segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Leitura: O que é o contemporâneo? - Giorgio Agamben




Refeição Cultural

Leitura do texto para a disciplina de Vanguardias y Contemporaneidad, matéria ministrada pela Profa. Dra. Idalia Arnaiz. Ao ler o texto, anoto pequenos excertos que achei interessantes.

Apresentação do livro

Na apresentação do livro, feita por Susana Scramim e Vinícius Nicastro Honesko (o tradutor), nos é informado sobre o que será abordado pelo autor nos três ensaios presentes na obra. 

Em relação ao texto sobre o contemporâneo, há uma explicação interessante sobre o conceito que Agamben vai desenvolver no ensaio.

"Para o filósofo italiano, o contemporâneo que se pode entrever na temporalidade do presente é sempre retorno que não cessa de se repetir, portanto, nunca funda uma origem e, com isso, se aproxima da noção de poesia. Por isso, Agamben, em O que é o contemporâneo?, recorre ao poema, de 1923, intitulado O século, do poeta russo Osip Mandel'stam, para novamente enunciar sua tese de que a poesia define-se por ser retorno..." (p. 19)

E apresentam mais adiante uma citação do próprio Agamben: "(...) a poesia, portanto, é sempre retorno, mas um retorno que é adiantamento, retenção e não nostalgia ou busca por uma origem; é um caminhar, mas não é um simples marchar para a frente, é um passo suspenso..."

e ainda:

"(...) o poema se define no seu fim. Para Agamben a poesia é esse movimento do olhar para trás operado no poema e, portanto, um olhar para o não-vivido no que é vivido, tal como a vida do contemporâneo. O voltar-se para trás, suspender o passo, ver o escuro na luz, entrever um limiar inapreensível entre um ainda não e um não mais e compreender a modernidade como imemorial e pré-histórica são algumas das fraturas, das cisões no tempo com as quais o sujeito, o poeta, tem que lidar." (p. 19/20)

(leitura continua depois...)

Teoria Literária II - Leitura Analítica, Leitura da Lírica (I)



Uma das entradas de nossa Faculdade de Letras, na USP.

(Atualização do texto em 14/10/19)

Refeição Cultural

Esta postagem se refere a anotações feitas por mim em sala de aula, aulas com o Professor Ariovaldo Vital, da disciplina de "Teoria Literária II", matéria na qual estudaremos a leitura de poesias ao longo do semestre.

As anotações são de minha inteira responsabilidade. Qualquer equívoco conceitual pode ser corrigido pelo(a) leitor(a) buscando outras fontes sobre o tema conflitante. Aqui é um espaço de compartilhamento gratuito de informações e conhecimento, dentro do conceito Wiki: What I Know Is.

--------------------

Aula de 06/08/19

A leitura de um poema é sempre um desafio ao leitor. Leitura crítica, é claro!

Ler não é o mesmo que analisar de forma crítica. A leitura crítica requer um exercício constante de leitura de poemas.

O professor brincou conosco dizendo que o poema não se entrega aos leitores de forma automática. O poema pergunta ao leitor: você trouxe a chave?

A pergunta sobre a chave é uma referência ao poema de Drummond, "A Procura da Poesia", 2º poema do livro de 1945, A Rosa do Povo.

Cada poema exige uma chave diferente. Cada poema novo é uma nova aventura. O poema nunca está sob controle.

O curso versará sobre leitura analítica de poemas. A proposta do curso é o exercício da análise e da interpretação de poemas.

O exercício de leitura de poemas nos dá experiência e melhora a nossa capacidade de compreender os poemas lidos. A metodologia do curso será ler poemas em sala de aula.

O mestre Antonio Candido nos ensinou que professor tem que analisar textos em sala de aula. Candido desenvolveu métodos de leituras de obras literárias. Método é experiência e ler com a experiência dos críticos é o desejável.

O professor Ariovaldo nos disse que os mestres Antonio Candido e Davi Arrigucci Jr. são inspirações para o curso que estamos fazendo.

Vamos ler poesia moderna no curso. Manuel Bandeira, que fez parte do assim chamado 1º modernismo. Carlos Drummond de Andrade, que foi uma espécie de "discípulo" de Bandeira. Até fez para ele um poema homenagem "O chamado".

O professor nos disse que quando João Cabral leu o poema "Não Sei Dançar" de Bandeira, ficou impressionadíssimo. 

Vamos ler também Cecília Meireles, que cronologicamente viria depois de Drummond. A poetisa seria considerada por alguns críticos "delicada", mas rigorosa no verso.

Por fim, vamos ler João Cabral de Melo Neto, o poeta engenheiro, poeta arquiteto, que fez a poesia como profissão de fé, de forma consciente.

Poemas que serão lidos em sala de aula:

- "Encomenda", de Cecília Meireles (1942) - este será o poema das primeiras aulas.

- "Epitáfio da navegadora", de Cecília Meireles (1942)
- "Não sei dançar", de Manuel Bandeira (1926)
- "Pregão turístico do Recife", de João Cabral de Melo Neto (1955)
- "Desfile", de Carlos Drummond de Andrade (1945)

O professor nos diz que não vamos nos debruçar no curso sobre o "ato de criação" dos poemas, que pode ser intuição, sentimento etc. Vamos tratar do poema concreto, no papel, feito.

A título de curiosidade nos foi dito que o poema de Bandeira - "Oração no Saco de Mangaratiba", do livro Libertinagem de 1930, foi feito após um susto que o poeta passou; ele teve medo de morrer afogado atravessando de balsa uma certa região no Rio de Janeiro, com ventos fortes. Foi dormir, sonhou com o ocorrido, acordou e pôs o poema no papel.

Toda leitura crítica de um poema vem acompanhada de uma leitura do todo. Um poema pertence a uma obra e ele dialoga com os outros poemas da obra.

Comentário do blog: isso ficou claro para mim ao ler o primeiro e o segundo livro de Cecília Meireles, Espectro (1919) e Nunca mais... e Poema dos poemas (1923).

O mesmo se dá dentro do poema, cada verso dialoga com o outro e com as estrofes se dá o mesmo. 

O diálogo pode se dar por contraste ou por semelhança.

Antonio Candido

Os diferentes passos da leitura de poesia.

- O comentário
- A análise
- A interpretação

O comentário é um esclarecimento. Comentar é uma atividade prévia à análise e à interpretação. 

Em linhas gerais, o comentário é mais necessário à medida que a obra se afasta do contexto do leitor, são notas que esclarecem o sentido da palavra na época, às vezes uma referência localizada de forma geográfica ou espacial etc.

Nos poemas que veremos em classe seria, por exemplo, como esclarecer o que é "Epitáfio" em "Epitáfio da navegadora" de Meireles, "Pregão" em "Pregão turístico do Recife" de João Cabral etc.

Ir ao léxico, a receita é: nunca deixe de ir ao dicionário para ler um poema.

Objetivo x Subjetivo = o comentário deve ser o que há de mais objetivo possível na significação das palavras.

Outros tipos de comentários: além dos esclarecimentos sobre o léxico, também são necessários esclarecimentos como referências relativas a acontecimentos de época, fatos históricos, história e biografia do autor ou do personagem, dentre outros esclarecimentos que se façam necessários.

Comentário é 100% objetivo? Não. O filtro é do leitor crítico que está lendo o poema. As escolhas na acepção da palavra, a ligação com eventual fato histórico e outras questões que julgar relevantes são filtros do leitor crítico.

Por fim, tudo que entrar no comentário do poema deve ser importante e decisivo para a leitura, análise e interpretação do poema em questão.

É isso para o momento.

William

Post Scriptum: ir para a próxima postagem aqui.

domingo, 22 de setembro de 2019

220919 - Diário e reflexões


A sombra da resiliência.

