quinta-feira, 11 de março de 2021

Moby Dick - Conhecemos o navio Pequod



Refeição Cultural

"Todos os homens tragicamente grandes têm em si algo de mórbido." (MELVILLE, 1998, p. 101)


Nesta manhã de quinta-feira, li dois capítulos de Moby Dick. Foram tantas as informações que acabei parando neles. No capítulo chamado "Chowder", vemos Ismael e Queequeg se hospedarem na estalagem A Panela, na ilha de Nantucket. Chowder é uma espécie de guisado de peixes ou mexilhões com carne de porco e outras coisas.

O nativo Queequeg tem uma espécie de ídolo negro chamado "Yojo", um pequeno artefato, para o qual dirige suas orações. Lá no início da narrativa, quando Ismael conheceu Queequeg na Estalagem do Jorro, soubemos que ele tem consigo uma machadinha de índios norte-americanos, um tomahawk, que também serve de cachimbo a ele, que fuma através do cabo.

O capítulo seguinte - "O navio" - é muito importante por trazer diversas informações para o desenvolvimento da estória. Ismael sempre nos lembra que seu futuro está nas mãos dos fados, da providência. Essa questão dos fados se mostra mais uma vez ao Queequeg sugerir que Ismael vá sozinho ao cais para acertar em qual baleeiro eles vão se lançar ao mar. Yojo foi o responsável por essa decisão de Ismael ir sozinho ao cais.

Assim conhecemos o navio Pequod, "todos os leitores devem saber muito bem que é o nome de uma célebre tribo de índios de Massachusetts, hoje tão extinta como os antigos medos". (p. 96)

Pequod é um navio pequeno e antigo, com mais de meio século de viagens pelos mares. Seu antigo comandante é o capitão Peleg, que junto com o capitão Bilbad, são proprietários da embarcação, que tem ainda outros proprietários acionistas: viúvas, órfãos e magistrados. Pequod é de propriedade coletiva.

Ismael pergunta pelo capitão atual do navio e descobre alguma coisa sobre ele, seu nome é Acab (Ahab em inglês), nome com origem nas escrituras sagradas, como a maioria dos nomes dos moradores de Nantucket, local colonizado pelos quacres, uma seita antiga. O capitão Acab perdeu uma perna na última viagem no baleeiro, num embate com uma baleia.

PLR (Participação nos Lucros e Resultados)

Pasmem! E não é que fui encontrar PLR na obra clássica Moby Dick! A vida da classe trabalhadora é dura já faz muito tempo! Essa questão de remuneração variada, invenção dos proprietários para explorar os trabalhadores despossuídos de seus meios de subsistência ao compartilhar os riscos e embolsar os lucros é antiga.

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"Sabia já que no negócio da pesca de baleia não se pagavam salários, mas todos os marinheiros, inclusive o capitão, tinham certa participação nos lucros. Essas porções eram chamadas tantos e proporcionais ao grau de importância dos respectivos cargos desempenhados." (. 103)

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Para aqueles que achem que isso é um bom negócio para o trabalhador, é só ver o que o próprio Ismael calcula logo adiante. Ele imagina poder sobreviver durante os 3 anos de serviços porque o dinheiro dará para ele comer e só.

"E, ainda que o tanto de 275 avos fosse o que se convencionava chamar um tanto muito fracionado, era, ainda assim, melhor do que nada; e se tivéssemos uma viagem proveitosa, o dinheiro talvez desse para pagar a roupa que eu gastasse, sem falar na minha alimentação durante três anos a bordo, pela qual não teria de pagar nem um centavo." (. 104)

Que coisa, heim! A exploração dos seres humanos é uma coisa muito antiga. É a mesma lógica da escravidão moderna, um proprietário de terras coloca um monte de gente para trabalhar nas suas colheitas e as pessoas gastam o que ganham para comer na própria fazenda. Ao final, ainda estão devendo. O mesmo nas fábricas de roupas, sapatos, peças etc. Nos bancos temos os PRs, programas por resultado: um diretor e um gestor ganham 100 mil e um trabalhador na ponta ganha 500 reais.

É isso! Fim das leituras por hoje, 4º dia de viagem com Moby Dick. Se houver interesse em ler as outras postagens sobre a leitura é só clicar aqui, a última feita.

William


Bibliografia:

MELVILLE, Herman. Moby Dick. Tradução de Berenice Xavier. São Paulo: Publifolha, 1998.


quarta-feira, 10 de março de 2021

Lula é o sol, é inspiração e referência



Lula é o sol, é inspiração e referência do fazer político

O que registrar nesta terça-feira, 10 de março de 2021? O fato mais importante e de maior destaque no Brasil e repercutido em diversos países do mundo foi o discurso e a entrevista coletiva do presidente Lula, que desde ontem recuperou seus direitos políticos após serem canceladas as condenações fraudulentas da Lava Jato em um julgamento do STF, que analisou a suspeição de Moro.

Lula fez mais um discurso histórico para o Brasil e para o mundo. Lula nos dá muito orgulho de estarmos ao lado dele e do lado certo da história neste momento tão triste pelo qual passam o país e o povo brasileiro, momento trágico de desfazimento do próprio Estado nacional e de todo o arcabouço civilizatório conquistado lentamente por séculos de lutas e reivindicações do povo. O golpe de Estado de 2016 foi o mais destruidor da história do país.

Ainda não consegui ver e ler todo o discurso de Lula, pude ver o final do discurso e a parte da coletiva de imprensa. Vou rever com paciência a aula de nosso estadista. Por falar em aulas de estadistas, também estou terminando de ver a entrevista do Genoíno ao Luis Nassif, de hoje também. Que personalidades! Lula e Genoíno. Referências de tudo que fiz durante os 16 anos de mandatos de representação da classe trabalhadora.

Com a história e com os exemplos do presidente Lula, o seu fazer político, sindical e partidário, aprendemos a estar sempre nas bases de representação, sempre nos locais de trabalho falando com os colegas bancários que representava. Com Lula e com as forças políticas que surgiram após aquele período de lutas contra a ditadura, contra a exploração da classe trabalhadora e lutas a favor da democracia, aprendi a ética da política (e não "na" política, como explica Marilena Chauí).

Durante mais de uma década como dirigente sindical aprendi a organizar os bancários, ouvir as reivindicações, mobilizar a categoria e enfrentar os banqueiros. Entre 2003 e 2013 falei com milhares de trabalhadores em assembleias, concentrações bancárias e locais de trabalho ao longo do ano todo e não somente durante alguns dias de campanha salarial. Com Lula, aprendi a falar a verdade para os trabalhadores. 

Quando Lula falou do seu jeito de fazer política, de seu gosto por abraçar, por estar entre os trabalhadores, de ir aos locais mais longínquos para ouvir e apresentar suas ideias para as pessoas, eu me emocionei, porque é assim que fiz política também. Lula citou visitas ao Acre, Roraima, Rondônia e diversos Estados, me lembrei na hora do mandato nacional que tivemos na autogestão em saúde dos bancários do Banco do Brasil. 

Assim como pensa e age o presidente Lula, também fui ao Acre, Amapá, Roraima, Amazonas, Sergipe, Tocantins, a todos os locais, os mais estruturados e os mais simples, mais distantes, com menos eleitores. Viajei horas para ir ao interior conversar com os colegas sobre a Cassi e direitos em saúde. E fui com meus recursos muitas vezes, porque tentaram me impedir de fazer meu trabalho e as pessoas desses locais mereciam a visita do diretor assim como os associados de São Paulo, Rio de janeiro e demais Estados maiores.

Lula, tenho humildade e orgulho de dizer que fiz exatamente como você fazia em seus mandatos. Sempre dialoguei com todas as forças políticas no movimento sindical, com todas as instituições que tinham relação com a Cassi quando fui diretor eleito, falei com o patrão e patrocinador o tempo todo, falei com as entidades representativas e suas lideranças, falei com os trabalhadores e os associados de cada unidade da federação. 

Lula, durante 4 anos de mandato como diretor de saúde dos colegas do BB, estive em 166 agendas públicas para prestar contas do que fazíamos, para informar os trabalhadores da ativa e aposentados, para defender os direitos em saúde deles, para defender a associação Cassi, para organizar e mobilizar todos os envolvidos e para buscar parcerias em prol da saúde e da Cassi, inclusive junto aos adversários políticos, buscando unidade naquilo que era possível, lutar pela saúde das pessoas e pela autogestão com modelo de referência, com atenção primária, medicina de família, prevenção e promoção de saúde.

Lula, obrigado por ser essa referência que você sempre foi. Certa vez, numa reunião política, uma liderança nossa do Banco do Brasil nos disse que certas figuras políticas são como o sol, a gente tem que aprender a ver pra onde a luz do sol está apontando e seguir a luz. Obrigado por ser nossa referência em ética, em prática política e democracia.

Durante os 16 anos em que fui representante eleito de trabalhadores, busquei seguir os princípios e práticas sindicais da CUT e do Partido dos Trabalhadores, apesar de sempre ter sido um militante sindical e não partidário.

