está na edição que tenho do livro, da Editora Record, Rio de Janeiro, 2002. (ler AQUI)

Amig@s, da leitura da postagem com a crítica fui à leitura da obra. Peguei o livro na estante na manhã de sábado e só parei quando terminei a leitura à noite. 

Impressionante! Fui vendo na figura do personagem principal, Paulo Honório, narrador da sua história no romance, a figura representativa de parte significativa do povo brasileiro, que teimamos em não reconhecer, em não aceitar.

Paulo Honório é a parcela do povo brasileiro que votou nesta coisa execrável que representa o bolsonarismo, o coronelismo, a casa grande, a burguesia vira-lata desta ex-colônia de exploração. Aliás, colônia novamente.

Paulo Honório é a parcela do povo que votou em Paula, vencedora da edição 19 do Big Brother Brasil (BBB), das Organizações Globo. 61% dos telespectadores votaram em uma pessoa com ideias racistas, com postura de intolerância à alteridade, segundo disseram os analistas da imprensa.

O contexto ficcional de São Bernardo e de Paulo Honório é o nosso mundo real Brasil que teimamos por um tempo - os pequenos intervalos de "democracia" - em não aceitar como nossa característica, que teimamos em disfarçar como se fôssemos povo cordial. Não somos! Nunca fomos! (somos passivos e não-reativos, moles; mas não somos cordiais, bonzinhos)

Nós mesmos, esse povo que não reage ao mandonismo, ao poder da casa grande, que somos manipulados e que defendemos os donos do poder, somos perfeitamente representados pelos personagens empregados de Paulo Honório. Os mansos, os cornos, os puxa-sacos, os açoitados. Os que se deitam juntos. Os que vão embora quando podem.

Eu fiquei surpreso com a obra, ao lê-la no Brasil pós golpe de 2016, pós prisão política do presidente Lula, pós destruição da economia do país pela Lava Jato, pós eleição de Jair Bolsonaro. Minha nossa, que retrato do Brasil! (e o livro foi feito há quase um século!)

Essa é uma característica das grandes obras de ficção. Quando são boas, são universais, são atemporais. Nos encontramos nelas quando lemos.

Desejo pelo menos que o final da obra São Bernardo aconteça por essas bandas do brasil-colônia também. Afinal, quem sabe o amanhã seja diferente e traga alguma esperança para o lado de cá da casa grande, onde está a massa miserável.

Apresento a seguir, uma seleção que considero representativa da ficção, e representativa da vida real, apesar de ser impossível à linguagem reproduzir a realidade, conforme aprendemos na linguística.

William
um leitor

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Uma narrativa seca, rude.


São Bernardo - Graciliano Ramos

Quem narra a história?

"Começo declarando que me chamo Paulo Honório, peso oitenta e nove quilos e completei cinquenta anos pelo São Pedro. A idade, o peso, as sobrancelhas cerradas e grisalhas, este rosto vermelho e cabeludo têm-me rendido muita consideração. Quando me faltavam estas qualidades, a consideração era menor."

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"O que estou é velho. Cinquenta anos pelo São Pedro. Cinquenta anos perdidos, cinquenta anos gastos sem objetivo, a maltratar-me e a maltratar os outros. O resultado é que endureci, calejei, e não é um arranhão que penetra esta casca espessa e vem ferir cá dentro a sensibilidade embotada."


Narrar, descrever, contar algo é sempre uma escolha, um recorte de interesses, um ponto de vista, uma construção de cenário

"Tenciono contar a minha história. Difícil. Talvez deixe de mencionar particularidades úteis, que me pareçam acessórias e dispensáveis. Também pode ser que, habituado a tratar com matutos, não confie suficientemente na compreensão dos leitores e repita passagens insignificantes. De resto isto vai arranjado sem nenhuma ordem, como se vê. Não importa. Na opinião dos caboclos que me servem, todo caminho dá na venda."

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"As pessoas que me lerem terão, pois, a bondade de traduzir isto em linguagem literária, se quiserem. Se não quiserem, pouco se perde. Não pretendo bancar escritor..."