Post Scriptum, a título de epigrama 
(em 23/9/19, às 12h47)

"Passagem da noite

(...)
Mas salve, olhar de alegria!
E salve, dia que surge!
Os corpos saltam do sono,
o mundo se recompõe.
Que gozo na bicicleta!
Existir: seja como for.
A fraterna entrega do pão.
Amar: mesmo nas canções.
De novo andar: as distâncias,
as cores, posse das ruas.
Tudo que à noite perdemos
se nos confia outra vez.
Obrigado, coisas fiéis!
Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos.
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!"

(A rosa do povo, 1945, Carlos Drummond de Andrade)


Preciso mudar alguma coisa na minha vida. Hoje. Amanhã. Depois de amanhã. Vejo as pessoas queridas com grandes sofrimentos. Tenho que estar pronto para suportar todas as tristezas do mundo. Depressões diversas tomam conta da psique das pessoas que estimo e que me dão sentido para viver. Eu próprio convivi com os altos e baixos de algum tipo de depressão ao longo de décadas. Não penso mais em suicídio há muito tempo, desde que me engajei em projetos pessoais e coletivos de existência. Sobrevivi. Mesmo a tristeza nunca tendo me abandonado, segui realizando coisas. Acredito que valeu a pena ter sobrevivido até aqui porque não fiz mal intencional a ninguém. Quando magoei pessoas foi em meus momentos de fúria. E vivo, participei de ações coletivas que contribuíram para a vida de várias gentes, ainda que isso não seja sequer percebido pelas pessoas da classe trabalhadora onde atuei. E vivo, busquei resgatar de alguma forma os danos e mágoas que causei a pessoas em momentos de fúria. Tudo muda o tempo todo. Mudança é o instante que estamos, é o instante que vem. Se não participei do exame de faixa hoje é porque uma lesão mudou a minha agenda para o domingo que termina. Se não corro há vários dias é porque faço outro esporte que me lesionou o pé e me impediu de seguir correndo diariamente para baixar a pressão arterial que mudou por causa de vários fatores nos últimos tempos, incluindo desleixo alimentar, mudanças no corpo que envelhece e caminha para o seu fim em alguns dias, meses, anos, dezenas de anos. Tudo muda a todo instante. Se estou lendo diversos textos obrigatórios de graduação em Letras é porque a Universidade me aceitou de volta. Se não estou lendo os clássicos que gostaria é porque os textos obrigatórios dominam o meu tempo de leitura. Fazer o que? Tudo é mudança na vida, até daquilo que planejamos. Num dia você acorda e vai até a Universidade e faz um pedido e é aceito e tudo muda. Ontem, o Brasil era soberano, pesquisas apontavam o povo feliz, os governantes pensavam e reverberavam agendas de paz, de amor, de solidariedade. Distribuía-se renda. Mudou. Mudou-se tudo por golpe, envenenaram o povo com mentiras, com peçonha, com manipulação. Hoje, a agenda é ódio, é arma bala assassinato. Educação e ciência são inimigas dos homens do ódio no poder. Ironia do destino: tudo em nome de Deus: mata-se índio, criança, florestas, negros, gays, pobres; pessoas que defendem partilhar riquezas e direitos são inimigas a serem caçadas por seguidores de Deus. Amém? Amém o caralho! É preciso derrubar do poder esses fascistas desgraçados que roubaram a alegria, a esperança e o futuro dos brasileiros. Tenho que mudar algo hoje. Amanhã. Depois de amanhã. Não posso cair. Tenho que respirar, comer, acordar e deitar. Não sei como ajudar os meus entes queridos que estão sofrendo do coração, da psique, da alma. As pessoas sensíveis ao caos estão sofrendo, desiludidas com o amanhã que lhes foi roubado. Se pudesse, daria esperança a elas. Mas isso é experiência muito pessoal. Tenho que mudar. Alguma coisa é preciso mudar para seguir. Sobreviver é preciso porque amamos pessoas. Não sei, mas algo precisa mudar. Eu desejo que cada pessoa que sofre neste momento com toda a maldade e destruição que lhe tenham nublado o presente e o futuro, que resista, que respire, coma, acorde e deite. O amanhã é sempre um começar e o fim do dia pode trazer algo de mudança. Eu vi isso acontecer por décadas, vi porque sobrevivi ao tempo de cinquenta anos nesse mundo perigoso de se viver. Filho, eu te amo! Desejo a você amanhãs de alegrias, amanhãs de descobertas, dias de resistência, como seus personagens favoritos dizem. Mãezinha, siga resistente, siga agarrada à vida. Pai, resista a essas dores que lhe abatem a paciência e a tolerância. Encontre a cordialidade em meio a essas dores, mesmo sendo tão difícil. Todos estamos com muita raiva do mundo, de tudo. Resistamos todos em meio a tanta tristeza, em meio a tanta mudança em tão pouco tempo. Eu vou mudar algo. Mas não vou perder minha essência que evoluiu com a experiência da vivência. Temos que ser bons e viver para o bem. 

Leitura: Nunca mais... e Poema dos poemas (1923) - Cecília Meireles




Refeição Cultural

Em tempos tão sombrios, nada como ler poesia para nos lembrarmos que somos humanos, e que os humanos devem ser algo mais que animais mamíferos, dóceis ou feras, bestas-feras como querem nos fazer os fascistas de nossa época. Não, não podemos ser apenas as bestas, as bestas-feras!

Estou como quase todos os animais humanos, no limiar de desistir de minha humanidade, mas tenho que perseverar e não só em bestialidades pensar. Entre assassinatos de crianças a mando de governantes, assassinatos de florestas a mando de dementes no poder, busco alguma forma de manter minha sanidade e humanidade. A literatura e a poesia: um escape; pois ser humano é arte.

Há duas semana, li o primeiro livro da poetisa Cecília Meireles, Espectros (1919) - ver postagem aqui. Ao ler no domingo passado a primeira parte do segundo livro dela, lançado em 1923, e hoje completar a leitura com a segunda parte, compreendi perfeitamente o que o professor Ariovaldo nos diz nas aulas de Teoria Literária II, que um poema dialoga com os demais poemas do livro de poesia, e que também um livro de poesia dialoga com os outros livros de poesia daquele autor ou autora.

O livro Nunca mais... e Poema dos Poemas (1923) contém 21 poemas na primeira parte e mais 21 poemas na segunda parte, esta segunda dividida em 3 partes de 7 poemas. Veja abaixo o poema que abre o livro:


"À hora em que os cisnes cantam...

Nem palavras de adeus, nem gestos de abandono.
Nenhuma explicação. Silêncio. Morte. Ausência.
O ópio do luar banhando os meus olhos de sono...
Benevolência. Inconsequência. Inexistência.

Paz dos que não têm fé, nem carinho, nem dono...
Todo o perdão divino e a divina clemência!
Oiro que cai dos céus pelos frios do outono...
Esmola que faz bem... - nem gestos, nem violência...

Nem palavras. Nem choro. A mudez. Pensativas
abstrações. Vão temor de saber. Lento, lento
volver de olhos, em torno, augurais e espectrais...

Todas as negações. Todas as negativas.
Ódio? Amor? Ele? Tu? Sim? Não? Risos? Lamento?
- Nenhum mais. Ninguém mais. Nada mais. Nunca
                                                        [mais..."

A segunda parte do livro, Poema dos poemas, é muito legal. Começamos a leitura apreciando poemas que falam e clamam a um Eleito, momentos que oscilam entre Fascinação, Ansiedade, Esperança, Dúvida, depois Tristeza, Desengano, Lágrimas, Solidão, Saudade, Dor, Renúncia, Humildade e ao final a surpresa encantadora do descobrimento da Sabedoria.

