domingo, 26 de junho de 2011

Fahrenheit 451 - Ray Bradbury, 1953



Foto divulgação do livro

CLÁSSICO AMERICANO

Pois é, mais uma lacuna cultural preenchida.

A obra de Bradbury é um clássico assim como 1984 de George Orwell e Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley. São clássicos que discutem sociedades futuristas, controladoras e totalitárias. Obras futuristas que viraram realidade.

O autor nos faz refletir sobre os veículos de comunicação de massa (isso nos anos 50!). Jornais e canais de TV que induzem e criam um efeito imagético de verdade incondicional nas populações.


"- Imagine o quadro. O homem do século XIX com seus cavalos, cachorros, carroças, câmera lenta. Depois no século XX, acelere sua câmera. Livros abreviados. Condensações. Resumos. Tablóides. Tudo subordinado às gags, ao final emocionante (...)

- Clássicos reduzidos para se adaptarem a programas de rádio de quinze minutos, depois reduzidos novamente para uma coluna de livros de dois minutos de leitura, e, por fim, encerrando-se num dicionário, num verbete e dez a doze linhas (...)"


E O AUTOR NÃO CHEGOU A IMAGINAR O TWITTER!! 140 TOQUES...


O efeito criado pela rede mundial, A VELOCIDADE DA INFORMAÇÃO, tudo ao mesmo tempo, é o TUDO e é o NADA!

Na mesma homepage você tem um milhão de informações para lhe desviar pro nada.

Então, assim como descrito no livro, as pessoas pararam de pensar...

Ninguém suporta mais que 140 toques ou, no máximo, um ou dois parágrafos de leitura...


O livro é muito bom. Li com muita facilidade, mesmo com o zumbido infernal dentro de minha cabeça por causa de uma infecção no ouvido.

Vou rever o filme de François Truffaut, 1967, assim que encontrá-lo em casa, no meio de minhas fitas VHS.


Post Scriptum:

Um desabafo (26/6/11): cara, já se passaram oito dias desde o início de uma infecção de ouvido agravada por um voo. É impressionante, mas não sarou e continuo mal, não ouço direito e convivo com um zumbido infernal na cabeça. É deprimente!

sábado, 25 de junho de 2011

Refeição Cultural 75 - Preenchendo lacunas culturais

A quantas andam as coisas?

A quanto tempo não faço minhas refeições culturais? Pelo que consultei aqui no blog desde maio.

Ando lendo, ouvindo e assistindo boas refeições culturais? Até que sim, apesar do foco todo voltado para a agenda que tive no movimento sindical.

Em termos de leitura, consegui ler UTOPIA de Thomas More, que era uma lacuna cultural que sempre tive. Que mais? Li um livrinho sobre a vida de Rosa Luxemburgo, outra lacuna cultural preenchida, apesar de ter que estudar muito mais sobre ela ainda. Também consegui ler umas 80 páginas sobre o professor Florestan Fernandes, outro belo exemplo de vida que eu não conhecia.

Na USP comecei uma matéria de leituras  hispano-americanas, que acabei de largar para não fazer uma prova com qualidade inferior à que a matéria e a professora merecem, pois faltei muito e estou sem condições de ler e reler os textos para um bom trabalho. Conheci autoras argentinas muito interessantes e que deixam o desejo de leituras mais atentas algum dia na vida: Silvia Molloy e Victoria Ocampo.

Em relação a filmes, vi o excelente documentário TRABALHO INTERNO (inside jog) sobre a atual crise mundial. Também assisti a um filme espanhol, indicato por meu primo mineiro Jorge, que é bem real em relação às técnicas de entrevista coletiva para se contratar trabalhadores para grandes empresas. O nome do filme em espanhol é EL MÉTODO. Filme chocante e que dá raiva por saber que acontece diariamente.

Também assisti CAPITALISM: A LOVE STORY do gênio sarcástico Michael Moore. Recomendo todos esses filmes aos amantes de filmes críticos e que abrem nossa percepção das coisas.


Que mais tive de digestões culturais?

O TEMPO...
.......AS ESTAÇÕES DO ANO...
...............O NOSSO TEMPO ANIMAL...

O esquilinho da mongólia de meu filho já não consegue triturar em minutos os rolinhos de papel higiênico que damos pra ele brincar. Nem mesmo uma folha de papel ele tritura inteira; antes era um tá-tá-tá... com seus dentinhos de roedor que era uma graça! Ele está chegando na expectativa de vida. Vivem em média três anos. Ai Ai Ai, vamos sofrer muito quando ele se for. Ele come paozinho na minha mão sempre que estou em casa.

O nosso hamster anão russo (é uma bolinha) também está chegando em sua expectativa de vida: dois anos. Ai Ai Ai de novo.

O animal humano aqui tem percebido a passagem das estações do ano, o nosso tempo animal. Comecei faz alguns anos a frequentar enterros de familiares, depois dos meus trinta e cinco anos. Será bem difícil para mim os próximos que virão em ordem natural (se assim ocorrer).

Outra percepção da máquina corporal que sente o tempo passando é em relação aos estados de não-saúde que demoram mais em voltar ao equilíbrio adequado. Continuo quase não ficando doente, é verdade, principalmente quando comparo com as pessoas de meu cotidiano no trabalho e em família. Não gosto de ir em hospital ou médico. Vou quando não tem mais jeito. Nesta semana, voltei de uma viagem a trabalho com grande problema de inflamação na garganta e infecção no ouvido. Segurei alguns dias e não teve jeito. Fui ao médico. Cara, estou surdo há uma semana e apesar de ter passado a inflamação de garganta, não sei mais o que faço para tirar o zumbido do ouvido e voltar a ouvir. SÃO SINAIS DO TEMPO marcando o nosso velho corpo...

LEITURA DO DIA
Hoje li um terço do livro de Ray Bradbury - FAHRENHEIT 451, escrito em 1953. Vamos ver se acabo antes de segunda. A adaptação para o cinema em 1966, de François Truffaut, já vi em casa duas vezes, em uma velha fita de VHS. É muito boa.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Causas da 1ª Guerra Mundial - Artigo prof. Osvaldo Coggiola

Não tenho conseguido postar muitos textos neste Refeitório Cultural, mas vou incluindo textos de qualidade quando aqui venho.

Assisti hoje a um dos vídeos da coleção "Grandes dias do século XX". Vi o vídeo sobre a 1ª GM com imagens originais. A coleção é muito boa para aqueles que gostam de história.

No encarte há um texto do professor Coggiola - da FFLCH/USP - texto que é o mais claro que já li sobre as prováveis causas daquele conflito mundial. Reproduzo-o abaixo em nome do livre conhecimento (2 horas e 1/2 de digitação).


IMPÉRIOS EM ROTA DE COLISÃO

por Osvaldo Coggiola

A disputa pelo controle dos mercados mundiais a partir da segunda metade do século XIX acirrou as rivalidades entre as potências europeias. O jogo pela dominação global terminaria de forma trágica em 1914

Há muito tempo, pesquisadores se esforçam para explicar os motivos que levaram à eclosão da Primeira Guerra Mundial. Ao longo dos últimos 90 anos, eles recorreram às mais variadas explicações, desde as que enfatizam as questões diplomáticas até as que se concentram nos aspectos propriamente militares. Nenhuma delas, no entanto, conseguiu oferecer uma interpretação global do fenômeno que articulasse crise econômica, expansão colonial, exportação de capitais, auge do nacionalismo expansivo e do racismo, disputas geopolíticas e conflito global.

As raízes da Primeira Guerra Mundial se encontram na segunda metade do século XIX. Depois de viver um período de forte crescimento econômico e abertura comercial ao longo das décadas de 1850 e 1860, as economias europeias enfrentaram um período de relativa depressão nos negócios na década de 1870.

Nesses anos de crise, o protecionismo econômico ganhou força. Com exceção da Grã-Bretanha, os demais países levantaram barreiras à importação para fortalecer a produção nacional. Ao mesmo tempo, desenvolveu-se um novo surto de conquista colonial, que agora tinha como alvos a Ásia e a África. Esses dois fenômenos estavam relacionados, como disse o filósofo alemão Friedrich Engels no final do século XIX: "A colonização é hoje efetiva filial da bolsa, no interesse da qual as potências europeias partilharam a África, entregue diretamente como butim às suas companhias".

Essa não era uma colonização igual àquela dos séculos XVI, XVII, XVIII. O objetivo agora era garantir o controle sobre novos territórios, nos quais os empresários pudessem investir um excedente de capital que os mercados europeus não eram mais capazes de absorver.

A África se tornou palco principal da nova expansão. Em 1884, os dirigentes das grandes potências se reuniram na Conferência de Berlim para definir as regras da partilha do continente negro. Segundo Charles Faure, a corrida pelas colônias seria vencida por "aquele que primeiro chegasse e hastiasse a bandeira de seu país em qualquer lugar da costa da África que ainda não estivesse sob dominação de uma nação europeia".