Bom retorno, companheiro Lula! Vimos como você traz esperança e alegria para o povo e para a militância e as pessoas progressistas do país e do mundo.

William


Moby Dick - Chegamos a Nantucket



Refeição Cultural

Fui dormir mais cedo. Acordei mais cedo. Estou tentando mudar um pouco os hábitos e estabelecer uma rotina de leitura. Não é fácil mudar costumes. Se quiser ler os clássicos que gostaria de ler, terei que ter disciplina. Afinal de contas, disciplina é liberdade, já dizia o poeta Renato Russo.

A leitura de um grande clássico exige disciplina e até inventividade. Foi assim que superei as mais de 800 páginas do Decameron, de Giovanni Boccaccio, no início da pandemia mundial de Covid-19. Naquela oportunidade, decidi que leria uma narrativa por dia e assim foi feito, cem dias de leitura. Teve dia que precisei ler em pé por causa do sono, mas li.

Chegamos a Nantucket. "Chegamos" porque o leitor viaja com o personagem da ficção. Ontem, pesquisei sobre alguns dos cenários de Moby Dick. Li sobre a cidade de New Bedfort, a ilha de Nantucket, sobre Massachussets e Nova York. O narrador da estória, Ismael, saiu de Manhattan para o Nordeste dos EUA, com o objetivo de se lançar ao mar como marinheiro num baleeiro, partindo de Nantucket.

Na leitura de hoje, conhecemos mais a respeito do nativo dos Mares do Sul, Queequeg, personagem exótico na Estalagem do Jorro em New Bedfort, onde Ismael ficou no final de semana e teve que compartilhar a mesma cama com o nativo.

Vimos um sermão do padre Mapple sobre o profeta Jonas e a passagem dele no ventre de uma baleia. Já na travessia para a ilha Nantucket, o nativo Queequeg é maltratado pelo capitão da embarcação, uma escuna, e mesmo assim o nativo lhe salva porque ele caiu no mar gelado e quem o buscou foi justamente o canibal dos Mares do Sul.

É isso. Se eu mantiver a leitura de 30 páginas por dia, conseguirei ler Moby Dick em três semanas. Caso tenham interesse, leiam aqui a postagem anterior.

William


terça-feira, 9 de março de 2021

A fraude Lava Jato e a pandemia de Covid-19



Opinião:

A fraude Lava Jato e a pandemia de Covid-19

Pois é, pois é... as pessoas deveriam ter vergonha na cara... deveriam, mas como as redes sociais mudaram o comportamento das pessoas, talvez para sempre, elas não têm vergonha. Então, eu fico envergonhado por elas, por aquelas que conheço de longa data.

Vendo o desfazimento da fraude Lava Jato, eu fico pensando nos meus familiares, em alguns amigos e em vários conhecidos... fico pensando neles quando vejo sem euforia e sem emoção as denúncias da Vaza Jato e as decisões duras (e tardias) de alguns ministros do STF a respeito das putarias da quadrilha de Curitiba em relação às criminalidades cometidas por aquela operação fraudulenta chamada Lava Jato contra cidadãos brasileiros, contra instituições públicas e privadas do país, contra a economia brasileira. 

Eu e muita gente do campo progressista sempre soubemos que aquilo tudo era uma operação de destruição do país, dos direitos do povo e dos partidos de esquerda e movimentos sociais e suas lideranças populares. Mas as pessoas que embarcaram nessa destruição de tudo, que apoiaram e endossaram as injustiças e ilegalidades, crimes mesmo, injustiças e crimes contra pessoas inocentes só porque eram de esquerda e a favor do povo, essas pessoas dificilmente sentirão vergonha na cara. Suas personalidades foram alteradas pelo envenenamento ininterrupto dos meios midiáticos e pelas redes sociais e seus algoritmos. Elas nem sabem que mudaram por isso.

Quantos conhecidos, familiares e amigos continuam e vão continuar chamando as lideranças políticas da esquerda de corruptas ("não têm prova de crimes, mas não importa, são corruptos assim mesmo!")? Quantas dessas pessoas que conheço teriam coragem e a humildade de dar um passo atrás e procurar entender em que momento foram manipuladas para o ódio cego, para a negação da realidade, para agirem contra a ciência que trouxe a humanidade até aqui? Quantas vão reconhecer que é possível fazer política para o bem de todos no país e em paz sem precisar de violência, ódio ódio e mais ódio e intolerância? 

- Oi! Tem alguém aí? Tem algum apoiador da Lava Jato, dos tucanos, dessa imprensa golpista e canalha, apoiador desses mafiosos milicianos no poder? Tem algum conhecido meu por aí, apoiador dessa tragédia toda? Se tem, olha que merda fizeram com nossa vida, com nosso mundo, com nosso país!

Hoje morreram 1972 pessoas de Covid-19. Já morreram 268.370 brasileiras e brasileiros. Já se contaminaram pelo vírus 11,12 milhões de pessoas nesta terra da jabuticaba. Alguns estudos mostram que 1/4 dos infectados por Covid-19 acabam morrendo depois por causa das diversas sequelas que a doença deixa em nossos corpos, mesmo nas pessoas que foram assintomáticas. 

Os outros 200 países do mundo estão lidando com a pandemia de forma científica e preocupados com a vida das pessoas. Aqui o regime fascista atua em favor do vírus e pela morte dos brasileiros. É um genocídio!

Não fomos vacinados ainda e não tem vacina para todos nós porque os criminosos no poder não querem nos vacinar, eles estão no poder por voto de gente como vocês! Vocês apoiadores dessa merda toda têm noção disso? Vocês têm consciência que eu, vocês e nossos entes queridos podemos morrer de uma semana pra outra por causa do voto de vocês na direita e extrema direita? Caralho! 

É isso que eu queria dizer e registrar hoje, terça 9 de março de 2021! 

A pandemia é uma tragédia da natureza, mas poderia ser tratada de forma diferente pelas autoridades políticas no Brasil se os representantes do povo no poder fossem outros, se os políticos em maioria nos executivos e legislativos não fossem os políticos votados e ainda apoiados por essa gente do bolsonarismo, do lavajatismo, do morismo, dos negacionistas, da extrema direita, essa gente ignorante porque quer ser ignorante.

Vejo toda essa merda que virou nosso mundo de forma desapaixonada, porque os riscos de uma guerra civil e diversos golpes e mortandades são grandes no Brasil. Apesar das decisões do STF de hoje e de alguns parcos acontecimentos contra os golpistas no poder, não vejo nada de novo no front.

William

Post Scriptum:

Não bastaram as prisões de pessoas inocentes que passaram longos meses na cadeia sem crimes, sem provas: prisões políticas. Um reitor de uma universidade pública se suicidou por causa das humilhações e dos abusos sofridos por parte dessa gente desumana e fascista mancomunada naquela operação fraudulenta para destruir o país, prejudicar politicamente segmentos sociais das camadas populares e influenciar nas eleições do Brasil e enriquecer os desgraçados que controlavam a operação. Quem vai pagar pela morte do reitor Cancellier?


Moby Dick - Preparos para nos lançarmos ao mar



Refeição Cultural

"Porém a fé é um chacal que se alimenta entre os túmulos e mesmo desses dilemas mortais tira a sua esperança mais fundamental" (p. 60)


E assim como dissemos ontem, nos desligamos do mundo pela manhã e embarcamos com Melville nas aventuras do personagem Ismael em busca de se lançar ao mar num baleeiro como um simples marinheiro.

Após ser apresentado a Ismael, hoje acompanhamos as aventuras dele numa hospedaria em New Bedford, cidade na costa Leste dos Estados Unidos, em Massachusetts. Ele está na Estalagem do Jorro e quer chegar à ilha Nantucket, tradicional local de pesca da baleia.

A descrição dos acontecimentos na estalagem é bem exótica, pra dizer o mínimo. Não há quartos disponíveis e o dono do local sugere que Ismael divida uma cama com outro hóspede. Ele é obrigado a aceitar pelas circunstâncias.

O companheiro de cama de nosso narrador é uma espécie de selvagem canibal vindo do outro lado do mundo: 

"o arpoador em questão acaba de chegar dos Mares do Sul e trouxe consigo, da Nova Zelândia, um lote de cabeças embalsamadas..." (p. 42)

Ao fim e ao cabo, eles dormem juntos, Ismael acorda abraçado com o sujeito de nome Queequeg, que não larga sua machadinha pra nada (um tomahawk).

TÉCNICA NARRATIVA

A composição da estória é bem interessante, o narrador dialoga com os leitores assim como vemos em outros escritores como Machado de Assis:

"Mas Queequeg, como os leitores devem ter compreendido, era um homem em fase de transição: nem lagarta nem borboleta." (p. 52)

A descrição do cenário da estória é bem legal, da hospedaria, das regiões costeiras tanto em Manhattan ("cidade do velho Manhatto") quanto em New Bedford.

Gostei de algumas filosofadas do narrador. Ele cita Adão e fala do tempo passado em relação a ele, 60 séculos.

