terça-feira, 2 de abril de 2024

Vendo filmes (XV)


 

Refeição Cultural

Sem atitude e engajamento pessoal daquelas e daqueles que se importam com a vida, com o planeta Terra e com algo mais além de si mesmos, vamos perder a batalha que se trava neste momento na natureza


Os três filmes que comento abaixo são oportunidades para grandes reflexões de seus telespectadores. Eu demorei para escrever essa postagem por causa da dificuldade de colocar em poucas palavras algo pessoal que avalio valesse a pena comentar.

Dois dos filmes são apocalípticos, nos fazem ver e imaginar o fim do mundo, se não o fim do mundo como estamos acostumados no cotidiano, o fim de um mundo recheado de ilusões que nos cegam sobre a realidade caótica ao nosso redor e que ninguém para pra pensar. 

O que faz uma pessoa poder andar pelas ruas, pelo mundo, entre estranhos, tendo uma certeza ou sensação de que está segura e nada vai acontecer a ela pelo simples fato de encontrar-se com um estranho? 

Respondo: a sociabilidade humana, a solidariedade e o respeito ao outro como um ser que tem direitos humanos básicos como o direito à vida, assim como os familiares desse estranho e seus grupos de afinidade. E as leis e direitos nacionais e internacionais. Esse direito não é natural, não é da natureza, é uma criação e só se realizará e se manterá se for preservado por nós.

A fase atual do capitalismo com sua consequente produção de miséria para a quase totalidade da espécie humana está fazendo com que desapareça a conquista social construída coletivamente por milênios de podermos viver em meio a estranhos, com direitos humanos minimamente estabelecidos e pactuados por todos, direitos que nos dão uma espécie de sensação de não sermos ameaçados por n motivos só por estarmos em lugares estranhos e com pessoas que nunca vimos na vida.

As corporações capitalistas e os homens por trás delas são responsáveis por modificar a espécie humana em outra coisa, em outro tipo de animal, e isso está acontecendo de uma forma acelerada como nunca houve nesta curta passagem do homo sapiens pela Terra. Ao nos coisificarmos no capitalismo, ao sermos coisas com valores de uso e não uso - mercadorias -, nossas vidas passam a ter níveis de importância, umas valendo mais e muitas valendo nada, podendo ser eliminadas.

Os filmes comentados abaixo me fizeram pensar do passado familiar ao presente e futuro coletivo. Os filmes não tratam da temática "capitalismo", mas podem ser pensados como cenários possíveis por causa dessa forma de nos colocarmos no único lugar no universo onde há condições para abrigar a multiplicidade de vidas que há aqui na Terra. Lugar que está sendo destruído por nós a partir do modo capitalista de utilizar a natureza.

Gosto de filmes assim. Sigo refletindo. E me esforçando para tentar fazer mais pessoas refletirem sobre a atualidade e a tendência ruim para onde estamos indo. Faço isso atualmente através de meus textos.

Abraços,

William Mendes

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FILMES

A Estrada (2009) - Direção: John HillCoat. Baseado no livro homônimo de Cormac McCarthy. Com: Viggo Mortensen, Kodi-Smit-McPhee, Charlize Theron. 

Sinopse: num mundo pós-apocalíptico, quando de uma hora para outra a natureza colapsou, pai e filho pequeno tentam sobreviver pela estrada com a esperança de alcançar o Sul dos Estados Unidos indo para o mar.

Comentário: é um dos filmes distópicos mais impactantes que já vi. Relutei em rever porque a estória é foda demais. 

O que seria mais factível num mundo colapsado? Zumbis atacando pessoas ou pessoas sobreviventes atacando pessoas? Seria possível haver pessoas boas e solidárias ainda num cenário desses? 

Eu não sou muito fã de filmes de zumbis porque achava a ideia muito irreal. Não acho mais! Não acho, pois agora imagino o sentido metafórico de zumbis... as redes sociais e a manipulação de pessoas pelos algoritmos é uma realidade que está aí. Sob certo ponto de vista, estou cheio de zumbis ao meu redor, e eles podem me atacar como nos filmes, é só acionarem o apito de cachorro para esses zumbis agirem... quem diria que esse dia distópico chegaria...

O filme A Estrada não é dessa espécie de cenário distópico como no filme Guerra Mundial Z (comentário aqui), o filme retrata outro tipo de cenário apocalíptico. A natureza no planeta Terra colapsou de uma hora para outra e as condições de vida no mundo se tornaram inviáveis. Plantas e animais morreram. O que seria dos seres que ainda vivem enquanto houver o que comer? Por algum tempo, os sobreviventes vão procurar comidas estocadas, enlatados. E depois? O filme nos coloca neste cenário. É pavoroso!

Eu me senti entrando num cenário parecido com o do filme quando li o livro-denúncia de Eliane Brum - Banzeiro òkòtó: uma viagem à Amazônia centro do mundo (comentário aqui). Também é desesperador o que a jornalista nos conta. A natureza está sendo destruída de forma acelerada... foda isso! 

Amig@s, a natureza está morrendo assassinada por nós, a espécie humana. Enquanto escrevo esta frase me arrepio por clamor da consciência... Estamos causando uma extinção em massa, os mares e rios estão fervendo e não será possível a manutenção dos seres vivos nesses ambientes dessa forma. Estamos destruindo os biomas naturais que ainda existem por ganância, por falta de alternativa para a manutenção da vida de forma mais sustentável e ecológica. Devemos interromper o capitalismo se quisermos ter uma chance. 

Afirmo: - Socialismo ou o fim da vida humana!

O que mais me apavorou no filme A Estrada é que estamos caminhando para aquele cenário e nós podemos fazer algo agora, já, e não percebo que vamos agir para interromper o fim. E o ser humano é de uma inteligência extraordinária, com capacidade para criar soluções para nos salvar... mas teríamos que querer isso e formar maiorias para mudarmos o presente e sonharmos com um futuro alternativo.

Faremos isso? Você, amig@ leitor(a), está ao menos se preocupando com isso? Sem o envolvimento e engajamento pessoal daquelas e daqueles que se importam, vamos perder essa batalha pela manutenção da vida na Terra.

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O Castelo de Vidro (2017) - Direção: Destin Daniel Creton. Com Brie Larson, Woody Harrelson, Naomi Watts e elenco.

Sinopse: filme baseado em fatos reais retrata a vida da família da jornalista Jeanette Walls, de pais libertários, a mãe pintora (Watts) e o pai (Harrelson) um faz tudo muito inteligente, e alcoólatra. As crianças tiveram que cuidar umas das outras ao longo da infância e adolescência.

Comentário: um filme que faz o espectador pensar na vida. A história da família Walls provavelmente toca cada pessoa em alguma reminiscência que ela tenha da família e do passado. Durante o filme, pensei no meu tio que acabou perdendo a vida para o alcoolismo, um cara muito inteligente, gente boa pra caramba, e que acompanhei o processo de sua derrota para o álcool, até a própria família não aguentar mais. A habilidade de fazer coisas diversas do pai de Jeanette me lembrou meu próprio pai, inventor de chuveiro de água quente com canos de PVC aquecidos pelo sol e tudo quanto é coisa inventada em casa. Me lembrou um pouco a infância porque me recordei de primos e primas sozinhos se virando desde pequenos. Como disse, a história da família Walls deve tocar em cada espectador de forma pessoal, pois muitos de nós temos histórias de família com aquelas situações que vimos ali. Gostei do filme! Gostei do desfecho da história.

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Apocalipse Now (1979) - Direção: Francis Ford Coppola. Baseado no livro de Joseph Conrad "Heart of Darkness". Roteiro de John Milius e Coppola. Com: Marlon Brando, Martin Sheen, Robert Duvall, Laurence Fishburne, Dennis Hopper, Harrison Ford e elenco. 

