quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (26) - Arte Poética, Jorge Luis Borges



ARTE POÉTICA - JORGE LUIS BORGES


Mirar el río hecho de tiempo y agua

y recordar que el tiempo es otro río,

saber que nos perdemos como el río

y que los rostros pasan como el agua.


Sentir que la vigilia es otro sueño

que sueña no soñar y que la muerte

que teme nuestra carne es esa muerte

de cada noche, que se llama sueño.


Ver en el día o en el año un símbolo

de los días del hombre y de sus años,

convertir el ultraje de los años

en una música, un rumor y un símbolo,


ver en la muerte el sueño, en el ocaso

un triste oro, tal es la poesía

que es inmortal y pobre. La poesía

vuelve como aurora y el ocaso.


A veces en las tardes una cara

nos mira desde el fondo de un espejo;

el arte debe ser como ese espejo

que nos revela nuestra propia cara.


Cuentan que Ulises, harto de prodigios,

lloró de amor al divisar su Ítaca

verde y humilde. El arte es esa Ítaca

de verde eternidad, no de prodigios.


También es como el río interminable

que pasa y queda y es cristal de un mismo

Heráclito inconstante, que es el mismo

y es otro, como el río interminable.

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COMENTÁRIO:

Maravilhoso poema!

Fiquei pensando no conceito desenvolvido por Adélia Prado em uma entrevista na qual ela diz que a Arte é como a Filosofia e as Religiões, todas tentam achar respostas para as questões centrais do ser humano: sobre a vida, a morte e o sentido de tudo.

As metáforas do poema constroem imagens que refletem essas questões centrais do ser humano. 

O tempo, o rio, a água que fluem e nunca voltam, nunca são os mesmos. Como nós. 

A vigília, o dormir, o sonho: metáforas para a morte daquele que crê em algo depois da morte.

A aurora e o crepúsculo, e a poesia. A imortalidade daquilo que sempre volta. 

O Eu-lírico através da metáfora do espelho, enaltece a poesia, que pode dar sentidos.

A poesia é a nossa Ítaca, o local que nos acolhe, que nos dá sentido, e mesmo sendo o tempo como um rio, que flue sempre, a vida renasce em oportunidades a cada aurora.

Amig@s leitores, Borges tem sido a poética que mais me cativou até agora dos clássicos que tenho lido nesses dias.

Sigamos lendo poesia e buscando sentidos em cada aurora.

William Mendes


Bibliografia:

BORGES, Jorge Luis. Antología poética 1923-1977. Biblioteca Borges, Alianza Editorial. Madri, 2005.


quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (25) - Lembrança de morrer, Álvares de Azevedo



LEMBRANÇA DE MORRER - ÁLVARES DE AZEVEDO 

          No more! o never more!

                       Shelley


Quando em meu peito rebentar-se a fibra

Que o espírito enlaça à dor vivente,

Não derramem por mim nem uma lágrima 

              Em pálpebra demente.


E nem desfolhem na matéria impura

A flor do vale que adormece ao vento:

Não quero que uma nota de alegria 

Se cale por meu triste pensamento. 


Eu deixo a vida como deixa o tédio

Do deserto, o poento caminheiro 

- Como as horas de um longo pesadelo 

Que se desfaz ao dobre de um sineiro;


Com o desterro de minh'alma errante,

Onde fogo isensato a consumia:

Só levo uma saudade - é desses tempos

Que amorosa ilusão embelecia.


Só levo uma saudade - e dessas sombras 

Que eu sentia velar nas noites minhas...

De ti, ó minha mãe! pobre coitada

Que por minha tristeza te definhas!


De meu pai... de meus únicos amigos,

Poucos - bem poucos - e que não zombavam

Quando, em noites de febre endoidecido,

Minhas pálidas crenças duvidavam.


Se uma lágrima as pálpebras me inunda,

Se um suspiro nos seios treme ainda,

É pela virgem que sonhei... que nunca 

Aos lábios me encostou a face linda!


Só tu à mocidade sonhadora

Do pálido poeta deste flores...

Se viveu, foi por ti! e de esperança

De na vida gozar de teus amores.


Beijarei a verdade santa e nua,

Verei cristalizar-se o sonho amigo...

Ó minha virgem dos errantes sonhos,

Filha do céu, eu vou amar contigo!


Descansem o meu leito solitário 

Na floresta dos homens esquecida,

À sombra de uma cruz, e escrevam nela:

- Foi poeta - sonhou - e amou na vida. -


Sombras do vale, noites da montanha 

Que minh'alma cantou e amava tanto,

Protegei o meu corpo abandonado,

E no silêncio derramai-lhe um canto!


Mas quando preludia ave d'aurora

E quando à meia-noite o céu repousa,

Arvoredos do bosque, abri os ramos...

Deixai a lua pratear-me a lousa!

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COMENTÁRIO:

Alguns poetas, poemas e poéticas vão melhor nos meus entendimentos. Outros são bem mais desafiadores pra mim.

Li quase a primeira parte inteira da "Lira dos Vinte Anos" para escolher esse poema.

As primeiras duas estrofes posso declamá-las por mim mesmo, pois nada quero que digam depois que não mais existir.