Num momento de lembranças da infância do narrador, ele se lembrou que pedia para que sua madrasta o castigasse batendo nele ao invés de colocá-lo de castigo... na hora lembrei de minha infância pedindo o mesmo pra minha mãe (rsrs). Eu odiava ficar de castigo!

Seguimos na aventura. Em breve, nos lançaremos ao mar. 

Ver a postagem anterior aqui.

William


Bibliografia:

MELVILLE, Herman. Moby Dick. Tradução de Berenice Xavier. São Paulo: Publifolha, 1998)


segunda-feira, 8 de março de 2021

Moby Dick



Refeição Cultural

Após finalizar a leitura de Madame Bovary (1856), do escritor francês Gustave Flaubert, fiquei matutando a respeito do próximo clássico a ser lido por mim, refletindo sobre qual seria a próxima viagem no tempo em relação aos grandes clássicos da literatura mundial. 

São tantos clássicos a ler que a gente fica completamente perdido sobre a escolha de qual seria o próximo se houvesse a chance de ser o último a ser lido, ainda mais quando a vida humana se tornou tão instável e algo tão sem valor para os donos do poder (eles são responsáveis pelas diversas mortes severinas que nos ameaçam o tempo todo como as mortes por Covid-19 no Brasil).

Pensei comigo se pegava algum livro relacionado às causas políticas das mulheres por estarmos no mês de março. Não! Estou muito decepcionado com os seres humanos para ter mulheres ou homens, pretos ou pobres a pesarem na minha escolha de leitura de ficção. Às vezes, eu não consigo perdoar os povos por não fazerem nada em relação aos poucos que dominam tudo. É muita paz na miséria pro meu gosto.

Tinha em mente escolher um entre três livros de ficção: Moby Dick (1851), do norte-americano Herman Melville; As viagens de Gulliver (1726), do irlandês Jonathan Swift e As aventuras de Robinson Crusoé (1719), do inglês Daniel Defoe. Pelo que se pode perceber, todos eles são de séculos passados e seus personagens se lançaram ao mar em busca de aventuras ou de mudanças em suas vidas.

Fui dormir no domingo pensando a respeito da escolha do livro e na segunda-feira pela manhã, 8 de março, decidi pela leitura de Moby Dick. O livro é um catatau com 650 páginas. Vou estabelecer uma rotina de leitura. Vou ler pelas manhãs, com o celular desligado. 

Assim fiz no primeiro dia de leitura, li pouco, mas iniciei a jornada. A leitura neste 8 de março não foi fácil. O celular desligado de manhã sendo a data uma referência para a luta das mulheres faz a gente estar com a atenção dividida entre a leitura e a pauta das mulheres. Queria escrever algumas linhas a respeito.

Ao ligar o celular, soube da decisão de um dos caras da justiça responsável pela prisão injusta do presidente Lula por 580 dias numa masmorra em Curitiba: anulou condenações... a gente até desconfia. Aí que ler e escrever sobre literatura ficou mais difícil ainda. O sujeito "anulou" as condenações inventadas contra Lula, mas tudo indica que tem outras tramoias por trás disso (opinião minha). Tramoias do tipo livrar a cara dos canalhas corruptos da Lava Jato e continuar a perseguição a Lula em outras instâncias.

MOBY DICK

Enfim, iniciei a jornada literária. As primeiras páginas são fragmentos de textos com citações sobre baleias, textos de várias fontes e séculos diversos. Em seguida, conhecemos o narrador da estória. Ismael nos apresenta suas justificativas para se lançar ao mar como um simples marinheiro de um navio de pesca de baleias. Diz querer fugir do spleen (uma espécie de melancolia ou mal-estar com a vida), elogia o elemento água, fala sobre o destino (Providência) e enaltece a humildade e o ato de servir.

Ficamos sabendo que ele vai atravessar o país para se lançar ao mar pela costa do Pacífico. Ele tem alguns tostões no bolso e escolhe uma hospedaria para pernoitar no fim de semana até que se inicie sua jornada pelos mares. 

(post scriptum: ao seguir na leitura e pesquisar sobre o cenário, percebi que o narrador personagem Ismael foi de Nova York para Massachusetts, a Nordeste. Seu desejo era chegar a Nantucket, uma ilha, mas precisou passar o final de semana em New Bedford, região tradicional no século XIX pela caça à baleia. Eu me confundi porque ele quer chegar ao Pacífico através do Cabo Horn, no Extremo Sul do continente americano, na Patagônia)

É isso. Vamos seguir com a leitura nos próximos dias...

William

Post Scriptum:

Sempre que pego um livro de séculos atrás para ler é inevitável pensar na condição de confecção da obra. É algo fascinante porque por mais que tentemos imaginar a condição do escritor e da escritura do texto, não conseguimos nos colocar na condição deles. Hoje se escreve em tela de computador, se compra as comidas pela internet, se tem luz no conforto de nossas casas etc. Imaginem Melville em 1850 na costa leste dos Estados Unidos: o café da manhã, os materiais de composição do texto, papéis e tinteiro, o local, a luz etc. Conseguem imaginar? Para mim, foi fácil esquentar no fogão um pãozinho amanhecido, um leite com café solúvel e sentar-me na cozinha pra ler a obra dele. É isso!


8 de março



8 de março

Depois de uma vida envolvido nos movimentos sociais, principalmente o sindical, eu não sei o que dizer neste dia. As coisas ficaram tão estranhas na sociedade humana na atual fase do capitalismo e neoliberalismo que chegamos aonde chegamos.

Vivo num país no qual os piores seres humanos estão no poder em todas as instâncias do Estado burguês... o mal está nos executivos e legislativos por voto! Estamos sob a hegemonia de pensamento único ditado pelo capital.

A maioria do povo é composta por mulheres e por gente de pele preta ou parda, e por pobres pobres pobres. Essa maioria colocou o mal no poder. O mal no poder destruiu e segue destruindo todas as conquistas que as mulheres e o povo de pele preta haviam conquistado em décadas de lutas, suor, sangue e lágrimas.

O ódio, o medo e a intolerância são os sentimentos que prevalecem nos seres humanos neste momento da história, inclusive naqueles e naquelas que pertencem aos movimentos sociais. Se erro na palavra dita no dia 8 de março posso ser até hostilizado e "cancelado" pelo pessoal do meu lado da história. 

Se diz ou não se diz "parabéns" ou "felicidades" pelo seu dia? O dia é de luta, de consciência ou de comemorações? Poderia ser tudo isso e muito mais, mas as pessoas estão tão sem paciência, tão guetizadas, bolhas e mais bolhas.

As últimas eleições foram há poucos meses, em novembro passado, o mal saiu vencedor em quase todos os recantos do país (o pensamento de direita e conservador é o mal para os povos do mundo), o mal venceu nos milhares de municípios.

O país no qual vivo segue tendo uma maioria de mulheres e gente de pele preta. Mas o mal segue prevalecendo pelo voto. Os direitos das mulheres e das pessoas de pele preta ou parda continuam a ser destruídos, os direitos básicos da imensa maioria das pessoas que dependem da venda de sua força de trabalho para sobreviver seguem sendo eliminados e uma pequena parcela de seres humanos acumula cada vez mais todos os bens e riquezas produzidos pelos seres humanos. (mas não tem revolução nem desordem, tudo segue em paz)

O mal segue tendo maioria nas representações nos executivos e legislativos. Parte do povo deste país segue apoiando o genocida machista, racista e sexista que lidera a mortandade e destruição do país. Quando se fala em 15%, 25% ou 1/3 de apoio estamos falando de 30 milhões de pessoas, 50 milhões de pessoas, estamos falando, por exemplo, de 57.797.847 mulheres, gente de pele preta, pobres das mais diversas esferas e de boa parte dos espertos que pertencem ao 1% que manipula todo o restante do povo.

Que dizer neste 8 de março? Talvez dizer que nós seres humanos temos muito que aprender e muito que lutar para quem sabe um dia vivermos numa sociedade igualitária, justa, solidária e sustentável.

William

sábado, 6 de março de 2021

Por que ler os clássicos?



(redação melhorada algumas vezes até 14h35, de 7/3/21)

Refeição Cultural

Em um momento deste sábado, 6 de março, comentava com minha esposa sobre uma questão trivial e doméstica: uma suposta diminuição de cabelos e uma tendência a ficar careca, coisa estranha no meu caso porque isso não é um fator genético em minha família e sempre tive muito cabelo. Avaliei que o fato talvez se deva à questão do estresse psicológico que tenho vivido desde o golpe de Estado no Brasil e suas trágicas consequências. 

As pessoas conscientes estão sofrendo tanto com a destruição do Brasil que os efeitos poderiam ser semelhantes a traumas de guerra ou situações de extremo desgaste emocional, e os efeitos no corpo podem ser terríveis em situações assim. 

Na hora do comentário, corri à estante, peguei um livro, abri certa página e li para ela, com lágrimas nos olhos:

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"(Sarajevo, 1946.) Aqui, como em Belgrado, vejo nas ruas um considerável número de moças cujos cabelos estão ficando grisalhos, ou já o estão completamente. Têm os rostos atormentados mas ainda jovens, enquanto as formas dos corpos traem ainda mais claramente sua juventude. Parece-me ver como a mão desta última guerra passou pelas cabeças desses seres frágeis [...]