Sinopse: filme retrata a Guerra no Vietnã. O Capitão Benjamin Willard (Sheen) das operações especiais dos EUA recebe a missão de encontrar e exterminar o Coronel Walter E. Kurtz (Brando) porque o governo norte-americano entende que Kurtz se tornou um renegado e enlouqueceu tendo um exército próprio que o trata como um semideus. Ele se encontra nas florestas do Camboja e Willard deve seguir até lá pelos rios com uma pequena embarcação e tripulação restrita.

Comentário: revi Apocalipse Now dias atrás e o filme é espetacular! A ideia da loucura é a chave para entender a questão das guerras do passado e do presente. Mas não só a ideia da loucura, mas a da razão também. Por trás de uma guerra há método, há cálculo, há homens com desejos de poder e vaidade sem preocupação alguma com qualquer pessoa, comunidade e com a natureza. A guerra é uma ação humana, demasiadamente humana!

Como são marcantes as cenas mais icônicas de Apocalipse Now

- A chegada dos helicópteros norte-americanos com alto-falantes tocando "Cavalgada das Walquírias", de Richard Wagner, ao vilarejo vietnamita e em seguida o bombardeio arrasando mulheres, idosos e crianças... tudo isso para liberar a praia para uns fdp surfarem... 

- O jovem negro dançando "(I Can't Get No) Satistaction", dos Rolling Stones, no pequeno barco subindo o rio rumo ao Camboja, em busca do Coronel Kurtz... depois o que os jovens norte-americanos fazem com pescadores vietnamitas no rio...

- Os momentos embalados pela trilha sonora "The End" do The Doors... (Puta merda! Demais). 

- O silêncio e o suspense na mata ao se procurar mangas e ao invés de topar com um soldado vietnamita dar de cara com um tigre...


ELES, SEMPRE ELES - Fiquei pensando nas razões da guerra no Vietnã e na loucura daquela guerra, do genocídio daquele povo, Napalm... Evidente que as imagens se multiplicam na mente e nos trazem os Estados Unidos da América como o causador de todas as guerras da modernidade, todas as tragédias humanitárias dos últimos dois séculos, eles, sempre eles, aqueles que se definiram como os donos do mundo... massacre dos palestinos com anuência deles, Ucrânia e Otan procurando a 3ª guerra em solo europeu com eles por trás, a miséria material da ilha cubana pelo bloqueio imposto por eles, as guerras de destruição em massa no Iraque, Líbia, Afeganistão etc para assentar uma empresa de petróleo em benefício da Roma atual... Que merda tudo isso! O golpe no Brasil por causa do Pré-Sal, hoje entregue a eles... Até quando? Quando essa Roma cairá definitivamente? Sei que vão cair atirando, mas uma hora esse império decadente vai acabar. Nada é para sempre!

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A postagem anterior desta série sobre filmes pode ser lida aqui.


segunda-feira, 1 de abril de 2024

Língua Espanhola I - Ano 2002 (II)



Refeição Cultural

Revisita aos estudos de graduação na FFLCH-USP


Folheando um pouco a apostila do primeiro ano de estudos de idiomas, achei interessante rever o fenômeno do Yeísmo na Língua Espanhola.

Para deixar uma referência atual, cito abaixo a definição do fenômeno do dicionário da Real Academia Española (RAE):

Yeísmo - 1. m. Fon. Desaparición de la diferencia fonológica entre la consonante lateral palatal y la fricativa palatal sonora, de manera que, en la pronunciación, no se distinguen palabras como callado (silencioso, reservado) e cayado (bastón, palo).

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Na apostila, tem uma seção inteira dedicada ao tema. Transcrevo o texto abaixo para fins didáticos.

LL - Y (delante de vocales)

La pronunciación de los fonemas representados por la LL e por la Y (esta con vocales) se hace distintamente en el mundo hispánico.

a) Distinción entre LL / Y: la LL se pronuncia como la LH del portugués y la Y con un sonido consonante. Algunos hablantes de España y de buena parte de América (sobre todo del altiplano andino) distinguen la pronunciación de estos fonemas, pero actualmente hay una fuerte tendencia a igualarlos.

b) El yeísmo: consiste en igualar la pronunciación de la LL a la de Y. El yeísmo está muy difundido en Hispanoamérica, aunque presente diferencias, por exemplo: en la región del Río de la Plata, la LL/Y suenan como la J del portugués, en Chile la pronunciación de estos fonemas es más suave que la pronunciación rioplatense y en el Caribe la pronunciación de la LL/Y se aproxima de una I. En España el yeísmo se está imponiendo a la distinción LL/Y.

Según Manuel Seco, el yeísmo existe hoy en España (ou seja, 2002): en toda Andalucía, en Murcia (sólo en las ciudades), en Extremadura, en Castilla la Nueva (principalmente en Madrid, Toledo y Ciudad Real), en Castilla la Vieja (Ávila, Valladolid), en Cantabria (Santander), en León (Salamanca, capital), en Asturias (Oviedo y Gijón), en Cataluña (Cuencas del Ter y Llobregat) y las Islas Baleares y Canarias.

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COMENTÁRIO:

Como falante de língua portuguesa que aprendeu língua espanhola, posso dar o depoimento de experiências locais ao ouvir falantes de espanhol.

Já estive em Madri e Toledo, na Espanha. Já estive também no Chile, Argentina, Uruguai e em Cuba. Por ter estudado o idioma, fiquei atento aos falares nessas regiões.

De fato, na Argentina e Uruguai é muito claro o Yeísmo com som de J ou CH do português. No Chile é bem suave a pronúncia. Em Cuba eu consegui perceber o som mais próximo ao I. E a fala dos espanhóis de Madri é bem mais "cantada" em relação às falas dos hispano-americanos.

O estudante de espanhol precisa treinar o ouvido para os diversos "acentos" dos falantes da língua.

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LA "LL"

CALLE  VILLA  LLORAR  LLUVIA  CALLISTA  ESTRELLA

No hay pueblo como mi pueblo,

ni valle como mi valle,

ni casa como mi casa,

ni calle como mi calle.


La chiquilla, con la lluvia, a la villa lleva la llave.

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LA "Y"

AYUDAR    YERNO    YA    YO    YUGULAR    HOYO

Ya viene mayo, mayo,

Ya viene el rumbo,

Ya viene la alegría

pa todo el mundo.


¡Ay, mal haya, mal haya

mi cobardía,

que por ser yo cobarde

no eres tú mia!


El yerno del yegüero da yerba a la yeguada.


Referências: Valmaseda Regueiro, 1992.

Textos y grabaciones adaptados de BRUNO, Fátima C. & MENDOZA, Maria Angélica. Hacia el español 1. São Paulo, Saraiva. Unidad 8, Hacia Letras y Sonidos.

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Tradución:

Yerno: genro

Yegua: hembra del caballo

Yerba: erva, capim

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A primeira postagem deste tema pode ser lida clicando aqui.

William


Fonte: Apostila da Faculdade de Letras/USP, 2002.


domingo, 31 de março de 2024

Diário e reflexões - Março



Refeição Cultural - Março

Osasco, 31 de março de 2024. Domingo, fim de noite.


O que marcou o meu mês de março?

A cada dia que passa vejo o quanto meu blog contribui de alguma forma para minhas reflexões e aprendizagem sobre os mais diversos temas da cultura e saber. 

Quando estou na produção de um texto, contribui na pesquisa que faço para não escrever algo incorreto ou sem sentido; quando estou relendo textos passados, contribui na avaliação que faço se ainda penso daquele jeito ou se minha percepção do tema mudou ou evoluiu. 

