sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Espumas flutuantes - Castro Alves



Refeição Cultural

"Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto -
As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n'alma
É germe - que faz a palma,
É chuva - que faz o mar.
" ("O livro e a América", Castro Alves)


Finalizada a leitura do livro Espumas flutuantes, do poeta Castro Alves, posso dizer ao menos que conheço a poética desse escritor brasileiro. O poeta morreu jovem, aos 24 anos, em 1871.

A leitura foi feita em voz alta. Li os 55 textos assim, incluindo o "Prólogo" e a "Dedicatória". Adotei o método de ler cinco poemas por dia como havia feito antes com A rosa do povo, de Drummond. É uma leitura exigente e que exige disciplina.

Posso e devo ser sincero ao falar dos poemas de Castro Alves e digo que os poemas reunidos em Espumas flutuantes não me agradaram muito. Meu estilo de poemas é outro, de outras poéticas e outras épocas. Isso não quer dizer que eu não valorize a obra e o poeta, só não é o tipo de poesia que gosto.

O autor trabalha muito com a temática do amor e da morte. Acho positivo o fato de o amor, presente em suas poesias, não ser platônico e sim de carne e osso. Ele realmente amou e esteve com as mulheres, é o que dizem as informações sobre ele. 

E sobre a morte idem, ele viveu a expectativa da morte iminente porque tinha tuberculose e para piorar deu um tiro acidental no pé, fato que lhe abreviou mais ainda a vida. Quando reuniu os poemas deste livro, já sabia que não viveria muito.

Como acredito que ler é melhor que não ler um livro e um autor, conheci poemas interessantes de Castro Alves. Inclusive, tive a oportunidade de conhecer sua obra mais famosa, que não consta desse livro. Li "O navio negreiro" e realmente a temática é pra lá de importante para a época e ainda hoje.

Talvez o momento que vivemos não tenha contribuído para que eu tivesse mais prazer na leitura de Castro Alves. Ler em 2021 poemas líricos falando de amor e Deus em uma época na qual o amor quase que morreu e a religião é um dos instrumentos de manipulação e idiotização de milhões de pessoas é uma tarefa difícil. A gente acaba lendo já com certa birra...

Enfim, sigo lendo e preenchendo minhas lacunas culturais. Se estou com o coração empedernido e sem esperança alguma num amanhã melhor para os seres vivos porque não acredito que a maioria de humanos vá derrotar a minoria capitalista, imaginem se eu não lesse e buscasse conhecimento novo como estaria. É muito provável que eu fosse um boçal bárbaro bolsonarista.

Viva a leitura de autores e obras clássicas, viva a educação libertadora e a formação política emancipadora! 

(Quero distância de mitos e de quem idolatra mitos, para mim basta conhecê-los, sejam eles os clássicos, que buscam explicar o mundo, ou os mitos falsos como o troglodita no poder em nosso país).

William


Bibliografia:

ALVES, Castro. Espumas Flutuantes. O Estado de São Paulo/Klick Editora, 1997.


quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Ulysses - Ciclope (A Taverna)



Refeição Cultural

"- Um lobo em pele de cordeiro, o cidadão falou. Isso é que ele é. Virag da Hungria! Ahas Verus é o meu nome pra ele. Amaldiçoado por Deus." (p. 541)


Lido mais um capítulo de Ulysses, de James Joyce. Capítulo longo, umas 70 páginas. Os acontecimentos se passam no final da tarde de 16 de junho de 1904, por volta de 17 horas. Diversos personagens estão reunidos na taverna, entre eles Leopold Bloom. Todos bebem, menos Bloom, que aceita um charuto no lugar da bebida.

Em linhas gerais, resumiria o capítulo assim: os caras estão bebendo e falando um monte de porcarias sobre várias coisas. Há uma predominância no final a falar mal de judeus e a falar mal de Bloom, que é judeu. Falam mal dele principalmente quando ele dá uma saída rápida da taverna. Eles acham que ele foi apostar numa corrida de cavalo, à escondida, para não dividir o prêmio com ninguém.

PRECONCEITO A JUDEUS

"Aí eles começaram a falar da pena capital e é claro que o Bloom me aparece com o por quê e o pra quê e toda a peixemortice do negócio todo e o cachorro velho cheirando a perna dele o tempo todo dizem que esses judeuzinhos têm lá um tipo de cheiro estranho pros cachorros que sai deles sobre sei lá qual efeito inibitório e por aí vai." (p. 495)

Leopold Bloom é considerado pelos demais um metido a besta, "Senhor sabetudo" (p. 509). Ele começa a explicar o que acontece quando alguém é enforcado, a questão do pênis duro etc.

CERVEJA, A PRAGA DA IRLANDA

Joyce aproveita para tecer suas críticas a respeito dos costumes irlandeses. A cerveja, por exemplo, é chamada de "a praga da Irlanda" num certo momento do capítulo (p. 504).

A DOS "SEIOS GENEROSOS"

Outro tema que não escapa aos personagens bebendo na taverna é a esposa de Bloom, Molly. Assim como já vimos nos capítulos anteriores, as falas pelas costas dele são as piores possíveis. Um exemplo do que pensam dela, seja falando, seja em fluxo de consciência dos personagens: "Casta esposa de Leopold é ela: Marion dos seios generosos." (p. 516)

BLOOM, O SÁBIO

"- Tem gente, o Bloom falou, que repara no cisco no olho dos outros mas não consegue ver a trave que está no seu próprio olho." (p. 524)

O PAI NOSSO DOS MARINHEIROS BRITÂNICOS AÇOITADOS

"Creem em Dê os Paus, todolaceroso, criador do inferno na terra e em Marujo Tristo, esse filho da luta, que foi concebido pelo escândalo tanto, nasceu da viagem marinha, padeceu o serviço completo, foi cicatrizado, exposto e bem sovado, gritou como um danado, e no terceiro dia relevantou da cama, voltou aos seus, está sentado a boreste de seu país de onde há de vir penar na vida e a postos." (p. 529)

AMOR, A VIDA DE VERDADE

"- Mas não adianta, ele falou. Força, ódio, história, isso tudo. Isso não é vida pros homens e mulheres, ódio e xingamento. E todo mundo sabe que é exatamente o contrário disso que é a vida de verdade.

- O quê? o Alf falou.

- Amor, o Bloom falou. Ou seja, o contrário do ódio." (p. 534)


AHAS VERUS

Deixei para o final da postagem, uma questão que me deixou impressionado, uma coincidência danada o que aconteceu comigo, coisas que só acontecem com quem lê, com leitores.