Minha mãe foi também confidente e cúmplice décadas atrás, quando perdido estava no começo da vida adulta. À época, a morte se lembrava de mim o tempo todo. Passou.

Enfim, eis aí o poema do dia.

William Mendes


Bibliografia:

AZEVEDO, Álvares. Lira dos vinte anos. Coleção Vestibular, O Estado de São Paulo. Klick Editora: São Paulo, 1999.


terça-feira, 24 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (24) - Canção excêntrica, Cecília Meireles



CANÇÃO EXCÊNTRICA - CECÍLIA MEIRELES


Ando à procura de espaço

para o desenho da vida.

Em números me embaraço

e perco sempre a medida.

Se penso encontrar saída,

em vez de abrir um compasso,

projeto-me num abraço

e gero uma despedida.


Se volto sobre o meu passo,

é já distância perdida.


Meu coração, coisa de aço,

começa a achar um cansaço

esta procura de espaço

para o desenho da vida.

Já por exausta e descrida

não me animo a um breve traço:

- saudosa do que não faço,

- do que faço, arrependida.


Vaga música, 1942.

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COMENTÁRIO:

Também "Ando à procura de espaço/para o desenho da vida". E meu coração nem de aço é mais, agora é só um pedaço do aço que já foi um dia. 

Meu coração "começa a achar um cansaço".

Lendo algumas vezes este poema de Cecília Meireles, fui me vendo como o próprio Eu-lírico.

Faz alguns anos a canção da minha vida virou uma canção extravagante, fora da ordem na qual se encontrava; afastada do habitual. Uma "Canção excêntrica".

Meu ritmo entrou em completo descompasso... 

Não desisto, ainda busco o compasso.

"Se volto sobre o meu passo,/é já distância perdida."

Sei que o compasso está no amanhã, não no passado. Mas é tão difícil!!!

Sigamos lendo poesia. Enquanto há vida, há espaço "para o desenho da vida".

William Mendes


Bibliografia:

MEIRELES, Cecília. Poesia completa. Coordenação André Seffrin; apresentação: Alberto da Costa e Silva - 1° ed. - São Paulo: Global, 2017.


Natais - 1982



Refeição Cultural

Osasco, 24 de dezembro de 2024. Terça-feira.


SENTIMENTOS E IMPRESSÕES

Naquele minuto no farol me senti culpado por toda a desgraça humana... A mãe com a criança no farol da Vila Yara me azedou o dia. Deu um misto de raiva, tristeza, impotência, desesperança no ser humano. Vergonha da minha espécie animal.

Tenho sentido uma vontade imensa de não contatar nenhum ser humano nos últimos dias. E sei que a sensação é uma espécie de sintoma de algo psicológico - uma estafa qualquer. Não posso permitir que essa bobagem me impeça de encontrar pessoas quando aparecer a oportunidade. Mas posso selecionar encontros.

Racionalmente, tenho conhecimento acumulado para saber que sou um ser social, que minha espécie é absolutamente dependente de relações humanas para tudo. Basta sentir uma dor ou sofrer um acidente que veremos se somos seres autossuficientes ou não. 

Natal traz as tradições e costumes culturais que tentam permanecer mesmo tendo mudado tudo no mundo. Confraternizar com um grupo de pessoas, reunir para comemorar a data ou o acontecimento (Jesus): tradições do período natalino no Ocidente.

Entra ano sai ano a sociedade humana tenta manter essa tradição associada ao objetivo principal da data: vender coisas, circular dinheiro, ostentar poder, felicidade e sucesso. Jesus... usam o nome dele para defender cada merda, que fala sério! (faz arminha...)

Quem não tiver dinheiro como as famílias nas ruas das cidades, que se dane. Não se esforçaram ou Deus não olhou para elas. Fôssemos urubu, barata ou ratazana não explicaríamos as coisas cotidianas assim. Abstrações são coisas do animal humano. Ideologias. Naturalizar o que não é natural.

UBERLÂNDIA 

Como vislumbrei ao longo dos últimos dois anos nos quais comecei a escrever esta série de textos sobre o Natal em minha família, não nos reuniremos com a família lá de Uberlândia. Mas fico contente de saber que a família lá estará reunida hoje.

Fui visitar os pais e a família dias atrás. Aproveitei com consciência cada instante que passei com minha mãe e meu pai. O arroz com feijão na presença de minha mãe por cinco dias foi vivido intensamente. Foi um instante precioso. Nunca se sabe do amanhã.

Como se diz na linguagem corrente, o "corre" de todo mundo não permitiu sequer que os sobrinhos comecem comigo uma pizza... Pedi as pizzas, mas foi minha mãe, meu pai e eu. A gente percebe as mudanças na vida e a vida deve seguir. Em cinco dias, vi por minutos familiares queridos. Enfim, são os tempos.

OSASCO

Voltando aos instantes da manhã de hoje, na Vila Yara, no mercado local, pensei em comprar uma ou duas cervejas. Eu tinha o hábito de tomar em casa uma latinha para relaxar em alguns dias do mês. Depois de ter na família problemas com álcool, nunca mais me senti à vontade para tomar socialmente uma cervejinha. Tomo com conhecidos, mas hoje não quis pegar a cerveja.