     Tal visão não pode ser preservada para o futuro; estas cabeças logo se tornarão mais grisalhas ainda e desaparecerão. É uma pena. Nada poderia falar tão claramente sobre nossa época às futuras gerações quanto essas jovens cabeças grisalhas, das quais se roubou a despreocupação da juventude.

     Que pelo menos tenham um memorial nesta notinha. 

           Signs by the roadside (Andric, 1992, p. 50)" (in: HOBSBAWM, Era dos extremos, São Paulo: Companhia das Letras, 2006) 

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Se pessoas como eu, com experiência e certo coro grosso - que vivi décadas enfiado nas lutas sindicais e do mundo das guerras entre capital e trabalho - sentem os efeitos psicológicos da destruição total do presente e das perspectivas de futuro, imagino como estão sofrendo e estão perdidos os jovens como nossos filhos e sobrinhos, dos quais "se roubou a despreocupação da juventude", jovens que estavam no meio do caminho em suas graduações universitárias e sentiram na pele toda a destruição causada por esses desgraçados no poder por golpe e por manipulação do comportamento do povo brasileiro através das ferramentas tecnológicas e políticas da atualidade, ferramentas sob o poder da elite porque são necessários recursos financeiros elevados para o efeito desejado em escala.

O ato de ler clássicos como Hobsbawm nos capacita para a argumentação ao obtermos referências sobre a vida como ocorreu comigo no instante em que citei a passagem do livro Era dos extremos. Italo Calvino nos fala sobre isso em seu artigo memorável.


Hoje terminei a leitura de mais um livro clássico da literatura mundial - Madame Bovary, publicado por Flaubert em 1856. Ler os grandes romances, ensaios e textos filosóficos nos faz crescer mentalmente, nos faz ter referências na análise dos diversos contextos da vida e da sociedade humana.

O contexto da pandemia mundial de Covid-19 e a saída da condição de venda de minha força de trabalho para o modo de produção capitalista após quase quarenta anos de trabalho têm permitido que eu tente ler um pouco mais leituras literárias, históricas e filosóficas ao sabor do meu desejo. Não tanto quanto eu imaginei porque minha cabeça política me vincula a todo o sofrimento causado pela destruição do mundo que ajudei a construir nas últimas décadas e isso emperra minha capacidade de leitura.

Italo Calvino enumera um conjunto de conceitos muito interessantes em relação aos motivos para se ler os clássicos. E de fato, se eu pensar rapidamente nos últimos que li, virão em meu auxílio os conceitos que Calvino argumenta em seu artigo. Ganhar experiência e referência é um deles. Veja o que ele diz em relação às leituras na juventude, por exemplo:

"Podem ser (talvez ao mesmo tempo) formativas no sentido de que dão uma forma às experiências futuras, fornecendo modelos, recipientes, termos de comparação, esquemas de classificação, escalas de valores, paradigmas de beleza: todas, coisas que continuam a valer mesmo que nos recordemos pouco ou nada do livro lido na juventude." (CALVINO, Por que ler os clássicos. São Paulo: Companhia das Letras, 2000)

Em tempos de morte como os tempos que vivemos, com um regime genocida no poder e com a pandemia mundial, livros como A Rosa do Povo, de Drummond, nos fornecem dezenas de versos e pensamentos para dizer, escrever, pensar, gritar, sentir, acolher ao próximo, enfim... nesses dias estou dizendo o tempo todo "o essencial é viver!", verso final do poema "Passagem da Noite".

E assim nos lapidamos, crescemos e ganhamos referências novas com os livros recentemente lidos desde o início até o fim e de uma vez, do ano passado pra cá, ou iniciados há muitos anos e retomados e terminados agora, como foram os casos dos livros do Eduardo Galeano, do Hobsbawm, do Boccaccio (mais apropriado para se ler na pandemia, impossível!), dentre outros. Que dizer, então, da releitura de O processo, de Kafka, para se pensar o Brasil, a Lava Jato, o golpe "com Supremo com tudo"? Quem nunca citou um trecho de poemas de Brecht que atire a primeira pedra (rsrs).

E agora, finalizei a leitura sobre a estória de Ema Rouault (Bovary, após se casar com Carlos). Valeu a pena ler esse clássico? Valeu. Impressiona saber que não mudou muito na atualidade a condição da mulher, a visão da sociedade burguesa em meados do século XIX na França, o racismo, a mercantilização de tudo, o embate entre a ciência e a religião, o patriarcalismo, o machismo, tudo tudo é muito atual se pensarmos que o livro foi escrito num contexto de capitalismo e burguesia de 165 anos atrás.

Enfim, em meio a tanta miséria e tristeza por sermos um povo tão bárbaro e ignorante como o Brasil se mostrou ao mundo após o golpe de 2016, é melhor lermos os clássicos do que não lermos, como diz Calvino ao finalizar seu artigo.

Abraços e se cuidem, se puderem, evitem sair nessas semanas em que estamos num crescendo da contaminação e mortes por Covid-19.

William

Post Scriptum:

Por que a cachaça na foto dos clássicos? Porque só tomando uma dose pra comemorar o meu feito literário! Achei que nunca fosse acabar livros como A era dos extremos, Decamerão e Madame Bovary. Viva! Saúde!


quinta-feira, 4 de março de 2021

Genocídio - A culpa não é do inominável no poder



Opinião

O genocídio que está em andamento no Brasil não é culpa do sujeito que ocupa a cadeira da presidência. Não é ele o responsável. Francamente, aquele inumano troglodita e seus familiares e demais bandidos são apenas parte do sistema responsável no país pelas mortes por Covid-19, pelas mortes dos indígenas, pelas mortes pela matança descontrolada e sem punição das forças públicas armadas e matando quem bem entendem nas periferias e nas ruas das cidades.

Aquele sujeito abjeto e demoníaco não é o culpado pelo genocídio em andamento. Ele é um sujeito mau, isso está claro, é obcecado por maldades, mas ele é o executor do projeto em andamento, por isso não caiu ainda.

Se os donos dos meios de comunicação quisessem, se os caras que colocaram ele no poder quisessem, se ainda não tivessem interesses escusos, canalhas e talvez inconfessáveis, se a canalha toda que colocou esse psicopata no poder quisesse, já teriam tirado ele de lá, ou tirariam ele de lá em poucas semanas.

Mas ainda tem patrimônio público pra entregar, ainda tem riqueza pública pra roubar, ainda tem alguns direitos sociais pra destruir, ainda tem gente demais pra reivindicar direitos sociais e constitucionais ao Estado, ou melhor, ainda tem gente que poderia reivindicar seus direitos caso a máquina de manipulação fosse utilizada para movimentar as massas.

Há um genocídio em andamento no Brasil. Os bilionários ficaram mais bilionários ainda durante a pandemia mundial de Covid-19. Os bilionários ficaram mais bilionários ainda após o golpe de Estado perpetrado pelos responsáveis pelo genocídio em andamento. 

O troglodita psicopata inominável não é o culpado pelo genocídio. Os culpados pelo genocídio estão comendo de talheres de prata, usam perfumes caros, roupas de grife, estão falando mentiras todos os dias nos meios de comunicação, com suas caras de poste, estão cagando e andando para as centenas de milhares de mortes em andamento.

Há um genocídio em andamento! Que desgraça! A gente sofre por ter um mínimo de conhecimento de mundo, e a gente se pergunta se seria melhor ser ignorante como os ignorantes (porque sofrem menos ou nem sofrem), mas é melhor ter consciência política e leitura de mundo do que ser um completo ignorante.

Há um genocídio em andamento. O genocídio só continua porque aqueles que colocaram o inominável no poder ainda querem ele lá, porque ainda tem patrimônio público pra roubar, direitos sociais pra destruir.

Essa é minha opinião. Numa sociedade com pena de morte institucionalizada, o culpado pela execução das sentenças de morte não é o carrasco que aperta o botão ou que puxa a alavanca da forca ou da guilhotina. Isso é assim há séculos.

Há um genocídio em andamento. Há um grupo de gente ficando mais bilionária a cada segundo. Que merda tudo isso!

Pelo fim do capitalismo. Pela construção de uma sociedade socialista.

William


domingo, 28 de fevereiro de 2021

Livro: O chefão - Mario Puzo



Refeição Cultural - Cem clássicos

"Os clássicos são livros que exercem uma influência particular quando se impõem como inesquecíveis e também quando se ocultam nas dobras da memória, mimetizando-se como inconsciente coletivo ou individual." (CALVINO, 2000, p. 10/11)


Eu li O chefão (1969), de Mario Puzo, ainda na adolescência. Pela lembrança que tento puxar da memória, li o livro antes dos 17 anos porque acho que a leitura foi anterior a minha volta para São Paulo, depois de morar muitos anos em Uberlândia. Se não me engano, a edição que tenho foi a que li, quando meu primo Jorge Luiz me emprestou na época. Estou com ela porque ele deu seus livros e ganhei alguns deles faz alguns anos.