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"Essa conversa, é claro, não saiu de cabo a rabo como está no papel. Houve suspensões, repetições, mal-entendidos, incongruências, naturais quando a gente fala sem pensar que aquilo vai ser lido. Reproduzo o que julgo interessante. Suprimi diversas passagens, modifiquei outras..."


Cultivar a ilusão (ideologia)

"- A gente se acostuma com o que vê. E eu desde que me entendo, vejo eleitores e as urnas. Às vezes suprimem os eleitores e as urnas: bastam livros. Mas é bom um cidadão pensar que tem influência no governo, embora não tenha nenhuma. Lá na fazenda o trabalhador mais desgraçado está convencido de que, se deixar a peroba, o serviço emperra. Eu cultivo a ilusão. E todos se interessam."


Brasil, uma terra possuída, de gente possuída, tudo é propriedade, coisa, bicho

O coronelismo na política, desde sempre:

"Que diabo diria ele contra mim na folha? Não sendo funcionário público, as minhas relações com o partido limitavam-se a aliciar eleitores, entregar-lhes a chapa oficial e contribuir para música e foguetes nas recepções do governador."

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Negociando um casamento:

"Amanheci um dia pensando em casar. Foi uma ideia que veio sem que nenhum rabo-de-saia a provocasse. Não me ocupo com amores, devem ter notado, e sempre me pareceu que mulher é um bicho esquisito, difícil de governar.
  A que eu conhecia era a Rosa do Marciano, muito ordinária. Havia conhecido também a Germana e outras dessa laia. Por elas eu julgava todas. Não me sentia, pois, inclinado para nenhuma: o que eu sentia era desejo de preparar um herdeiro para as terras de S. Bernardo."

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"- Quanto a mim, acho que em questões de sentimento é indispensável haver reciprocidade. (diz Madalena)
- Qual reciprocidade! Pieguice. Se o casal for bom, os filhos saem bons; se for ruim, os filhos não prestam. A vontade dos pais não tira nem põe. Conheço o meu manual de zootecnia."

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Ao espancar seu empregado Marciano:

"Julguei que ela se aborrecesse por outro motivo, pois aquilo era uma frivolidade.
- Ninharia, filha. Está você aí se afogando em pouca água. Essa gente faz o que se manda, mas não vai sem pancada. E Marciano não é propriamente um homem.
- Por que?
- Eu sei lá. Foi vontade de Deus. É um molambo.
- Claro. Você vive a humilhá-lo.
- Protesto! exclamei alterando-me. Quando o conheci, já ele era molambo.
- Provavelmente porque sempre foi tratado a pontapés.
- Qual nada! É molambo porque nasceu molambo..."

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Ao desprezar a história de vida da professora Madalena, em relação à sua propriedade S. Bernardo:

"- Acha pouco? É porque você não sabe o esforço que isso custou. Maior que o seu para obter S. Bernardo. E o que é certo é que d. Glória não me troca por S. Bernardo.
   Vaidade. Professorinhas de primeiras letras a escola normal fabricava às dúzias. Uma propriedade como S. Bernardo era diferente."

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De como olham o mundo a partir da casa grande:

"Ali pelos cafus desci as escadas, bastante satisfeito. Apesar de ser indivíduo medianamente impressionável, convenci-me de que este mundo não é mau. Quinze metros acima do solo, experimentamos a vaga sensação de ter crescido quinze metros. E quando, assim agigantados, vemos rebanhos numerosos a nossos pés, plantações estirando-se por terras largas, tudo nosso, e avistamos a fumaça que se eleva de casas nossas, onde vive gente que nos teme, respeita e talvez até nos ame, porque depende de nós, uma grande serenidade nos envolve. Sentimo-nos bons, sentimo-nos fortes...

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A forma de mercadoria com que trata a senhora de quase cem anos que o criou, quando ele mandou buscá-la para acomodá-la na fazenda:

"- Ó Gondim, já que tomou a empreitada, peça ao vigário que escreva ao padre Soares sobre a remessa da negra. Acho que acompanho vocês, vou falar a padre Silvestre. É conveniente que a mulher seja remetida com cuidado, para não se estragar na viagem."