Esse processo era consequência da maturidade atingida pelo capitalismo nas metrópoles europeias, onde se tornara o modo de produção dominante no final do século XIX. A partir do Velho Continente, ele penetrou também nas colônias na África e Ásia, além de países com escasso desenvolvimento industrial, mas que conservaram sua soberania nacional, como a Rússia e a maior parte da América Latina.


Caricatura do fim do século XIX mostra Inglaterra, Alemanha, Rússia, França e Japão (da esq. para a dir.) repartindo a China. (Torta chinesa, caricatura, Henri Meyer, 1898

O desenvolvimento do comércio mundial, cujo volume decuplicou entre 1848 e 1914, fez com que o novo modo de produção se instalasse de forma desigual em cada lugar: nos países centrais, sua consolidação promoveu o desenvolvimento da indústria, o aumento da renda nacional e a aceleração do processo de urbanização. Nos outros países também houve "modernização" mas em ritmo mais lento. O fosso econômico entre a periferia e o centro do capitalismo aumentou muito e, em alguns casos, as economias dos países menos desenvolvidos estagnaram ou até regrediram. E eles eram a maioria: no alvorecer do século XX, mais da metade da superfície e mais de um terço da população do planeta se encontrava nas colônias.

Dentro da Europa, o velho monopólio industrial da Inglaterra passou a ser ameaçado por outros países, no último quarto do século XIX. Defendendo-se por meio de políticas alfandegárias protecionistas, diversas nações tinham se transformado em Estados capitalistas independentes. O aumento da concorrência se refletiu nas exportações que chegavam ao Velho Continente, vindas da periferia: em 1860, metade do total das exportações da Ásia, África e América Latina se dirigiu a um só país, a Grã-Bretanha. Por volta de 1900, a participação britânica caíra a um quarto, e as exportações periféricas para outros países da Europa ocidental já superavam as destinadas à Grã-Bretanha.

O próprio capitalismo estava se transformando: ele já não era mais pautado pela livre concorrência, mas sim pelo monopólio. Essa mutação foi sintetizada por Lenin em um texto publicado em 1916: "O que caracterizava o velho capitalismo, no qual dominava plenamente a livre concorrência, era a exportação de mercadorias. O que caracteriza o capitalismo moderno, no qual impera o monopólio, é a exportação de capital".

No alvorecer do século XX, as economias dos países capitalistas desenvolvidos eram dominadas por grupos monopolistas, e alguns poucos países ricos concentravam a acumulação do capital, que alcançara proporções gigantescas. O capitalismo gerara uma enorme "poupança excedente". Os donos de fábricas, bancos e empresas em geral tinham mais dinheiro do que podiam investir em seus próprios países, pois não havia compradores suficientes para novos produtos.

Diante dessa situação, os grandes investidores tinham três alternativas: aumentar os salários reais para ampliar o mercado interno, fazendo cair ainda mais a taxa de lucro; manter os salários iguais e canalizar toda a acumulação para o progresso técnico, aumentando o investimento na própria empresa; ou investir no exterior, onde a taxa de lucro do capital era maior.

A terceira alternativa era a melhor para os capitais excedentes nas metrópoles, pois significava investir em espaços econômicos vazios, com mão de obra e matérias-primas baratas e em abundância. A tendência do movimento do capital foi definida pela diferença da taxa de lucro de região para região, até que a partilha econômica e política do mundo finalmente se completou, incluindo as últimas zonas não ocupadas. Começou então a luta pela sua redistribuição entre os grupos monopolistas e seus Estados, na procura de novos mercados e fontes de matérias-primas: "As etapas de repartição pacífica são sucedidas pelo impasse em que nada resta para distribuir. Os monopólios e seus Estados procedem, então, a uma repartição pela força. As guerras mundiais interimperialistas se transformam em uma componente orgânica do imperialismo", explicou Lenin.

UM NOVO CAPITALISMO

Em 1902, o economista liberal John A. Hobson publicou em livro seminal chamado O imperialismo, no qual destrinchou a nova dinâmica de funcionamento do capitalismo. Segundo Hobson: "Nação atrás de nação entra na máquina econômica e adota médotos industriais avançados e, com isso, se torna mais e mais difícil para seus produtores e mercadores venderem com lucro seus produtos. Aumenta a tentação de pressionar seu governos para lhes conseguir a dominação de algum Estado subdesenvolvido distante. Em toda parte há excesso de produção, excesso de capital à procura de investimento lucrativo. Todos os homens de negócios reconhecem que a produtividade em seus países excede a capacidade de absorção do consumidor nacional, assim como há capital sobrando que precisa encontrar investimento que o remunere além-fronteiras. São essas condições econômicas que geram o imperialismo".

A demanda de bens de consumo caía em função da distribuição desigual e da acumulação crescente de capital. Parte do lucro acumulado não podia ser reinvestido, o que o tornava improdutivo e fazia cair a taxa de expansão do capital. Para fazer frente à superprodução derivada do consumo insuficiente era preciso conquistar mercados externos, motivando a expansão imperialista.

Em um relatório da época, o cônsul austro-húngaro em São Paulo explicava como isso funcionava na prática, informando que "a construção das estradas de ferro brasileiras realiza-se, na sua maior parte, com capitais franceses, belgas, britânicos e alemães". O novo capital financeiro estendia assim as suas redes por todos os países do mundo, o que explica o papel central desempenhado pelos bancos das metrópoles e suas filiais "coloniais".

Os países europeus não eram mais o destino dos grandes investimentos externos. Eles perdiam terreno diante dos investimentos nas regiões periféricas ou nas colônias: por volta de 1850, Europa e Estados Unidos recebiam cerca de metade das exportações de capital inglês. Entre 1860 e 1890, os investimentos externos para a Europa caíram sensivelmente (de 25% para 8%) e o investimento nos EUA começou a declinar até sofrer uma queda importante durante a guerra (de 19% para 5,5%). O capital financeiro passava a comportar-se como um agiota internacional, criando um sistema de dívidas cada vez maior.

A principal consequência do imperialismo foi acirrar as disputas entre as potências europeias. Ganhou força a ideia de que cada país devia transformar-se em uma potência mundial, cujo prestígio dependia do grau de influência que podia exercer no mundo. Desde 1870, quando Itália e Alemanha concluíram seus processos de unificação nacional, a concorrência internacional e as relações entre os países se tornaram mais complexas.

Surgiram grandes blocos de poder. Os Estados, levados a uma concorrência política crescente com os vizinhos, estabeleceram alianças para evitar o isolamento. A primeira foi a que uniu a Alemanha e o Império Autro-Húngaro em 1879. Três anos depois, ela seria expandida com a entrada da Itália, dando origem à Tríplice Aliança em 1882. A França, isolada, buscou seus próprios aliados: primeiro a Rússia, com a qual firmou uma aliança em 1894, e em seguida a Grã-Bretanha, com quem se associou em 1904. Finalmente, o acordo anglo-russo de 1907 deu origem à Entente Cordiale, também conhecida como Tríplice Entente. Assim nasceram os blocos que se enfrentariam na Primeira Guerra Mundial.

A formação de um império colonial por parte de um país era vista como instrumento de força e prestígio que podia romper o equilíbrio entre as potências. Já as potências chegadas tardiamente à corrida colonial utilizaram a ideia de sua superioridade nacional como instrumento político e ideológico contra seus rivais.

A Alemanha foi um caso exemplar de como a ideologia nacionalista serviu de base para o expansionismo territorial. Em 1894 criou-se a Liga Pan-Germânica (Alle-Deutscher Verband), que começou reivindicando os territórios onde se falava alemão, ou algum dialeto germânico, e em seguida passou a defender a anexação de territórios que no passado tinham sido "alemães" (teoria da "Grande Alemanha"). Até mesmo a ideia da raça eleita já começava a se manifestar. Em 1897, Fritz Sely publicava seu Die Weltstellung des Deutschtums (A situação mundial do poder alemão), livro no qual exaltava as qualidades dos alemães como "o povo mais capaz em todos os domínios do saber e das belas-artes".

RIVALIDADES IMPERIAIS

A alteração sofrida pelo conceito de Estado conciliador, baseado no ideário liberal, acompanhou o fim do capitalismo da livre concorrência. No capitalismo monopolista, a ideologia que prevalecia era a que assegurava à própria nação o domínio internacional. A expansão do capital era justificada ideologicamente pelo desvio conceitual da ideia de nação, onde uma poderia sobrepujar outras por considerar-se "eleita" entre as demais.

Neste contexto era natural que se acirrassem rivalidades entre as nações. Ingleses e franceses disputaram o controle da Indochina durante as últimas décadas do século XX, e a briga só foi resolvida pelos acordos de 1896 e 1907, que estabeleceram áreas de influência na região.

A rivalidade anglo-russa, por sua vez, tinha sido uma constante no embate entre as potências europeias pelos despojos do decadente Império Otomano. Essa rivalidade também se manifestou na competição pelo controle da Ásia central na década de 1880, que quase levou a uma guerra entre as duas potências.

A rivalidade russo-japonesa pela supremacia na bacia do Pacífico levou à guerra de 1905. O conflito foi vencido pelo Japão e terminou com a assinatura do Tratado de Portsmouth, em 5 de agosto de 1905, com a mediação dos EUA. O episódio mostrou para o mundo que americanos e japoneses estavam definitivamente entrando para o clube das superpotências.