Hoje, gostaria de ter uma coletânea de pensamentos meus anteriores à criação do blog. Eu tenho muitos textos escritos e perdidos pela casa, textos que procuro e não acho. 

Ao ver que meus textos ainda são lidos por muitas leitoras e leitores, mais responsabilidade tento ter a cada postagem que faço.

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MARÇO

Pensando sobre o que de fato aconteceu ou não aconteceu e poderia ter acontecido e que tenha alguma relação comigo neste mês de março, de imediato penso na questão dos 60 anos do golpe de 1964, nas eleições da Cassi, na minha participação no planejamento de uma importante autogestão em saúde, nas mídias que vi ou li e que me trouxeram conhecimentos e ou visões novas sobre a existência.

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1. 60 ANOS DO GOLPE DE 1964

Acabei de voltar da 4ª Caminhada do Silêncio - 31/03, 60 anos do golpe militar de 64, para que não se esqueça, para que não continue acontecendo -, manifestação em São Paulo que se concentrou no antigo DOI-CODI/SP, na Rua Tutóia, e caminhou até o Monumento em homenagem aos mortos e desaparecidos políticos, no Portão 10 do Parque do Ibirapuera. Foi uma manifestação marcada por muita emoção e indignação. Fico feliz de poder ter participado!

Esse tema da história do Brasil marcou o meu mês de março. Eu fui uma das pessoas que se chateou com Lula e que até agora tenta fazer os cálculos a respeito da tomada de decisão do nosso governo de não aproveitar a data dos 60 anos do golpe para homenagear as vítimas da ditadura e reforçar a fé na democracia, golpe que afundou o país e a vida do povo por décadas num regime de exceção com violência do Estado, morte de opositores e censura.

Lula é um gênio da política, um estadista, um democrata e um pacifista, Lula é minha referência desde que passei a votar e desde que virei dirigente sindical e estudei a história do movimento cutista e petista. Dito isso, afirmo que sigo apoiando e confiando em nosso líder. Um presidente de um país tem muito mais informações que nós, muito mais! Lula deve saber o que está fazendo.

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2. ELEIÇÕES NA CASSI

Neste mês de março ocorreram as eleições para renovação de parte da direção e conselhos de nossa Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil (Cassi).

A diretoria de planos de saúde e as vagas do conselho deliberativo tiveram três chapas concorrentes, o mesmo para as vagas do conselho fiscal. O resultado das eleições foi divulgado no último dia 25 de março.

Essas eleições na Cassi mexem comigo. Eu fui gestor eleito da autogestão e passei a ter um sentimento de amor pela Caixa de Assistência desde que lá estive. Eu mergulhei por quatro anos na história e no fazer-saúde da associação de uma forma sem retorno. A Cassi passou a ser para mim uma mãe, uma filha, uma relação do coração. Sofro sempre que acho que a Cassi poderia estar melhor.

A chapa eleita foi a chapa organizada pelo nosso sindicato de base, o sindicato ao qual tenho uma relação de mais de três décadas de vida bancária. Apesar de ser um sindicalizado e de ter sido diretor da entidade sindical por 4 gestões e de ter sido diretor eleito da Cassi, a direção do sindicato optou por não ouvir a minha opinião sobre as eleições Cassi em 2020, 2022 e agora. 

É uma opção da direção, principalmente do Coletivo BB, do qual faço parte de sua história. Pelo papel que desempenhei como dirigente nacional da categoria, da corrente política e do próprio fórum, poderia questionar a conduta, internamente. Mas não é de minha personalidade fazer isso, jamais faria.

Nestas eleições da Cassi, uma das gestoras eleitas é uma das responsáveis pelas mentiras (fake news) inventadas contra mim em carta assinada em redes sociais desde os primeiros meses de trabalho em 2014. Ela faz parte de um dos principais grupos políticos à direita no movimento da comunidade BB. As mentiras inventadas por ela foram as mesmas citadas em carta anônima no final de 2017 usada num lawfare contra mim. 

Desejo sucesso à nossa Caixa de Assistência, pois a Cassi é responsável pela vida de mais de meio milhão de pessoas.

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3. COMPARTILHANDO CONHECIMENTOS DE GESTÃO EM SAÚDE

Meu mês de março foi marcado também pela participação no planejamento estratégico de uma importante autogestão em saúde, a Unafisco Saúde do Sindifisco Nacional, Sindicato dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil. 

Eu tenho um compromisso ético com a classe trabalhadora à qual faço parte: compartilhar todo o conhecimento e experiência que adquiri ao longo da vida, principalmente durante meus estudos como dirigente sindical dos bancários e, na medida do possível, de forma gratuita. Este blog é uma ferramenta utilizada para isso, compartilhar o que sei e minhas opiniões sobre as questões da sociedade humana.

Ao ser convidado para compartilhar a experiência de ter sido gestor de uma autogestão em saúde dos trabalhadores, tratei logo de acertar qual seria a melhor forma de contribuir. E deu tudo certo, fui acolhido pela direção do Sindifisco e suas equipes com carinho e respeito. Fiquei encantado com o trabalho que eles estão realizando lá. Desejo muito sucesso a eles.

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4. MÍDIAS DE CULTURA

O mês de março também foi um mês de aquisição de conhecimentos, de estudos e de novas formas de pensamento. 

Após visitar Cuba novamente em fevereiro, e estar em contato com Frei Betto, passei a ler um pouco a respeito do grande intelectual dominicano e passei a ler sua obra também.

Neste mês de março, consegui ler umas 150 páginas da biografia que tenho de Frei Betto. Já li o primeiro livro dele que trouxe e vou ler três obras do dominicano nos próximos meses.

Vi filmes que me deixaram pensativo neste mês. Tenho escrito comentários no blog sobre filmes que mexem comigo. 

Como disse, ao utilizar o blog para escrever sobre livros, filmes, revistas, estudos que faço, acabo desenvolvendo saberes novos e autocrítica. Até os animes que tenho visto com esposa e filho têm me trazido reflexões interessantes.

É isso. Sigamos estudando diariamente.

Encontrei muitas respostas para questões que pautaram buscas de décadas de meu viver. Estou pensando em novos questionamentos para seguir com minhas buscas.

Agora, busco mais conhecimento e busco motivos para seguir. Os laços familiares são os motivos mais fortes para seguir neste momento. 

Quero mais motivações, as coletivas.

William


Leituras Capitais - Anistia de novo, não!



Refeição Cultural - CartaCapital nº 1303

Osasco, 31 de março de 2024. Domingo.


ANISTIA DE NOVO, NÃO

Depois de semanas sem conseguir ler uma revista inteira, li a edição 1303 de CartaCapital. Reportagens e artigos excelentes, como sempre!

A matéria de capa me faz ter a leitura pessoal que haverá o inverso do que se clama, ou seja, os golpistas maiores - os fdp de sempre - ficarão impunes, serão anistiados... 

Essa história de se escolher uns três ou quatro desgraçados para serem sacrificados para aliviarem a pressão pelas merdas já feitas da casa-grande e esquecer o que centenas de fdp fizeram e fazem e farão sempre em relação a novos golpes e novos processos de ferrarem com o país e o povo já deu pra minha paciência! Já deu!

Na minha opinião, a gente tinha que entender que o tempo de conciliação de classe acabou! Acabou! Agora a fase é outra no mundo, no capitalismo. A fase é do 1% nos eliminar! Caralho, vamos seguir permitindo isso sem reagir? Vamos seguir na base de nossos corpos versus as balas e bombas deles?