Ao mergulhar na leitura e na literatura como tenho feito em tempos tão sombrios de destruição do nosso país, do nosso mundo, de nossa sociabilidade e das características que nos diferenciaram dos demais animais e bestas-feras ao longo do caminhar da humanidade, penso estar alimentando o que pode haver de melhor em nós, nosso cérebro e nossa capacidade para o belo, para a solidariedade, para o amor, para o coletivo no viver.

Leiam poesia. É uma experiência diferente! O cérebro da gente sai modificado em cada leitura desafiadora que lhe apresentamos.

William

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Cassi - Entre a técnica e a política



Artigo de opinião

"Agora vc tá ferrado, meu irmão, porque esse negócio de saúde é um bagulho técnico, e vc é muito sindical como eu..." *


Quando cheguei eleito em 2014 pelos trabalhadores da ativa e aposentados do Banco do Brasil como diretor de saúde da autogestão Cassi sabia que os desafios que teríamos pela frente por quatro anos seriam enormes. 

Em ambiente democrático e com normalidade jurídica e institucional ter representação através do voto direto e ter tempo para executar minimamente um programa ou princípios que defende para a gestão nos dá condições de reverter qualquer quadro adverso, pois é só acreditar naquilo que defende, manter seus propósitos, arregaçar as mangas e buscar apoios nas bases para superar as adversidades.

Essa questão do uso da técnica para manipular e afastar as pessoas interessadas nas consequências das decisões políticas chamadas de "técnicas" é uma das ferramentas mais antigas dos donos do poder para exercer a perpetuação do patrimonialismo e a concentração de renda e poder na mão dos donos do capital, da casa grande.

Durante o mandato de diretor de saúde da Cassi eu tinha diversos desafios para serem enfrentados ao mesmo tempo, por isso que passamos quatro anos praticamente sem dormir direito de segunda a segunda, de manhã tarde e noite, e muitas madrugadas afora, porque tínhamos que estudar e conhecer a técnica e manter a firmeza de propósito da política porque representávamos os trabalhadores.

Eu prometi a mim mesmo que não iria mais fazer pesquisas, estudos e passar horas e dias concentrado nos problemas da Cassi porque hoje tem outras representações fazendo isso. Cheguei a fazer 9 artigos sobre a Cassi e os problemas que ela enfrenta nesse momento. No penúltimo artigo cheguei até a sugerir soluções para reflexão das lideranças e entidades representativas. Enfim, os artigos estão ao final deste texto para algum(a) interessado(a) na leitura.

A técnica e a política

Existem diversas formas de arrecadar recursos para criar um determinado fundo para custear a saúde ou previdência de um conjunto de participantes. As formas que existem são técnicas. A escolha da forma de arrecadar é política.

Existem técnicas até para se passar informações sobre o mesmo tema, de maneira que a técnica pode direcionar o comportamento e a decisão das pessoas para um lado ou para o outro. Assistam "Privacidade hackeada", documentário de 2019, para entenderem das técnicas atuais de manipulação de grandes contingentes de humanos. As democracias representativas como conhecíamos acabaram!

Certa vez, o presidente Lula disse numa entrevista algo que encontrei dentro da gestão da Cassi de forma clara e transparente. De posse do cargo, com um programa e princípios que defendia, ele passou a determinar para ministros e técnicos que implementassem as mudanças que o povo havia escolhido e a resposta dos técnicos era que tal coisa não podia, outra também não etc porque normas e resoluções e notas técnicas proibiam. Ou seja, havia uma máquina burocrática nos escalões inferiores do poder feita para não se mudar nada - manutenção do status quo. Não à toa, vive-se inventando desculpas para bloquear a chegada dos próprios trabalhadores aos espaços de poder, normalmente com desculpas "técnicas" como, por exemplo, exigência de formação x ou y etc.

Quando cheguei à gestão da Cassi a discussão interna, "técnica", era que os desequilíbrios do Plano de Associados eram por culpa da inflação médica; culpa dos participantes porque gastavam muito, porque eram idosos, porque tinham dependentes; os déficits eram gerados porque a Cassi era de estrutura inchada, ineficiente, que todo o dinheiro que o banco colocava não era suficiente por isso; que seria necessário aumentar a contribuição dos associados e que o banco não colocaria mais centavo algum porque não podia por uma questão "técnica". E mais, que o modelo de saúde era questionável, assim como a eficiência dos programas de saúde. O único santo na história era o patrocinador patrão. Enfim, lidamos com esse cenário.

Por ter mandato e por ter tempo, quatro anos, foi possível enfrentar todo o cenário adverso e estudar o modelo assistencial da Cassi; ser timoneiro e liderar estudos técnicos (decisão política) feitos por profissionais que provaram a eficiência da ESF e dos programas de saúde; foi possível valorizar os trabalhadores da Cassi; esclarecer o papel central das unidades regionais e das CliniCassi no modelo assistencial; mostrar a importância da gestão compartilhada com os associados, donos da autogestão. 

Demonstramos a importância da autogestão se apresentar ao seu público, explicando o que ela é e tirando dúvidas, desfazendo mal-entendidos e mentiras sobre a Cassi. Demonstramos que a Caixa de Assistência só sobreviveu por 75 anos e acolheu e cuidou de TODOS os associados porque seu modelo de custeio e de cobertura é solidário e igualitário, com o mesmo peso relativo no salário ou benefício. Sem a solidariedade do modelo de custeio mutualista intergeracional os trabalhadores seriam aos poucos excluídos do Plano. Para explicar tudo isso, tivemos que falar pessoalmente com as lideranças e associados em 170 agendas nas bases da comunidade. (ler aqui)

Fizemos isso por princípio e respeito aos associados, mesmo com entraves "técnicos" que inventavam para tentar nos impedir de ir às bases. Nunca houve tanta reunião presencial com um diretor eleito se disponibilizando aos fóruns da Cassi no país e isso fortaleceu a autogestão naquele período. Detalhe: nunca discriminamos público falando só com grupos de apoio, falamos com TODOS. Acredito que contribuímos para o espírito de pertencimento e para maior empoderamento sobre a autogestão, senão dos usuários e participantes, distantes da administração, ao menos dos conselhos de usuários, dos sindicatos e das associações da comunidade Banco do Brasil.

Por que relembrei essas questões acima?

Porque a autogestão Cassi passa por novos desafios para encontrar saídas para a questão dos desequilíbrios econômico-financeiros e sofre uma séria ameaça de liquidação, com desculpas "técnicas" (decisão política), por  parte de um regime que não esconde a quem representa: o governo Trump e a parte mais retrógrada do rentismo lesa-pátria brasileiro (incluindo os capitalistas donos de negócios privados de saúde). 

O cenário é absolutamente mais complexo do que aquele que vivi entre 2014 e 2018. É por isso que trato com muito cuidado e respeito as posições políticas divergentes dos diversos grupos, lideranças e entidades envolvidos na busca de solução para a Cassi.

Se, por um lado, o novo regime político oriundo de um golpe de Estado em 2016 já deixou claro a que veio, eliminar todo o patrimônio público brasileiro e consequentemente todos os direitos sociais do povo (o que inclui os bancários!), por outro, as lideranças e entidades da classe trabalhadora não conseguiram construir uma unidade de resistência à destruição total de todas as nossas conquistas. Isso é muito sério, eu diria fatal.

O esforço que fiz nestes três meses em que estive com as lideranças e suas entidades representativas foi com o intuito de tentar aproximar as posições divergentes ainda relativas à consulta ao corpo social feita em maio de 2019. Criou-se o grupo do "sim" versus o grupo do "não". A continuidade dessa questão será fatal para a Cassi e para nós associados. Seria necessário as posições divergentes sentarem juntas e buscarem construir um consenso maior que possa conseguir maioria qualificada em nova consulta ao corpo social. Estamos falando de 2/3 e cerca de 75 mil votos favoráveis em eventual proposta de novos recursos para a Cassi.