CULTURA DO CANCELAMENTO 

Tem uma coisa que está me matando, me fazendo refletir sobre abandonar tudo que tenha relação com movimento social: a cultura do cancelamento na esquerda, que virou uma arma tão letal que eu não consigo entender onde está a inteligência das pessoas que são de esquerda. 

Sermos manipulados pela cultura do cancelamento é algo tão estúpido que qualquer idiota deveria perceber que há um projeto para foder qualquer liderança de nosso campo que se destaque na luta contra nossos inimigos. 

Quer eliminar uma liderança de esquerda? Faça uma acusação de assédio sexual, pedofilia, corrupção etc. Pode ser anônima a denúncia. No dia seguinte, os "nossos" já não se contaminarão com o acusado... cancelado.

A gente do nosso lado vai se lamentar... dizer que está arrasada com a denúncia... e que "vamos esperar a apuração dos fatos". Pronto. Cancelado! A esquerda brasileira não aprendeu absolutamente nada com a Lava Jato. Onde está a inteligência da esquerda?

Estou azedo, estou amargo. Odeio injustiça desde quando tinha treze ou quatorze anos e passei a entender a injustiça de um garoto trabalhar em serviços de merda e humilhantes por causa da miséria social imposta pela burguesia desgraçada do país e do mundo.

Eu fui vítima de lawfare com carta anônima e passei o mesmo que outras lideranças de esquerda estão passando com esses processos de assassinato de reputações e histórias de militância e tenho raiva do comportamento bovino da esquerda em não defender os seus e simplesmente participar do processo de cancelamento.

De certa forma, a cultura do cancelamento só comprova a leitura que eu tenho das relações utilitaristas que predominam hoje na sociedade humana, inclusive nos círculos de maior proximidade nas relações. Se a pessoa tem alguma utilidade para a outra, beleza. Não tem utilidade, desconsidera... cancela.

Temos que refazer as relações humanas na sociedade. É o que eu avalio.

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NATAL DE 1982

O Natal pode ter sido ainda na casa da Dona Nenzinha ou já na casa alugada no quarteirão de cima, na Av. Quilombo dos Palmares, Marta Helena. Acho que mudamos 3 vezes em 3 anos. 

Eu já tinha mais de 13 anos nesse Natal. 

Meu pai tinha um bar, a Choupana, que vendia bebidas, lanches, salgados e tinha uma mesa de pebolim. 

Eu e ele éramos bons no pebolim porque se perdêssemos não entrava dinheiro no caixa (mas ganhar do Ruizinho era foda!). 

O bairro era de gente muito simples e tinha uma molecada e adultos muito violentos, algo como gangues mesmo. 

Eu já andava nas ruas como todo mundo da minha idade, tinha os bailinhos (chamados de "brincadeira"), e se a gente não fosse amigo ou conhecido do pessoal, a gente era inimigo... 

Nunca me esqueço da casa na Quilombo dos Palmares por causa do milharal que plantamos na frente e por causa de um tênis azul que me roubaram do varal. 

Como o ladrão era um cara foda do bairro, tive que conviver com o cara usando o meu tênis...

A música era algo que marcava os momentos de nossa vida nos anos 80. 

Nessa época surgiam bandas nacionais como Legião Urbana, Titãs, Barão Vermelho e, no cenário pop internacional, Michael Jackson lançava o álbum Thriller e Madonna aparecia pro mundo com seu 1º single Everybody

Eu adorava música som sobre som, e o tio Jorge era quem nos apresentava as músicas antigas "chonadas". 

MUNDO

O ditador da vez era o Figueiredo e na Argentina teve a Guerra das Malvinas. 

O Sílvio Santos lambia cada presidente de plantão. Nunca me esqueci daquelas chamadas do canal dele "A semana do presidente". Que merda, isso! Tive que crescer vendo essa dobradinha entre os endinheirados que exploravam a gente e os fdp das casernas militares.

O ditador de plantão da Argentina, Galtiere, para lançar uma cortina de fumaça sobre a grave crise econômica, social e política que predominava no país após anos de desgoverno militar, inventou de invadir as Ilhas Malvinas para unificar o povo argentino, já que o tema era de grande apelo popular e patriótico.

O resultado foi trágico. Centenas de jovens argentinos faleceram numa guerra de poucos dias em uma luta desproporcional de um exército armado e preparado contra um exército sem armamento e condições adequadas.

Mesmo sendo criança, me lembro das notícias na televisão sobre a Guerra das Malvinas. Lógico que só adulto fui entender melhor o quanto a junta militar foi fdp e responsável pela morte de jovens argentinos. 

A sacanagem dos ditadores ao menos serviu para pôr fim à ditadura e para a volta da democracia pouco tempo depois.

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Enfim, essa foi mais uma reflexão em período natalino.

William Mendes


Post Scriptum: o texto anterior desta série pode ser lido aqui.


segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (23) - A Flauta-Vértebra, Maiakóvski


Estou preso ao papel com o prego das palavras
(texto do desenho).