Dias atrás, decidi ler mais um livro de poesia em voz alta, como fiz ano passado com A rosa do povo, de Drummond. Defino quantos poemas vou ler por dia e quantos dias pra ler o livro. A cada dia, escolho um dos lidos e gravo a leitura em vídeo.

Fui até a estante e escolhi a esmo o autor que iria ler. Escolhi Castro Alves e o livro Espumas flutuantes, de 1870, uma edição velha velha que tenho. O livro está se desfazendo ao ler. Comecei a leitura dia 10 de agosto e termino o livro amanhã, dia 20.

Num dos dias, escolhi para gravar o poema "Ahasverus e o gênio" (ver aqui). Como o livro tem notas explicativas, tomei conhecimento sobre a personagem. Cito a nota da minha edição do livro:

Ahasverus: "um dos diversos nomes pelos quais é conhecido o judeu errante, condenado a errar pelo mundo, sem lugar para descansar, por ter negado descanso a Jesus na porta de sua casa, quando este caminhava ao Calvário." (ALVES, 1997, p. 163)

Ao ler dias depois um dos desafetos de Leopold Bloom chamando ele de Ahas Verus, fiquei impressionado com a coincidência! Tanto meu entendimento foi perfeito na leitura de Ulysses, quanto ficou melhor meu entendimento do poema de Castro Alves.

Fiquei muito feliz pela coincidência. A leitura nos traz conhecimento! Isso já aconteceu comigo inúmeras vezes durante as leituras.

É isso! Seguimos sobrevivendo à pandemia, à destruição trágica do Brasil após o golpe e aprendendo algo novo todos os dias, tentando ser uma pessoa melhor em todos os sentidos.

William


Bibliografia:

ALVES, Castro. Espumas Flutuantes. O Estado de São Paulo/Klick Editora, 1997.

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

180821 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

- A autogestão em saúde Cassi publica de novo uma matéria em seu site (12/8/21) cuja chamada conta com a ignorância técnica de seus usuários: "As CliniCassi Brasília Sul e Norte ampliam capacidade de atendimento em novo endereço". A direção fechou duas unidades de atendimento em saúde - CliniCassi - que se localizavam uma na Asa Norte e outra na Asa Sul e substituiu as duas por uma em um local diferente, longe, longe de onde os usuários eram acolhidos. Os poucos que têm saber técnico sobre o tema, que não ignoram o assunto, sabem que acesso é um dos princípios básicos em sistemas de saúde. A palavra "ampliam" é quase uma piada, se não fosse algo sério. É a pós-verdade. São os tempos. A referência do povo brasileiro é o inominável da presidência da república.

- A condição dos reservatórios de água no Brasil é inegável, os níveis na região Sul e Sudeste estão baixíssimos ao se comparar os índices do momento com os dados históricos registrados. A maior fonte de produção e distribuição de energia elétrica do Brasil são as usinas hidrelétricas. Quase todo o sistema foi privatizado ou lançou ações em bolsas de valores. Os lucros ou resultados excedentes ao se cobrar caro o valor de água e luz dos usuários são distribuídos para os acionistas, donos, sócios. Não se investe no sistema porque isso não interessa. O lema é maximizar os resultados agora. Foda-se o futuro. Vamos viver uma crise séria de falta de água e energia elétrica. O inominável na presidência da república ensina o que se deve dizer nessas horas: "- e daí?"

- A pandemia mundial de coronavírus já matou 570 mil brasileiros e infectou 20 milhões de pessoas. Estudos diversos apontam que entre 1/4 e 1/3 das vítimas que sobrevivem ao vírus ficam com sequelas, que podem ser passageiras ou duradouras. Teremos mais doenças crônicas para lidar e mais agravados para atender nos casos de crises agudas. Ao mesmo tempo que aumentam os riscos de morrermos, diminuem os recursos e a estrutura dos sistemas de saúde disponíveis para nos socorrer, públicos ou privados. Não só o vírus diminuiu nossa chance de viver. As armas de fogo também: são milhões de novas armas após o golpe de 2016. A violência contra as mulheres e pessoas transgêneros também aumentou: 17 milhões de vítimas em 2020. As doenças mentais e depressões idem. O desemprego e a fome também. De que valeu todo o avanço tecnológico inventado pelo homo sapiens se não conseguimos parar a destruição da vida e do planeta pelo sistema capitalista e por alguns capitalistas?

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Como disse o personagem Zoro, do anime One Piece, num episódio que assistimos ontem, "eu escolhi por sobreviver..."

Mas confesso que estou desacorçoado...

William


segunda-feira, 16 de agosto de 2021

160821 - Diário e reflexões (Carta Capital)



Refeição Cultural - Carta Capital 1168


O SENHOR DAS ARMAS

A leitura da edição 1168 de Carta Capital traz informações do mundo material - a realidade factual - que muitas vezes tentamos evitar saber ao não visitar as páginas dos veículos de informação ou os canais que preferimos na internet. Mas não tem jeito, cedo ou tarde, temos que nos atualizar sobre as coisas.

Enquanto lia a revista inteira da semana retrasada, já sabia de um monte de merdas novas ocorridas nos últimos dias. Vale a pena ler a revista? Tenho me perguntado isso... ler as matérias na revista é diferente porque ler é diferente de ouvir, de assistir, são habilidades distintas do animal humano. Se eu utilizar a ideia que tenho para os livros, poderia dizer que é melhor ler que não ler os livros e revistas e artigos.

Nada nada, ao ler desenvolvemos e ou preservamos nossa linguagem ou a capacidade mínima de escrever e interpretar textos.

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CAPA - A matéria de capa nos atualiza a respeito dos avanços da tragédia planejada pelo genocida no poder. Se as instituições existentes não barrarem o canalha, seu clã e apoiadores teremos uma guerra civil no país. Guerra em termos, pois quem tem as armas e o poder de matar são eles e não nós, os civis pacifistas, democratas e idiotas desarmados. Podemos ter uma chacina daqueles que não são fascistas e bolsonaristas, ou seja, um novo genocídio, de mortes matadas. Já temos o genocídio do povão pelo vírus que é utilizado para matar os pobres: mortes morridas.

PETROBRAS - Ler sobre o assalto à Petrobras, o desmonte de nossa maior empresa, a distribuição do butim para os organizadores do golpe, é algo que dói tão fundo, que não posso dizer o que penso. Que venha logo essa guerra para ver se pelo menos os aproveitadores se ferram de alguma forma. Mas sei que não! Olhem o Iraque, o Egito, a Líbia e vejam se os imperialistas se deram mal... só o povo se fodeu e aqueles países acabaram. É o que está desenhado para ocorrer aqui.