Ambas posições, aquelas que entendiam que a proposta era a possível para aquela conjuntura - o "sim" -, quanto aquelas que entendiam que era necessário mais avanços para aprovarem a solução para Cassi - o "não" -, ambas tinham legitimidade naquilo que interpretavam: democracia é assim. Passado o processo, sem alcançar o quórum necessário para a entrada de novos recursos ao Plano de Associados, permanece a necessidade de novas receitas para os próximos balanços da Cassi e o cenário conta com uma direção fiscal e prazos definidos para se apresentar orçamentos equilibrados até o final deste exercício de 2019.

Argumentei com diversas lideranças e entidades que qualquer proposta que venha a ser apresentada aos associados, e há todo um processo político e administrativo para que isso ocorra ("técnico"), será fundamental que parte de uma das posições esteja com a outra, independente do motivo de novo posicionamento. No cenário em que estamos, não adiantaria nova consulta cujo resultado fosse semelhante ao de maio. A Cassi continuaria sem recursos novos para o orçamento de 2020 e os seguintes, sem demonstrar que as desconformidades "técnicas" seriam corrigidas no próximo período.

Eventuais propostas construídas por lideranças, grupos ou entidades que não tenham a aderência de representações que defendam junto aos seus associados e que possibilitem alcançar 2/3 de votos válidos serão meras marcações de posição, mas sem eficácia alguma na solução da continuidade ou não da Cassi. Do outro lado, o que percebemos é o pouco ou nenhum interesse na manutenção de autogestões como a Cassi e direitos em saúde como aqueles que os associados da Cassi têm.

Na minha opinião, que não é uma opinião de leigo, haja vista que estive no centro das construções políticas e técnicas dos direitos da comunidade de trabalhadores do Banco do Brasil nos últimos 20 anos, entendo que é fundamental o desejo de dialogar e buscar consensos entre as diversas forças e lideranças que se reunirão na próxima semana para buscar soluções para resgatar a Cassi da estratégia de liquidação em andamento. Se a política não for exercida na sua plenitude, e cada grupo ou liderança mantiver sua posição e ninguém ceder, estaremos fadados a um resultado ruim no encontro nacional que ocorrerá no sábado 28 de setembro.

Tenho certeza que a Cassi é um patrimônio dos trabalhadores do Banco do Brasil e dos sistemas de saúde privados do país, e deveria ser defendida por cada um dos seus quase 200 mil associados, que investem na manutenção da entidade de autogestão com o modelo mais exitoso que há no Brasil, comprovado em estudos técnicos e reconhecido pela própria ANS e pelo mercado que busca copiar o modelo de atenção primária e medicina de família que a Cassi já desenvolve há quase duas décadas.

Abraços a tod@s, muita paciência e tolerância para a busca de uma solução de maioria qualificada para a Cassi.

William Mendes
Associado Cassi e Previ


*frase que ouvi em 2014 de uma liderança sindical antes de tomar posse no mandato eletivo de diretor de saúde na autogestão dos trabalhadores do Banco do Brasil. Pelo que me foi dito pelos profissionais de saúde da Cassi, nunca passei vergonha neles por falar alguma bobagem sobre saúde e gestão de saúde.

1º artigo: https://blog-do-william-mendes.blogspot.com/2019/06/unidade-e-participacao-na-defesa-da.html

2º artigo: https://blog-do-william-mendes.blogspot.com/2019/06/cassi-e-cassems-tem-muitos-exitos.html

3º artigo: https://blog-do-william-mendes.blogspot.com/2019/06/coparticipacao-maior-pode-inviabilizar.html

4º artigo: https://blog-do-william-mendes.blogspot.com/2019/07/o-que-e-cassi-como-fortalecer-associacao.html

5º artigo: https://blog-do-william-mendes.blogspot.com/2019/07/cassi-uma-questao-mais-politica-que.html

6º artigo: https://blog-do-william-mendes.blogspot.com/2019/07/futuro-da-cassi-esta-nas-maos-dos.html

7º artigo: https://blog-do-william-mendes.blogspot.com/2019/07/cassi-como-achar-saidas-nao.html

8º artigo: https://blog-do-william-mendes.blogspot.com/2019/07/cassi-associados-devem-resgatar.html

9º artigo: https://blog-do-william-mendes.blogspot.com/2019/08/resgatar-cassi-e-prioridade-dos.html

terça-feira, 17 de setembro de 2019

170919 - Diário e reflexões



Ipês amarelos: Faculdade de Letras/USP.

Refeição Cultural

Definir novos objetivos de vida aos cinquenta anos de idade não é um processo simples. Não é. Ainda mais quando se está vivendo num país sem democracia, sob regime de exceção. O contexto político, econômico e social influencia bastante o lado psicológico das pessoas com formação e consciência política. Os tempos são de tristeza, desesperança e depressão.

Nesta fase da vida, a busca de novos sentidos para o existir é mais difícil porque a incerteza do amanhã passa a ser uma companheira indesejável com o passar do tempo. Todos podemos deixar de existir a qualquer momento, por acidente, por violência, por doença. Mas os riscos de se chegar ao fim por alguma falência do corpo vão aumentando e isso é assim mesmo. Nunca tive problema com essa certeza.

Meio que por acaso voltei a estudar. Não queria pegar um diploma de graduação em Letras só com uma parte do que estudei anos atrás. Acabei voltando para a graduação com uma quantidade enorme de créditos a cumprir pela nova grade curricular. São muitas disciplinas a fazer num prazo de dois anos. Já fiz duas no primeiro semestre e agora estou fazendo mais quatro. Males que vêm pra bem. Estou lendo pacas!

A minha condição de saúde mudou bastante num curto espaço de tempo. Dizem que o corpo sente a mudança brusca de rotina de vida. Passei quase duas décadas com a adrenalina a mil lutando pelas causas da classe trabalhadora. O último mandato eletivo que fiz abalou drasticamente minha saúde. Foram quatro anos trabalhando em ritmo de luta, em três jornadas diárias. Não dormir por tanto tempo pesou em minha saúde atual.

Tive que deixar de ficar o dia todo acompanhando as desgraças em nosso país e com o nosso povo em consequência do golpe de Estado e da tomada do poder estatal por fraudes eleitorais e processos corruptos que contaram com canalhas instalados em setores de todos os poderes institucionais e dos empresários da comunicação no país. Estava adoecendo mais rápido por ver toda a destruição sem reação adequada da oposição e do povo. Não me alieno, mas estou me policiando em ver as merdas por menos tempo.

Enfim, fica sempre a mesma pergunta a mim mesmo: por que escrever? por que ler? e rapidamente preciso responder a mim mesmo que é necessário registrar toda essa desgraça que se passa em nosso país, em nossa vida. E se estamos vivos, temos que ler, estudar, ser menos ignorantes, mesmo sabendo que a vida é um instante e que a incerteza do amanhã é um fato inexorável.

Eu gostaria de estar vivo para ver cair esse regime fascista de destruição do Brasil e dos direitos e esperanças do povo brasileiro. Gostaria de ver diminuir a imbecilização de parte considerável dos seres humanos. Sendo assim, preciso encontrar equilíbrio interior e seguir sendo uma pessoa que de alguma forma contribua para a sociedade humana, nem que seja compartilhando com alguns internautas as aulas e leituras que tivemos a oportunidade de fazer.