A FLAUTA-VÉRTEBRA - MAIAKÓVSKI


Prólogo 


A todas vocês, 

que eu amei e que eu amo,

ícones guardados num coração-caverna,

como quem num banquete ergue a taça e celebra,

repleto de versos levanto meu crânio.


Penso, mais de uma vez:

seria melhor talvez

pôr-me o ponto final de um balaço.

Em todo caso

eu

hoje vou dar meu concerto de adeus.


Memória!

Convoca aos salões do cérebro

um renque inumerável de amadas.

Verte o riso de pupila em pupila,

veste a noite de núpcias passadas.

De corpo a corpo verte a alegria.

Esta noite ficará na História. 

Hoje executarei meus versos

na flauta de minhas próprias vértebras. 


(A ilustração é de Maiakóvski para o poema)

Tradução: Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman

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COMENTÁRIO:

Sigo aberto à poética de Maiakóvski. No entanto, a poética do revolucionário poeta russo segue hermética pra mim.

Já li 2/3 dos poemas selecionados por Boris Schnaiderman e pelos irmãos Campos para esta bela edição que tenho da Perspectiva. 

Conheço hoje um pouco mais que ontem sobre Maiakóvski. Isso é bom. Estou com mais de meio século de existência e sigo aprendendo. 

Sigamos lendo poesias e aprendendo novas culturas. 

William Mendes 


Bibliografia:

MAIAKÓVSKI, Vladimir. Poemas. Tradução: Boris Schnaiderman, Haroldo de Campos, Augusto de Campos. Ed. especial rev. e ampl. - São Paulo: Perspectiva, 2017.


domingo, 22 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (22) - Mais vale um provérbio na mão..., Marili Santos




MAIS VALE UM PROVÉRBIO NA MÃO...

                       (Para Mário Prata)


Já que estamos aqui

pro que der e vier,

com uma imensa batata quente nas mãos

e já sabemos, que isso

tudo é para inglês ver...

Que tal então matar

a cobra e mostrar o pau?

Parar de meter os pés pelas mãos

e tirar o cavalinho da chuva, porque

para nossa vida

melhorar, é preciso

ver uma luz no fim do túnel,

entender que um dia é da caça

e outro do caçador, e mais...

Saber que é preciso

abafar a banca e

afogar o ganso!


Fonte: valsaliteraria.blogspot.com

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COMENTÁRIO:

A professora, poeta, cronista e contista Marili Santos é autora do blog Valsa Literária. Estou lendo sua obra como gosto de fazer com autores e autoras de literatura e poesia, conhecendo sua produção de forma cronológica.

Suas publicações no blog começaram no ano de 2011. É uma produção cultural respeitável, são centenas de textos.

Até o momento, li algumas dezenas de textos variados: poemas, crônicas, frases etc; estou terminando a leitura de um conto publicado em capítulos.

O poema com os provérbios é muito criativo. Gostei!

Seguimos lendo poesia neste mês de dezembro.

William Mendes

sábado, 21 de dezembro de 2024

Diário e reflexões



Reminiscências (1) 

1. Olhando papéis velhos, li uma matéria sobre um encontro de associados da Cassi e Previ, organizado pela Afabb-SP, em 27 de novembro de 2017, em parceria com outras entidades representativas, ocorrido em Ribeirão Preto (SP), no qual fiz grande esforço para participar porque a empresa aérea havia cancelado o voo. Dei um jeito e fui. O público me aguardou. Fiz esse trabalho de base por 4 anos, pouco dormi, e era acusado pelos adversários políticos de não trabalhar. Foi um reconhecimento que registrei no meu blog à época (ler aqui), os associados me aguardaram duas horas. Nosso mandado foi muito fiel aos princípios éticos que aprendemos durante nossa vida de sindicalista da CUT. 

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2. Em outro momento, a nossa Afabb-SP, gentilmente, abriu espaço em sua revista, edição 154 de maio/junho de 2018, para fazermos uma avaliação do período no qual estivemos à frente da Diretoria de Saúde da Cassi. Os avanços políticos e técnicos na gestão do modelo de saúde foram reconhecidos por boa parte das dezenas de entidades representativas e dos associados da autogestão. Fomos reconhecidos até por instituições relevantes como ANS e OPAS. No entanto, a questão econômico-financeira - o déficit - ocupou o foco das atenções à época. Pautou as eleições, inclusive. Fizemos o que foi possível ser feito na área da saúde, mesmo sem recursos adequados. 

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3. Estava olhando o conteúdo de uma grossa apostila de estudos para concursos públicos, mais ou menos do ano 1999/2000, e fiquei impressionado comigo mesmo. Eu estudei aquilo tudo e não foi à toa que tive capacidade técnica de enfrentar os grandes debates que enfrentei como gestor da Cassi entre 2014/2018 e os patrões banqueiros por mais de uma década. Acumulei grande conhecimento que me foi útil como dirigente da classe trabalhadora. Direito tributário, constitucional, comercial, auditoria, contabilidade, economia, SFN etc. Quando enfrentei o lawfare que inventaram para me impedir de defender os direitos dos associados da Cassi ao final do mandato (cartinha anônima) peitei até o canalha da auditoria que agiu de má-fé e fora das normas para participar do conluio armado contra mim. Enfim, estudei muito nesta vida... conhecimento sempre tem sua valia. (post scriptum: doei a apostila)

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Sempre que olho para trás, sinto que contribuí para as grandes questões da classe trabalhadora.