Peguei o livro para reler no dia 8 de fevereiro desta época pandêmica e de sobrevivência humana sob o poder das máfias no Estado brasileiro. Meu filho estava assistindo aos filmes baseados na obra de Mario Puzo e ao comentarmos a respeito da estória, disse a ele que havia lido o livro na adolescência. Como fiquei interessado em ver os 3 filmes dirigidos por Francis Ford Coppola, pensei comigo: "- Por que não reler antes o livro?". E assim, peguei pra ler o bichão.

O livro é um catatau, é um texto grande. Achei que seria uma leitura rápida, mas não foi. A edição que tenho está dividida em 9 livros. Após ralar na leitura, ainda faltam 100 páginas para acabar. Mas adianto que foi muito bom reler esse clássico da literatura mundial. No livro VI, que retrata o tempo que Michael Corleone passou na Sicília, revi aquela cena que achei interessante o filme ser fiel ao livro, o fato de o personagem ficar com o nariz escorrendo desde que levou o soco que lhe quebrou a mandíbula e lhe deformou o rosto.

Ao reler décadas depois a ficção de Puzo sobre a máfia, estando vivendo sob o domínio da máfia no país em que moro, vemos o quanto é interessante um dos conceitos que Calvino sugere sobre os clássicos (citado acima). Quando adolescente, eu vivia num bairro dominado pela Falange e se não fôssemos "amigos" dos caras, não vivíamos no bairro. O livro sobre a máfia retrata isso. E agora vivemos sob o domínio da máfia em escala gigantesca, nacional. Eu sou outro, o mundo é outro, mas a ficção segue atual. Pobres daquelas e daqueles que hoje não são amigos dos bandidos de colarinho branco no poder.

Tenho que intercalar livros novos com livros a reler, como diz Calvino: "Por isso, deveria existir um tempo na vida adulta a revisitar as leituras mais importantes da juventude. Se os livros permaneceram os mesmos (mas também eles mudam, à luz de uma perspectiva histórica diferente), nós com certeza mudamos, e o encontro é um acontecimento totalmente novo." (p. 11)

A leitura está em andamento, e a postagem também. O blog é um espaço vivo e mutante. Vamos terminar as 100 páginas e vamos assistir aos 3 filmes de Coppola.

Por enquanto é isso. Volto à postagem depois. (28/2/21)

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Fim da leitura do livro em 2/3/21.


COMENTÁRIO PÓS LEITURA

A leitura não foi difícil. Puzo utiliza linguagem cotidiana no texto. O livro contém todos os preconceitos inerentes ao seu tempo, racismo e sexismo são constantes e nos incomodam ao ler a estória. A narrativa sobre o poder das máfias na constituição da sociedade norte-americana é muito bem construída. A trama se passa durante a primeira metade do século XX, indo e voltando ao início do século e ao momento pós 2ª GM.

As famílias dos mafiosos resolvem as coisas comprando autoridades, colocando elas em suas folhas de pagamento, ou simplesmente matando as pessoas que atravessam seus caminhos. Don Vito Corleone, o padrinho, utiliza um sistema baseado em fazer um favor para quem lhe pede algo e a pessoa fica lhe devendo uma. Um dia a pessoa terá que lhe pagar o favor. Don Corleone chama a isso de "amizade", ele é amigo dessas pessoas que lhe devem algum favor. A ficção é atemporal, basta vermos a realidade do país onde vivo, o Brasil, ou a Colômbia, por exemplo.

É isso! Essa ficção nos lembra que sem instituições que funcionem corretamente no Estado, na sociedade onde vivemos, estamos sós, estamos por nossa conta. O Brasil pós-golpe de Estado em 2016 está assim. A máfia e as milícias tomaram o poder e a insegurança e o risco de morte e perseguição se tornaram a nossa realidade.

Triste isso! Viver sob o domínio das máfias.

William


Bibliografia:

CALVINO, Italo. Por que ler os clássicos. Tradução de Nilson Moulin. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.


sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Sabe com quem está falando?



Reflexão:

Pela manhã, ao passar pelo hall do condomínio, cumprimento a Do Carmo. Ela trabalha para nós no condomínio e mantém tudo em ordem em nosso bloco. Ela pergunta pela saúde de minha esposa e eu pergunto como vai a saúde dela. Quase todos nós temos nossas dores diárias e cronicidades. Do Carmo é cidadã brasileira.

No quiosque perto de casa, cumprimento a Maria e compro pão francês e pão de queijo, às vezes algum pão doce também. Quando não tem fila na calçada onde o quiosque sobre rodas está, conversamos amenidades. Outro dia soube que ela faz tratamento contra algum tipo de câncer. Maria é cidadã brasileira.

Na outra opção para comprar pães perto de casa, uma pequena padaria, quando vou lá cumprimento todas as funcionárias que já conheço, antigamente não sabia o nome delas, agora sei. Um dia desses, soube que uma delas não estava trabalhando mais lá. As meninas são muito simpáticas. Normalmente sou atendido pela Gleice, pela Naná ou pela Ingrid. Elas são cidadãs brasileiras.

Quase todo dia encontro o Henrique, quando vou comprar pães. Ele é um cidadão em situação de rua, simpático e expansivo, conversa com todo mundo. Ele pede algum tipo de ajuda para nós que moramos ou passamos pela região. E também recolhe latinhas para vender. Nesta quinta à noite, encontrei com ele em frente de casa, e depois lá na Vila Iara, quando passei por lá correndo. Nos cumprimentamos de novo. Henrique é cidadão brasileiro.

Quando voltei da feira noturna, que acontece às quintas-feiras na frente de casa, passei na van de churros e cumprimentei o Durval. Conversamos um pouco enquanto esperava sair uma remessa quentinha. Ao entrar no condomínio, entreguei os pastéis de nossos trabalhadores da portaria, o Zé e o Severino, figuras muito gente boa. O Zé eu conheço desde quando éramos jovens, coisa de vinte anos antes. Durval, Zé e Severino são cidadãos brasileiros.

Por falar em feira, estava sentindo a falta de uma das pessoas da barraca de pastéis, o rapaz que atende a gente toda semana. Perguntei por ele para a Cris, que trabalha junto com ele. Alexandre está internado se tratando de uma leucemia. Expressei minha solidariedade e torcida pela recuperação dele. Cris e Alexandre são cidadãos brasileiros.

Durante a tarde dessa quinta, estive em contato com outros trabalhadores brasileiros. O Francisco, quando tentamos resolver um problema de internet e o Tiago, que veio reinstalar uma rede de proteção, removida pelo Douglas para um reparo nos vidros da sacada. Todos eles muito prestativos e atenciosos. Francisco, Tiago e Douglas são cidadãos brasileiros.

Outro dia, estava preocupado com o senhor João, que às vezes faz entrega de refeições aqui no prédio. Felizmente, soubemos que está tudo bem com ele ao ligarmos no restaurante onde trabalha, foi só a bicicleta dele que quebrou por esses dias. O senhor João é cidadão brasileiro.

Ixi, estive pensando agora que não perguntei o nome do pessoal da barraca de caldo de cana com quem estou toda semana na feira. E também tem uns colegas que entregam refeição para a gente quase todo dia e eu não sei o nome deles, são sempre os mesmos e é importante saber o nome das pessoas.

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É importante sabermos com quem estamos falando, para tratarmos bem as pessoas, principalmente quando as pessoas estão trabalhando ou precisando de ajuda e, de alguma forma, estão nos ajudando porque precisamos uns dos outros para tudo nessa vida. Não somos nada sem a ajuda das outras pessoas. Pensem nisso na hora que acharem que são muito importantes e melhores que as outras pessoas!

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Cada ser humano é único, cada vida é única e todas as pessoas do mundo merecem respeito, atenção, oportunidades, todas as pessoas do mundo deveriam ter acesso aos direitos básicos dos seres humanos, alimento, moradia, educação, atendimento em saúde, trabalho decente e com remuneração adequada, cultura e lazer, segurança etc. Tecnologia e ciência para isso já existem, é só querermos isso coletivamente!

PANDEMIA DE COVID-19 - Nesta quinta-feira, morreram no Brasil 1582 pessoas vítimas do novo coronavírus. Mil quinhentos e oitenta e duas pessoas! Marias, joões, williams, brasileiras e brasileiros. 1582 famílias estão vivendo o luto neste instante, um luto horrível porque a pandemia impede até o velório e as despedidas que nossa cultura desenvolveu há séculos.

Desde moleque, sempre odiei a frase falada "Sabe com quem está falando?", dita na boca de gente metida a besta, gente que se acha melhor que os outros, gente que dá carteirada.

Hoje, para esquecer desse tipo de gente que faz tanto mal ao mundo, à sociedade, essa gente da carteirada, deu vontade de falar de gente comum, gente que está por aí ralando e tentando sobreviver nesse Brasil desgraçado e destroçado por um golpe de Estado, orquestrado e executado por gente da carteirada, que não vale nem uma unha a mais que as pessoas que citei nesta postagem.