DIREITOS DEVEM SER DEFENDIDOS

O artigo do advogado e professor Pedro Serrano mexeu tanto comigo que me deu o mote para um longo artigo sobre a luta por direitos, que não são coisas naturais e sim criação humana e por isso precisam ser defendidos. Meu artigo é também um desabafo, mas paciência! (ler artigo aqui)

MORTE DOS CORAIS NOS OCEANOS

A matéria sobre a emergência climática e a consequente morte dos corais nos oceanos por causa do aquecimento de 1 a 2ºC das águas marinhas (já subiu 1,2ºC) é daquelas de fazer o comportamento humano ou desistir das lutas e ligar o foda-se ou ficar desesperado para fazer alguma coisa para interromper e reverter o processo.

LUTA PELA ÁGUA E COMIDA NO MUNDO

A matéria seguinte "Cuidado compartilhado" (p. 30/31) aborda o tema das reservas e ambientes no mundo que podem ser motivo de disputas violentas entre países e corporações ou podem ser motivo de se criarem e fortalecerem instituições multilaterais para um convívio pacífico entre os povos do mundo...

Pelo andar da carruagem, estamos ferrados... a realidade demonstra que a ONU e as instituições criadas para processos de convivência em paz após a 2ª GM perderam o poder de interceder e agora o que vigora é a força e as armas e a violência dos impérios...

ECONOMIA

As matérias da seção de economia estão excelentes.

O Brasil só não se ferrou mais ainda com os efeitos climáticos porque o governo Lula (PT) está reconstruindo os estoques reguladores de comida, o que ajuda no controle da inflação dos alimentos. Mas não tem muito efeito nos hortifrutis, que precisam ser descentralizados na produção por todo o país.

O artigo de Paulo Nogueira Batista Jr. - "O Brasil e o jardim Europa" - é daqueles que nos assustam porque ele que é alguém que está sempre ao lado do governo Lula se mostra inconformado com a sandice de se manter o desejo de concluir o acordo ruim UE-Mercosul, onde só quem ganha é a Europa com sua visão neoliberal e neocolonial de mundo. Eles são o jardim do mundo e o resto do mundo é a selva, segundo o negociador da União Europeia.

Por fim, excelente estudo - "Para o bolso dos patrões" (p. 38) - que mostra que o país e o povo só se ferraram com as desonerações para os 17 setores de empresários que ficam mais bilionários enquanto a previdência pública empobrece e os empregos diminuem nos setores beneficiados. Que merda!

NOSSO MUNDO

Seção que adoro! Nesta edição, enquanto eu lia sobre a vitória de Putin na Rússia, via pela imprensa o massacre que fizeram lá após a vitória do novo czar. O atentado terrorista deve ter dedo de muita gente da disputa global de hegemonia...

Duas matérias que abordam os EUA - sobre o TikTok e sobre as eleições - relembram o que a gente já sabe a respeito dos Estados Unidos... ai ai ai! Façam o que eu mando e não questionem o que eu faço...

PLURAL

As reportagens da seção de cultura me fizeram pegar Shakespeare pra ler. Estou terminando "Ricardo III" por causa da matéria "Rei morto, rei ressuscitado" à página 50.

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Enfim, é sempre bom ler a revista semanal liderada pelo Mino Carta. É um excelente resumo escolhido pela redação da revista.

William

(agora vamos para a Marcha do Silêncio me somar às pessoas que lutam pela justiça e pela memória brasileira para que a ditadura nunca mais volte e para reforçar nosso clamor contra anistia aos golpistas do passado e do presente)


Post Scriptum: comentários sobre leitura da revista CartaCapital (a nº 1293) podem ser lidos aqui.


Natais - 1972


Dilma Rousseff: mulher guerreira, lutou
para que os natais do povo fossem melhores.

Refeição Cultural

"Em 1970, Dilma foi presa e submetida a torturas em São Paulo (Oban e DOPS), no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. As torturas aplicadas foram o pau de arara, a palmatória, choques e socos, que causaram problemas em sua arcada dentária. No total, foi condenada a seis anos e um mês de prisão, além de ter os direitos políticos cassados por dez anos. No entanto, conseguiu redução da pena junto ao Superior Tribunal Militar (STM) e saiu da prisão no final de 1972." (Site Memórias da Ditatura


31 DE MARÇO DE 2024

Nesta série de textos sobre os natais que fizeram parte de minha vida, e os contextos que fizeram parte daqueles natais, me deu vontade de citar a grande mulher brasileira Dilma Rousseff, tanto por ela ter sido uma mulher que enfrentou a violência do regime de exceção e do mundo machista naqueles primeiros anos de recrudescimento da ditadura brasileira, quanto por hoje ser um dia de rememorar essas lutas que fazem parte de nossa história brasileira. 

Não podemos jamais apagar a trágica história do golpe de Estado em 1964. Pelo contrário, temos que relembrar, cobrar punição aos golpistas e agentes do Estado que violentaram o povo e nossa democracia.

Nesses 60 anos do golpe, temos que dizer de maneira firme: - Ditadura nunca mais! Sem anistia para os golpistas do passado e do presente!

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Meus pais no início dos anos setenta.

NATAL DE 1972

Naquele Natal eu tinha uns três anos e nove meses e minha irmã um pouco mais. Não sei como foi o Natal da família. Não me lembro porque era muito novo. 

O que sei é que a gente morava no bairro Rio Pequeno, Butantã, região Oeste da Grande São Paulo.  

Uma coisa que era muito comum no verão, de dezembro a março, era chuva, muita chuva, e enchentes, muitas enchentes. Nossa rua tinha enchente constantemente por causa do córrego do Rio Pequeno, hoje canalizado em parte e conhecido como Avenida Politécnica, que vai até a Raposo Tavares. 

Talvez o Natal da gente tenha sido sob enchente, vai saber.

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TEMPOS DE VIOLÊNCIAS E GUERRAS

Os tempos eram tempos de violência. Imagino meus pais, pessoas simples, ao verem os noticiários naquele ano. 

No Brasil, a ditadura havia decidido eliminar qualquer grupo de pessoas que lutasse pela volta da democracia. A ordem naquele momento era executar os opositores ao regime. Vi dias atrás uma entrevista emocionante do José Genoino a Hildegard Angel falando sobre essa época.

OLIMPÍADAS DE MUNIQUE - Naqueles meses finais de 1972 o mundo havia acompanhado o atentado terrorista nas Olimpíadas de Munique, no dia 5 de setembro. Palestinos do grupo Setembro Negro invadiram os aposentos da delegação israelense e o desfecho foi a morte de diversos atletas e treinadores. 

REGIME SIONISTA DE ISRAEL E A CAUSA PALESTINA - A questão árabe-palestina havia recrudescido desde 1967, quando o governo sionista de Israel atacou de surpresa Egito, Síria e Jordânia entre os dias 5 e 10 de junho (Guerra dos seis dias), conquistando de forma ilegal a Faixa de Gaza, a Península do Sinai, Jerusalém Oriental, a Cisjordânia e as Colinas de Golã, matando milhares de árabes-palestinos e destruindo as forças militares daqueles países.

MÍDIA MANIPULADORA HÁ DÉCADAS - Se considerarmos a mídia canalha que temos hoje (2024), a mesma daquela época (os mesmos grupos), imaginem como as notícias chegavam para os meus pais e o povo brasileiro... neste momento de genocídio do povo palestino, com a Faixa de Gaza destruída e mais de 40 mil crianças, mulheres e civis palestinos mortos, não sai na imprensa empresarial uma linha contra Israel. 

Resumindo, faz mais de 50 anos que meus pais veem a mesma manipulação informativa por parte da imprensa canalha brasileira.

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ACIDENTE NOS ANDES - Outro evento que ficou conhecido no mundo em 1972 foi a queda na Cordilheira dos Andes do avião que levava jogadores de rugby do Chile. Semanas depois, alguns sobreviventes foram encontrados. Para sobreviver, tiveram que comer carne humana. 