Foi a coisa certa a ser feita.

William Mendes

21/12/24

Leitura de poesia (21) - Vida, Mario Quintana



VIDA - MARIO QUINTANA


Não sei 

o que querem de mim essas árvores

essas velhas esquinas

para ficarem tão minhas só de as olhar um momento. 


Ah! se exigirem documentos aí do Outro lado,

extintas as outras memórias,

só poderei mostrar-lhes as folhas soltas de um álbum de imagens:

aqui uma pedra lisa, ali um cavalo parado

ou

uma

nuvem perdida,

perdida...


Meu Deus, que modo estranho de contar uma vida!


Do livro Esconderijos do tempo.

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COMENTÁRIO:

Enquanto tomava meu café da manhã, uma rosquinha deliciosa feita por minha mãe, lia poemas de Mario Quintana. O tema: a vida.

O Eu-lírico me fez pensar nas folhas das árvores do Parque Continental, que me conhecem. Me fez pensar nas minhas velhas esquinas... são 25 anos virando nelas.

Eu que nunca fui uma pessoa dos prazeres da alimentação, por medo de ter uma doença qualquer no trato digestivo, me peguei apreciando o instante único do sabor de mastigar e engolir alguma coisa. 

Nem sabia mais o quanto era formidável comer o arroz com feijão e milho e ovo de minha mãe. 

Comer por 5 dias aquela comidinha saborosa da minha mãe foi VIDA. 

William Mendes 


Bibliografia:

QUINTANA, Mario. Esconderijos do tempo [recurso eletrônico]. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013.


sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Livro: O Covil dos Inocentes, Henry Bugalho



Refeição Cultural 

Sexta-feira, 20 de dezembro de 2024.


Henry Bugalho é bom romancista. Quando li Margot Adormecida vi que o escritor tem talento (comentário aqui). 

Meses depois da primeira leitura de obra dele, li A Impureza da Minha Mão Esquerda, um livro de contos excelentes. Cada estória melhor que a outra (comentário aqui). 

Agora li O Covil dos Inocentes, romance baseado nas investigações do detetive Vico, personagem de Bugalho que compõe um conjunto de contos após o romance principal. 

Henry Bugalho usa linguagem prosaica e coloquial em suas narrativas. Os enredos têm boas amarrações. Seus textos são de leitura fluida e fácil.

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SUMÁRIO DO LIVRO

O Covil dos Inocentes 

Pós-escrito a "O Covil dos Inocentes"

ALGUNS OUTROS CONTOS DO DETETIVE VICO

- O Amante 

- A Enfermeira e o Sargento

- Amor Fraternal

- Roleta-Russa

- Obra do Diabo

- O Inventariante

- O Diário Vermelho 

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Ainda tenho alguns livros de Henry Bugalho para ler em meu Kindle: 

- Porteiros do Fascismo

- Rei dos Judeus

- O Personagem e outras Fábulas Filosóficas 

- Fantasmas, Vampiros, Demônios e Histórias de outros Monstros 


É isso! Sigamos nas leituras. 

William Mendes 


Leitura de poesia (20) - Soneto 26 Lírico, Glauco Mattoso



SONETO 26 LÍRICO - GLAUCO MATTOSO


Dizem que o amor é cego e a carne é fraca,

mas só amei alguém quando enxergava.

Hoje a cegueira queima como lava

e o coração resiste a qualquer faca.


Ontem tesão, agora só ressaca.

Foi-se a paixão que fez minh'alma escrava.

Se inda me queixo dessa zica brava,

sou caçoado e passo por babaca.


Nem tudo está perdido: resta o cheiro

que invade-me as narinas quando passo

na porta do vizinho sapateiro.


Vá lá: o papel que faço é de palhaço.

O olfato é meu recurso derradeiro

e o cheiro do fetiche o único laço.


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COMENTÁRIO:

A escolha do autor de hoje foi aleatória. A do poema foi difícil, fiquei entre quatro sonetos que gostei e um poema do personagem Pedro o podre. 

Glauco Mattoso veio até mim da mesma forma que os poemas pousam no livro de poesia como pássaros, imagem inesquecível que conheci dias atrás com Mario Quintana ("O poema").

Olhei na estante de casa e vi aquele livro exótico, uma capa pintada à mão pelos integrantes do coletivo Dulcinéia Catadora, capa feita com papelão comprado de cooperativas de materiais recicláveis. 

Li alguns poemas de Mattoso e gostei muito. 

Aí fui ler a respeito dele. 

O poeta é paulistano, tem 73 anos, ficou totalmente cego desde 1995, em decorrência de uma doença nos olhos - o glaucoma -, daí o nome "Glauco", e o nome "Mattoso", completando seu nome artístico, é em referência a Gregório de Matos (1636/1696), o poeta barroco conhecido por "Boca do Inferno", de quem Mattoso se considera herdeiro na sátira política e na crítica de costumes.