VIOLÊNCIA CONTRA MULHERES - Na seção "Seu País" as matérias são fortes para os não alienados. Depois de ler o artigo sobre a pandemia de violência contra as mulheres na semana passada, a matéria traz números chocantes em relação ao tema. 1/4 das mulheres brasileiras sofreram algum tipo de violência em 2020 - são mais de 17 milhões de vítimas; um estupro ocorre a cada 8 minutos. Aí as pessoas olham a tragédia das mulheres do Afeganistão e não olham a tragédia das mulheres daqui...

CULTURA NAZIFASCISTA - Na seção "Plural" vemos os decretos do regime genocida direcionando o investimento de recursos públicos e privados do mundo da cultura da mesma forma nazista que aquele sujeito que imitou Goebbels em 2020. Quem vai definir qual arte deve ter incentivo e qual não, qual terá financiamento e qual não terá são os nazibolsonaristas.

É isso! 

Li um poema dia desses que me incentivou a continuar escrevendo meus diários aqui no blog. É um poema de Paulo Leminski:


"razão de ser

    Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
    preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
    Escrevo porque amanhece,
e as estrelas lá no céu
    lembram letras no papel,
quando o poema me anoitece.
    A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
    Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?
" (LEMINSKI, 2017, p. 58)


William


Bibliografia:

LEMINSKI, Paulo. distraídos venceremos. 1ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

domingo, 15 de agosto de 2021

Trótski - A paixão segundo a revolução



Refeição Cultural

"Seria o proletariado capaz de recriar a cultura a partir de zero, fundando novas formas, novos padrões formais, um novo gosto, uma nova estética, uma nova poética?

Lênin e Trótski não eram idiotas. Sabiam que isso não era possível. O comunismo teria que ser o herdeiro de toda a cultura passada, escravagista, feudal, burguesa. Os dois líderes tinham consciência muito nítida do caráter de carência da condição trabalhadora. Sabiam muito bem que o trabalhador, fabril ou agrário, caracteriza-se pela ignorância, pelo conservadorismo, mais obtuso, pela superstição, pela pobreza mental de horizontes, pelo imediatismo de visão política." (p. 368)


A leitura dessa obra de Paulo Leminski foi uma surpresa para mim. Sei que somos muito ignorantes (não sabedores) em quase tudo na vida, e não quero jamais perder a capacidade de me surpreender com as coisas. Ver Leminski escrever sobre a história da Rússia, de seu povo e de seus líderes como Liev Trótski foi uma surpresa para mim. 

Eu recém conheci Toda poesia (2013), do poeta curitibano - ver postagem aqui. Agora começo a conhecer seu lado prosaico, narrativo e historiador. Impossível não ficar curioso para ler o que Leminski nos conta sobre Jesus, Cruz e Sousa e Bashô. Qualquer hora eu descubro.

Para falar da Rússia e dos líderes da Revolução Russa, Leminski faz uma analogia interessante com a obra Os irmãos Karamázov (1880), de Dostoiévski, comparando as características do pai e dos filhos com os principais tipos característicos do povo russo e pensando a Rússia do passado e presente e com as perspectivas do que viria a ocorrer em 1917.

O velho Karamázov, os filhos Aliócha, Ivan, Dmitri e Smierdiakóv seriam os representantes bem característicos dos tipos mais comuns da Rússia milenar. Apesar de fazer muito tempo que li esse clássico, o fato de ter lido me ajudou a compreender o que Leminski quis dizer. Mas não se preocupem porque ele explica no início as características de cada um deles.

Aprendi muita coisa com a leitura, rabisquei o livro inteiro e fiz diversos comentários nas margens. Seria difícil escolher uma ou duas citações para fazer na postagem. A leitura é densa e leve ao mesmo tempo, pela forma que o poeta nos conta a história e as versões da história. Fiz um breve comentário em vídeo sobre o livro: ver aqui.

A epígrafe acima foi escolhida porque fiquei pensando no Brasil atual, após o golpe de 2016, liderado pelos tucanos com o suporte da mídia corporativa (PIG) e a operação imperialista Lava Jato, após o golpista Temer e destruído pelo regime militar e bolsonarista. 

Pensei no povo miserável que somos, povo primitivo e ignorante em diversos sentidos, mas ignorantes porque assim é melhor para as classes dominantes e não por escolha própria do povo. Leminski fala sobre uma carência do povo em relação à cultura, mas podemos estender o sentido dessa ignorância (não saber) para todos os sentidos da vida social.

Enfim, é bom aprender sobre a história humana. O texto sobre a biografia de Trótski nos ensina muita coisa. Obrigado Leminski!

William


Bibliografia:

LEMINSKI, Paulo. Vida: Cruz e Sousa, Bashô, Jesus e Trótski - 4 Biografias. 1ª ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2013.


sábado, 14 de agosto de 2021

Ulysses - Sereias (A sala de concertos)



Refeição Cultural

Retomei a leitura de Ulysses, de James Joyce, na tradução de Caetano W. Galindo. Hoje li o capítulo 11, foram 50 páginas.

A leitura foi difícil, mais que a de outros capítulos. O pessoal está bebendo num local e cantando. Joyce nos faz perceber o quanto é complicado entender tudo que pessoas bebendo falam. As palavras ficam pela metade, as frases não se concluem etc.

Cenas literárias

BLOOM PUBLICITÁRIO

Bloom, que é publicitário, observa um cartaz na porta de entrada do ambiente, uma propaganda de marca de cigarro:

"(...) o sábio Bloom olhava na porta um cartaz, sereia estirada fumando onde as ondas são belas. Fume Sereia, a mais refrescante tragada." (p. 440)

ALITERAÇÕES

"O calvo Pat que é mouco mitrava os guardanapos. Pat é um garçom ruim das oiças. Pat é um garçom que só serve para servir. Rii rii rii rii. Ele serve para servir. Rii rii. Um servo só serve. Rii rii rii rii. Ele só serve para servir. Serve para servir como um serve que serve. Rii rii rii rii. Ro! Servir como um servo." P. 464)

OUVIR O BARULHO DO MAR NAS CONCHAS

Eu já tive uma concha gigante e vivia ouvindo o barulho do mar dentro dela, ao colocar o ouvido.

"Bloom pela porta do bar viu uma concha segurada em seus ouvidos. Ouviu mais vagamente o que ouviam elas, cada uma por si própria só, e então cada uma pela outra, ouvindo o marulho das ondas, alto, um rugido silente." (p. 464)

COM O FILHO MORTO, ÚLTIMO VARÃO DE SUA RAÇA

"Eu também, último da minha raça. Milly estudante. Bom, culpa minha quem sabe. Sem filho. Rudy. Tarde demais agora. Mas e se não? Senão? Se ainda?" (p. 469)

BLOOM AVALIA SE...