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UNIR A FAMÍLIA - Neste 31 de março de 2024, vivo um momento de incerteza quanto ao Natal deste ano. Sinto que será difícil reunir nosso núcleo familiar mais próximo como fizemos nos últimos anos. Farei o que estiver ao meu alcance para que estejamos todos juntos nesta data de confraternização.

William


Post Scriptum: o texto anterior desta série, o ano de 1971, pode ser lido aqui. Para ler o texto seguinte, clicar aqui.

sexta-feira, 29 de março de 2024

Língua Espanhola I - Ano 2002 (I)



Refeição Cultural

Revisita aos estudos de graduação na FFLCH-USP


Entrei na Universidade de São Paulo no vestibular do ano de 2000 e comecei a cursar a Faculdade de Letras em 2001. Já não era um jovem se comparado com a maioria dos estudantes do curso noturno, que tinham uns dez anos a menos que eu. Fiz o primeiro ano do Ciclo Básico com 32 anos de idade. 

No ano seguinte, comecei a cursar a Língua Espanhola, a habilitação que escolhi durante o Ciclo Básico, juntamente com a habilitação em Português. 

O curso de graduação acabaria por se estender por muitos anos porque eu era sindicalista e todos os segundos semestres eu tinha dificuldades de assistir às aulas porque era o período de data-base da categoria bancária. Com o tempo, até os professores sabiam que eu teria dificuldades em concluir as disciplinas se a campanha dos bancários fosse complicada.

LÍNGUA ESPANHOLA

Estava revendo a primeira apostila de Língua Espanhola e achei interessante o material. Estou falando de um material didático de mais de duas décadas atrás, praticamente não existia a internet como nós a conhecemos hoje. Os estudantes de línguas tinham que ouvir fitas cassete em laboratórios para terem contato com a língua que estavam estudando.

ALFABETO

Na época do curso, o alfabeto espanhol continha 29 letras. Fui consultar agora, no curso de espanhol do ICL e a professora Pilar explicou que o alfabeto contém 27 letras porque o LL e o CH passaram a ser considerados dígrafos desde a Reforma de 2010.

Ou seja, essas mudanças acontecem nas línguas vivas, com o passar do tempo podem ocorrer mudanças nas normas e usos das línguas.

Finalizo esta postagem de revisita aos estudos de Língua Espanhola com um poema de Pablo Neruda, que nós estudamos na aula de idioma para conhecer as diferentes formas de falar LL e Y porque existe o fenômeno do Yeísmo na Argentina e Uruguai, com o som diferente da maioria dos países que falam a língua.

POEMA XV

Me gustas cuando callas

porque estás como ausente

y me oyes desde lejos

y mi voz no te toca.

Parece que los ojos

se te hubieran volado

y parece que un beso

te cerrara la boca.

Me gustas cuando callas

porque estás como ausente,

y estás quejándote,

mariposa en arrullo,

y me oyes desde lejos

y mi voz no te alcanza.

Déjame que me calle

en el silencio tuyo.


(In: XX poemas de amor y una canción desesperada)


A apostila perguntava para os alunos, após ouvirem o poema declamado por uma pessoa da Espanha e outra da Argentina, qual era a diferença que mais chamava a atenção.

O Yeísmo, um som mais de "lh" na Espanha e mais de "ge" ou "dje" na Argentina. O LL e o Y também podem ter um som mais próximo ao "i" em algumas regiões de fala espanhola como no Caribe, por exemplo.

Fiz uma postagem sobre o fenômeno do Yeísmo, para ler é só clicar aqui.

É isso. As minhas lembranças da Universidade de São Paulo são algumas das melhores de minha vida de estudante. Entrei lá pensando em ser professor, mas as veredas da vida me levaram para outros caminhos.

William


quinta-feira, 28 de março de 2024

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 28 de março de 2024. Quinta-feira.


A ÉTICA E A LUTA POR DIREITOS UNIVERSAIS

"Os direitos não são dados da natureza, e sim uma criação humana. Para existirem, devem ser defendidos de ataques." (Pedro Serrano, em CartaCapital, nº 1303)


Direitos não são coisas do mundo natural. São criações do animal humano. A gente não para pra pensar numa coisa até que alguém nos faça pensar a respeito dela.

A frase do advogado e professor de Direito Constitucional Pedro Serrano, que abre esta reflexão, é essencial para alguém que se pensa de esquerda e humanista! É um alerta para que as pessoas entendam que um direito só existe por ter sido criado antes e só existirá se for defendido pelas gerações seguintes, pois a realidade material e histórica é feita a cada dia, a cada dia.

No mundo animal não existe o direito "gazélico" à vida em relação aos predadores da espécie. Não existe o direito "pombiano" à vida em relação aos gaviões e carcarás. O direito humano à vida é uma criação da espécie humana após milênios de constituição e organização social. E nenhum direito é direito adquirido em certo sentido, porque se não houver luta para a manutenção do direito, vêm novos "predadores" da própria espécie humana e nhac! (nos devoram)

E eu acrescento uma ideia que tenho clareza a cada dia que vivo: a única certeza que temos é que tudo muda o tempo todo, a mudança pode até não ser percebida por causa da temporalidade de algumas mudanças, mas tudo muda... Lembram do ensinamento quando estudantes? Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma (Lavoisier)... pois é! É bem isso!

Pensando no conceito do direito a partir da explicação de Pedro Serrano, me lembrei também da palestra de Frei Betto, em Havana, semanas atrás, quando ele explicava conceitos a respeito de moral e ética, e em certo momento ele citou um conceito chamado de "ignorância invencível". 

De forma simples, o que entendi foi que a moral traz questões de cultura e por isso pode variar de acordo com épocas e locais. A ética é um esforço para se universalizar direitos humanos básicos. E a ignorância invencível tem alguma relação com a dificuldade de se alterar uma questão moral que talvez se oponha a questões de ética ou direitos universais que se constroem ao longo do tempo por ser a moral mais prevalente na cultura local.

Enfim, essas reflexões sobre questões morais e éticas, e sobre direitos, se não sensibilizarem as leitoras e leitores do blog, pelo menos já serviram para tocarem a mim mesmo, enquanto pensei sobre elas. 

Como um ser político politizado no movimento sindical, pois fui político que se politizou na prática cotidiana ao longo de uma vida na categoria bancária, ainda hoje sofro as agonias das decisões pessoais sobre o que fazer a cada dia que acordo, mesmo não pertencendo mais aos quadros do movimento ao qual militei.

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A QUESTÃO DO PERTENCIMENTO ÀS DIVERSAS COMUNIDADES IMAGINADAS PELOS SERES HUMANOS

Ouvi a entrevista de Roberto Requião ao Blog do Esmael falando sobre sua saída do Partido dos Trabalhadores, as razões e os porquês. O político paranaense nunca foi um militante histórico do PT, é claro, mas sempre foi um político elogiável, de uma vida pública exemplar, assim como o nosso companheiro Lula, esse sim figura histórica do PT. As críticas que Requião faz ao partido são críticas que muitos de nós, militantes e filiados, fazemos nos debates internos do dia a dia.

Eu vivencio um conflito pessoal já faz algum tempo sobre a questão do pertencimento ou não a determinadas comunidades humanas que de uma forma ou outra me vinculei ao longo de minha existência. A denominação "Comunidades Imaginadas" estou emprestando de Benedict Anderson, que tem um livro com esse nome e com um conteúdo impactante. Avalio que o conceito de Anderson mais as explicações do neurocientista Miguel Nicolelis sobre o cérebro humano preenchem meu entendimento sobre o que nós somos. Tenho isso muito mais claro hoje.