Desejo do fundo de meu coração que o Alexandre e a Maria se curem do câncer que estão enfrentando (também conheço outras pessoas que estão em tratamento contra o câncer, todas elas estão em meu pensamento e no meu coração). 

Desejo tudo de bom para as trabalhadoras Do Carmo, Gleice, Naná, Ingrid, Cris, espero que elas todas tenham muita saúde e também o Zé, o Severino, o Francisco da internet e o Francisco daqui do condomínio, mais o Marcelo e o Luís e a Maria José, a Socorro e a Márcia. E também o Tiago e o Douglas da empresa de redes de proteção. E o Durval, do churros.

Torço todos os dias para que nada de mal aconteça ao Henrique, cuja vida é sempre um perigo estando na rua como ele está. E também torço pela vida e pela saúde da Rosângela, que não vejo no farol faz dias, mas da última vez que a vi ela estava bem e me disse que sua filhinha também, a criança estava ficando com familiares dela.

Encerro a postagem. Durante essa pandemia os bilionários, trilionários, essa gente do 1%, essa gente ficou muito mais bi e tri ricos enquanto a massa de trabalhadores ficou na miséria. A riqueza produzida pelos seres humanos não está sendo distribuída, está sendo acumulada na mão de poucos. Isso é uma merda, é um absurdo, e não pode continuar assim. Vamos mudar essa porcaria injusta!

Os banqueiros no Brasil demitiram mais de 10 mil mães e pais de família e jovens com vidas promissoras durante a pandemia, cidadãos que estão com sério risco de irem para as ruas, para a depressão, para a miséria. Isso não pode continuar assim! São marias, joões, seres humanos que ficarão numa condição desnecessária. Temos tecnologia e ciência para que todas as pessoas no planeta exerçam sua cidadania e tenham acesso aos direitos humanos.

Pelo fim do capitalismo! Por uma sociedade socialista!

William

Post Scriptum: ainda pensando em trabalhadores cidadãos brasileiros, eu e Ione temos muita saudade do senhor Adão e do senhor Francisco, gente boníssima! Eles trabalham na portaria do prédio onde moramos por quase quatro anos em Brasília. E hoje fiquei feliz ao ver feliz pelas redes sociais a flamenguista Jesus, comemorando o título de seu time do coração. Conheci a Jesus quando trabalhei na Cassi, ela é uma das trabalhadoras da limpeza. Jesus, Adão e Francisco são cidadãos brasileiros!


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Instantes (madrugada de 24/2/21)



Instantes

O dia vai terminando. Tive momentos de reflexão sobre o destino da sociedade humana. Sei que é ousado pensar sobre algo tão importante e total como o destino da humanidade. Mas entendo que pensar o mundo é direito e obrigação de alguém politizado (mesmo estando fora das frentes de luta). 

Confesso que não sei o que fazer para contribuir para a luta social por mudanças que melhorem a vida das pessoas neste momento. Estive envolvido em projetos coletivos por duas décadas e sei que contribuí de alguma forma para a construção daquele Brasil que avançava lentamente na melhoria da vida do povo durante os governos democráticos e populares do Partido dos Trabalhadores, porque eu era um militante orgânico das lutas sociais com mandatos de representação de trabalhadores.

Hoje, retirado, ainda não encontrei a forma de contribuir para a coletividade. Minha contribuição foi uma oportunidade que tive entre 2002 e 2018. Não me vejo pleiteando funções políticas no movimento social e não tenho a natureza admirável daqueles e daquelas que construíram e lideraram as lutas históricas e diárias da classe trabalhadora brasileira. Fiz o meu melhor enquanto tive papéis a desempenhar no movimento sindical enquanto eu coube nele.

Avalio que meu espaço de contribuição foi possível enquanto o movimento social em geral era mais aberto às divergências. Isso mudou da mesma forma que as pessoas mudaram, da mesma forma que o mundo mudou. As redes sociais e outras questões comportamentais mudaram as pessoas. A política que fazíamos de construir projetos e unidade com debates abertos e de opiniões diferentes não funciona mais; paciência e tolerância eram comportamentos básicos, que não existem mais. 

Vida que segue... não deixei de ser de esquerda, pelo contrário, a cada dia que passa mais certeza tenho a respeito do socialismo e da necessidade do fim do capitalismo para que a vida continue no planeta.
Continuo preocupado com a vida das pessoas, com o sentimento de indignação com a injustiça social. Mas sei que a esquerda institucional não tem mais espaço para a divergência como aprendi em duas décadas de convivência com o movimento organizado. E sei que todos perdemos com isso. Vejam a realidade ao nosso redor.

Não me encontrei ainda nesses dois anos e meio fora do movimento organizado. Suspeito inclusive que o movimento organizado não se encontrou mais após o golpe de Estado (2016) e após essas mudanças comportamentais que as pessoas e a sociedade sofreram. É duro confessar que estamos perdidos... é mais duro ainda vermos as notícias diárias nos últimos anos e vermos que não existe oposição que inspire simpatia e esperança no combate ao regime neofascista e à onda de extrema direita que tomou conta da sociedade brasileira neste momento da história.

Instantes... fiquei pensando o que poderia ser neste momento de minha vida e da sociedade em que vivemos. Se eu tivesse competência, seria escritor. Não acho que tenha competência para isso. Talvez eu pudesse ser só "blogueiro", mas isso é algo tão vago... sou blogueiro há uns 13 anos, mas tive leitores em quantidades consideráveis enquanto meu lugar de fala foi de representante formal dos trabalhadores.

Hoje, meus blogs têm um acesso mensal até considerável para espaços de produção de texto, mas acessos pequenos se considerarmos o alcance, porque vídeos e imagens é que chamam atenção dos humanos da atualidade. 

Enfim, sigo procurando algo que possa contribuir para mudar o mundo. Pelo meu conhecimento de mundo e de luta contra o capitalismo, sei que manter informações em redes sociais como, por exemplo, o Facebook é muito complicado porque somos commodities do capitalismo e isso me incomoda muito: ser banco de dados para ser usado pelo sistema é foda. Gostaria de apagar todas as minhas informações em redes sociais, mas isso é difícil de se fazer. Já os blogs são como sites, são um pouco diferentes de redes sociais.

Enfim, ainda estou procurando uma forma de contribuir com o movimento de esquerda, com as mudanças necessárias em relação a este mundo horrível que vemos ao nosso redor. Escrevo em blog, mas pouca gente lê blogs hoje.

Abraços aos amig@s que leram minha reflexão desse instante.

William

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

220221 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

O que registrar nesta segunda-feira, 22 de fevereiro? Temos um cardápio horroroso de opções: o avanço da pandemia de Covid-19 no Brasil e as mortes sem prazo para acabarem (247.143 brasileir@s), a destruição das empresas públicas (Petrobras, BB, Caixa, Banco Central etc), a preparação para o golpe ditatorial (guerra civil com só um lado armado?) que promete se instalar no país com milicianos e bolsonaristas armados até os dentes para calar e exterminar quem pensar diferente do regime neofascista... são muitas coisas horríveis que poderiam ser registradas neste dia comum na vida do povo brasileiro (as tragédias que citei foram normalizadas pelos meios midiáticos formadores de opinião. Tudo está "normal" e segundo eles as instituições "funcionam").

De desgraça, basta o primeiro parágrafo. 

É MELHOR FALAR SOBRE LITERATURA

Vira e mexe estou refletindo a respeito da questão levantada pelo escritor e pensador Italo Calvino que fez um belo artigo com possíveis justificativas em relação à questão colocada por ele: "Por que ler os clássicos".

Dias atrás, acabei a releitura de O processo, do escritor tcheco Franz Kafka, obra do início do século XX. Ao ler a estória ficcional do personagem Joseph K. é possível ver como a ficção pode se confundir com a realidade ao observarmos os acontecimentos no Brasil, país que se encontra sob estado de exceção, destruído por um golpe de Estado e pela tomada do poder por grupos marginais e mafiosos.

Na ficção de Kafka, um bancário acorda numa determinada manhã com homens estranhos em seu quarto informando a ele sobre sua prisão. K. passaria por um processo absurdo e com final inesperado sem que ao menos soubesse do que estava sendo acusado ou o que teria feito de errado.

Vale a pena ler um clássico como esse? Vale. Eu o li pela primeira vez antes de ser um cidadão politizado. E nunca me esqueci do martírio e da sensação de injustiça que senti ao ler o livro. Depois fui encontrar na vida várias situações e processos kafkianos, injustos e totalmente absurdos. O caso do presidente Lula é um exemplo. O meu caso é outro exemplo, que num certo dia me peguei no meio de um processo inventado, cínico, mal e desumano, combinado por agentes do sistema que me julgou em uma instituição onde eu exercia um mandato de representação dos trabalhadores. É um clássico que nos prepara o espírito para as maldades do totalitarismo (hoje, o lawfare é uma das ferramentas desses processos).