William

#LulaLivre (até quando vão manter essa injustiça e até quando o povo vai deixar essa injustiça prevalecer?)

domingo, 15 de setembro de 2019

Leitura: Revelación Mesmérica (1844) - Edgar Allan Poe




(Originalmente publicado en: Columbian Magazine, EUA, agosto 1844)

Aunque la teoría del mesmerismo esté aún envuelta en dudas, sus sobrecogedoras realidades son ya casi universalmente admitidas. Los que dudan de éstas pertenecen a la casta inútil y despreciable de los que dudan por pura profesión. No hay mejor manera de perder el tiempo que proponerse probar en la actualidad que el hombre, por el simple ejercicio de su voluntad, puede impresionar a su semejante al punto de sumirlo en un estado anormal cuyas manifestaciones se parecen estrechamente a las de la muerte, o por lo menos en mayor grado que cualquier otro fenómeno conocido en condiciones normales; que, en ese estado, la persona así influida utiliza sólo con esfuerzo y en consecuencia débilmente los órganos exteriores de los sentidos y, sin embargo, percibe con agudeza y refinamiento, y por vías presuntamente desconocidas, cosas que están más allá del alcance de los órganos físicos; que, además, sus facultades intelectuales se hallan en un maravilloso estado de exaltación y fuerza; que las simpatías con la persona que así influye sobre ella son profundas, y, finalmente, que su susceptibilidad de impresión va en aumento gradual, al tiempo que, en la misma proporción, se extienden y acentúan cada vez más los peculiares fenómenos producidos.

Digo que sería superfluo demostrar las leyes del mesmerismo en sus rasgos generales; tampoco infligiré a mis lectores una demostración hoy tan innecesaria. Mi propósito es, en verdad, muy otro. Me siento impelido, aun enfrentándome de esta manera con un mundo de prejuicios, a detallar sin comentarios el notabilísimo diálogo que sostuve con un hipnotizado.

Hacía mucho tiempo que tenía la costumbre de hipnotizar a la persona en cuestión (Mr. Vankirk), en quien se habían manifestado la aguda susceptibilidad y la exaltación habituales en la percepción mesmérica. Desde varios meses atrás, Mr. Vankirk padecía una tisis declarada y mis pases habían aliviado sus efectos más penosos; la noche del miércoles 15 del mes actual fui llamado a su cabecera.

El enfermo sufría un dolor agudo en la región cordial y respiraba con gran dificultad, presentando todos los síntomas comunes del asma. En espasmos como aquél generalmente le proporcionaba alivio la aplicación de mostaza en los centros nerviosos, pero esa noche el recurso había resultado inútil.

Cuando entré en su habitación me recibió con una sonrisa jovial, y aunque evidentemente sus dolores físicos eran grandes, su ánimo parecía muy tranquilo.

—Lo mandé buscar esta noche —dijo— no tanto para que mitigara mi dolencia como para que me explicara ciertas impresiones psíquicas que últimamente me han causado gran ansiedad y sorpresa. No necesito decirle cuan escéptico he sido hasta hoy con respecto a la inmortalidad del alma. No puedo negar que siempre ha existido, quizá en esa misma alma que he negado, una especie de vago sentimiento de su propia existencia. Pero esta especie de sentimiento no llegó en ningún instante a la convicción. Era cosa que nada tenía que ver con la razón. Todas las tentativas de investigación lógica me dejaban, a decir verdad, más escéptico que antes. Me aconsejaron que estudiara a Cousin. Lo estudié en sus obras, así como en sus repercusiones europeas y americanas. El Charles Elwood de Mr. Brownson, por ejemplo, cayó en mis manos. Lo leí con profunda atención. Lo encontré lógico de una punta a la otra, pero las partes que no eran simplemente lógicas constituían, desgraciadamente, los argumentos iniciales del incrédulo héroe del libro. En sus conclusiones me pareció evidente que el razonador no había logrado siquiera convencerse a sí mismo. El final había olvidado por completo el principio, como el gobierno de Trínculo. En una palabra: no tardé en advertir que, si el hombre ha de persuadirse intelectualmente de su propia inmortalidad, nunca lo logrará por las meras abstracciones que durante tanto tiempo han constituido el método de los moralistas de Inglaterra, Francia y Alemania. Las abstracciones pueden ser una diversión y un ejercicio, pero no se posesionan de la mente. Aquí, en la tierra por lo menos, la filosofía, estoy convencido, siempre nos pedirá en vano que consideremos las cualidades como cosas. La voluntad puede asentir; el alma, el intelecto, nunca. Repito, pues, que sólo había sentido a medias, pero nunca creí intelectualmente. Mas en los últimos tiempos el sentimiento se ha ahondado hasta parecerse tanto a la aquiescencia de la razón, que me resulta difícil distinguirlos. Creo también poder atribuir este efecto simplemente a la influencia mesmérica. No sé explicar mejor mi pensamiento que por la hipótesis de que la exaltación mesmérica me capacita para percibir una serie de razonamientos que en mi existencia normal son convincentes, pero que, en total acuerdo con los fenómenos mesméricos, no se extienden, salvo en su efecto, a mi estado normal. En el estado hipnótico, el razonamiento y la conclusión, la causa y el efecto están presentes a un tiempo. En mi estado natural, la causa se desvanece; únicamente el efecto, y quizá sólo en parte, permanece. Estas consideraciones me han llevado a pensar que podrían obtenerse algunos buenos resultados dirigiéndome, mientras estoy mesmerizado, una serie de preguntas bien encaminadas. Usted ha observado a menudo el profundo conocimiento de sí mismo que demuestra el hipnotizado, el amplio saber que despliega sobre todo lo concerniente al estado mesmérico, y de este conocimiento de sí mismo pueden deducirse indicaciones para la adecuada confección de un cuestionario.

Accedí, claro está, a realizar este experimento. Unos pocos pases sumieron a Mr. Vankirk en el sueño mesmérico. Su respiración se hizo inmediatamente más fácil y parecía no padecer ninguna incomodidad física. Entonces se produjo la siguiente conversación (en el diálogo, V. representa al paciente y P. soy yo):

P. —¿Duerme usted?

V. —Sí…, no; preferiría dormir más profundamente.

P. —(Después de algunos pases). ¿Duerme ahora?

V. —Sí.

P. —¿Cómo cree que terminará su enfermedad?

V. —(Después de una larga vacilación y hablando como con esfuerzo). Moriré.

P. —¿Le aflige la idea de la muerte?

V. —(Muy rápido). ¡No…, no!

P. —¿Le desagrada esta perspectiva?

V. —Si estuviera despierto me gustaría morir, pero ahora no tiene importancia. El estado mesmérico se avecina lo bastante a la muerte como para satisfacerme.

P. —Me gustaría que se explicara, Mr. Vankirk.

V. —Quisiera hacerlo, pero requiere más esfuerzo del que me siento capaz. Usted no me interroga correctamente.

P. —Entonces, ¿qué debo preguntarle?

V. —Debe comenzar por el principio.

P. —¡El principio! Pero, ¿dónde está el principio?

V. —Usted sabe que el principio es Dios. (Esto fue dicho en tono bajo, vacilante, y con todas las señales de la más profunda veneración).

P. —Pero, ¿qué es Dios?

V. —(Vacilando durante varios minutos). No puedo decirlo.

P. —Dios, ¿no es espíritu?

V. —Mientras estaba despierto, yo sabía lo que usted quiere decir con «espíritu», pero ahora me parece sólo una palabra, tal como, por ejemplo, verdad, belleza; una cualidad, quiero decir.

P. —Dios, ¿no es inmaterial?

V. —No hay inmaterialidad; ésta es una simple palabra. Lo que no es materia no es nada, a menos que las cualidades sean cosas.