"Uma puta rançosa com um chapéu de marinheiro de palha preta enviesado vinha lustrosa dia afora cais adentro na direção do senhor Bloom. Quando primeiro viu aquela forma encantadora. É, é ela. Estou tão só. Noite úmida na alameda. Duro. Quem estava? Unzurro. Aí ó. Fora da jurisprudência dela por aqui. O que é que ela? Espero que ela. Psst! Por acaso precisa de roupa lavada. Conhecia a Molly. Me derrubou. A senhora cheinha que estava com você com a roupa marrom. Te pega no contrapé. Aquele encontro que a gente marcou. Sabendo que nós nunca, bem, quase nunca. Perto demais do meu caro demais o meu lar doce lar. Está me vendo, ou não? Feia de dar medo à luz do dia. Rosto de patê. Dane-se! Ah, bom, ela tem que viver que nem todo mundo. Olhar aqui pra dentro." (p. 476)

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Havia parado a releitura do Ulysses porque a ideia era ler junto com o meu amigo que me presenteou a edição traduzida por Galindo. Como meu amigo não vai conseguir ler agora e eu já havia lido bastante, vou até o fim do clássico.

A sugestão de ler o principal clássico de Joyce foi muito produtiva para mim. Por causa da releitura, acabei lendo Odisseia em versos, na tradução de Odorico Mendes, e li também Retrato do artista quando jovem (1916), o livro anterior a este e que retrata o personagem Stephen Dedalus na infância e adolescência.

É isso. Seguimos lendo e dando algum sentido à vida neste momento tão sem sentido da história humana. O homem está acabando com a possibilidade de vidas no planeta e não me parece que algo vá deter isso.

William



Bibliografia:

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Castro Alves - Espumas Flutuantes



Refeição Cultural

Mesmo com dificuldades para ler nesses dias, não por falta de tempo, mas por falta de cabeça para literatura, poesias e estudos, estou seguindo na leitura diária de 5 poemas de Castro Alves como planejei fazer: declamar para mim mesmo todos os poemas de Espumas Flutuantes, de 1870. 

Hoje foi o 4º dia. Os poemas lidos foram: "O 'adeus' de Tereza", "A volta da primavera", "A Maciel Pinheiro", "A uma taça feita de crânio humano" e "Pedro Ivo".

Li um pouco sobre o personagem Pedro Ivo, que faz parte da história das lutas dos pernambucanos. Ele participou da Revolução Praieira, ocorrida entre 1848 e 1850. O poema é um pouco longo, mas gostei dele. Gravei a leitura da parte 3 (ver aqui).

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No 3º dia de leitura, li: "O fantasma e a canção", "O gondoleiro do amor", "Sub Tegmine Faji", "As três irmãs do poeta" e "O voo do gênio". Desses, fiz o vídeo lendo o gondoleiro (ver aqui).

"O fantasma e a canção

(...)

Bati a todas as portas
Nem uma só me acolheu!..."
- "Entra" - : Uma voz argentina
Dentro do lar respondeu.
- "Entra, pois! Sombra exilada,
Entra! O verso - é uma pousada
Aos reis que perdidos vão.
A estrofe - é a púrpura extrema,
Último trono - é o poema!
Último asilo - a Canção!...
" (p. 36)

Viram que interessante esse final do poema!

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No 2º dia, li os poemas "O laço de fita", "Ahasverus e o gênio", "Mocidade e morte", "Ao dous de julho" e "Os três amores".

Gravei a leitura do Ahasverus (ver aqui) e novamente li um pouco a respeito da história, o 2 de julho de 1823 e a batalha do Pirajá, na Bahia. 

Ahasverus, segundo a nota no livro, é um dos nomes de um judeu errante condenado a vagar pelo mundo sem descanso por ter negado descanso a Jesus na porta de sua casa quando os romanos o levavam ao calvário.

É isso. Vamos lendo um pouquinho de poesia por dia e conhecendo a poética de Castro Alves.

William


Bibliografia:

ALVES, Castro. Espumas Flutuantes. O Estado de São Paulo/Klick Editora, 1997.


quarta-feira, 11 de agosto de 2021

110821 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Leminski descreve acontecimentos ocorridos naquele ano de 1917 na Rússia revolucionária. Trótski, Lênin, Stalin, milhões de joões e marias com nomes russos num dado instante da história do povo daquelas terras do mundo. O autor não estava lá. Ele escreveu para contar pra filha o que tinha sido a Revolução Russa. Estudou em algum lugar para escrever o que escreveu.

Os autores da série Vikings nos trazem, episódio após episódio, como viviam aqueles povos nórdicos, escandinavos, ingleses, franceses e sei lá mais quantos grupamentos de animais humanos de uns mil e tantos anos atrás. 

A novela da Globo sobre a colônia e ex-colônia de Portugal e seu imperador bonzinho faz com que as pessoas achem que ficção é realidade... é muito difícil alguém não confundir isso. Explica-se pra uns e a Globo conta pra milhões.

O gabinete do ódio dos milicianos que chegaram ao poder na ex-colônia portuguesa na América do Sul divulga ininterruptamente um amontoado de mentiras - coisas sem nexo com a realidade material - e animais humanos retransmitem essas coisas. 

Indignação com esses animais que vivem de mentiras? A imprensa (PIG) faz o mesmo... mentiras, manipulação... As mentiras e desinformações atingem milhões, dezenas de milhões. 

Mentiras, manipulações e desinformações chegam a bilhões de animais humanos.

Um animal humano escreve numa coisa, uma máquina velha, algumas coisas para constarem num mundo imaterial, a internet, e escreve na dúvida se deveria escrever ou não aquilo naquilo.

O que é ficção e o que é verdade em tudo isso? O que passa, o que fica?

Enquanto isso, nesse instante, as condições para a vida de milhões de espécies animais e vegetais são alteradas, milhares de espécies são extintas mais rapidamente do que seriam em outras condições naturais do planeta sem as alterações feitas por um animal, o humano.

A inteligência do animal humano poderia ser usada para que a vida no planeta Terra prosseguisse - até agora único lugar no universo com vidas. Mas estamos conscientes que a vida caminha para o fim, estamos assistindo a isso agora. Sabemos até que umas mil pessoas são os capitalistas responsáveis por tudo e não se faz nada para impedi-las. Aliás, eles planejam ser os sobreviventes pelo poder que têm, e eles são o pior tipo de gente que poderia sobrar de nossa espécie...