Pesquisei sobre o próprio poeta, sobre Gregório de Matos e sobre a doença que o cegou.

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OS PÉS

O poeta passou a ter um foco temático nos pés após a perda da visão, é um pouco do que pude apurar com as informações sobre Glauco Mattoso. Os sonetos que gostei no pequeno livro artístico que tenho em casa abordam essa temática.

O poema "Soneto 73 Obsessivo", também tem os pés como tema.

-

"O gosto pelo pé ficou mais forte

depois que as trevas foram preenchendo

o fundo do meu olho, neste horrendo

martírio, mais agônico que a morte."

-

O poeta também ressalta o olfato, mais aguçado e fundamental para as pessoas que não têm o sentido da visão.

Mattoso tem poemas bem sarcásticos, que tiram sarro de tudo. 

Gostei da poética de Glauco Mattoso.


William Mendes


MATTOSO, Glauco. Delírios líricos. Capa pintada à mão pelos integrantes do coletivo Dulcinéia Catadora, capa feita com papelão comprado de cooperativas de materiais recicláveis. Dulcinéia Catadora, 2007.


quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (19) - Histeria, T. S. Eliot



HISTERIA - T. S. ELIOT


Enquanto ela ria eu me vi sendo envolvido por seu riso e me tornando parte dele, até que seus dentes fossem apenas estrelas fortuitas com talento para ordem-unida. Fui tragado por alentos curtos, inalado a cada momentânea recuperação, fiquei por fim perdido nas cavernas negras de sua garganta, machucado pelo ondular de músculos invisíveis. Um garçom idoso de mãos trêmulas estendia apressado um tecido xadrez branco e rosa sobre a mesa de ferro verde oxidado, dizendo: "Se a senhora e o cavalheiro preferem tomar seu chá no jardim, se a senhora e o cavalheiro preferem tomar seu chá no jardim...". Decidi que se fosse possível deter o balanço de seus seios alguns cacos da tarde poderiam ser recolhidos, e concentrei minha atenção com cuidadosa sutileza para tal fim.


Poema de 1917

Tradução: Caetano W. Galindo 

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COMENTÁRIO:

O poeta está no início do século passado, e seus poemas trazem temas sexuais ou erotizados que podem desconcertar as elites locais. 

Na obra Prufrock e outras observações (1917), no poema "Tia Helen", vemos os prazeres da carne sendo explicitados por Eliot.

"E o lacaio sentou sobre a mesa da sala/Tendo a segunda criada no colo -/Ela, tão ciosa quando em vida da patroa."


Em "Histeria" temos a cena de uma mulher com uma boca tão sensual que o Eu-lírico fica alucinado por ela.

E para ampliar a imagem da sensualidade no poema, tem ainda o balanço dos seios...

Em ambos, performam personagens da classe trabalhadora: empregados em residências e garçons nos pequenos restaurantes. 

É a vida cotidiana se desenvolvendo na sociedade, sob o olhar atento do poeta, que denuncia as hipocrisias e recalques daquela gente que se faz de "chique" ou "de família" e farsas do tipo.

Sigamos lendo poesia neste mês. 

William Mendes 


Bibliografia:

ELIOT, T. S. Poemas. Org. tradução e posfácio Caetano W. Galindo. - 1a ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2018.


Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 19 de dezembro de 2024. Quinta-feira.


"Ego


Não hesito,

Se existo,

Insisto,

Resisto,

Persisto

e não desisto."


Genésio dos Santos (1978)



Melancolia. Não estou no clima para confraternizar com nadie. Sentir tristeza é uma coisa natural do ser pensante. Sou pensador. Vejo as coisas ao meu redor. São tristes demais! Como não consigo mais sentir raiva e ódio (me libertei desse cativeiro) sinto pena, fico com dó, e fico puto com as merdas inacreditáveis feitas pelas pessoas ao nosso redor. Raiva não.

Naturalmente estou nos dias de fazer algum tipo de balanço do ano que se encerra, a minha passagem pela existência neste ano civil. Refletir sobre as coisas da vida humana no meu canto do mundo e no mundo todo. Tenho consciência que contribuí para o mundo onde vivo ao tentar melhorar a vida das pessoas, pois participei ativamente das campanhas políticas neste ano. Fiz minha parte de jogar água no incêndio da floresta com meu bico de beija-flor. (mas o incêndio está destruindo tudo)

Sei e entendo que não tenho o que fazer no que diz respeito às relações humanas com os animais humanos do tempo atual. Relações utilitaristas, relações fluidas, de interesses. Pouca coisa sobra para amor e amizade. Uma das coisas que mais azedam o meu viver, o viver de muita gente, é a falta de consideração para com a gente. No meu mundo a consideração está desaparecendo. Não sei dos outros mundos, pois não sei nada de outros povos, outras culturas, outras gentes. Sei algo do mundo ao meu redor. Consideração próxima do zero. Triste isso. Mas as coisas são como são.

Época de balanços e planejamentos para possíveis amanhãs é época de ver coisas empilhadas, de ver o quanto nos afogamos em inutilidades, e o quanto desperdiçamos tempo com algo inútil ao invés de algo que valeria a pena enquanto existimos. Se eu não li uma centena de obras clássicas que gostaria de ter lido, para que guardar dezenas de obras que de verdade não acrescentariam nada ou quase nada em sua vida única e fugaz que pode acabar amanhã ou no instante seguinte? 