P. —Entonces, ¿Dios es material?

V. —No. (Esta respuesta me sobrecogió).

P. —¿Y qué es?

V. —(Después de una larga pausa, entre dientes). Lo veo… pero es una cosa difícil de decir. (Otra larga pausa). No es espíritu, pues existe. Tampoco es materia, como usted la entiende. Pero hay gradaciones de la materia de las que el hombre nada sabe, en que la más basta impulsa a la más sutil, la más sutil invade la más basta. La atmósfera, por ejemplo, impulsa el principio eléctrico, mientras el principio eléctrico penetra la atmósfera. Estas gradaciones de la materia crecen en tenuidad o sutileza hasta que llegamos a una materia indivisa —sin partículas—, indivisible —una—, y aquí la ley de la impulsión y de la penetración se modifica. La materia última o indivisa no sólo penetra todas las cosas, sino que las impulsa, y de esta manera es todas las cosas en sí misma. Esta materia es Dios. Lo que el hombre intenta formular con la palabra «pensamiento» es esta materia en movimiento.

P. —Los metafísicos sostienen que toda acción es reductible a movimiento y pensamiento, y que el último es el origen del primero.

V. —Sí, y ahora veo la confusión de la idea. El movimiento es la acción de la mente, no del pensamiento. La materia indivisa o Dios, en reposo, es (en la medida en que podemos concebirlo) lo que los hombres llaman mente. Y el poder de automovimiento (equivalente en efecto a la volición humana) es, en la materia indivisa, el resultado de su unidad y de su omni-predominancia; cómo, no lo sé, y ahora veo claramente que nunca lo sabré. Pero la materia indivisa, puesta en movimiento por una ley o cualidad existente en sí misma, es el pensamiento.

P. —¿No puede darme una idea más precisa de lo que usted designa materia indivisa?

V. —Las materias que el hombre conoce escapan gradualmente a los sentidos. Tenemos, por ejemplo, un metal, un trozo de madera, una gota de agua, la atmósfera, el gas, el calor, la electricidad, el éter luminoso. Ahora bien, llamamos materia a todas esas cosas, y abarcamos toda la materia en una definición general; sin embargo, no puede haber dos ideas más esencialmente distintas que la que referimos a un metal y la que referimos al éter luminoso. Cuando llegamos al último, sentimos una inclinación casi irresistible a clasificarlo con el espíritu o con la nada. La única consideración que nos detiene es nuestra idea de su constitución atómica, y aun aquí debemos pedir ayuda a nuestra noción de átomo como algo infinitamente pequeño, sólido, palpable, pesado. Destruyamos la idea de la constitución atómica y ya no seremos capaces de considerar el éter como una entidad o, por lo menos, como materia. A falta de una palabra mejor podríamos designarlo espíritu. Demos ahora un paso más allá del éter luminoso, concibamos una materia mucho más sutil que el éter, así como el éter es más sutil que el metal, y llegamos en seguida (a pesar de todos los dogmas escolásticos) a una masa única, a una materia indivisa. Pues, aunque admitamos una infinita pequeñez en los átomos mismos, la infinita pequeñez de los espacios interatómicos es un absurdo. Habrá un punto, habrá un grado de sutileza en el cual, si los átomos son suficientemente numerosos, los interespacios desaparecerán y la masa será absolutamente una. Pero al dejar de lado ahora la idea de la constitución atómica, la naturaleza de la masa se deslizará inevitablemente a nuestra concepción del espíritu. Está claro, sin embargo, que es tan materia como antes. La verdad es que resulta imposible concebir el espíritu, puesto que es imposible imaginar lo que no es. Cuando nos jactamos de haber llegado a concebirlo, hemos engañado simplemente nuestro entendimiento con la consideración de una materia infinitamente rarificada.

P. —Me parece que hay una objeción insuperable a la idea de la absoluta unidad, y ella es la ligerísima resistencia experimentada por los cuerpos celestes en sus revoluciones a través del espacio, resistencia que ahora sabemos, es verdad, existe en cierto grado, pero que, sin embargo, es tan ligera que aun la sagacidad de Newton la pasó por alto. Sabemos que la resistencia de los cuerpos es principalmente proporcionada a su densidad. La unidad absoluta es la densidad absoluta. Donde no hay interespacios no puede haber paso. Un éter absolutamente denso detendría de una manera infinitamente más efectiva la marcha de una estrella que un éter de diamante o de acero.

V. —Su objeción se contesta con una facilidad que está casi en proporción con su aparente irrefutabilidad. Con respecto a la marcha de una estrella, no puede haber diferencia entre que la estrella pase a través del éter o el éter a través de ésta. No hay error astronómico más inexplicable que el que relaciona el conocido retardo de los cometas con la idea de su paso a través del éter, pues por sutil que se suponga ese éter detendría toda revolución sideral en un período mucho más breve que el admitido por esos astrónomos, quienes han intentado suprimir un punto que consideraban imposible de entender. El retardo experimentado es, por el contrario, aproximadamente el mismo que puede esperarse de la fricción del éter en el pasaje instantáneo a través del astro. En un caso, la fuerza de retardo es momentánea y completa en sí misma; en el otro, es infinitamente acumulativa.

P. —Pero en todo esto, en esta identificación de la simple materia con Dios, ¿no hay nada de irreverencia? (Me vi obligado a repetir esta pregunta antes de que el hipnotizado comprendiera cabalmente su sentido).

V. —¿Puede usted decir por qué la materia ha de ser menos reverenciada que la mente? Usted olvida que la materia de la cual hablo es, en todo sentido, la verdadera «mente» o «espíritu» de las escuelas, sobre todo en lo que concierne a sus elevadas propiedades, y es, al mismo tiempo, la «materia» para estas escuelas. Dios, con todos los poderes atribuidos al espíritu, es tan sólo la perfección de la materia.

P. —¿Afirma usted, entonces, que la materia indivisa, en movimiento, es pensamiento?

V. —En general, el movimiento es el pensamiento universal de la mente universal. Este pensamiento crea. Todas las cosas creadas no son sino los pensamientos de Dios.

P. —Usted dice «en general».

V. —Sí. La mente universal es Dios. Para las nuevas individualidades es necesaria la materia.

P. —Pero usted habla ahora de «mente» y de «materia» como lo hacen los metafísicos.

V. —Sí, para evitar la confusión. Cuando digo «mente» me refiero a la materia indivisa o última; cuando digo «materia» me refiero a todo lo demás.

P. —Usted decía que «para las nuevas individualidades es necesaria la materia».

V. —Sí, pues la mente, en su existencia incorpórea, es simplemente Dios. Para crear los seres individuales, pensantes, era necesario encarnar porciones de la mente divina. Así es individualizado el hombre. Despojado de su envoltura corporal sería Dios. El movimiento particular de las porciones encarnadas de la materia indivisa es el pensamiento del hombre, así como el movimiento del todo es el de Dios.

P. —¿Dice usted que despojado de su envoltura corporal el hombre sería Dios?

V. —(Después de mucho vacilar). No pude haber dicho eso, es un absurdo.

P. —(Recurriendo a mis notas). Usted dijo que «despojado de su envoltura corporal el hombre sería Dios».

V. —Y es verdad. El hombre así despojado sería Dios, sería desindividualizado. Pero no puede despojarse jamás de esa manera —por lo menos nunca podrá—, a menos que imaginemos una acción de Dios que vuelve sobre sí misma, una acción inútil, sin finalidad. El hombre es una criatura. Las criaturas son pensamientos de Dios. Está en la naturaleza del pensamiento ser irrevocable.

P. —No comprendo. ¿Usted dice que el hombre nunca podrá desprenderse de su cuerpo?

V. —Digo que nunca será incorpóreo.

P. —Explíquese.

V. —Hay dos cuerpos: el rudimentario y el completo, que corresponden a las dos condiciones de la crisálida y la mariposa. Lo que llamamos «muerte» es tan sólo la penosa metamorfosis. Nuestra presente encarnación es progresiva, preparatoria, temporaria. Nuestro futuro es perfecto, definitivo, inmortal. La vida definitiva constituye la finalidad absoluta.