Eu estou de saco cheio do animal humano. De verdade. Cheio de tudo isso. Mas dependo dos animais humanos para absolutamente tudo! Somos uns merdas que não sabemos sobreviver sem as coisas mais comezinhas do dia a dia da vida. O animal humano deste momento do mundo não sabe nem de onde vem a comida que come. Não sabe onde ficam as informações sobre o mundo (não, não é na tela do celular! não é nas nuvens)

Porque admiro a diversidade de vidas no planeta, gostaria que elas permanecessem existindo. Isso só seria possível se desaparecesse o animal humano. O homem é uma praga que destrói tudo.

Gostaria que o animal humano sumisse do planeta terra.

William


terça-feira, 10 de agosto de 2021

Retrato do artista quando jovem, James Joyce



Refeição Cultural

De maneiras distintas, planejadas ou por acaso, as leituras diárias de livros seguem acontecendo em minha vida, felizmente. Terminei a leitura de Retrato do artista quando jovem (1916), do escritor irlandês James Joyce.

Este livro não estava em meus planos de leitura atual. A edição que tenho estava lá, quietinha na estante, comprada em um sebo por 7 reais há muito tempo. Aí um amigo me convidou para lermos juntos Ulisses (1922). Eu havia lido esse clássico duas décadas atrás, na tradução de Antônio Houaiss. Topei reler o clássico joyceano. (Houaiss adotou o nome com "i" e Galindo com "y")

Meu amigo Sérgio Gouveia me deu de presente a bela edição de Ulysses, traduzida por Caetano Galindo. Começamos a ler a obra, mas como usa acontecer na leitura por prazer, às vezes as questões do cotidiano de vida nos pegam pelo caminho e não conseguimos seguir na leitura. Comigo já aconteceu isso dezenas de vezes.

Meu amigo não está conseguindo se dedicar no momento à leitura do Ulysses e com isso vou avaliar se sigo adiante ou não. Já li mais de 400 páginas da edição e provavelmente vou terminar a leitura.

Da releitura de Ulysses (uma leitura gera outras), reli alguns contos de Dublinenses (1914) e acabei pegando o livro que nos apresenta o jovem Stephen Dedalus, personagem no Ulysses de Joyce que representa Telêmaco, filho do herói Ulisses, da Odisseia de Homero, obra referência para o clássico joyceano. Leopold Bloom e Molly Bloom completam o trio moderno na reinterpretação da odisseia grega.

STEPHEN DEDALUS, ALTER EGO DE JOYCE

"- Olha aqui, Cranly - disse ele. - Tu me perguntaste o que eu faria e o que eu não faria. Vou te dizer o que farei e o que não farei. Não servirei aquilo em que não acredito mais, chame-se isso o meu lar, a minha pátria, ou a minha igreja: e vou tentar exprimir-me por algum modo de vida ou de arte tão livremente quanto possa, e de modo tão completo quanto possa, empregando para a minha defesa apenas as armas que eu me permito usar: silêncio, exílio e sutileza." (p. 244)

Aí está uma coisa que realmente Joyce decidiu fazer na vida e fez: exprimiu-se de modo tão inovador e tão livremente em relação à arte literária que produziu romances com técnicas e linguagens que marcaram a literatura mundial a partir dos anos vinte do século passado.

Como disse no início da postagem, seja de forma planejada ou por acaso, da sugestão de releitura do Ulysses, acabei lendo a Odisseia em versos. Da Odisseia, li 3 clássicos gregos - Prometeu Acorrentado, Édipo Rei e Antígona. E finalmente conheci o romance - Retrato do artista quando jovem - que apresenta o jovem Dedalus, uma espécie de alter ego do próprio autor.

Seguimos lendo e buscando na cultura alguma satisfação nesse momento existencial de tanta tragédia como vivemos no Brasil, destruído por um golpe de Estado em 2016, golpe tão devastador ou mais que os efeitos da pandemia mundial de Covid. Após Temer e Bolsonaro, é como se o país tivesse sido queimado e jogado sal para que nada mais voltasse a germinar um dia. 

Espero que possamos recomeçar após a passagem desse mal no Brasil, mal causado pelo capitalismo e pelo imperialismo, mal que destruiu o nosso mundo, matou o nosso povo e tirou de nós as condições de nos refazermos para o futuro.

William



Post Scriptum (30/10/21): assisti ontem ao filme Retrato do artista quando jovem (1977), de Joseph Strick, uma adaptação ao livro de Joyce. Enfim, começo a ler e ver as diversas obras adquiridas décadas atrás e guardadas em casa. A adaptação do diretor foi bem fiel ao livro, não foi uma daquelas adaptações psicodélicas que alguns diretores fazem de obras clássicas. Novamente, causou revolta as cenas de violência contra alunos por parte do sistema educacional: ajoelhar no meio da sala, espancar as crianças com palmatória etc. Outra coisa que me chamou atenção são as cenas de pregações de religiosos aterrorizando fiéis a respeito dos pecados, dos mandos de deus e dos martírios eternos do inferno. Que foda isso! Eu me lembro perfeitamente disso em minha infância e adolescência como jovem que acreditava nessas abstrações humanas. E pensar que isso move o mundo e as sociedades desde que o homo sapiens é homo sapiens...


Bibliografia:

JOYCE, James. Retrato do artista quando jovem. Tradução de José Geraldo Vieira. Ediouro/92340, 1987.

Lendo Espumas Flutuantes, Castro Alves



Refeição Cultural

Hoje comecei um novo projeto de leitura de poesias em voz alta. Agora vou ler os poemas de Espumas Flutuantes (1870), de Castro Alves. 

A leitura é feita diariamente, alguns poemas por dia, de forma declamada, e depois escolho um e declamo em vídeo. Calculo ler o livro em onze dias. São 55 textos, incluindo o prólogo e a dedicatória, em forma de poesia também.

No início da pandemia mundial de Covid-19, em 2020, fiz a leitura em voz alta do livro de Drummond, A Rosa do Povo (1945). Foi uma experiência muito interessante! A obra teve muita sintonia com o momento histórico que vivemos. Isso me envolveu muito na leitura.

CALIBRANDO O CÉREBRO PARA LER POESIAS

Para ler poesias o primeiro passo é acertar o foco mental no estilo de poesia que vamos ler. 

Isso às vezes é necessário porque senão lemos como se não estivéssemos lendo nada... palavras, palavras, palavras... como diria Hamlet.

Sair de uma leitura de poesia épica como Odisseia (Homero) na tradução do maranhense Odorico Mendes para uma poesia romântica de Castro Alves requer uma adaptação das ondas mentais. 