Eu sequer li "O nome da rosa" e fico enchendo espaço em casa com uma bosta de livro sobre um czar fdp. E meus livros de educação física? Não pude me formar à época por falta de dinheiro para pagar a mensalidade, frustração inesquecível, e deixo aqueles livros ocupando espaço que não tenho? É tanta coisa...

(Post Scriptum: voltei da rua. Disponibilizei alguns dos livros que tinha numa banca de livros gratuitos aqui no bairro. Que sejam úteis para alguém)

Reafirmo que os seres humanos são seres extraordinários. Seres com potenciais e capacidades incomparáveis a qualquer outra espécie da natureza. Não precisaríamos estar num mundo feio, miserável, dominado pela maldade e por uma pequena parcela de fdp causando a destruição de um mundo inteiro que não é deles, desses fdp da parcela ínfima da população. 

Mas não está fácil achar soluções para melhorar as pessoas e a sociedade humana. Está faltando criatividade a mim e a vocês que desejaríamos mudar a situação atual para algo melhor coletivamente. Coloquemos a cabeça para pensar...

Sigamos com as atitudes revolucionárias citadas no poema de meu amigo Genésio dos Santos, que abre este instante filosófico.

William Mendes


quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (18) - Orfandade, Adélia Prado



ORFANDADE - ADÉLIA PRADO 


Meu Deus,

me dá cinco anos. 

Me dá um pé de fedegoso com formiga preta,

me dá um Natal e sua véspera, 

o ressonar das pessoas no quartinho.

Me dá a negrinha Fia pra eu brincar,

me dá uma noite pra eu dormir com minha mãe. 

Me dá minha mãe, alegria sã e medo remediável,

me dá a mão, me cura de ser grande,

ó meu Deus, meu pai,

meu pai.


Vocabulário:

Fedegoso: um tipo de plantinha comum e florida.

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COMENTÁRIO:

Escolhi conhecer hoje a poesia de Adélia Prado. Ela é uma de nossas maiores poetas brasileiras e está com 89 anos.

Ao pesquisar um pouco sobre Adélia Prado, optei por ler seu primeiro livro de poesia, Bagagem, lançado em 1976.

Li os primeiros 15 poemas do livro e gostei muito da poética dela.

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"Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina." (Com licença poética)


Os poemas de Adélia são bem prosaicos, e por isso são poemas para todos nós. 

Sorte nossa termos ela para escrever os sentimentos que sentimos.

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"Procuro sol, porque sou bicho de corpo./Sombra terei depois, a mais fria." (Sensorial)


Adélia poetiza a vida, que é breve e boa, e vale ser vivida. Depois, talvez, só a sombra mais fria.

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"Que noite tão clara e quente, 

ó vida tão breve e boa!

A cigarra atrela as patas

é no meu coração. 

O que ela fica gritando eu não entendo, 

sei que é pura esperança." (Módulo de verão)


Com os sentimentos poetizados por Adélia Prado, me lembrei de novo das palavras de Fernanda Montenegro, sobre a vida ser boa, nos dando pena de morrer. 

A vida em si é esperança, pois é oportunidade a cada amanhecer.

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"Ara! que eu não nasci pra permanência desta duvidação,

mas só para o ser eu mesmo, o de todo mundo desigual, 

afirmador e consequente, Riobaldo, o Tatarana.

Ixi!" (Poema com absorvências no totalmente perplexas de Guimarães Rosa)


Cada um é cada um e isso é uma riqueza tamanha, que ninguém seja igual. 

Adélia Prado, adorei te conhecer!

Sigamos na leitura de poesias.

William Mendes 


Bibliografia:

PRADO, Adélia. Bagagem [recurso eletrônico]. 1. ed. - Rio de Janeiro: Record, 2021.

 

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (17) - O silêncio, Mario Quintana



O SILÊNCIO - MARIO QUINTANA


Há um grande silêncio que está sempre à escuta...


E a gente se põe a dizer inquietamente qualquer coisa,

qualquer coisa, seja o que for,

desde a corriqueira dúvida sobre se chove ou não chove hoje 

até a tua dúvida metafísica, Hamleto!


E, por todo o sempre, enquanto a gente fala, fala, fala

o silêncio escuta...

e cala.

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COMENTÁRIO:

Me dispus a ler poesia durante o mês de dezembro, de preferência poetas e obras que ainda não conheço, ou seja, quase tudo, porque não sou um conhecedor de poesia, só comecei a ler poesia depois dos trinta anos de idade. 

De verdade, conheço um pouco de Drummond, minha cachaça. 

Já li Brecht, Leminski, alguns livros de Cecília Meireles, Manuel Bandeira, João Cabral, Mário de Andrade, Oswald de Andrade. Os que cito, já li um ou vários livros.

Comecei dezembro pegando alguns livros que tenho em casa e agora estou escolhendo aleatoriamente a cada dia um(a) poeta e lendo alguns poemas até me identificar mais com um deles.