P. —Pero de la metamorfosis de la crisálida tenemos un conocimiento palpable.

V. —Nosotros sí, pero la crisálida no. La materia que compone nuestro cuerpo rudimentario está al alcance de los órganos de este cuerpo, o, más claramente, nuestros órganos rudimentarios se adaptan a la materia que forma el cuerpo rudimentario, pero no al que compone el cuerpo definitivo. Éste escapa así a nuestros sentidos rudimentarios, y sólo percibimos la envoltura que cae al morir, desprendiéndose de la forma interior, no esa misma forma interior; pero esta última, así como la envoltura, es apreciable para los que ya han adquirido la vida definitiva.

P. —Usted ha dicho a menudo que el estado mesmérico se asemeja estrechamente a la muerte. ¿Cómo es eso?

V. —Cuando digo que se parece a la muerte, aludo a que se asemeja a la vida definitiva, pues cuando estoy en trance los sentidos de mi vida rudimentaria quedan en suspenso y percibo las cosas exteriores directamente, sin órganos, a través de un intermediario que emplearé en la vida definitiva, inorganizada.

P. —¿Inorganizada?

V. —Sí; los órganos son mecanismos mediante los cuales el individuo se pone en relación sensible con clases y formas particulares de materia, con exclusión de otras clases y formas. Los órganos del hombre están adaptados a esta condición rudimentaria y sólo a ésta; siendo inorganizada su condición última, su comprensión es ilimitada en todos los órdenes, salvo en uno: la naturaleza de la voluntad de Dios, es decir, el movimiento de la materia indivisa. Usted tendrá una idea clara del cuerpo definitivo concibiéndolo como si fuera todo cerebro. No es eso; pero una concepción de esta naturaleza lo acercará a la comprensión de su ser. Un cuerpo luminoso imparte vibración al éter. Las vibraciones engendran otras similares dentro de la retina; éstas comunican otras al nervio óptico. El nervio envía otras al cerebro, y el cerebro otras a la materia indivisa que lo penetra. El movimiento de esta última es el pensamiento, cuya primera ondulación es la percepción. De esta manera la mente de la vida rudimentaria se comunica con el mundo exterior, y este mundo exterior está limitado para la vida rudimentaria, por la idiosincrasia de sus órganos. Pero en la vida definitiva, inorganizada, el mundo exterior llega al cuerpo entero (que es de una sustancia afín al cerebro, como he dicho), sin otra intervención que la de un éter infinitamente más sutil que el luminoso; y todo el cuerpo vibra al unísono con este éter, poniendo en movimiento la materia indivisa que lo penetra. A la ausencia de órganos especiales debemos atribuir, además, la casi ilimitada percepción propia de la vida definitiva. En los seres rudimentarios los órganos son las jaulas necesarias para encerrarlos hasta que tengan alas.

P. —Usted habla de «seres» rudimentarios. ¿Hay otros seres pensantes rudimentarios además del hombre?

V. —Las numerosas acumulaciones de materia sutil en nebulosas, planetas, soles y otros cuerpos que no son ni nebulosas, ni soles, ni planetas tienen la única finalidad de dar pábulo a los distintos órganos de infinidad de seres rudimentarios. De no ser por la necesidad de la vida rudimentaria, previa a la definitiva, no hubiera habido cuerpos como éstos. Cada uno de ellos es ocupado por una variedad distinta de criaturas orgánicas, rudimentarias, pensantes. En todas los órganos varían según los caracteres del lugar ocupado. A la muerte o metamorfosis, estas criaturas que gozan de la vida definitiva —la inmortalidad— y conocen todos los secretos, salvo uno, actúan y se mueven en todas partes por simple volición; habitan, no en las estrellas, que nosotros consideramos las únicas cosas palpables para cuya distribución ciegamente juzgamos creado el espacio, sino el espacio mismo, ese infinito cuya inmensidad verdaderamente sustancial se traga las estrellas al igual que sombras, borrándolas como no entidades de la percepción de los ángeles.

P. —Usted dice que, «de no ser por la necesidad de la vida rudimentaria», no hubiera habido estrellas. ¿Pero por qué esta necesidad?

V. —En la vida inorgánica, así como generalmente en la materia inorgánica, no hay nada que impida la acción de una única y simple ley, la Divina Volición. La vida orgánica y la materia (complejas, sustanciales y sometidas a leyes) fueron creadas con el propósito de producir un impedimento.

P. —Pero de nuevo, ¿qué necesidad había de producir ese impedimento?

V. —El resultado de la ley inviolada es perfección, justicia, felicidad negativa. El resultado de la ley violada es imperfección, injusticia, dolor positivo. Por medio de los impedimentos que brindan el número, la complejidad y la sustancialidad de las leyes de la vida orgánica y de la materia, la violación de la ley resulta, hasta cierto punto, practicable. Así el dolor, que es imposible en la vida inorgánica, es posible en la orgánica.

P. —¿Pero cuál es el propósito benéfico que justifica la existencia del dolor?

V. —Todas las cosas son buenas o malas por comparación. Un análisis suficiente mostrará que el placer, en todos los casos, es tan sólo el reverso del dolor. El placer positivo es una simple idea. Para ser felices hasta cierto punto, debemos haber padecido hasta ese mismo punto. No sufrir nunca sería no haber sido nunca dichoso. Pero se ha demostrado que en la vida inorgánica no puede existir dolor; de ahí su necesidad en la orgánica. El dolor de la vida primitiva en la tierra es la única garantía de beatitud para la vida definitiva en el cielo.

P. —Todavía hay una de sus expresiones que me resulta imposible comprender: «la inmensidad verdaderamente sustancial» del infinito.

V. —Ello es quizá porque no tiene usted una noción suficientemente genérica del término «sustancia». No debemos considerarla una cualidad, sino un sentimiento: es la percepción, en los seres pensantes, de la adaptación de la materia a su organización. Hay muchas cosas en la tierra que nada serían para los habitantes de Venus, muchas cosas visibles y tangibles en Venus cuya existencia seríamos incapaces de apreciar. Pero, para los seres inorgánicos, para los ángeles, la totalidad de la materia indivisa es sustancia, es decir, la totalidad de lo que designamos «espacio» es para ellos la sustancialidad más verdadera; al mismo tiempo las estrellas, en lo que consideramos su materialidad, escapan al sentido angélico, de la misma manera que la materia indivisa, en lo que consideramos su inmaterialidad, se evade de lo orgánico.

Mientras el hipnotizado pronunciaba estas últimas palabras con voz débil, observé en su fisonomía una singular expresión que me alarmó un poco y me indujo a despertarlo en seguida. No bien lo hube hecho, con una brillante sonrisa que iluminó todas sus facciones cayó de espaldas sobre la almohada y expiró. Observé que, menos de un minuto después, su cuerpo tenía toda la severa rigidez de la piedra. Su frente estaba fría como el hielo. Parecía haber sufrido una larga presión de la mano de Azrael. El hipnotizado, durante la última parte de su discurso, ¿se había dirigido a mí desde la región de las sombras?

Fim

Fonte onde obtive o conto: Literatura.us (assim como faço aqui no blog, o site diz que não tem fins comerciais e os textos são para uso de estudos literários)

---------------------------------

Comentário:

A leitura deste conto de Poe foi motivada pelo contexto de estudo do escritor chileno Roberto Bolaño, disciplina que estou fazendo na graduação de Letras da Universidade de São Paulo. Além deste conto, li também o "O caso do Sr. Valdemar", também de Poe. Ambos os contos têm a temática do Mesmerismo ou Magnetismo Animal.