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Ao contar aos leitores, que tem relações sexuais com a esposa de um de seus capatazes:

"O Marciano conheceria as minhas relações com a Rosa? Não conhecia. Tive sempre o cuidado de mandá-lo à cidade, a compras, oportunamente. E talvez não quisesse conhecer. Também se podia admitir que fosse dotado de pouca penetração."


A insuperável cultura do preconceito de ontem e de hoje

Alguns exemplos:

"(...) abrequei a Germana, cabritinha sarará danadamente assanhada, e arrochei-lhe um beliscão retorcido na popa da bunda. Ela ficou-se mijando de gosto..."

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"De repente conheci que estava querendo bem à pequena. Precisamente o contrário da mulher que andava imaginando - mas agradava-me, com os diabos. Miudinha, fraquinha. D. Marcela era bichão. Uma peitaria, um pé-de-rabo, um toitiço."

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"Realmente, uma criatura branca, bem lavada, bem vestida, bem engomada, bem aprendida, não ia encostar-se àqueles brutos escuros, sujos, fedorentos a pituim."

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"Mulher não vai com carrapato porque não sabe qual é o macho."

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"- Ó Gondim, já que tomou a empreitada, peça ao vigário que escreva ao padre Soares sobre a remessa da negra."


A religião, o papel da religião neste mundo da exploração... (não confundir fé com religião)

"A verdade é que não me preocupo muito com o outro mundo. Admito Deus, pagador celeste dos meus trabalhadores, mal remunerados cá na terra, e admito o diabo, futuro carrasco do ladrão que me furtou uma vaca de raça. Tenho portanto um pouco de religião, embora julgue que, em parte, ela é dispensável num homem. Mas mulher sem religião é horrível."

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"- Aí padre Silvestre tem razão, concordou Gondim. A religião é um freio."


Comunismo, sempre o papel do comunismo na boca do proprietário, do padre, do poder instituído

"Sim senhor! Conluiada com o Padilha e tentando afastar os empregados sérios do bom caminho. Sim senhor, comunista! Eu construindo e ela desmanchando."

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"Comunista, materialista. Bonito casamento!"

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"- Nada disso, asseverou padre Silvestre. Essas doutrinas exóticas não se adaptam entre nós. O comunismo é a miséria, a desorganização da sociedade, a fome."

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"- Eu não. Estou quieto, no meu canto. Agora achar que o governo é mau, eu acho. Que há urgências de reforma, há. Quanto ao comunismo, lorota, não pega. Descansem: entre nós não pega. O povo tem religião, o povo é católico."


As referências ao filho, propriedade que não gosta

O filho desprezado pelo narrador, nem sequer teve seu nome revelado na história. Nas poucas vezes em que foi citado, foi mais uma coisa como todas as outras de propriedade dele.

"Madalena estava prenhe, e eu pegava nela como em louça fina. Ultimamente dizia-me coisas desagradáveis, que eu fingia não compreender. Via a barriga crescer-lhe..."

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"O pequeno berrava como bezerro desmamado. Não me contive: voltei e gritei para d. Glória e Madalena:
- Vão ver aquele infeliz. Isso tem jeito?"

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"E o pequeno continuava a arrastar-se, caindo, chorando, feio como os pecados. As perninhas e os bracinhos eram finos que faziam dó. Gritava dia e noite, gritava como um condenado, e a ama vivia meio doida de sono. Às vezes ficava roxo de berrar, e receei que estivesse morrendo quando padre Silvestre lhe molhou a cabeça na pia. Com a dentição encheu-se de tumores, cobriram-no de esparadrapos: direitinho uma rês casteada..."

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"Bocejava. Cada bocejo de quebrar queixo. Vida estúpida! É certo que havia o pequeno, mas eu não gostava dele. Tão franzino, tão amarelo!"


Bibliografia:

Ramos, Graciliano. São Bernardo. 74ª edição. Editora Record, Rio de Janeiro, 2002.