A leitura em voz alta contribui para essa "calibragem" da leitura de poesia porque podemos ouvir e acertar a cadência ideal, aqueles ensinamentos que aprendemos sobre ritmo, pausas, tom de voz etc.

Enfim, comecei a conhecer o poeta brasileiro Castro Alves. Daqui a onze dias saberei um pouquinho mais que hoje, serei menos ignorante nessa lacuna cultural.

Li o "Prólogo", a "Dedicatória", "O Livro e a América", "Hebreia" e "Quem Dá aos Pobres Empresta a Deus". 

Escolhi fazer o vídeo do "Prólogo" (ver aqui), mas gostei bastante do poema sobre o livro. Quem sabe depois eu grave vídeo dele também.

É melhor ler os clássicos do que não ler os clássicos, como nos ensina o escritor italiano Italo Calvino.

William


Bibliografia:

ALVES, Castro. Espumas Flutuantes. O Estado de São Paulo/Klick Editora, 1997.


sábado, 7 de agosto de 2021

34. Distraídos venceremos - Paulo Leminski



Refeição Cultural - Cem clássicos

"razão de ser

     Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
     preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
     Escrevo porque amanhece,
e as estrelas lá no céu
     lembram letras no papel,
quando o poema me anoitece.
     A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
     Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?
"


Reli os poemas de Leminski contidos no livro Distraídos venceremos, de 1987. Tomei contato com a poesia dele quando ganhei o livro Toda poesia (2013), um tempo atrás.

O poeta morreu aos 44 anos de idade. Morreu cedo. Ele foi um fenômeno da natureza. Estou lendo trabalhos em prosa dele e o cara é muito bom. Ele fez um livro sobre a história da Revolução Russa porque a filha havia perguntado a respeito da questão. E o texto é muito denso e escrito de forma leve. O foco do livro é Trótski e a história da Rússia.

Eu aprendi a gostar de poesia depois dos trinta anos de idade e ainda sou um aprendiz do gostar dessa forma de linguagem. Não sou nenhum especialista no tema. Sou esforçado e quero aprender a ler poesia. Mas vai longe esse aprendizado ainda. Vai até o fim de minha existência.

CENAS INTERESSANTES

O poema "Arte do chá" nos transmite uma imagem fantástica. Coisa maravilhosa, e quase utópica. Duas pessoas se encontram pra ficarem em silêncio e tomarem um chá. Cara, que demais! Poucos sabem o quanto o silêncio comunica. Quantas pessoas já ficaram horas em silêncio, só olhando e curtindo?

"arte do chá

     ainda ontem
convidei um amigo
     para ficar em silêncio
comigo

     ele veio
meio a esmo
     praticamente não disse nada
e ficou por isso mesmo
"

Adorei esse poema, essa ideia.

O poema "claro calar sobre uma cidade sem ruínas (ruinogramas)" me deixou saudoso de Brasília. Quem já passou por lá sabe o que Leminski está falando. Outra bela imagem poética da cidade cravada no Planalto Central.

"(...)

     Em Brasília, admirei.
O pequeno restaurante clandestino,
     criminoso por estar
fora da quadra permitida.
     Sim, Brasília.
Admirei o tempo
     que já cobre de anos
tuas impecáveis matemáticas.
"

Resumindo, dos 67 poemas contidos no livro, citaria mais alguns que me pegaram e nos encaixamos na imagem e na linguagem: "bem no fundo", "como pode?", "desencontrários", "litogravura", "merda e ouro", "pareça e desapareça", "rimas da moda", "rosa rilke raimundo correia", "sem budismo", "último aviso", "um metro de gritos (máquinas líquidas)", "voláteis" e "volta em aberto".

É isso! Vamos lendo, vamos lendo os livros que temos em casa. A vida é um instante, e uma oportunidade. É melhor ler do que não ler.

William


Bibliografia:

LEMINSKI, Paulo. distraídos venceremos. 1ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.


070821 - Diário e reflexões (Carta Capital)



Refeição Cultural - Carta Capital 1167


CAPITAIS EM FUGA

Demorei para ler a revista Carta Capital da semana retrasada. Já se acumularam duas sem leitura. Isso era algo previsível no meu caso, que assino a publicação mais para apoiar esse importante meio de comunicação progressista e praticante do bom jornalismo do que para me informar sobre os acontecimentos da semana.

As coisas do nosso lado da classe trabalhadora estão morrendo, sumindo, estão sendo vaporizadas como, por exemplo, a perda do jornalista Paulo Henrique Amorim, o fechamento por falta de recursos do Nocaute - Blog do Fernando Morais, dentre outros casos de pessoas e publicações que têm lado, o lado da classe trabalhadora e do povo. Tento apoiar algumas delas como Carta Maior, Brasil247, TV GGN do Luis Nassif etc. Sugiro aos leitores e amig@s que pensem na possibilidade de apoiar alguns meios de comunicação do nosso campo.

As matérias dessa edição me deixaram informado e triste, como ocorre toda semana. Não é culpa do Mino Carta e de sua equipe de jornalismo. São as coisas de nosso tempo, são as verdades factuais que até o mundo mineral do Mino sabem, menos os milhões de brasileiros alienados e analfabetos políticos. Nem culpo essa massa ignara, a ignorância é projeto secular nesse país da casa-grande, eterna colônia.

VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES

Dos excelentes artigos da edição, eu destaco o de Lídice da Mata, sobre a pandemia... a "Pandemia invisível"! Ao menos 17 milhões de mulheres sofreram algum tipo de violência no Brasil em 2020... que dizer? O número é maior que o número de infectados pelo novo coronavírus no mesmo período. Os machos alfas podem comemorar. COMENTÁRIO: "Aqui é bolsonaro, porra!".

TRIBUTAÇÃO VAI PIORAR

Outra informação que nos choca ao ler a matéria é a da seção de Economia. A "Justiça fiscal" da reforma do Imposto de Renda é fake, alerta o artigo de Fagnani.

Depois da informação do aumento da fortuna de alguns desgraçados no Brasil, "Entre 2020 e 2021, o número de bilionários brasileiros subiu de 45 para 65, e o patrimônio conjunto desses endinheirados cresceu 92 bilhões de dólares" (p. 43), vimos que a lógica de imposto regressivo vai ser ampliada no país. Livra-se patrimônio e renda e fode o povo através da tributação do consumo e coloca-se a mesma alíquota para quem ganha uns 4 mil e quem ganha uns 600 mil... COMENTÁRIO: "Aqui é bolsonaro, porra!".