Estou lendo Madame Bovary, de Flaubert. O livro é um clássico francês do século XIX, escrito e publicado entre 1856 e 1857. O romance retrata a sociedade burguesa, o racismo, a condição das mulheres, um caso de adultério e o escritor ficou marcado por sua obra. Vale a pena ler esse clássico? Vale. Mesmo a leitura sendo cansativa, pelo estilo descritivo de Flaubert, o enredo nos referencia para a questão da condição das mulheres um século e meio depois. Eu não diria que os avanços são consideráveis nos direitos da mulher. Muitas são as lutas ao longo do tempo pela emancipação e empoderamento das mulheres nas comunidades dos séculos XX e XXI, mas basta falar de uma ou outra questão como o direito ao aborto para vermos que as mulheres ainda são consideradas com menos direitos e autonomia em seus próprios corpos em relação aos homens com orientação heterossexual.

Ao ser informado por meu filho que a trilogia de O poderoso chefão, sendo o 1º filme dirigido por Francis Ford Coppola em 1972 (sequência em 1974 e 1990), iria sair de uma dessas redes de streaming no final deste mês, comentei com ele que eu havia lido o livro de Mario Puzo na adolescência. Mostrei o livro para ele e acabei pegando para reler. Nada nada já li mais de 100 páginas e deu vontade de ler até o fim as quase 500 páginas do livro antes de assistir aos 3 filmes adaptados. Vale a pena ler esse clássico? Vale. É surpreendente vermos a ficção sobre as máfias na primeira metade do século XX ser idêntica à nossa realidade no Brasil pós golpe de Estado em 2016. Políticos sendo assassinados, tráfico de toneladas de drogas com envolvimento de autoridades públicas, a milícia no poder, juízes mais corruptos que os corruptos pés de chinelo que lotam as cadeias. Tudo muito idêntico ao mundo de Don Vito Corleone. (que merda de realidade distópica, heim!)

Enfim, vou seguir lendo enquanto for possível.

William


sábado, 20 de fevereiro de 2021

Livro: Madame Bovary - Gustave Flaubert



Refeição Cultural - Cem clássicos

(postagem durante a leitura da obra. Atenção: contém spoiler)

Madame Bovary é um clássico da literatura francesa e mundial. O livro foi lançado entre 1856 e 1857, primeiro em folhetins (Revue de Paris) e depois em forma de livro. Gustave Flaubert foi um grande escritor do século XIX.

Essa é uma daquelas estórias da literatura clássica que virou referência mundial e mais de um século e meio depois de seu lançamento ela traz um desafio extra ao leitor que se dispuser a lê-la: todos nós conhecemos o enredo e não há segredo quanto ao seu final - um caso de adultério que termina com o suicídio da personagem.

Talvez esse seja o motivo - sabermos o enredo - por eu já levar algumas décadas (rsrs) sem terminar a leitura. Dureza, viu! Eu tenho uma edição dos anos oitenta, daquelas coleções de clássicos da Abril S.A., com tradução de Araújo Nabuco.

Já cheguei a ler até a página cem. Tenho marcações no livro que vão desde 2003 até recentemente, quando li algumas dezenas de páginas em 2020. Em 2009 foi quando cheguei mais longe na leitura. Enfim, neste momento em que organizo a postagem, talvez eu tome vergonha na cara e decida ler a obra até o fim.

Os tempos são de pandemia mundial, de riscos de morte maiores que outras épocas... seria uma merda morrer sem ter lido um clássico como esse!

PRIMEIRA PARTE

Acabei de reler pela enésima vez o 1º capítulo. Ele traz a origem de Carlos Bovary, futuro marido de Ema Rouault (Bovary). A forma como Flaubert descreve espaços e personagens é de primeiríssima qualidade, isso é inegável.

Após a apresentação de Carlos e sua família, o capítulo 2 se desenvolve com sumários que aceleram bastante o tempo. Carlos se forma médico, tem um casamento arranjado com uma viúva - Heloísa, senhora de 45 anos - por questões de independência financeira do rapaz (dote da noiva). Ele conhece o pai de Ema durante um atendimento médico e passa a frequentar a casa dos Rouault. Heloísa morre e deixa Carlos viúvo e pobre, pois a riqueza dela era um engodo. (leitura na sexta, dia 19/2/21)

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Numa revisão rápida, para relembrar a estória, cheguei ao fim da primeira parte, contendo 9 capítulos. No 3º, Carlos acerta o casamento com Ema Houault. No 4º, é a festa do casório, a Sra. Bovary, mãe de Carlos, não recebe a atenção adequada do filho. No 5º, Flaubert nos apresenta uma Ema que compara sua vida a livros de romance. Conhecemos o passado de Ema num convento, no capítulo 6. Ela não se adequou à vida monástica. No 7º, vemos que Ema se enche da modorra da vida conjugal e reclama do marido, que acha um banana. No 8º, quando voltam de um passeio, Ema demite a criada dos Bovary, uma senhora muito antiga na casa. A primeira parte se encerra com o casal mudando de Tostes, por causa dos incômodos de Ema. Carlos estava bem estabelecido no trabalho e vai ter que recomeçar em outro lugar. Ema está grávida. (ainda sexta, 19/2/21)

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SEGUNDA PARTE

A segunda parte contém 15 capítulos. Entre a noite de sexta 19 e sábado 20, li até o capítulo 8. Mas cansei, não deu pra ler o quanto imaginei.

O casal agora vive em Yonville-l'Abbaye, "um burgo a 8 léguas de Ruão, entre a estrada de Abbeville e a de Beauvais, ao fundo de um vale atravessado pelo Rieule, pequeno rio que deságua no Andelle" nos informa o narrador.

Dois personagens se incorporam ao romance, o farmacêutico Homais e o abade Bournisien. Eles vão morar provisoriamente na estalagem da viúva Lefrançois. No capítulo 2, o farmacêutico deixa à disposição de Ema sua biblioteca. Essa informação é importante porque o romance explora essa questão: a influência dos romances na personalidade "vaporosa" de Ema.

A biblioteca tem "Voltaire, Rousseau, Delille, Walter Scott, o Eco dos folhetins, etc.".

O autor constrói uma personagem que tem espírito inquieto, insatisfeito com o que tem. Temos que ler a obra lembrando de quando ela é: meados do século XIX, na França da sociedade burguesa.

Nos capítulos 3 e 4 nasce a filha do casal, Berta. Ema se enamora do jovem Léon, que também reside na estalagem da viúva Lefrançois. O narrador cita várias vezes o quanto Ema tem desprezo por seu marido, Carlos. 

No capítulo 6, Ema visita a igreja local e o abade está ocupado com o catecismo das crianças. Ema estava indecisa sobre o que fazer, mas não encontrou apoio no cura local para evitar uma eventual decisão pelo adultério. Léon, seu amor, vai embora e ela não realiza seu desejo de amor com o jovem.

Vejam o que Ema pensa sobre Berta, sua filha:

"- Que coisa estranha - pensava Ema. - Como é feia esta criança!"

No capítulo 7 aparece um novo conquistador, Rodolfo Boulanger. Ele de cara diz que vai conquistar Ema, só para viver uma aventura no local.

Parei a leitura após o capítulo 8, quando já vemos Ema e Rodolfo enamorados e andando juntos durante o dia de comícios da região. 

ILUSÃO DE SIMULTANEIDADE - O capítulo tem uma técnica narrativa refinada, estudei sobre isso recentemente no livro O tempo na narrativa, de Benedito Nunes. Flaubert desenvolve uma técnica que nos permite ver e acompanhar ao mesmo tempo o casal Ema e Rodolfo conversando e pessoas discursando no comício agrícola de Yonville. Bem legal!

Parei a leitura do romance, li bastante no dia 20/2/21, sábado. Próxima etapa é acabar a segunda parte do livro, são mais 50 páginas e 7 capítulos.

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Leitura do domingo, 21/2/21

O capítulo 9 começa com um sumário que acelera o tempo após a cena anterior, com o dia do comício agrícola de Yonville: "Seis semanas se passaram". 

O marido de Ema, Carlos, praticamente oferece a esposa ao amante, ao sugerir que ela ande de cavalos com Rodolfo Boulanger. Eles passam a ter um caso e Ema faz loucuras bem ousadas para a época.

No capítulo 10 o romance esfria porque Rodolfo está meio sufocado pela amante e Ema reflete com mea culpa que poderia amar seu marido. No 11, Carlos vive uma crise imensa ao fazer uma cirurgia desnecessária num rapaz com deficiência no pé. Por um instante, Ema esteve orgulhosa do marido (achou que ele seria rico e famoso), mas voltou a odiá-lo e voltou ao amante também.

Ema e Rodolfo planejam fugir no capítulo 12. Acontece o previsível desse tipo de romance: o amante foge sozinho no cap. 13 e Ema cai doente. No capítulo seguinte (14), a vida aos poucos retoma a rotina sem o amante. Os Bovary estão endividados. Ema se esforça para se reconciliar com o marido. A segunda parte termina com o casal reencontrando o jovem Léon em um teatro, ele foi o primeiro affair de Ema.