Ao olhar para trás, faço uma leitura simples de minha vida pregressa. Poderia dizer que a minha conduta moral fui adquirindo na infância e adolescência a partir da família e das comunidades onde me criei. Para o bem e para o mal. A moral dos ambientes onde me aculturei prevaleceu até bem depois dos trinta anos de idade. Foi dessa fase da vida que adquiri valores que tinha à época como intolerâncias e preconceitos. Até pena de morte eu defendia... o poder da cultura e da moral dos ambientes onde me aculturei eram grandes: ideologias.

Dos trinta anos adiante, poderia dizer que tive acesso a uma cultura da ética, foi o período no qual virei dirigente eleito pelos colegas bancários para representá-los numa grande organização social, uma comunidade imaginada pela classe trabalhadora: um sindicato. Foram anos aprendendo política para que a ética prevalecesse sobre valores morais que eu trazia comigo: questões de gênero que eu desconhecia, do direito à vida, respeitar as visões de mundo dos outros, questões de políticas afirmativas etc. 

Seria uma negação falsa tanto do Sindicato e suas diretorias quanto minha se tentássemos esconder que eu sou fruto da formação política do nosso sindicato de bancários, bem como negar que eu tenha deixado minhas contribuições desde 1988 às lutas e conquistas empreendidas por nossa entidade de classe. Sou capaz de lembrar de diversos momentos decisivos em décadas de lutas da categoria, principalmente na corporação dos funcionários do Banco do Brasil, nos quais tive um papel que contribuiu para a reflexão coletiva e o resultado do processo de luta.

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A CASSI, A LUTA POR DIREITOS E A ÉTICA

Quando cheguei eleito pelos trabalhadores da ativa e pelos aposentad@s à diretoria de saúde da Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil levei algumas semanas para compreender qual seria o meu papel por 4 anos à frente daquela autogestão em saúde. O planejamento estratégico da diretoria, que fizemos em agosto de 2014, foi o meu suporte para enfrentar os desafios que teria pelo caminho.

Eu ocupava uma posição de liderança na comunidade BB em nível nacional. Saí da coordenação da comissão sindical que negociava com o banco, governo e sindicatos para ser gestor da área de saúde de nossa operadora Cassi. De sindicalista generalista em direitos da comunidade BB e do mundo do trabalho, precisei estudar ininterruptamente as questões técnicas do mundo da gestão em saúde. E fiz isso por 4 anos, com jornadas de trabalho duplas e triplas em relação à da categoria bancária. Quase não dormi durante o mandato (*vagabundo?).

Eu tinha objetivos políticos a cumprir definidos pelos sindicatos que me apoiavam e tinha objetivos técnicos e políticos a cumprir pelo planejamento estratégico de nossa diretoria de saúde. 

Pelo lado dos trabalhadores defender a manutenção dos direitos em saúde, não permitindo a quebra da solidariedade no custeio do plano - o que significava evitar o desejo do patrão de impor tabelas de mensalidades maiores por idade e cobrar por dependentes -; não permitir a redução da participação dos associados na gestão da operadora e lutar para que o patrocinador assumisse a sua parte na responsabilidade de injetar novos recursos para reequilibrar as contas da operadora de saúde, que por décadas enfrenta déficits recorrentes a cada período de tempo.

Pelo lado da gestão da diretoria de saúde, eu tinha uma missão desafiadora: apresentar a Cassi e seu modelo de saúde aos atores envolvidos (stakeholders), pois a autogestão era uma desconhecida de seus participantes em nível nacional: assistidos e suas representações, o banco e seus gestores no país, e até os funcionários da Cassi teriam que atuar numa sintonia melhor para proteger e fortalecer a Caixa de Assistência na sua dura missão de usar os recursos para comprar no mercado privado soluções em saúde, sendo o mercado o consumidor de todo o recurso dos associados da operadora. Interesses antagônicos entre Cassi e rede privada de saúde. A Cassi focada em saúde e a rede privada focada em doenças e o lucro que elas geram aos capitalistas. E ainda tinha a judicialização crescente, por incompreensão e por estímulo externo à Cassi.

Além dessa missão de aproximar stakeholders e colocá-los nos mesmos objetivos da Caixa de Assistência, como diretor do modelo assistencial de Estratégia de Saúde da Família (ESF), forma de Atenção Primária (APS) definida como a ideal na autogestão desde 2001, através de uma estrutura própria de atendimento primário - CliniCassi - e dali para um uso mais adequado da rede credenciada, como diretor responsável eu teria que desenvolver estudos que de alguma forma comprovassem a eficiência do modelo para a direção do banco e do movimento de representação dos associados. Por mais que tenha sido difícil por dificuldades técnicas, nós cumprimos essa missão, com o apoio do corpo funcional da Cassi, e comprovamos a eficiência do modelo.

OBJETIVOS DO PLANEJAMENTO FORAM ALCANÇADOS - Enquanto fui gestor eleito (2014-2018) a solidariedade foi preservada no custeio estatutário, nenhum direito foi retirado dos associados; a Cassi teve uma gestão participativa com 54 conferências de saúde presenciais (estive em 53 delas); estive em dezenas de participações da direção em fóruns democráticos de saúde; a partir de minha busca ao movimento sindical em dezembro de 2014, construímos uma mesa nacional permanente de negociações com o patrocinador para buscar soluções sobre o custeio da Cassi; desenvolvemos estudos técnicos que comprovaram a eficiência da ESF em participantes vinculados ao modelo (cerca de 50 mil assistidos, a maioria com mais comorbidades e que, mesmo assim, usavam melhor a rede credenciada e os recursos da operadora); criamos formas de comunicação importantes como um boletim mensal e mais de 600 matérias em blog que aproximaram stakeholders da direção da Cassi.

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E A ÉTICA? NA POLÍTICA, VALE TUDO?

*Vagabundo? Essa parte das reflexões resume um pouco do subtítulo que trata dos temas Cassi, da luta por direitos e da questão da ética. Mesmo sem discorrer a respeito, é possível que as leitoras e leitores imaginem os percalços que precisei superar para realizar esses objetivos do mandato na autogestão dos trabalhadores do BB.

A cada mês de trabalho, tivemos que superar dúvidas e desconfianças normais do mundo da gestão em saúde e da política, questionamentos por parte dos stakeholders, e também acusações levianas, mentirosas (fake news) que foram usadas como estratégia para impedir o nosso trabalho na defesa daqueles objetivos que enumerei acima.

Poucos meses depois de iniciado o nosso trabalho, duas ex-diretoras da Cassi, de um grupo político à direita no movimento da comunidade BB, publicaram a 1ª agressão a mim insinuando que eu não trabalhava... 

Enquanto eu estudava centenas de textos mensais sobre a Cassi que deliberávamos semanalmente, enquanto eu fazia a gestão das unidades Cassi de minha responsabilidade nos Estados, enquanto eu visitava a direção do banco para construir uma agenda de saúde para os funcionários e enquanto eu diminuía as tensões entre usuários e suas representações e a Cassi, por esta ter dificuldades de rede credenciada e outras realidades de operadoras de saúde - inclusive palestrando em conferências de saúde -, aquelas senhoras de um importante grupo político de direita faziam campanhas nas redes sociais da comunidade dizendo que eu não trabalhava... E minha agenda foi pública do 1º ao último dia de gestão na diretoria de saúde.

Depois, ao final do mandato, inventaram um processo administrativo contra mim baseado em "carta anônima" sem pé nem cabeça, me acusando das mesmas fake news que circulavam nas redes daquele segmento à direita, de que eu não trabalhava blá blá blá. Foram meses de assédio e humilhações em silêncio (dezembro de 2017 a maio de 2018). Nossa defesa desconstruiu todas aquelas mentiras. O processo de lawfare foi usado contra nós nas eleições daquele momento. Os objetivos dos adversários foram alcançados em parte. O efeito político deu certo. O efeito jurídico e civil não deu, pois o processo foi arquivado por não ter prova alguma daquelas mentiras.  