Enquanto isso, na Europa, a França preparava a opinião pública para uma guerra contra a Alemanha, ao reivindicar a região da Alsácia-Lorena, que havia sido anexada pelos germânicos em 1870. A Inglaterra pretendia manter sua condição de principal potência colonial preservando o equilíbrio de poder no continente e apresentando-se como defensora da paz (britânica). A Rússia se arrogava o papel de protetora dos povos eslavos que permaceciam sob domínio otomano. A Itália, potência menor, reivindicava territórios do decadente Império Austro-Húngaro e alguns despojos do próprio Império Otomano.

A perspectiva de uma guerra europeia (e, pela extensão dos interesses coloniais das potências, mundial) era já visível no final do século XIX. Em 1914, quando a guerra de fato explodiu, não era sobre terreno virgem que Lenin se apoiava para afirmar: "A guerra europeia, preparada durante dezenas de anos pelos governos e partidos burgueses de todos os países, começou. O crescimento dos armamentos; a exacerbação da luta pelos mercados no atual estágio imperialista de desenvolvimento dos países capitalistas avançados; os interesses dinásticos das monarquias mais atrasadas - as da Europa oriental - tinham de, inevitavelmente, conduzir à guerra, e conduziram". A Primeira Guerra Mundial só poderia ser entendida, portanto, como revolta das forças produtivas sociais contra o quadro, tornado historicamente estreito, das relações capitalistas e dos Estados nacionais.


O ESTOPIM DA GUERRA

Desde o fim do século XIX, a Rússia e o Império Autro-Húngaro disputavam o controle das províncias otomanas na região dos Bálcãs. Em 1878, Romênia, Sérvia e Montenegro se tornaram independentes, e a Bósnia-Herzegóvina passou a ser administrada pelo Império Austro-Húngaro. A Sérvia independente, respaldada pela Rússia, passou a apoiar movimentos nacionalistas em regiões de maioria eslava.

No dia 28 de junho de 1914, o bósnio Gavrilo Princip assassinou o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do Império Austro-Húngaro. Ciente do apoio da Sérvia aos nacionalistas bósnios, o governo de Viena enviou um ultimato a Belgrado exigindo a punição dos responsáveis. A recusa dos sérvios em atender a todas as exigências de Viena desencadeou uma reação em cadeia que levou à guerra:

28/07/1914
Império Austro-Húngaro declara guerra à Sérvia

31/07/1914
Mobilização geral das tropas russas

1º/08/1914
Alemanha declara guerra à Rússia

2/08/1914
França mobiliza suas tropas em apoio à Rússia

3/08/1914
Alemanha declara guerra à França

4/08/1914
Inglaterra declara guerra à Alemanha


OSVALDO COGGIOLA, professor de história contemporânea da Universidade de São Paulo (In: História Viva)

sábado, 11 de junho de 2011

Para que serve a empresa nacional? - João Sayad


Procurei esse texto em casa até encontrá-lo. O autor não é nenhuma referência no que se refere ao tipo de progressista que defendo, pois ele defende o nacional e não necessariamente o público, como eu defendo. Mas sempre gostei muito desse texto dele. Vale a pena a leitura, que agora digitei e disponibilizo aqui.

(O TEXTO É DO ANO 2000)


João Sayad

Na maior parte dos últimos 2.000 anos, o sentido de tudo era dado por Deus e tudo era feito para “a maior glória de Deus”.

É verdade que as guerras religiosas tinham motivações territoriais, comerciais e dinásticas. Mas isso era segredo, interpretação de intelectuais. Reis, cavaleiros e escudeiros lutavam e morriam “ad majorem Dei gloriam”.

Os tempos mudaram, os sentidos se modificaram, embora continuássemos sempre com pelo menos dois sentidos: o que podia ser dito e o que não podia ser dito, a intenção e o resultado.

A Revolução Francesa criou novos sentidos: liberdade, igualdade, fraternidade.

Mais tarde, os marxistas estragavam os discursos e as cerimônias oficiais afirmando que tudo era feito em nome do lucro e do capital. “Liberdade” era apenas o direito de pobres e ricos dormirem embaixo da ponte. “Povo”, outro nome para os interesses da burguesia nacional.

Nos primeiros 80 anos deste século, o sentido era dado pela autonomia dos povos, pelo desenvolvimento nacional das ex-colônias, dos países pobres, inclusive os brasileiros.

Queríamos ser donos do nosso destino, livres para determinar a nossa vida, o nosso país.

Há 20 anos que tudo isso mudou.

Assumimos um compromisso embaraçoso e até um pouco deselegante com a verdade. Agora, temos discurso único, falamos a verdade.

Desde 1980, tudo é justificado em nome do lucro. Só o lucro dá sentido a qualquer coisa.

O que era denúncia passou a ser explícito e justificável.

O que dá lucro passou a ser natural, real, espontâneo, aceitável, justo, duradouro, estável, compreensível e explicável.

O que não dá lucro é metafísico, estranho, subsidiado, temporário, instável, falso e postiço.

Converse com os mais jovens – alunos, jornalistas, empresários – e verifique. Eles foram educados assim.

Eles têm razão, é verdade. Entretanto, é um sentido estranho, que não satisfaz, não entusiasma. Uma lógica que nos leva a lugares estranhos e a falsas conclusões.

Para que serve a empresa nacional?

Se empresa serve apenas para dar lucro, lucro nacional é igual a lucro estrangeiro, sendo simplesmente lucro. Portanto, a empresa nacional serve para a mesma coisa que a empresa estrangeira.

Se empresa serve apenas para produzir bens ou serviços (automóveis ou tratamento de saúde) e se a empresa nacional produz a mesma coisa que a estrangeira, mais uma vez, conclui-se que empresa nacional não serve para nada. Perdão, serve para a mesma coisa que a estrangeira.

Se uma empresa serve para dar emprego, qual a diferença entre trabalhar na General Motors ou na Vale do Rio Doce? No Pão de Açúcar ou no Carrefour? No Bradesco ou no Santander?

Se lucro é critério único, qual a diferença entre ler a Folha, a “Folha da Time Warner” ou o “Estadão do Figaro”? Faz diferença vender o “Pravda” para o Murdoch? Assistir novela da Globo ou da Globo/NBC?

A Nasa poderia ser vendida aos franceses? A Embraer poderia comprar a Boeing? As forças armadas de cada país poderiam ser terceirizadas?

Para que serve um violinista brasileiro? Um tenor, um pizzaiolo, uma bailarina, um professor, um operário ou um juiz brasileiros? Por que precisam ser brasileiros?

Quando existe similar estrangeiro, por que usar o nacional?

Se os estrangeiros forem iguais ou melhores, podemos nos livrar de todas essas escolas, conservatórios, tribunais, teatros, pagar menos impostos e ter mais lucros.

Para que serve o governo brasileiro? Precisamos apenas de governo, não precisa ser brasileiro. Talvez outros governos sejam mais baratos. Poderia ser equatoriano ou português, desde que nos dessem um passaporte.

Vale a pena votar?

Por que ensinar português nas escolas? Se alfabetizássemos em inglês, uma língua a menos, um professor a menos e mais um consumidor pronto para usar a Internet.

Para que serve o Brasil?


João Sayad é economista, professor da Faculdade de Economia e Administração da USP e ex-ministro do Planejamento (governo José Sarney); é autor de Que País é Este? (Editora Revan).


Texto publicado na Folha de S. Paulo em 31.01.2000, na seção Opinião Econômica.

terça-feira, 7 de junho de 2011

O Nome - Rubem Alves

Nós utilizamos esse belo texto de Rubem Alves em nosso curso de formação de dirigentes sindicais bancários. O texto é uma preciosidade desse grande escritor.

Apreciem sem moderação e REFLITAM!


Rubem Alves.


O NOME

Rubem Alves



Meu amigo Amílcar Herrera é um homem sábio. Isso é surpreendente, considerando-se que ele é um cientista. O fato é que ciência e sabedoria são coisas muito diferentes. Ciência é conhecimento do mundo. Sabedoria é conhecimento da vida. A exuberância do conhecimento científico vai, frequentemente, lado a lado com uma total penúria de sabedoria. Nisso o conhecimento científico pode ficar parecido com aquela praga conhecida pelo nome de “erva-de-passarinho”, uma parasita terrível que se aloja nos troncos das árvores e, à medida que cresce, a árvore morre. Estou cansado de ver Ph.Ds tolos.