Ufa! Só acabei no final do domingo as 50 páginas. Vamos agora para a terceira e última parte do romance, são mais 75 páginas e 11 capítulos. Acho que lerei em duas vezes.

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TERCEIRA PARTE

(em leitura)

07/3/21, domingo.

Terminei a leitura do livro no sábado 6. Eu parei a leitura para ler outro livro clássico, O chefão, de Mario Puzo. Li um livro de quase 500 páginas para retomar e terminar Madame Bovary

A terceira e última parte do livro foi surpreendente, mesmo sabendo o que aconteceria com a personagem principal, Ema Bovary. Lembro aqui um conceito de Italo Calvino sobre os clássicos, que mesmo quando não lemos os clássicos, sabemos a respeito deles por causa das leituras coletivas ao longo da história.

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"Toda primeira leitura de um clássico é na realidade uma releitura" (Italo Calvino)

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TERCEIRA PARTE

"Ema era a apaixonada de todos os romances, a heroína de todos os dramas, a vaga 'ela' de todos os volumes de versos." (Cap. 5, p. 198)

Ema retoma contato com o jovem Léon no capítulo 1, ele se declara a ela. Assim como ocorreu no affair entre ela e Rodolfo, Ema buscou algum auxílio na igreja antes do novo romance, mas não encontrou respostas ali.

Entre os capítulos 2 e 4 Ema e Léon encontram a plena felicidade conjugal.

O capítulo 5 é memorável. O narrador descreve o cotidiano das gentes, o transporte diário das pessoas da roça até a cidade através de um carro com alguns cavalos: a "Andorinha", conduzida por um cocheiro. Depois descreve a cidade de Ruão com chaminés de fábricas, igrejas e casas, local de 120 mil pessoas.

Este capítulo é muito importante na estória. Ema está se endividando e colocando a segurança financeira da família em ruína. O próprio amante Léon percebe que ela não é satisfeita com nada, tudo é insuficiente.

No capítulo 6, Ema pressiona o amante em quase tudo e Léon se sente sufocado pelo amor dela. As dívidas se avolumam e os Bovary têm bens penhorados. A mãe do jovem Léon o obriga a deixar Ema.

Flaubert denuncia a mentalidade burguesa da época no capítulo 7. O farmacêutico Homais é um típico personagem que representa os ideais e a hipocrisia burguesa.

Ema tenta conseguir empréstimos com alguns burgueses locais e tem uma cena humilhante de um deles ceando enquanto Ema, em pé e frente a ele na sala de jantar, pede ajuda e o cara tenta comprá-la sexualmente.

O romance se encaminha para o fim trágico nos últimos capítulos. Ema reencontra o primeiro amante que lhe nega ajuda financeira. O narrador faz descrições cruéis da personagem "adúltera". Há uma sequência de óbitos na estória, mais do que eu imaginava.

Interessante! Mesmo sabendo sobre Ema Bovary através da história da obra, me surpreendi com os detalhes e com os acontecimentos finais do romance.

O destino da filha dos Bovary é o retrato ainda atual do capitalismo e da burguesia. Esse sistema não nos serve! Não nos serve! É assim que fecho essa postagem sobre o clássico de Flaubert.

William

20/02/21


Bibliografia:

FLAUBERT, Gustave. Madame Bovary. Tradução de Araújo Nabuco. São Paulo: Abril Cultural, 1981.


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

180221 - Diários e reflexões



Registrar é preciso:

Quinta-feira, 18 de fevereiro do 2º ano da pandemia do novo coronavírus. Estou no Brasil. Tenho 51 anos e as notícias que vejo não são promissoras de um mundo melhor. Nem aqui, nem em lugar nenhum. Então...

Nesta semana, uma jovem de carinha angelical discursava em Madri contra judeus, enquanto centenas de pessoas lhe apoiavam. Eles cantavam hinos fascistas e faziam a saudação nazista. Nem ela nem o grupo de apoio foram presos ou sequer incomodados pelas autoridades. Enquanto isso, um rapper do mesmo país foi preso por fazer críticas ao rei corrupto do lugar.

Ontem, o cidadão chamado Ratinho, que tem programas de TV e rádios, concessões públicas, defendeu no ar em um programa de rádio que fosse dado um golpe militar no Brasil semelhante ao aplicado em Singapura, e falou de vantagens da coisa. Está nas notícias de hoje. Ele não foi preso por atentar contra a democracia e contra a Constituição Federal.

Um deputado bolsonarista foi preso ontem por ameaças graves à democracia e a Constituição Federal. A ordem de prisão partiu da suprema corte do país. O sujeito é uma coisa abominável para tentar descrevê-lo. Ele mesmo afirmava que ninguém detém ele porque já foi preso umas oitenta vezes enquanto era policial... comentam-se que ele vai ser solto já nos próximos dias.

A pandemia já infectou no mundo 110 milhões de pessoas, sendo 9,98 milhões de brasileiros. Já matou 2,4 milhões de pessoas, sendo 242.090 vítimas brasileiras, a ampla maioria preta, pobre, vulnerável. O regime neofascista no poder é contra o combate à pandemia. Está havendo um genocídio no país. (informações da Covid-19 da Johns Hopkins University)

A pandemia está numa fase de expansão e parte da população está assustada e com medo de pegar esse vírus. A coisa é bem complexa, quem pega pode ter sequelas graves em qualquer órgão do corpo e nunca mais ter a mesma saúde de antes. Parte das pessoas que pega, morre. Não tem remédio. Tem algumas vacinas por aí. Mas o regime neofascista do Brasil boicota qualquer tentativa de defesa da vida e saúde das pessoas. Mesmo assim, os genocidas têm um terço da população com eles. É o fim de nosso mundo, do que éramos.

O combate à expansão da morte por Covid-19 não é prioridade. O emprego com direitos sociais não é prioridade. A defesa do meio ambiente e da soberania nacional não é prioridade. Mas armar a população é a prioridade do regime da morte. A entrega do patrimônio nacional avança rapidamente. Privatização da Petrobras, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, Correios e Eletrobras. O Banco Central do Brasil foi entregue aos golpistas. Tudo isso e o povo segue apático em suas casas ou nas ruas comprando bugigangas ou jogando dominós.

Meus registros no blog são inúteis. Mas são meus. A gente pode morrer a qualquer momento, dias depois de pegar Covid-19, e seremos só mais uma estatística (atendi um prestador de serviços hoje, ele usava máscara, mas estava com aparência de resfriado, chupando o nariz... que foda, a gente pode se ferrar a qualquer instante). Mas eu existo e algumas pessoas dependem de mim. Sou humano, tenho o dom da linguagem, da razão, então escrevo. Sei que só umas poucas pessoas leem. Mas eu existo. E tenho opinião sobre as coisas. Sou de esquerda. Sou contra essa destruição toda dos direitos sociais e do Brasil. Quero viver porque a vida pode ser melhor. É só termos lado, não sermos isentões, nos unirmos em defesa da vida, da distribuição da riqueza produzida pela humanidade.

Ouvi a entrevista do Lula hoje, dada ao jornalista kennedy Alencar. Me lembrei de minha vida dedicada ao movimento sindical e à política. Posso discordar de algumas opiniões de Lula, mas compreendo suas propostas e porque ele as faz. O mundo pode ser melhor para as pessoas e para os seres vivos em nosso planeta. Por isso que acho um desperdício a gente só aceitar que o mal se estabeleça e nos elimine. A vida pode ser melhor. Temos que derrotar o capitalismo, seus representantes e a maldade sistêmica que domina o mundo e o cotidiano neste momento da história.

Desânimo até de reler o que já escrevi para corrigir erros e melhorar redação. Mas a gente faz o que tem que ser feito. Viver é preciso (então releio e termino o texto e ainda vou sair de máscara para ir à feira agora). Nem falei da Lava Jato, das informações da Vaza Jato. Dos canalhas desgraçados, moleques que destruíram o país em conluio com agentes de outros países que se aproveitaram desses pés-de-chinelo lesas-pátrias para foder o Brasil e os brasileiros. E todos esses filhos de chocadeiras estão livres, leves e soltos. Uns estão surfando por aí, outros prestando serviços para empresas estrangeiras que se deram bem com a quebra das empresas brasileiras. Que foda, que merda! 

Como não há mais governo, não há mais instituições que defendam o povo, nossos dados pessoais estão todos por aí à disposição de bandidos, de empresas, de fraudadores. Vazamentos de milhões e milhões de dados dos cidadãos brasileiros estão na deep web sendo vendidos por alguns tostões. Após o golpe e destruição do Brasil, estamos sozinhos, por nossa conta. E nossos inimigos estão armados até os dentes, pois nós da esquerda ainda somos pacifistas, quase que uns babacas indefesos.

Fim do registro. Nós que não pactuamos com o mal que dominou o país temos que sobreviver, temos que manter nossa indignação e temos que encontrar uma forma de resistência e de tirar do poder essa parcela violenta e contrária ao povo que tomou por golpe as nossas instituições e capturou parte de nossa gente.

A distopia chegou.

William

#Quero o socialismo! 

#Quero o fim do capitalismo! 

#Fora fascistas!