Hoje pensei em Mario Quintana, que não conheço. Comecei tentando acessar seus poemas, pois não tenho livro algum dele. 

(Um tempo depois) Ufa! Só para conseguir escolher um livro e adquiri-lo na forma digital foi um tempão! 

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Catarse!

Pego o livro Esconderijos do tempo (1980) e começo a leitura...

O primeiro poema "Os poemas" é uma catarse! O segundo poema "O silêncio", me deixa pensativo. O terceiro poema "A canção do mar", o mesmo espanto com a genialidade e a simplicidade do poeta.

Amig@s, eu nunca tinha lido poemas de Mario Quintana e ele tem tudo para virar outra cachaça na vida deste leitor cheio de lacunas culturais.

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Os poemas de Quintana me deixaram impressionado neste começo de contato.

Linguagem simples, mas cheia de conceitos profundos. Impossível ler e não ficar pensando a respeito. 


Vejam esta citação na abertura do livro:

"Um velho relógio de parede 

numa fotografia

- está parado?

(Caderno H)"


Não é de nos deixar pensativos?

Aí vamos para a primeira imagem poética: os poemas como pássaros que pousam no livro... difícil tirar essa imagem da cabeça!

Em seguida, Quintana põe o dedo na antiquíssima questão do silêncio constrangedor, ou que incomoda qualquer pessoa em seu cotidiano. 

O poema é maravilhoso!

Enfim, agora tenho o livro de Quintana. É seguir lendo. 

William Mendes 


Bibliografia:

QUINTANA, Mario. Esconderijos do tempo [recurso eletrônico]. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (16) - Os dois horizontes, Machado de Assis



OS DOIS HORIZONTES - MACHADO DE ASSIS

                          1863 

                          A M. Ferreira Guimarães 


Dois horizontes fecham nossa vida: 


Um horizonte, — a saudade 

Do que não há de voltar; 

Outro horizonte, — a esperança 

Dos tempos que hão de chegar; 

No presente, — sempre escuro, — 

Vive a alma ambiciosa 

Na ilusão voluptuosa 

Do passado e do futuro. 


Os doces brincos da infância 

Sob as asas maternais, 

O voo das andorinhas, 

A onda viva e os rosais; 

O gozo do amor, sonhado 

Num olhar profundo e ardente, 

Tal é na hora presente 

O horizonte do passado. 


Ou ambição de grandeza 

Que no espírito calou, 

Desejo de amor sincero 

Que o coração não gozou; 

Ou um viver calmo e puro 

À alma convalescente, 

Tal é na hora presente 

O horizonte do futuro. 


No breve correr dos dias 

Sob o azul do céu, — tais são 

Limites no mar da vida: 

Saudade ou aspiração; 

Ao nosso espírito ardente, 

Na avidez do bem sonhado, 

Nunca o presente é passado, 

Nunca o futuro é presente. 


Que cismas, homem? — Perdido 

No mar das recordações, 

Escuto um eco sentido 

Das passadas ilusões. 

Que buscas, homem? — Procuro, 

Através da imensidade, 

Ler a doce realidade 

Das ilusões do futuro. 


Dois horizontes fecham nossa vida.


Crisálidas (1864)

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COMENTÁRIO:

Essa experiência de buscar o novo na leitura de poesia tem sido interessante. 

Para escolher uma poesia com a qual eu me identifique ou goste do objeto ou tema tratado pelo poeta, leio uma certa quantidade de poemas e quando algum deles me chama a atenção, leio mais algumas vezes e começo uma análise simplória do poema, uma fração do que aprendemos na faculdade, lógico. Vejo o significado das palavras, algo sobre o autor, a época da enunciação etc.

Machado de Assis publicou quatro livros de poesia e ficou mundialmente conhecido por seus romances, contos, crônicas e outras produções literárias. Entretanto, muito pouco se fala do poeta Machado.

Crisálidas é o primeiro livro de poesia do Bruxo do Cosme Velho. É dele o poema que me tocou no dia de hoje.

Estou numa fase da existência na qual poderia dizer que o autor fez este poema para uma pessoa como eu, passando por momentos de reflexões e análises da vida após cinco décadas de vivência, unindo uma ponta à outra, como o próprio Machado chegou a fazer com personagens ligando as pontas da vida: Bentinho, Conselheiro Aires etc.

No horizonte da saudade, penso até nos pertencimentos que já tive, amor e respeito de familiares e amigos. No horizonte da esperança, não ser determinista e acreditar na mudança através de nossas ações.

Não nego que tenho estado muitas vezes mergulhado "Perdido/No mar das recordações,".

E a dificuldade de achar respostas ainda é uma realidade. "Que buscas, homem?"

Talvez minha resposta seja mais ou menos a do Eu-lírico.

"- Procuro,/Através da imensidade,/Ler a doce realidade/Das ilusões do futuro."

Amig@s, vale a pena conhecer esse lado poético de nosso mestre Machado.

Sigamos descobrindo poesias em dezembro.

William Mendes


Bibliografia:

ASSIS, Machado de. Crisálidas. Texto-fonte: Obra Completa, Machado de Assis, vol. II, Nova Aguiar, Rio de Janeiro, 1994.