Uma das características das palavras do sábio é que elas sempre nos surpreendem. Guimarães Rosa cita um intrigante aforismo que diz assim: “Aquilo que vou saber sem saber eu já sabia”. Mas não sabia. Sabia sem palavras. Aí o sábio abre a boca e a gente se surpreende por ouvir dito aquilo que já morava adormecido no silêncio do corpo. O Amílcar falou e eu me surpreendi. Ele me disse:


Rubem, eu tenho um sonho. Sonho que um dia qualquer eu vou acordar e vou ter esquecido o meu nome. Quem sou eu? – eu vou me perguntar. E eu não saberei o que responder. Não terei memória do meu nome. O ruim é quando a gente esquece o nome, mas os outros continuam a saber quem somos. Aí os psiquiatras dizem que tivemos um ataque de amnésia. E tratam de nos curar, de fazer-nos lembrar o nome para que saibamos quem somos. O nome é uma gaiola onde o que somos mora. Declaram-nos curados quando o nosso ser aparece de novo dentro da gente. Aí eles teriam perdido a memória da gaiola que prendia o nosso ser. E o nosso ser se transformaria em pássaro e voaria livre por espaços por onde nunca havia voado. O nome é uma prisão.


É preciso confessar que não foram essas, precisamente, as palavras do Amílcar. Faz muito tempo que tivemos essa conversa. Mas foram essas as associações que sua declaração provocou em mim. E isso que ele falou, coisa na qual eu nunca havia pensado, foi para mim uma revelação. Vi repentinamente, o que eu nunca tinha visto. É isso mesmo. Nomes são gaiolas. Neles se guardam as coisas que fizemos. Existem até os currículos, gaiolas que já fizemos. Aí, com base naquilo que já fizemos, as pessoas e nós mesmos imaginamos aquilo que se pode esperar da gente.


Peirce, lógico respeitável, no seu ensaio sobre “Como tornar claras as nossas ideias”, oferece-nos a seguinte fórmula para nos ajudar a ter clareza sobre a natureza de um objeto qualquer: “Considere quais os efeitos práticos que imaginamos que esse objeto possa ter. Então, a soma desses efeitos é o que é o nosso conceito desse objeto”.


Exemplificando: o objeto “galinha” – que efeitos práticos, em nosso pensamento, são invocados por esse nome? Respondo: cacarejo, ninho, ovo, cocô, ciscar na terra, molho pardo, canja etc. Esses efeitos práticos, somados, são aquilo que, na minha cabeça, está contido dentro do nome “galinha”. Aí eu pergunto: “Como foi que cheguei a associar esses efeitos práticos ao nome galinha?”. Resposta: “Pela minha experiência passada com essa entidade penosa cacarejante”.O nome, assim, é um saco onde se deposita a experiência passada. E é baseado nessa experiência que se conclui sobre o que esperar no futuro. Ninguém vai imaginar que uma galinha vai cantar como pintassilgo, nem que vai botar ovos azuis, nem que vai fazer ninhos parecidos com os dos beija-flores. Galinha é galinha, para todo o sempre. Está dito no nome.


Isso que foi dito sobre a galinha vale para tudo. Para as pessoas também. Quando o meu nome é pronunciado, eu sou imediatamente informado do que fiz no passado. E, ao ser informado, pelo som enfeitiçador do meu nome, daquilo que fiz no passado, sou também informado do meu ser e daquilo que se espera de mim no futuro. O nome, assim, obriga-me a ser de um jeito que se espera. O nome contém o programa do meu ser.


O Amílcar sabia das coisas. Imagino que aquela confissão – “Sonho que, um dia qualquer, eu vou acordar e vou ter esquecido o meu nome...” -, imagino que essa confissão nasceu de uma dor, a mesma dor que Álvaro de Campos colocou num verso: “Sou o intervalo entre o que desejo ser e o que os outros me fizeram”. Ele acorda numa manhã, com vontade sei lá de quê ´há pessoas cuja presença numa feira ou numa igreja é impensável, não combina; o lindo cirurgião de roupa branca, ele é impensável numa feira, comprando cebolas, de bermudas e sandálias, e também não se pode imaginar que o professor de economia ateu confesso ponha-se a chamar por Santa Bárbara no meio da tempestade de raios (sobre as invocações a Santa bárbara vale ler o Alberto Caeiro). Pois imagino que o Amílcar acordou com um desejo estranho qualquer, não previsto no seu nome, desejo que nunca tivera, ou que sempre tivera, mas cujo reconhecimento fora sempre proibido pelo seu nome. Mas logo veio a interdição: “Essa ação não é permitida pelo nome Amílcar Herrera. Essa ação não está prevista no programa Amílcar Herrera”.


Compreendi, então, o curioso costume de um povo primitivo que sempre dá dois nomes às pessoas. O primeiro deles é o nome igual ao nosso, anunciado, falado, escrito, conhecido, a gente grita o nome e a pessoa responde, o nome é falado e todo mundo sabe sobre quem estamos falando. O outro nome só a própria pessoa sabe. O primeiro nome é nome falso, apenas para efeitos práticos, uma mentira socialmente necessária. O outro nome, secreto, é o lugar onde mora o meu ser verdadeiro, que é muito diferente do outro. Assim, por meio desse artifício, todo mundo sabe que ninguém está preso dentro de uma gaiola de sons, que não se pode exigir que a pessoa seja, no futuro, aquilo que foi guardado no saco do nome, no passado. Cada pessoa tem, dentro de si, um segredo, um mistério. Cada burrinho pedrês tem, dentro de si, um cavalo selvagem. Cada pato doméstico tem, dentro de si, um ganso selvagem. Cada velho tem, dentro de si, uma criança que deseja brincar.


Acho que era isso que o Amílcar estava dizendo:


Se eu esquecer o meu nome e se os outros não exigirem que eu continue a ser o que sempre fui, então alguma coisa nova poderá nascer da velha: uma fonte no deserto. Afinal de contas, esta é a suprema promessa do evangelho: que os velhos nascerão de novo e virarão crianças.


Fonte:
(Do livro: "A festa de Maria" - Campinas, SP: Papirus: Speculum, 1996 - p. 15-19)

sábado, 28 de maio de 2011

“La memoria trabaja con todos los géneros literarios” - Sylvia Molloy

La escritora decidió llevar una suerte de “cuaderno de bitácora” sobre el Alzheimer de una amiga y ex pareja a quien le dedica el texto. “Me da pena, porque es un libro que escribí para sentirme más cerca de ella y que ahora no podemos compartir”, explica.


Radicada en EE.UU., Molloy dirige el programa de escritura creativa en español en la Universidad de Nueva York.

LITERATURA › SYLVIA MOLLOY HABLA DE DESARTICULACIONES

Martes, 15 de febrero de 2011

Por Silvina Friera

“Qué suerte despertar y ver caras amigas.” La frase, de una cortesía exquisita, la dice M. L., una mujer sentada al borde de su memoria desde que padece Alzheimer. El olvido que la trabaja abre sus fauces infinitas: las palabras se achican o extravían, los recuerdos son como relámpagos que cosquillean cada vez menos en el cerebro. Ahora que anochece en su mente, una amiga y ex pareja que la visita casi diariamente, testigo de ese naufragio, anota con paciencia de artesana en su “cuaderno de bitácora” –tal vez con una serenidad y un desahogo que no había tenido nunca antes en su vida– el repertorio de un deterioro irreversible. Registra las conexiones perdidas de esa relación “que continúa pese a la ruina, que subsiste aunque apenas queden palabras”. Cada experiencia compartida es una luz que se apaga en ese largo salón que una de ellas jamás volverá a frecuentar. La narradora de Desarticulaciones (Eterna Cadencia), texto tan bello como intenso de Sylvia Molloy, registra lo que sucede con esa queridísima amiga. “M. L. es incapaz de decir que ella misma ha sufrido un mareo, pero es capaz de traducir al inglés el mensaje en que L. dice que ella, M. L., ha sufrido un mareo –consigna la narradora–. Es como lograr una momentánea identidad, una momentánea existencia, en ese discurso transmitido eficazmente.”

El libro de Molloy está dedicado: “Para M. L., que todavía está.” No es la primera ni será la última vez que la escritora explora el género autobiográfico desde sus ficciones o ensayos. Pero lejos de componerse como un sujeto pleno, en Desarticulaciones el “yo” que escribe para tratar de entender ese estar/no estar de una amiga que se desintegra ante sus ojos necesita dar testimonio del otro. De lo que queda de M. L. Esos restos están esparcidos en textos brevísimos; son como chispazos de lucidez que resisten al tsunami de la desmemoria. M. L. recuerda fragmentos de Aristófanes en griego, algún poema de Darío, alguna frase de Borges, y su sobrenombre. “Me pregunto si la pérdida de memoria de M. L. tiene algo que ver con el exacerbamiento arbitrario de la mía –apunta la narradora–. Si de algún modo estoy compensando, probándome a mí misma que mi memoria recuerda aun cuando yo no quiero recordar.” La escritora ha pulseado contra la muerte atestiguando. Su libro es un “homenaje”, una despedida que desde la misma ficción tuerce el andarivel de lo póstumo lacrimógeno. Aunque hace más de 40 años que no vive en el país, Molloy siempre regresa. Si el péndulo de la vida se desplaza entre duelo y duelo, la autora de El común olvido volvió a sus pagos justo cuando murió el ex presidente Néstor Kirchner (ver aparte).