O romance de Bolaño "Monsieur Pain" (1999) faz referência a esse tema do Mesmerismo. O conto também tem um momento que nos lembra o conto de Poe "El hombre de la multitud".


sábado, 14 de setembro de 2019

Leitura III: Las Genealogías (1981*) - Margo Glantz




(Atualização em 11/10/19)

Refeição Cultural

Estou lendo esta obra referência de Margo Glantz como parte das leituras de uma disciplina que estou cursando na Faculdade de Letras da USP - "Poéticas de autor en la literatura hispanoamericana" -, ministrada pela professora Adriana Kanzepolsky.

A autora conta a história de sua família, a partir da história de seus pais e avós. Ao longo da narrativa, vamos relembrando fatos da história do mundo e vendo que nossas histórias individuais são feitas assim, cada um de nós está o tempo todo vivendo a história coletiva do mundo. 

*Assim que fiz a postagem, coloquei como data de publicação da obra o ano de 1986. Na verdade, a autora escreveu os relatos e reflexões sobre a genealogia de sua família entre os anos de 1979 e 1981, como ela nos conta na página 233. Seu pai faleceu pouco depois, em janeiro de 1982. Sua mãe, porém, faleceu em maio de 1997. Glantz nos confessa, então, que finalmente colocaria fim às suas genealogias. (julho de 1997).

Eu e vocês, cada um de nós, estamos vivendo este momento histórico do Brasil após o Golpe de Estado, após a eleição fraudulenta dos milicianos e canalhas fascistas que chegaram ao poder estatal e toda a destruição que ocorre diariamente. Essa história é nossa história, queiramos ou não, porque as consequências dela nos afetam, afetam a nossa vida, o presente e o futuro.

Enfim, sigo a leitura a partir do capítulo XXVI, na página 93. A primeira parte do fichamento dessa leitura pode ser vista aqui.

A MEMÓRIA PODE NOS TRAIR

"Repetir un acto mil vezes condensa el recuerdo, pero los recuerdos traicionan aunque se recuerden mil veces en la mente. Jacobo niega ciertas minucias que antes recordaba y los calzones con encaje se transforman simplemente en encaje suizo, maravilloso, delicado, pero aún suelto, sin ropa que decorar. Mi padre dice que cada vez recuerda mejor las cosas de su infancia y que casi todo lo demás se borra: a veces resucita y yo lo aprovecho como buitre." (p. 103)

Interessante essa reflexão sobre nossas memórias e suas seletividades. O que antes era calcinha com renda, artefato talvez inapropriado para pessoas de certa religião ou visão conservadora de comportamento individual, se transforma por um misterioso ato da memória em renda suíça, sem ligação com a calcinha que adornava. 

E não é verdade que nossa memória faz isso quando lhe é conveniente?

AUTORA É REFINADA NO USO DE IRONIAS

Margo Glantz tem um humor e uma ironia muito refinados em seus textos. Percebi isso nos contos que já li dela e nos textos ou entrevistas que tive contato neste mês de aula.

Veja abaixo uma frase dela quando o pai conta que levou umas bofetadas quando foi cobrar uma dívida de pães e confeites de um cliente mexicano:

"Así cumplió mi padre con los preceptos bíblicos y gano el pan con el sudor de su frente" (p. 105)

RESMUNGANDO UMA LÍNGUA QUE NÃO É SUA

Nas obras de Margo Glantz vemos o tempo todo algumas questões relativas a certas hierarquizações de estratos sociais - pessoas e grupos que se colocam acima dos outros -, e isso se dá como algo cultural. 

Falar uma língua que não é sua, por exemplo, pode fazer com que você se sinta excluído, diminuído em certos ambientes que utilizam isso para classificar pessoas e grupos. Não por parte do falante estrangeiro, mas por preconceito do ouvinte nativo.

Ela usa o verbo "mascullar" para apresentar o contexto em que um personagem tenta se comunicar em uma segunda língua, em um mundo que não é o seu mundo de origem.

"El señor Filler le prestó a mi mamá 50 pesos, mismos que sirvieron para pagar la cuenta del hospital. Mientras mi padre estaba enfermo, mi madre salía a vender el pan con Serafín, el muchacho oaxaqueño, bajito y fornido, que se reía todo el tiempo cuando oía a mi papá mascullar el español. Toda la gente veía a mi mamá como si fuera marciana, vestida muy elegante, vendiendo pan de casa en casa." (p. 110)

UN RATO* CON LAS RATAS

Momento em que o pai de Margo foi preso nos anos vinte por ser de esquerda (e ser confundido com anarquistas) e protestar contra as injustiças do governo no México.

"Y no es juego de palabras, pero ese rato se convertía en ratas que de tamaño descomunal se paseaban sobre la cama y sobre el preso..." (p. 113)

*Em espanhol "un rato" quer dizer um momento, é uma palavra para espaço de tempo, principalmente tempo curto.

EISENSTEIN E MAIAKOVSKI

O pai de Margo está falando de personalidades que ele conheceu no México dos anos 20 e 30 e cita, entre muitos, Eisenstein e Maiakovski.

"- Entonces Eisenstein y Maiakovski llegaron a México - tercía papá.
  -¿Quién te pareció más interesante?
  -Eran completamente diferentes. Con Maiakovski anduve toda la noche hasta las dos o tres de la mañana, hasta el cerrito, el Cierro de la Estrella, entonces fuera de la ciudad, allí descansamos y nos sentamos para hablar de poesía y recitar en voz alta poemas. Hablamos del futurismo y el imaginismo, entonces de moda, de Marinetti y de un poeta proletario, Aséyev, cuyo poema Guerra, escrito en 1914, declamamos." (p. 116)

TENTATIVA DE LINCHAMENTO POR FASCISTAS

Muito forte a cena contada pela narradora no capítulo XXXV de quando os fascistas tentaram linchar o senhor Glantz em 1939, na cidade do México. 

"En enero de 1939 mi padre fue atacado por un grupo fascista de Camisas Doradas que se reunieron en la calle 16 de Septiembre, donde mis padres tenían una pequeña boutique de ropas y guantes llamada Lisette. La barba, el tipo de judío y quizá su parecido con Trotski hicieron de Jacobo Glantz el blanco perfecto para una especie de pogrom o linchamiento. Trataron de colocar mi padre sobre la vía del tren para que este le pasara encima, mientras otros arrojaban piedras y gritaban insultos tradicionales. Mi padre pudo escapar ayudado por algunos transeúntes asombrados, entrar a la boutique y subir al tapanco..." (p. 117)

Como a autora trabalha o tempo todo com a questão da memória, no capítulo seguinte ela pede para o pai narrar o caso e há algumas diferenças em relação ao que ela narrou no capítulo anterior.

TERRITORIALIZAR-SE NO CORPO DO OUTRO

A professora nos falou a respeito de um conceito muito presente na obra de Margo Glantz: a questão de territorializar-se e desterritorializar-se no corpo do outro com quem se vive. Ela vai tratar disso ao final do livro, quando explica o processo através do exemplo de sua mãe, que ao deixar tudo para trás, se territorializa no corpo do marido, senhor Glantz.

Aqui uma reflexão que já aborda essa questão do viver junto e seu lugar estar no corpo do outro. Perde-se um pouco de si, mas a pessoa também se refaz no outro.

"Viver con alguien es, probablemente, perder algo de la propia identidad. Vivir contagia: mi padre corrige la infancia de mi madre y ella oye con inpaciencia ciertas versiones de la infancia de mi padre..." (p. 119)


Ao final do capítulo XXXVII, a narradora deixa as marcas de enunciação, lembrando ao leitor se tratar de uma espécie de entrevista com os pais.

"Regreso, como de costumbre, el próximo sábado. Papá mira complacido y absorto uno de sus retratos:
- Qué interesante - dice -, se ve que es poeta." (p. 123)

------------

A leitura e alguns excertos seguem em outra postagem. Ler a sequência aqui.