Pois é, uma daquelas senhoras que inventou mentiras a meu respeito acaba de ser eleita gestora da Cassi de novo, com o apoio do meu sindicato de base. A política tem dessas coisas. O meu sindicato nunca mais me chamou para conversar sobre a Caixa de Assistência, autogestão que conheço um pouco mais que a média das pessoas. Não fui chamado sequer como um associado do Sindicato, em tempos nos quais a sindicalização está cada dia menor no mundo sindical. Sobre a Cassi eu não poderia desejar algo diferente que sucesso na gestão porque isso é bom para todos nós da comunidade Banco do Brasil.

Como fui politizado pelo sindicato ao longo de décadas, desde 1988 como trabalhador sindicalizado do Unibanco e por quase trinta anos de trabalhador sindicalizado do Banco do Brasil, tenho a consciência tranquila do papel que desempenhei na defesa dos direitos conquistados pela nossa comunidade e por nossa categoria profissional por cerca de 1/3 da existência do sindicato, que completou cem anos recentemente. 

Como disse na reflexão de abertura, foi no movimento sindical que adquiri ensinamentos éticos mais universais que suplantaram alguns valores morais que tinha de forma equivocada como adulto até uns 30 anos de idade. Sou grato por essa oportunidade que a vida me deu.

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A QUESTÃO DO PERTENCIMENTO A ALGUMA COISA SEGUE MARTELANDO NA MINHA CABEÇA

Experimento sentimentos que não me lembrava mais, a falta de pertencimento a grupos ou comunidades criadas pelos humanos. 

Não que eu não sinta afinidades a determinados grupos ou que não esteja inclusive ligado a eles formalmente. Sou filiado ao PT, sindicalizado e associado a diversas entidades da comunidade BB. 

Voto no PT desde que tirei meu título de eleitor em 1987. Mas a filiação ao partido foi só em 2002 para fortalecer o governo Lula recém-eleito. Meu pertencimento ao movimento sempre foi sindical, bem mais que partidário. 

Com o passar dos anos de representação sindical e com os estudos fui me politizando e me entendendo como alguém de esquerda, como uma pessoa que pensa a sociedade livre do capitalismo e da exploração dos humanos por outros humanos. Essa é minha condição, sou uma pessoa de esquerda. 

Desde que meus conhecimentos praticamente adquiridos em uma vida de representação política passaram a ser desconsiderados pelo meu sindicato de base, berço de minha formação política, me peguei meio perdido e sem rumo por ter saído do movimento da forma mais triste que alguém poderia imaginar, sofrendo um processo injusto de lawfare e assédio moral, sem poder escrever e compartilhar com a base social que me conhecia o que estava acontecendo e antecipando minha saída do banco público para o qual dediquei o melhor de minha vida adulta de forma pouco festiva como costuma acontecer com alguém após uma vida dedicada à empresa.

Preciso virar essa página de minha vida para poder seguir mais um tempinho. Não consegui ainda. Percebo isso. Mas tenho que me libertar desse sentimento ruim, amargo, que me impede de respirar bem sem achar que o mundo é injusto, que o mundo é uma merda, que a política é uma merda, porque minha razão e minha formação ética me fazem crer que a política ainda é a salvação da humanidade, junto com a educação.

Normalmente faço meus textos em duas ou três horas. Esse começou na madrugada e só foi terminar no fim do dia. Não é fácil escolher as palavras para ser o mais cuidadoso possível em não ofender ninguém, mesmo citando detratores que me prejudicaram e se deram bem com isso. Política tem disso, como sabemos.

Chega por hoje. Registro feito. Fecho com as palavras que abriram o texto. Direitos não são dados da natureza. São criações humanas. E devem ser defendidos. História e educação são fundamentais para as novas gerações, inclusive de sindicalistas e militantes de esquerda.

Se fosse fácil, eu já teria me desvinculado dessas décadas de minha história de vida com o sindicato. Não é fácil. 

Tem um episódio marcante da série "Arquivo X" que nunca esqueci. O agente John Dogget foi sequestrado e apagaram a memória dele. Ao final da trama, ele vai tirar satisfação com o bruxo que fez isso. O cara disse que estava fazendo um favor a ele, pois assim ele deixava de sentir a dor que sentia pela morte violenta do filho dele. Dogget olha bem nos olhos do bruxo e diz que ele não tinha o direito de fazer isso, porque aquela lembrança era triste e o fazia sofrer, mas a lembrança era dele! Era a vida dele!

Talvez seja por isso que eu não consigo me desligar da minha vida sindical. Minha história no movimento sindical bancário brasileiro é um direito meu, é a minha vida também.

William


terça-feira, 26 de março de 2024

Leitura (I): Fundamentos, regulação e desafios da Saúde Supl. no Brasil - Sandro L. Alves



Refeição Cultural

Leitura de livros - anotações e comentários


A leitura do livro Fundamentos, regulação e desafios da Saúde Suplementar no Brasil, de Sandro Leal Alves, lançado em 2015, foi motivada pela necessidade de me atualizar no tema já que havia sido convidado a participar de um planejamento estratégico de uma operadora de saúde na modalidade de autogestão e eu seria uma das pessoas responsáveis por compartilhar a experiência em gestão de uma das maiores operadoras de autogestão em saúde no país, a Cassi dos funcionários do Banco do Brasil.

O convite para compartilhar a experiência e os conhecimentos que adquiri ao ter sido gestor eleito de saúde da Cassi foi feito pela Unafisco Saúde, a autogestão do Sindifisco Nacional, Sindicato dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil. Fui contatado pelo Diretor de Plano de Saúde do Sindifisco Nacional, Adriano Lima Correa, e prontamente me coloquei à disposição para compartilhar o que sei sobre o tema. Desde já, agradeço ao Adriano e ao Isac Falcão, presidente do Sindifisco Nacional, o convite, a acolhida e a troca de experiências que tivemos durante o evento da Unafisco Saúde. Desejo sucesso no alcance dos objetivos traçados no planejamento.

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ANOTAÇÕES E COMENTÁRIOS

O livro de Sandro Leal Alves é muito bem escrito, o que facilita bastante a leitura de um livro técnico. E os conceitos sobre o setor de saúde suplementar estão bem explicados.

Eu tenho divergência à forma como o direito humano à saúde é tratado no livro, mas compreendo como os liberais tratam a questão. No capitalismo tudo é mercadoria e a saúde não seria diferente. Aproveitemos, então, os ensinamentos técnicos do livro, e façamos o debate de ideias sobre as diversas formas de pensar o mundo.

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MUTUALISMO

Gostei da explicação que o autor dá sobre o tema mutualismo. Vejamos:

"O mutualismo foi o termo pinçado da biologia pela literatura securitária para definir a cooperação entre indivíduos mediante a agregação de seus riscos. Na Biologia, quando a interação entre duas espécies proporciona ganhos recíprocos decorrentes da associação entre elas, há mutualismo." (p. 42)

Em seguida, Sandro traz o conceito para a área da seguridade:

"O seguro fornece, nestes termos, uma possibilidade mutuamente benéfica ao reduzir o custo do risco para os segurados que se dispõem a contribuir para um fundo comum em troca da garantia de acesso a estes recursos na eventual ocorrência de infortúnios individuais. Se a troca é voluntária, como ensinam os manuais de Economia, a realização do comércio é um jogo de soma positiva em que todos os agentes envolvidos ganham, melhorando sua situação. O seguro contribuiu para a alocação dos riscos da sociedade permitindo que um agente avesso ao risco consiga transferi-lo, mediante o pagamento de um prêmio de risco, para um agente comprador de riscos que é a seguradora." (p. 42)

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PLANO DE SAÚDE É SEGURO

Achei interessante essa explicação sucinta da questão. O autor esclarece que as regulações são diferentes, mas que as regras estatísticas e atuariais são as mesmas. Eu tenho pontos de observação sobre isso, quando penso o modelo assistencial da Cassi, mas depois comento a respeito.