“Toda escritura es memoria, siempre estamos contando lo que pasó o pudo haber pasado, así que la memoria trabaja con todos los géneros”, dice Molloy en la entrevista con Página/12. “En el caso de Desarticulaciones se me impuso el fragmento para captar esos encuentros breves, esas ‘conversaciones’ entre dos personas en las que una recuerda y la otra casi no, pero en las que la comunicación –porque la hay– se da en el puro presente del lenguaje. Además, el fragmento se prestaba particularmente bien para anotar esos destellos en la memoria de quien la está perdiendo, esas irrupciones verbales sin ton ni son que funcionan como pequeñas epifanías de quien, a pesar del deterioro, ‘todavía está’.”


–¿A qué responderá que la facultad de traducir, como la retórica, no se pierda hasta el final, como sucede con M. L.?–La continuidad de la retórica, cuando no sólo se están perdiendo los recuerdos sino el sentido mismo de las cosas, es algo que sigo sin entender del todo. Se podría pensar que la retórica, o los buenos modales, o la cortesía, son meras fórmulas, cáscaras huecas de significado, convenciones que se observan y que son puro hábito más que conducta conscientemente asumida. Y sin embargo no estoy segura. Si yo le cuento a M. L. que una vez robó un pañuelo en una tienda y ella dice “no puedo haber hecho eso porque está mal robar”, ¿de dónde surge esa respuesta, de una doxa burguesa biempensante que funciona automáticamente o de una ética que perdura, de un auténtico sentido del mal y del bien?


–Al principio del libro se lee: “Tengo que escribir estos textos mientras ella está viva”. ¿Sintió en el pasado la urgencia de escribir como en este libro?–No, nunca lo sentí, pero acaso se deba a que mis ficciones anteriores también trabajaban con la memoria, con recuerdos personales que se utilizaban ya ficcionalmente, como en En breve cárcel y El común olvido, ya autobiográficamente, como en Varia imaginación; y aclaro al pasar que esta división entre autobiografía y ficción es completamente inestable. En Desarticulaciones me impulsaba otro propósito, que era atestiguar algo que estaba pasando ahora mismo, ante mis ojos, y que cambiaba todos los días. Algo que yo estaba viviendo, no recordando, y que contribuía a armar.


–En uno de los textos titulado “Silabeo” da cuenta de las palabras que inventa M. L. ¿Cómo es la “creatividad” en alguien que pierde la memoria pero puede inventar “neologismos”?–Es justamente en episodios como ése que quería restituir lo que usted bien llama la creatividad del que está perdiendo la memoria, su capacidad lúdica, basada en juegos de palabras, combinados con pedacitos de recuerdos: M. L. inventa palabras y con ellas arma versos, pero también es capaz de recordar de pronto un verso de Darío. Además, quise mostrar el humor de ciertas cosas que dice, y de ciertas situaciones. La gente piensa siempre en el lado trágico de la desmemoria, pero quería mostrar también lo otro: la risa, el disparate, la ligereza de quien, por así decirlo, se ha dejado ir.

El eco de mi madre, de Tamara Kamenszain, entabla un diálogo fecundo con las Desarticulaciones de Molloy. “Correctas educadas casi pomposas/ estas rehenes del Alzheimer/ ponen a congelar la lengua materna/ mientras nos despiden de su mundo sin palabras”, se lee en uno de los poemas de Kamenszain. “Nuestros libros fueron paralelos, en el sentido de que fueron escritos en la misma época y publicados el mismo año –cuenta Molloy–. Y, en efecto, hablamos con Tamara de lo que estábamos haciendo, o mejor, de lo que no podíamos dejar de hacer: las dos sentíamos el mismo desamparo ante la persona querida que se nos va y la misma urgencia de escritura. El eco de mi madre es un libro único, ya a partir del título mismo que recuerda precisamente el remanente, lo que queda de la persona que se está yendo, esa voz que ya es eco, que se confunde con el silencio sin por ello dejar de decir: ‘escuchá lo que no dice’. La poesía de Tamara recupera el asombro y el vértigo ante lo que se está yendo como no lo logra otro texto.”


–En uno de los textos dice: “Yo misma entro en la enfermedad, en su retórica, ya nada me sorprende”. ¿Todo el tiempo estuvo escribiendo contra esa frase?–Ya nada me sorprende, dice la narradora, porque en sus visitas a M. L. todo es, o puede ser, sorpresa. La lección que se aprende es que, para que haya contacto, hay que aceptar la sorpresa, el dislate, entrar en ellos sin intentar racionalizarlos. La sorpresa es la norma en estos encuentros, pero nunca se vuelve hábito, repetición. Quiero decir que siempre es una sorpresa nueva para la cual no se está preparada.


–Hay algo que da mucha tela para cortar cuando plantea que con M. L. habla un español de entrecasa, pero de una casa que nunca fue del todo la suya. ¿Cómo es la experiencia de habitar, en simultáneo muchas veces, la casa del español, el francés y el inglés?–Ahí usted me lleva a un tema sobre el cual estoy escribiendo en este preciso momento, y que es, efectivamente, qué pasa cuando se tiene más de una casa de la lengua. El sujeto bilingüe o trilingüe siempre se siente levemente desviado cuando escribe, tiene la sensación de que lo que dice está siempre siendo dicho en otro lado, en muchos lados, como un eco desasosegante. Si toda comunicación es inherentemente rara, los cambios de lengua acrecientan esa rareza. Paradójicamente, el que habla/escribe en más de un idioma, es decir, el que tiene más de una casa de la lengua, escribe siempre a la intemperie.


–¿Con el francés y el inglés también siente que lo habla en un registro de “entrecasa”?–En inglés, decididamente, porque fue también lengua casera, me crié bilingüe. El francés vino algo más tarde y fue mi lengua culta, en el sentido de que fue primero lengua estudiada, y sólo después, cuando viví en Francia durante un tiempo, se volvió lengua cotidiana. Entonces, si bien hay un “entrecasa” para el francés, es un entrecasa que se permite menos libertades, menos juegos, inventa menos. Es una cuestión de registro: si paso del español al francés siento que estoy citando. En cambio, del español al inglés, o al revés, hay continuidad, no hay sutura.


–Hacia el final de Desarticulaciones, enumera una serie de palabras o expresiones de ese español de entrecasa como “porrazo”, “creída”, “chúcara” y “a la que te criaste”. ¿Las consignó para que no se pierdan en su memoria?–Las consigné, sí, porque además de devolverme conversaciones que ya no puedo tener con M. L., me devuelven un habla porteña de otra época, la de mi infancia o adolescencia, un poco como esas voces que decía escuchar Manuel Puig cuando empezó a escribir La traición de Rita Hayworth. Me pasó lo mismo cuando escribí El común olvido y quise recobrar ya no palabras aisladas sino entonaciones y estilos de habla de ciertos individuos de otra época. Me gustaría pensar que esas palabras tienden a resistir el borramiento, que se quedan cuando todo lo demás se ha ido, pero creo que es la expresión de un deseo más que una realidad, porque la enfermedad progresa por vías imprevisibles.
Varias personas que leyeron el libro y se identificaron con esas palabras le advirtieron a Molloy no reconocer una: mangangá. “Me doy cuenta de que cometí un error al poner una palabra que usaba M. L. –aclara–, porque era de su entrecasa y no de la mía, ni de la entrecasa en general, la usaban su madre y su abuela para referirse a alguien que hablaba mucho; a lo mejor era influencia de su abuelo brasileño, nunca lo sabré. Porque el mangangá es un insecto del Brasil, que hasta tiene entrada en el Diccionario de la Real Academia, como americanismo.”


–¿M. L. sigue viva? ¿Intentó leerle partes del libro?–Sí, M. L. sigue viva, pero no creo que le lea nada del libro porque no le da la memoria para seguir lo que le leería, es como aquellos personajes de Swift de los que habla Borges, que no pueden leer (o en este caso escuchar) “porque la memoria no les alcanza de un renglón a otro”. Y me da pena, porque es un libro que escribí para sentirme más cerca de ella, un libro que en otra época hubiera querido que leyéramos juntas, y que ahora no podemos compartir.

Fonte: Página/12

La escritura del olvido - Sylvia Molloy

  • 19/10/10




  • La escritura del olvido

    Es una de las principales figuras de la literatura argentina y acaba de publicar “Desarticulaciones”, una novela breve sobre las permanentes fracturas de la memoria.

    POR Mauro Libertella


    SYLVIA MOLLOY. "No me siento realmente parte de una generación", dice desde Estados Unidos.

    Para M.L., que todavía está”, reza la dedicatoria de esta novela corta de Sylvia Molloy, y en esa rúbrica breve y tajante se cifran las líneas de sentido que dominan el relato. Hay alguien que le ganó al paso del tiempo, que se le adelantó a la enfermedad, y que le impuso su tiempo presente a la dedicatoria y a todo el libro. Todavía está. Hay, también, una narradora, que la visita a M.L. día a día y que asiste al teatro alucinado de su desmemoria. Así, la narradora que visita a su amiga con Alzheimer se convierte súbitamente, sin querer queriendo, en esa escriba a la que le queda la palabra escrita para reconstruir lo que en la memoria de su amiga se va eclipsando. En algún momento, Desarticulaciones asume la forma de un delicado juego de espejos: la narradora lee su propia memoria en las lagunas de su amiga, y pareciera que por momentos es la amiga, desde su presente absoluto, la que le dicta las palabras que componen la narración; como un escritor fantasma que le guía el pulso para que Desarticulaciones diga finalmente una verdad compartida.