"Em suma, a proposta não reduz a desigualdade nem empobrece os ricos. Ela aprofunda a regressividade do sistema tributário ao reduzir as receitas e a participação relativa do Imposto de Renda na arrecadação total. A taxação dos lucros e dividendos e a isenção da baixa renda serão mais que compensados por outras medidas que reduzem a taxação das rendas do capital e o imposto efetivo pago pelas altas rendas." (p. 45)

O restante das matérias é um misto do que já sabemos, infelizmente. Tudo acabando. É por isso que escrevi esses dias que todo o material que acumulei durante as duas décadas de luta e representação sindical perdeu o sentido para a leitura hoje. Esse conhecimento era básico para fazer meu trabalho de formador de opinião na luta de classes onde atuava como representante. Hoje, é ler e ficar mal na minha forma atomizada de viver.

A revista é o que se espera do jornalismo sério e informativo. Triste é a realidade.

William


sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Retrato do artista quando jovem, lendo Joyce



Refeição Cultural

Depois da postagem a respeito da leitura do capítulo 3 (ler aqui), fiz a leitura do capítulo seguinte e não fiz comentário na forma de postagem, fiz observações nas margens do próprio livro.

O jovem Stephen Dedalus desiste do sacerdócio, quer encontrar por conta própria as respostas para as perguntas filosóficas e de sentidos em relação à vida.

"A sua alma estivera lá mas não ouvira e não concordara, e sabia, agora, que a exortação que tinha escutado já tinha caído ociosamente em formal e mera conversa. Ele jamais haveria de balouçar o turíbulo diante do tabernáculo, como padre.  O seu destino era ser arredio às ordens sociais ou religiosas. A sabedoria do apelo do padre não o tocara assim tão de pronto. Ele estava era destinado a aprender a sua própria sabedoria separado dos outros, ou a aprender a sabedoria dos outros vagando, ele, por entre as armadilhas do mundo." (p. 164)

O capítulo seguinte (5) trará Stephen com colegas e ele reflete sobre a definição de "beleza" e também de "verdade". Cita Santo Tomás de Aquino e Aristóteles. 

Dedalus estava conversando com um professor em um anfiteatro antes dos alunos entrarem. O deão disse ao jovem Dedalus que por ser artista, ele tinha como objetivo "criar a beleza". Novamente, temos uma passagem bem interessante sobre o fogo, citada por Stephen:

"Mas Santo Tomás diz também: Bonum est in quod tendit appetitus. Até onde ele satisfaça o desejo animal para com o calor, o fogo é bom. No inferno, todavia, ele é um mal." (p. 186)

O fogo pode ser bom e pode ser ruim para a humanidade, para as coisas do mundo material e espiritual, nesse contexto citado.

Mais adiante, veremos novas discussões referentes à Irlanda e ao ser irlandês. Podemos perceber as críticas de Joyce através de seu alter ego, Stephen Dedalus.

Primeiro ele e os amigos discutem o que seria um irlandês com espírito nacionalista. Nosso personagem Dedalus detona seus antepassados por terem jogado fora sua língua e tomado outra pra si, a dos ingleses (p. 202). Depois, chama a Irlanda de uma porca velha.

"- Isso é profundo demais para mim, Stevie - disse ele. - Mas o país dum homem está em primeiro lugar. Em primeiro lugar, a Irlanda, Stevie. Depois, sim, podes ser um poeta ou um místico.

- Queres saber o que é que a Irlanda é? - perguntou Stephen com uma violência fria. - A Irlanda é uma porca velha que come a sua ninhada." (p. 203)

BELEZA

"- Santo Tomás de Aquino - disse Stephen - diz que o belo é a apreensão do que agrada." (p. 206)

Dessa parte até a página 212 veremos uma agradável argumentação de Stephen a respeito da beleza e da verdade citando seus estudos sobre Aquino, Aristóteles e Platão. Interessante!

Na próxima vez que pegar este livro de Joyce, finalizo a leitura.

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ATOS DE LEITURA

Durante a leitura de Joyce, nesta sexta-feira, saí para caminhar e refletir e apreciar o sol que estava fazendo por volta de meio-dia.

Queria caminhar e refletir. São tantas coisas e ideias que nos atormentam nesses dias de Brasil bolsonarista, destruído e ocupado por uma horda de bandidos e gente odiosa, país que enfrenta um genocídio do povo da classe trabalhadora com a pandemia de Covid-19, ou seja, a existência tem sido uma coisa amargurada para as pessoas com alguma instrução e consciência política.

Ao andar por minha região e olhar com atenção, me lembrei que gosto de onde moro, gosto do bairro onde vivo há décadas em Osasco. Não gostaria de ir embora daqui, de ir embora do Brasil, de deixar meu mundo num autoexílio. Mudanças cansam tanto! Após lutar para me estabelecer na vida como todo trabalhador, queria um pouco de paz. Nenhum lugar do mundo é melhor que a casa e o lugar da gente.

Essa ideia de partir, de ir embora, se tornou presente e real para uma parte do povo brasileiro depois do golpe de 2016, da destruição de tudo no país que nascemos e vivemos. E a partida se daria por diversos motivos como, por exemplo, por riscos e ameaças, insegurança e por desesperança em uma mudança e na retomada do país para nós, o povo brasileiro que ama o país e que quer o bem do Brasil e não a sua exploração pura e simples para acúmulo de suas riquezas nas mãos de uns poucos desgraçados que odeiam o país e o povo.

Cara, ao caminhar no meu mundo, fortaleceram-se os laços entre mim e minha terra. Não gostaria de ir embora daqui. Mas a leitura fria da razão tem me deixado muito desanimado em relação ao futuro imediato e de longo prazo. Nas leituras de cenários em vista, não vejo mudanças que interrompam o processo de destruição sem fim do país e dos direitos do povo após o golpe. Dessa vez está difícil salvar o país. 

Aliás, está difícil salvar a vida no planeta, é o que penso quando me lembro que o Brasil só fez parte de uma engrenagem de destruição em larga escala do planeta e da vida: o capitalismo, sistema hegemônico no mundo.

Triste tudo isso.

William


Bibliografia:

JOYCE, James. Retrato do artista quando jovem. Tradução de José Geraldo Vieira. Ediouro/92340, 1987.


quinta-feira, 5 de agosto de 2021

050821 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

- Neste instante em que escrevo, meio do dia 5 de agosto, animais humanos da pior espécie encaminham no Congresso Nacional a entrega para a banca privada de mais um patrimônio do Brasil - os Correios. Além dos Correios, os desgraçados estão editando reduções de direitos trabalhistas, mudando a lei das eleições para eles se reelegerem com muita grana ("distritão"), discutindo um tal "semipresidencialismo" para o povo não interferir mais na política do país e outras merdas.