    Por lo demás, Desarticulaciones responde a una lógica de capítulo corto que se deja leer en la órbita del diario o la libreta de anotaciones –formatos con los que juega pero que no explican la lógica de la narración. Molloy ya se mostraba en libros anteriores afecta a esa forma breve y epifánica, pero hay algo en la materia de este libro que parece pedir este procedimiento. Es como si la desmemoria no se pudiera narrar sino bajo la forma de lo fracturado. Así, de un modo astillado, aparecen raptos de catarsis (“Tuve un episodio raro, lo consigno aquí porque es el unico lugar en el que en estos días hablo de memoria”), reflexiones (“Para mantener una conversación es necesario hacer memoria juntas o jugar a hacerla, aun cuando ella ya ha dejado sola a la mía”), referencias al presente (“Dentro de dos días es su cumpleaños”) y a un pasado compartido (“No me atrevo a preguntarle si se acuerda de Borges, menos de Saint Laurent”). Como en un caleidoscopio, digitado por una mano sutil e invisible, todos los fragmentos van erigiendo, finalmente, una historia. Mejor: lo que queda al final, cuando uno cierra el libro, que se lee de un tirón, es un pedazo de historia. Queda la sensación de que la historia empieza antes y termina después de los limites del libro, pero ese recorte, ese fragmento de libro, es la condensación de todo lo que se quiso decir. Es también un acto de urgencia, como si la narradora hubiera necesitado escribir eso que escribió para entender algo del orden de lo inenarrable.


    Algunos de sus libros tienen títulos que son como cifras literarias (“El común olvido”; “Varia imaginación”). ¿Qué evoca “Desarticulaciones”? Pensé largamente en el título, Desarticulaciones fue lo primero que se me ocurrió porque en cada visita de la narradora a M.L. se comprueba una conexión perdida, mejor dicho deshecha: lo que era coherente en una mente lúcida ahora está despedazado. Luego se me ocurrió que el título era algo tajante, con ecos gramaticales, y procuré encontrar otro, pero me di cuenta de que mi predilección por la cita literaria, como vos indicás, aquí no funcionaba. Es decir, la cita literaria lleva a otro texto, al recuerdo de otro texto, arma parentescos. Aquí el título no lleva a nada sino a su propia desconexión, a su intemperie.


    ¿Qué tipo de posibilidades narrativas o conceptuales le dio el capitulo corto, la forma breve? Hace mucho que me intereso por la forma breve, te diré desde épocas remotas en que sospechaba (pero no sabía del todo) que más tarde me dedicaría a escribir. Entonces anotaba párrafos, secuencias, pequeños argumentos pensando que algún día me servirían y de hecho usé algunos de esos fragmentos en Varia imaginación . Aquí fue algo distinto, la forma breve me permite recalcar la pobreza de esos encuentros, o mejor dicho su carácter elemental. Son contactos pequeños que apuntan a un mundo más grande que se ha perdido y del que sólo subsisten ecos, susurros y alguna que otra iluminación que de pronto surge de la desmemoria.


    ¿Qué tipo de literatura alrededor del tópico de la memoria o el olvido le interesa? ¿Leyó sobre la cuestión mientras escribía? Más de una vez, en relación con M.L. he recordado aquellos personajes de Swift que refiere Borges, incapaces de leer “porque la memoria no les alcanza de un renglón a otro”, sólo que en el caso de M.L. “leer” es equivalente a “pensar” e, incluso, a “hablar”. Y también, por contraste, he pensado desde luego en Funes, porque su sistema férreo, sin huecos, es lo opuesto del “sistema” de M.L. que es puro hueco. Pero no, no leí sobre el tema mientras escribía, a pesar de que me interesan mucho las tácticas del recuerdo y del olvido, prefería que la desmemoria de M.L. dictara el recorrido.


    ¿Le parece que “Desarticulaciones” es un relato de personajes? ¿Quién está en el centro del relato: la narradora, M.L.? No, no creo que sea un relato de personajes, o por lo menos, al escribirlo, no quise darle esa dimensión. Ni tampoco lo veo como un relato centrado en nada ni nadie, o más bien sí, centrado en su propia disolución, en esas hebras de voces, gestos aislados, y tomas de conciencia momentáneas que no van armando nada sino que atestiguan la desarticulación del título. Tampoco quise registrar el progreso de esa desarticulación, no se trata del itinerario de un derrumbe sino de un ir y venir (hoy se acuerda de cómo leer, ayer no se acordaba, hoy sabe su nombre, mañana no lo sabrá) del que todavía surge algo valioso, una revelación, un chiste, una intimidad, un momento feliz. En suma, un contacto.


    En el párrafo introductorio dice: “Tengo que escribir estos textos mientras ella está viva, mientras no haya muerte o clausura”. Ahí, en esa urgencia, aparece una idea de escritura en tiempo real, pegada a un presente. ¿Cómo fue la génesis, la gestación de esa escritura que avanza día a día? Bueno, en un primer momento fue un acto de autoprotección. Pensé que si yo registraba semanalmente mis visitas a mi amiga la tarea no me resultaría tan triste y empecé a anotar, muy brevemente, como en un diario, esos encuentros. Poco a poco me di cuenta de que cada vez que la visitaba pasaba algo, o ella decía algo, que de alguna manera, me la restituía, y empecé a ver que tras la desmemoria había algo imprevisto, recuperable, algo, como te diré, no patético sino muy vital. Había acción narrativa. Y quise registrar esa vitalidad, desplazada, llena de huecos, pero vitalidad al fin.


    Lo autobiográfico es un tema que usted trabajó en artículos y ensayos. ¿Qué relación le parece que establece “Desarticulaciones” con el registro o el género autobiográfico? El yo de Desarticulaciones recurre al recuerdo autobiográfico pero no busca componerse como sujeto –propósito habitual del autobiógrafo– sino más bien dar testimonio del otro, de lo que queda del otro, en este caso de M.L. Con esto no quiero decir que el yo sea un mero observador. Hay momentos imprevistos en que ese yo narrador se siente tocado de manera particularmente personal, momentos de revelación o de trauma en que deja de ser espectador para comprometerse con la historia y verse afectado por ella.


    En el libro, el idioma inglés aparece una y otra vez, en un subtítulo, en alguna frase, en alguna anécdota. Viviendo hace tantos años en un país de lengua inglesa, ¿cómo gravita en usted ese idioma a la hora de escribir? Si bien en inglés escribo más bien crítica, el idioma opera activamente en mi ficción como una suerte de eco, como si estuviera diciéndome con otra voz, en otro lado. Creo que es lo que le pasa a toda persona bilingüe, o trilingüe, como es mi caso, el saber que lo que se dice es siempre ajeno, que siempre hay otra manera de decirlo.


    Y al revés... ¿qué lengua castellana cultiva en su día a día en Estados Unidos? Tu pregunta es interesante porque me hace caer en la cuenta de que en mi vida cotidiana “cultivo” –es la palabra justa– más de un castellano según el interlocutor. En la universidad doy clase en un español más bien neutro, con amigos hispanohablantes hablo el castellano de la Argentina, con gente menos conocida encuentro que a menudo recurro a palabras de otras regiones de América Latina (guagua por ómnibus, por ejemplo), palabras que no conocía antes de vivir en esta ciudad donde se cruzan tantas versiones de la lengua. Pero todavía me doy vuelta en la calle si oigo hablar castellano, sobre todo si adivino una inflexión porteña, creyendo que me están hablando a mí.


    ¿Qué le parece que es para los norteamericanos la literatura argentina? En Estados Unidos, ciertas literaturas se piensan menos en términos de diferencias nacionales –literatura mexicana, chilena, etc.– y más en términos geopolíticos: la literatura argentina se ve como parte de la literatura latinoamericana, es decir como la literatura de una región más que de un país en particular. Este modo de recepción por cierto no es privativo de los Estados Unidos, ya lo había puesto en práctica Europa, sobre todo Francia, cuando se “descubrió” la literatura de América Latina a partir de los años veinte del siglo pasado. Ahora bien, este modelo tiene limitaciones obvias, ejemplificadas en políticas editoriales, prácticas de traducción, y recepciones problemáticas. Se privilegia cierta imagen simplista de América Latina a través de su literatura, condicionada ya por el realismo mágico y la literatura fantástica, ya por la literatura testimonial, y a menudo por una combinación de las tres cosas. Esto hace que ciertos escritores “pasen” mejor que otros, por eso se los traduce, aunque te prevengo que en Estados Unidos se traduce cada vez menos. Pero este modelo expansivo de acercarse a la literatura latinoamericana no es del todo negativo: la deslocalización tiene sus ventajas. Leer a escritores argentinos (cuando se los traduce) en un contexto latinoamericano y, más aún, en un contexto transnacional permite establecer un diálogo entre textos que no siempre se establece desde la Argentina y eso, me parece, es sumamente provechoso.


    En los albores de la década del sesenta vivió en París, después en Buenos Aires y para el final de los sesenta en Estados Unidos. ¿Qué se acuerda de esa década? Me gusta que me preguntes “qué me acuerdo de esa época” y no “cómo era esa época” porque el recuerdo sin duda reconstruye y retoca ciertos momentos del pasado y ese fue un momento importante para mí. Volví a Buenos Aires en 1962 después de haber pasado cuatro años en una París conflictiva y estimulante, la guerra de Argelia por un lado y una increíble actividad intelectual y artística por el otro, para volver a un Buenos Aires que preparaba “sus” años sesenta. La recuerdo como una época mágica, donde culturalmente pasaba de todo, desde Sur, donde conocí a gente que me marcó profundamente hasta los happenings del Instituto Di Tella, y los grupos de discusión política en los que participé durante unos años: un poco Borges, la revolución cubana y Marta Minujín.


    ¿Qué le quedó de aquellos años? De esos años datan amistades que conservo hasta el día de hoy, el contacto profundo con una cultura que me determina y que hice de veras propia, y también la plena conciencia de que quería dedicarme a escribir y que esa escritura (que debutó por la crítica y luego añadió la ficción) iba a ser en castellano. Y entonces, justo cuando empezaba a aquerenciarme, vino el golpe del 67 y volví a irme, esta vez a Estados Unidos donde –sinceramente creía– me quedaría sólo un par de años.


    ¿Se siente parte de una generación? No me siento realmente parte de una generación, aunque sin duda lo sea, porque para sentirte parte tenés que convivir y yo siempre me estaba yendo. Volvés, sí, pero “de visita”, y nunca el tiempo suficiente para retomar de manera sostenida los contactos, las complicidades, los proyectos y los rencores que determinan una generación. Entonces establecés parentescos a distancia y no necesariamente con tus coetáneos, te vas creando la familia, los interlocutores literarios, que te hubiera gustado tener. Algunos son mayores que vos, otros sí son contemporáneos, otros más jóvenes. A algunos ni siquiera los conociste o conocés pero no importa: igual dialogás con ellos a través de la lectura.

    Fonte: Clarín - Revista Ñ

    domingo, 22 de maio de 2011

    Sociedade dos Poetas Mortos - Carpe Diem

    CARPE DIEM!
    SEIZE THE DAY!
    APROVEITE O SEU DIA!

    A opressão, a falta de liberdade abordada no excelente filme de Peter Weir (1989) é aquela opressão vivida pelos jovens de classe média da geração anterior, ou seja, a geração dos anos sessenta.

    Eu era o jovem dos anos oitenta. Entretanto, como fui pobre e meus pais pertenciam à grande massa de excluídos dos anos oitenta daquele Brasil para poucos - para os sócios da ditadura militar -, não tive aquela opressão juvenil retratada no filme para ser médico, engenheiro ou advogado.

    Fui trabalhador braçal juvenil, assim como quase todos de minha geração dos oitenta. E nos noventa virei trabalhador bancário.

    A mensagem do filme Sociedade dos Poetas Mortos nos tocou muito na época. A nós, jovens miseráveis dos anos oitenta, nos encheu de desejos a tal ideia do CARPE DIEM, pois também queríamos viver o presente e sermos felizes.


    JOVENS DE HOJE

    Fico vendo nossos jovens de hoje, uma geração depois, e fico meio agoniado com o quanto o mundo mudou em apenas uma geração.

    Que opressão tem meu filho ou o seu? Eles é que decidem o que querem fazer. Não vivemos em uma ditadura "formal" (apesar de vivermos sob a ditadura do capitalismo financeiro e midiático global).

    Hoje, a questão dos ideais juvenis me parece bastante diferente e também não quer dizer que a minha impressão seja a regra. Me parece que eles não querem fazer nada. Nada.

    Carpe diem!
    Aproveitar o dia virou algo como estar em jogos eletrônicos ou redes sociais 24 horas por dia, numa não-vida virtual.

    Carpe diem!
    Quando ando e vejo quase 90% das pessoas em seus mundos particulares com seus fones de ouvidos no trem, metrô, bikes, a pé, em grupo mas com fone, eu me desespero.

    Até acho que esta geração ainda atenda a chamados de suas redes ou grupos para alguma coisa coletiva, alguma atividade, mas é tudo muito desvinculado ou episódico. Não muda nada da vida real.


    A ETAPA ATUAL DO CAPITALISMO E O FIM DO VALOR SOCIAL DO TRABALHO

    O capitalismo do século XXI está acabando com o valor social do trabalho.

    Algumas empresas mandam nos poderes instituídos - executivos, legislativos, judiciários e meios de comunicação - e de fato brincam com o mundo, o mundo geográfico e o humano.

    O mundo do trabalho caminha a largos passos para ser mundialmente precarizado, informal, desregulamentado e sem direitos sociais.

    Carpe diem!
    Hoje, grande parte dos jovens já têm a liberdade de escolha.

    E nós não estamos conseguindo aglutinar os jovens para a mãe de todas as lutas. Lutar pelo direito ao trabalho decente e de remuneração justa com direitos sociais. Luta contra a terceirização, contra o assédio moral e as más condições de trabalho.


    MEU DESEJO (MAIS QUE UTOPIA)

    O meu desejo é criar uma espécie de Sociedade dos Poetas Mortos não só para ler poesias e saborear o sonho do amor, do prazer e da felicidade individual.

    O meu desejo é criar uma Sociedade dos Poetas Mortos com lideranças que organizem suas redes sociais para buscar mudanças para HOJE em relação ao que diz respeito ao mundo do trabalho e da política.

    Meu desejo é organizar os jovens poetas para a mudança do mundo real. Que nossos jovens poetas aglutinem jovens trabalhadores, estudantes e militantes para atuar junto ao Sindicato contra as reestruturações produtivas do capital - no nosso caso o financeiro - que quer nos retirar todos os direitos conquistados em um século de lutas.

    Convido os jovens bancários e bancárias, e os experientes também, a participarem dessa luta conosco. Os bancários e os sindicatos terão que enfrentar lutas mais intensas a cada dia contra os banqueiros públicos e privados, para mantermos o nosso direito de existir, existir com direitos e condições decentes.

    sábado, 21 de maio de 2011

    Refeição Cultural 74 - Reformas Política e Tributária no Brasil

    O que andei digerindo ultimamente?

    Participei de importantes seminários nacionais nas últimas duas semanas. Nesta, aprendi muito em relação ao tema REFORMA POLÍTICA. Foi um seminário promovido pela CUT. O desejo que temos é de sair com palestras ou apresentações a qualquer pessoa que se interesse pelo tema porque ele é muito importante e vi que quase ninguém sabe a respeito.

    Na semana anterior, tivemos dois dias de seminários na Contraf-CUT sobre a tragédia da TERCEIRIZAÇÃO NA CATEGORIA BANCÁRIA e também aprendi muito sobre o tema REFORMA TRIBUTÁRIA. Novamente o desejo é de sair fornecendo informação a quem queira, pois são as pessoas comuns que deveriam obter esse conhecimento já que as questões tributárias e políticas são feitas para melhorar ou prejudicar a vida das pessoas comuns.

    INFELIZMENTE, NO BRASIL A TRIBUTAÇÃO FOI FEITA PARA OS POBRES MANTEREM OS PRIVILÉGIOS DOS RICOS E AS REGRAS ELEITORAIS FORAM FEITAS PARA A MANUTENÇÃO DO STATUS QUO DA ELITE.

    Vou ver a melhor maneira de distribuir as informações que adquiri nesses seminários.

    segunda-feira, 16 de maio de 2011

    Observação interessante de Maquiavel sobre ter exército próprio ou não


    Maquiavel

    "QUOD NIHIL SIT TAM INFIRMUM AUT INSTABILE QUAM FAMA POTENTIAE NON SUA VI NIXA"


    "NADA É TÃO INSTÁVEL QUANTO A FAMA DE PODER DE UM PRÍNCIPE QUANDO NÃO SE ENCONTRA APOIADA NA PRÓPRIA FORÇA"


    Esta observação é bastante correta e muito presente em nossa vida política.


    Ela serve para várias lições partidárias, sindicais, militares etc.


    Está no capítulo XIII de O Príncipe e trata de uma sequência de capítulos que analisam os tipos de forças armadas que um governante poderia ter e suas consequências certas.


    Estou em busca de preencher algumas lacunas culturais e eliminar certa ignorância que tenho em relação a obras clássicas. Esta é uma delas. Recentemente li Utopia (1516) de Thomas More.


    (fiz releituras em 2012)


    QUESTÃO VITELLI


    Houve um momento marcante na guerra entre Florença e Pisa, quando o condottiere florentino Paolo Vitelli ganhou várias batalhas mas parou diante de Pisa, sendo acusado de fazer jogo duplo e não vencer a batalha final.