- Esses animais, chamados de parlamentares, que estão desfazendo em alguns meses todos os direitos históricos do povo e o próprio país são os mesmos animais que estão acabando com a vida no planeta de forma acelerada - eles são os pau-mandados do capital, dos donos do mundo. Uns poucos animais com capacidade de determinar o fim de milhões de seres e coisas! (e eles são mortais...)

- Por que a maioria não impede isso, sendo a maioria a maioria prejudicada com a própria inviabilização de sua existência? Há séculos pensadores e estudiosos da história humana se perguntam a mesma coisa. Por quê? Por que a maioria não reage e impede seu próprio fim?

- Por duas ou três décadas estive metido nessas discussões existenciais no movimento estudantil e formalmente como dirigente sindical dos bancários. Busquei fazer o meu papel de formiga no meio desse formigueiro todo. Boa parte do material de leitura que reuni ao longo dessas décadas era material para compreender melhor essas coisas e para me preparar melhor para ser um representante de pessoas e com alguma capacidade de esclarecer questões e convencê-las a se unirem às lutas de nossa classe. Era tudo olho no olho para mudar as pessoas para elas mudarem o mundo.

- Hoje, qualquer pessoa, qualquer mesmo, abre um perfil em alguma rede social e sai falando e escrevendo as maiores barbaridades impensáveis e elas reúnem milhões (milhões) de seguidores. Essas pessoas são chamadas de "influenciadores"... Enquanto isso, a gente lê um livro de centenas de páginas sobre alguma questão filosófica, histórica ou da cultura universal e ao falar sobre esse conhecimento, se muito, temos algumas dezenas de visualizações. Não somos "influenciadores" de nada. Essa é a realidade objetiva do mundo.

- Estive pensando nesses dias qual o sentido e a utilidade de ler a maior parte do material que acumulei quando meu papel era aquele de representar pessoas da minha classe. Percebi que estudar isso hoje me parece sem sentido a partir de meu lugar no mundo neste instante. Eu só quis fazer bem feito o que era meu papel. Acabei sendo representante porque ao ser convidado para participar, aceitei, e a ética é o mínimo ao se propor a fazer algo.

- Hoje as relações humanas são absolutamente utilitaristas, principalmente nos meios que decidem os rumos da vida social. Até as pessoas que se gostam e se consideram pertencentes aos mesmos grupos sociais são lembradas ou esquecidas de forma utilitária. As relações humanas estão muito ruins, não sei se "estão", talvez se tornaram e são ruins. Tudo muda o tempo todo. Os humanos que estão aí são os humanos que temos. São os humanos de 5 de agosto do ano 2021 desse mundo que está aí, com outras contagens de tempo, inclusive.

- Estou cansado dessas relações utilitárias dos meios onde vivemos e morremos...

- A razão que acho que ainda tenho tá batendo pesado em mim.

- Assim como a maioria das pessoas, não sei o que fazer hoje e amanhã.

- Após a leitura do livro do neurocientista Miguel Nicolelis sobre o cérebro humano e o mundo criado por ele tudo ficou mais claro. E o novo conhecimento dificulta qualquer ilusão ou fantasia sobre o momento.

- Neste instante estou vivo, então tenho que pensar sobre as coisas. Se a saúde do corpo permitir, seguirei fazendo isso. Mas estou cansado dessas coisas que estão aí.

- Tenho a impressão que após esses milhares de anos de existência do homo sapiens sobre a superfície do planeta, a violência foi uma das determinantes que prevaleceu até hoje. A lei do mais forte, mesclada com os mais adaptados. Não há ética alguma nisso. Os poucos que dominam o mundo, alguns capitalistas, são a escória do mundo. E no entanto, estão nos matando.

William

Post Scriptum: de novo: qual o sentido de estudar a Revolução Russa? Qual o sentido de eu estudar e falar sobre a Cassi? História do movimento sindical? Quem liga pra isso? Francamente! Isso é inútil!


terça-feira, 3 de agosto de 2021

Lendo biografia de Trótski, por Leminski



Refeição Cultural

Eu conhecia o lado poeta do genial Paulo Leminski, mas não conhecia o lado de grande produtor de conteúdo em prosa e seu conhecimento de história. O cara é sensacional! Francamente!

Por um total acaso, peguei na estante o livro Vida: Cruz e Sousa, Bashô, Jesus e Trótski - 4 Biografias (2013), de Paulo Leminski. Manuseei ele no fim de semana e acabei começando a leitura sobre a vida de Trótski, que na verdade fala muito sobre a história da Rússia e de seu povo. São fantásticos o conteúdo e a forma como o poeta nos apresenta a história.

Comecei a ler achando que era uma coisa simples e me deu conta de que quase a metade do livro é essa parte sobre Trótski e o povo russo. A leitura é densa, mas é muito bem narrada. 

Nas dedicatórias do livro, escrito em 1986, antes do fim da URSS, ele diz que uma das motivações para escrever a biografia de um dos líderes da Revolução de Outubro foi:

"Para minha filha Áurea que, com quinze anos, me perguntou o que tinha sido a Revolução Russa." (p. 243)

O livro dentro do meu livro na verdade se chama Trótski - a paixão segundo a revolução (1986).

Ele começa o livro citando como referência, como uma espécie de símbolo da Rússia, a grandiosa obra de Dostoiévski Os irmãos Karamázov (1880). O pai e os quatro filhos, sendo um deles bastardo, seriam os tipos característicos da Rússia. A história conta um parricídio e de certa forma Leminski diz que essa questão é central na história daquele povo e cita Freud:

"Os irmãos Karamázov não só retrata com perfeição a Rússia passada e presente, em suas estruturas mais profundas, mas ainda prefigura uma Rússia por vir." (p. 246)

E diz mais:

"Para Freud, é o parricídio primordial que funda a civilização.

 E toda revolução social de grandes proporções é uma luta dos filhos contra a tirania dos pais (pais, padres, patrões, padrões)." (p. 246)

Já li algumas dezenas de páginas e já aprendi muita coisa sobre a origem da Rússia - ele começa contando a partir de 1236 com as invasões dos mongóis -, e que ele diz que a Rússia dos últimos séculos seria uma espécie de expansão a partir de Moscou.

Leminski fala sobre os líderes que conduziram a Revolução de 1917. Ele já falou sobre os bolcheviques e os mencheviques, a origem de Lênin, do biografado Trótski e de Stálin. É como se fossem aulas de história da Rússia. No final do livro, temos a bibliografia que ele leu para tal obra.

Muito interessante!

William


Bibliografia:

LEMINSKI, Paulo. Vida: Cruz e Sousa, Bashô, Jesus e Trótski - 4 Biografias. 1ª ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2013.