    Segundo Carlos Estevam Martins, que apresenta a Vida e Obra de Maquiavel na coleção Os Pensadores, esse fato suscitará reflexões profundas na obra de Maquiavel:


    "A 'questão Vitelli' suscita pela primeira vez um dos temas permanentes da obra de Maquiavel: a necessidade de organização de uma milícia nacional, formada por soldados locais disciplinados. A soberania política - pensa ele - depende de exército próprio, constituído por soldados leais e convictos de que lutam pela causa da pátria."



    Bibliografia:

    MAQUIAVEL. O Príncipe. Coleção Os Pensadores, da Editora Nova Cultural. Edição 1999.

    domingo, 15 de maio de 2011

    FLM0628 Clase 2 Lecturas Hispanoamericanas

    SIGUE la clase 2 de marzo/2011

    VICTORIA OCAMPO - "AUTOBIOGRAFÍA I"

    SU PROYECTO INTELECTUAL

    Con "El Sur", cuando Victoria está por los cuarenta, podemos ver el objetivo que ya está en su obra literaria "AUTOBIOGRAFÍA":

    "Yo sólo sé que habré prolongado, por un camino en apariencia muy distinto, no el rastro de sus virtudes, fuesen las que fuesen (sería jactarme) sino su amor tenaz, y a veces encabritado, por un país ingrato y querido, que precisa, hoy más que nunca, una suma enorme de amor desinteresado para criarse y crearse, como los niños chiquitos. Este caudal no se consigue con empréstitos solamente. Y mientras el país no lo reciba, merecerá del mundo aquel juicio de Quincy Adams, cuando advertía a Monroe: 'En el estado inorgánico de las provincias de la América Española, no sería prudente auspiciar un reconocimiento' " Y eso fue a pedir a Estados Unidos mi bisabuelo Aguirre en 1817: un reconocimiento.

    Dentro de otra esfera, en condiciones muy diferentes, yo también he tratado de negociar un reconocimiento." p.14


    BUSCAR UN RECONOCIMIENTO INTERNO Y EXTERNO.

    INTERNO - espacio cultural

    EXTERNO - (en los 40/50) ingresar en la república de las letras hispanoamericanas


    CAPÍTULO "EL ARCHIPIÉLAGO"

    Aleatoriedad y no interpretación - el capítulo deja a la niña bablar. Ella (adulta) está al lado.

    Y Victoria en su proyecto casi nunca pone al lado su sujeto, su "YO" de la totalidad.

    (Nuestra profesora cita la autobiografía de Pablo Neruda = es totalizante)

    PERSPECTIVA TELEOLÓGICA - que la vida tiene un destino desde siempre.


    CUESTIÓN CENTRAL EN LA OBRA

    "La interpretación de mis primeros recuerdos depende, desde luego, de lo que yo creo ver en ellos. Pero los recuerdos en sí no dependen de mi voluntad, no han sido deliberadamente seleccionados. Mi memoria me los impone. Sobre este punto no puede haber duda posible. Ni rastro de wishful thinking. En la medida en que estoy en condiciones de controlar con algún rigor su autenticidad, esos primeros recuerdos parecen ligados en orden cronológico a la indignación causada por la injusticia y la crueldad..." p.66

    ¿En qué medida está la ficción en estos textos?

    ¿La ficción está vinculada a el olvido?

    En textos autobiográficos siempre está la ficción a dar vueltas. A veces, porque se da mejor a la narración.

    FLM0628 Lecturas hispanoamericanas

    ACTO DE PRESENCIA - SYLVIA MOLLOY

    Fragmentos de leitura - excertos interessantes


    "Introducción

    La prosopopeya, se ha dicho, es la figura que rige la autobiografía. Así, escribir sobre uno mismo sería ese esfuerzo, siempre renovado y siempre fallido, de dar voz a aquello que no habla, de dar vida a lo muerto, dotándolo de una máscara textual..." p.11

    prosopopéia:

    Acepções
    substantivo feminino
    1    Rubrica: retórica.
         figura pela qual o orador ou escritor empresta sentimentos humanos e palavras a seres inanimados, a animais, a mortos ou a ausentes; personificação, metagoge
    (fonte - Houaiss)


    "Si decidí escribir sobre autobiografía y, en concreto, sobre autobiografía hispanoamericana, lo hice movida, básicamente, por curiosidad crítica. Quiero reflexionar sobre textos que pretenden realizar lo imposible, esto es, narrar la 'historia' de una primera persona que sólo existe en el presente de su enunciación, y quiero observar cómo esa imposibilidad cobra forma convincente en textos hispanoamericanos..." p.11

    (parei por sono, sigo depois)

    FLM0628 Lecturas Hispanoamericanas

    VARIA IMAGINACIÓN - SYLVIA MOLLOY

    Clase de 12/5/11

    Lectura final.

    CARACTERÍSTICAS DE LA OBRA

    -Memoria difusa, con marcas ficcionales, relatos de otros (lo que escuchó de los demás)

    -El origen del relato empieza con el derrumbe de las torres gemelas (2001). La autora está allá cuando ocurré el hecho.

    -De cierta manera la obra "Desarticulaciones" empieza también con otro derrumbe. Una caída personal.

    -La narración tiene rasgos de una memoria fragmentaria.

    -Empieza y termina en el mismo lugar. La casa de la familia.

    NOMBRE DEL PRIMERO CAPÍTULO
    Tiene que ver con una referencia a un cuento de Cortázar - "Casa Tomada". Además, es algo que viene por la memoria de Pablo.

    ORGANIZACIONES DEL TEXTO
    -Locus clásico - casa paterna (que ha sido tomada, perdida, que vive otra gente).

    -NO pertenencia; estar sin suelo.

    -Desplazamientos (EE.UU - Buenos Aires - casa de Olivos - EE.UU).

    EL ÚLTIMO CAPÍTULO
    -La memoria es una construcción subjetiva.

    -Es precaria, poco confiable.

    -Molloy tanto está reflexionando sobre el género autobiográfico com también está tratando de memorias.


    LA FICCIÓN SIEMPRE MEJORA EL PRESENTE

    LEVANTAR LA CASA p.83
    "Cuando murió mi padre mi madre decidió que la casa en la que habián vivido tantos años le quedaba grande (asi dijo, como si tratara de un vestido) y la vendió casi enseguida...

    Años más tarde a un amigo le tocó levantar la casa de su madre que acababa de morir. Sus hermanas decidieron mandar toda la ropa, sin revisar, a una obra de beneficencia. Hasta tiraron el vestido de novia, decía mi amigo, al mirar por la ventana vi cómo cargaban esa precisa bolsa en el camión, a quién, decía no sin razón, le va a servir ese vestido. La anécdota me pareció improbable, acaso apócrifa, pero eficaz. A la gente le gusta fabular adioses definitivos, sobre todo patéticos.

    Y a propósito: al dejar la casa para ir a su nuevo apartamento, mi madre, con cara perfectamente inexpresiva, pasó la mano por el vano de una puerta, apretó una palma contra una pared, rozó lentamente con los dedos un picaporte. Estaba despidiéndose. Me llevó un tiempo darme cuenta de que repetía una escena de un film de Garbo; mi madre, acaso sin saberlo, estaba citando. El hecho no disminuye la sinceridad del gesto: antes bien la confirma.

    Nosotros, a nosotros mismos contamos ficciones.

    VANGUARDIA (AUN EN 2003)
    Aunque el texto sea produción actual - pos-vanguardia - el mantiene una relación de nostalgia con la vanguardia.

    (segue depois...)

    sábado, 7 de maio de 2011

    CORRENDO e caminhando pela vida...

    Pois é! Consegui ser obstinado neste mês de maio até agora. Iniciei o mês correndo a corrida do Dia do Trabalhador em Osasco (8k) e no mesmo dia viajei para coordenar o curso de formação de dirigentes sindicais bancários lá na região Centro Norte. Regime de internato por uma semana.

    Corri quatro dias seguidos pelas manhãs em meio ao cerrado e ao som dos pássaros. Vou me esforçar para oxigenar meu cérebro correndo. Só assim para suportar a vida e seguir caminhando por ela.

    Estou em Uberlândia para ver minha família neste fim de semana. Quando vemos as dificuldades cotidianas de outras pessoas temos, no mínimo, de reconhecer que por mais que nossa vida esteja complicada ou estressante, ela pode estar muito melhor que a dos outros.

    A casa de meus pais é um retrado do país Brasil. Há pessoas com necessidades básicas de atendimento público à saúde. São três idosos - dois sexagenários e uma octogenária - que não têm condições financeiras de ter um plano de saúde e não conseguem atendimento médico básico. É desesperador.

    Eu não tenho condições financeiras para suprir essa necessidade e direito constitucional que o Estado deveria suprir.

    Só buscando energia em algum lugar como na corrida para seguir nesse treco...

    terça-feira, 3 de maio de 2011

    Piada (de mau gosto) para a massa incauta...


    Como é? Assassinaram o Bin Laden? Assim... na véspera das eleições nos EUA! Igual assassinaram (de verdade) o Saddan Hussein durante o desastroso segundo mandato de Bush?

    Ahh... entendi!

    E não tem corpo, não é? Jogaram no mar...

    Então, tá! (acredita quem quer...)

    PS: não sabia que assassinato era algo legal.