Vou citar a frase inteira para comentar o que penso em seguida:

"Uma primeira observação importante é notar que as regras estatísticas e atuariais que permitem a existência de um plano de saúde são as mesmas do seguro. O fato de terem regulações diferentes não muda um aspecto essencial de sua natureza: o risco. O elemento de agregação dos riscos é exatamente o mesmo, independentemente se o seguro é realizado para a proteção do patrimônio, de um automóvel ou de riscos associados ao adoecimento. A diferença aqui, evidentemente, é que no caso da saúde não se pode repor a saúde como se faz no caso de um bem, mas é possível oferecer indenização ou acesso aos serviços de saúde como forma de tratamento ou mitigação dos danos aos indivíduos.

O que se segura não é a saúde em si, pois não é possível, mas a diagnose e o tratamento, que frequentemente geram despesas médicas, laboratoriais e hospitalares que poderiam ser proibitivamente elevadas ou levar uma família a situações financeiras bastante desconfortáveis por pagamento direto." (p. 42/43)

COMENTÁRIO

Nesta explicação do autor, é possível apontar algumas leituras a partir de minha experiência ao conhecer o modelo de saúde que a Cassi vem tentando implantar desde a reforma estatutária de 1996. 

Por 5 décadas (1944 a 1995), a Caixa de Assistência dos Funcionários do BB teve uma lógica que se encaixava no conceito acima. Era um fundo mútuo de recursos para cobrir o acesso a serviços de saúde após a realização dos riscos comuns aos participantes do sistema.

Ou seja, o foco do uso do recurso daquele fundo mútuo era no reparo ou mitigação do dano realizado e não na prevenção ao dano.

E aí eu reforço que os custos nesta área, saúde, são impagáveis, e não só "desconfortáveis" por uma questão essencial do mercado capitalista: lucro máximo possível. Quem vende serviços de saúde visa lucro e a outra ponta, quem consome, deve estar precisando ou sendo convencida a precisar dos serviços... óbvio que a conta não fecha.

CASSI APÓS 1996

O objetivo pretendido pelos patrocinadores do fundo mútuo da Cassi a partir de 1996 (trabalhadores e BB) era outro, era utilizar de forma distinta os recursos financeiros da Caixa de Assistência, era passar a cuidar da saúde de seus assistidos ao longo de décadas, passando assim a usar melhor os mesmos recursos ao precisar ir ao mercado que visa lucro comprar serviços de saúde. Era outra lógica do uso dos recursos.

Para isso, após 5 anos de experimentos de modelos (1996-2001), a Cassi optou pela Estratégia de Saúde da Família (ESF), um tipo de Atenção Primária à Saúde (APS), com estruturas próprias de atendimento primário (CliniCassi), para organizar um sistema de saúde privado com mais controle no uso dos recursos e com bons resultados em prevenir doenças crônicas e seus agravamentos ao longo do tempo para aquela população assistida e fidelizada ao modelo.

Durante a nossa gestão (2014-2018), desenvolvemos estudos que comprovaram pela 1ª vez a eficiência do modelo ESF/CliniCassi na Caixa de Assistência, com estrutura própria - que faz toda a diferença - com profissionais assalariados em equipes de família e gestão em saúde e rede credenciada. Não eram "parceiros" do mercado que saem do projeto assim que recebem propostas melhores para ganharem mais em suas clínicas-empresas. Uma CliniCassi própria não visa lucro, uma CliniCassi "parceira" terceirizada visa lucro.

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RISCO MITIGADO - Ou seja, os riscos daquela população assistida por aquele recurso mútuo poderiam ser alterados, mitigados, ao longo do tempo. E nós provamos isso. Os estudos que fizemos demonstraram que uma parte da população vinculada ao modelo ESF tinha um uso melhor dos recursos do fundo após 3 anos ou mais de permanência no modelo de Estratégia de Saúde da Família (ESF)

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É POSSÍVEL EVITAR DOENÇAS (RISCOS)

Uma questão fundamental para diferenciar as explicações do autor nesta parte do livro e a experiência que ganhei ao estudar e gerir o modelo assistencial da Caixa de Assistência por 4 anos é que os estudos da estatística e dos cálculos de riscos trabalham com dados realizados e um modelo preventivo em saúde tem dificuldades em dar números a despesas evitadas, não realizadas.

O livro de Sandro cita Cechin e afirma:

"Como explica Cechin, 'contrair doenças é um evento futuro e imprevisível para cada indivíduo. Mas a incidência de doenças em uma população pode ser estatisticamente estimada com boa precisão para cada patologia. A estatística nos informa quantos, mas não poderá identificar quem'."

É e não é exatamente assim, na minha opinião. 

Tanto é que no final desse trecho do livro, escrevi um comentário por me lembrar de minhas divergências técnicas com os atuários e os setores na Cassi que só se debruçavam em números e pouca atenção davam ao modelo ESF na Caixa de Assistência. 

Eu insistia que a base de dados para os cálculos deveria ser melhor calibrada considerando a população que já era vinculada (fidelizada) ao modelo ESF porque o comportamento do risco dessa população e o uso do recurso do sistema eram diferentes da base de dados padrão que se baseava em parâmetros gerais de uma população que não estava em um sistema preventivo como a ESF.

A DIFERENÇA DA CASSI COM ESF EM RELAÇÃO AOS OUTROS

Esta afirmação abaixo - regra genérica - não se aplicaria à população Cassi vinculada (fidelizada) à Estratégia de Saúde da Família há mais de 3 anos.

"O plano de saúde ou o seguro saúde não evita que o segurado adoeça, mas se adoecer ele terá garantido o serviço de diagnóstico e recuperação ou será indenizado pelas despesas incorridas, conforme dispuser o contrato." (p. 44)

Aqui está a questão que o Dr. Vecina fala na reportagem da revista CartaCapital nº 1294, que citei no artigo que fiz a respeito do tema (ver aqui). Os planos e seguros de saúde vendem a promessa de redes credenciadas e não "saúde", esse e o ponto central. E eu reafirmo o que é claro para quem consegue ver: não há dinheiro que pague tudo o que o "mercado" ofereça porque o objetivo é lucro com a doença e não saúde.

Meu comentário final sobre essa parte dos fundamentos técnicos sobre mutualismo foi feito no livro após o box nº 2 (p. 45), que fala sobre "A lei de grandes números e a saúde suplementar". A essência do texto é para reafirmar os dados estatísticos sobre riscos de saúde realizados.

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"A lei dos grandes números só funciona se os eventos forem independentes, ou seja, se a chance de adoecimento de um indivíduo deve ser independente da chance de adoecimento dos demais. Por isso, as operadoras procurar "espalhar" os riscos. A operadora, com base na agregação de riscos e na Lei dos Grandes Números, pode ofertar planos de saúde a custo relativamente baixo. Quanto maior for a carteira segurada de riscos similares, maior será a estabilidade de resultados de eventos que uma operadora pode esperar e maior será a precisão do cálculo atuarial, ou seja, menor será o desvio em torno da média."
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Só que eu estou afirmando que se há um sistema onde os riscos são mitigados por anos a fio, em populações que ficam décadas no sistema, os dados genéricos exteriores a esse sistema não são a melhor base comparativa para se calcular riscos desse sistema preventivo e mitigador dos riscos que geram o uso dos recursos.

MEU COMENTÁRIO A RESPEITO: Pelos motivos apresentados no Box 2, que mostram que os cálculos e estatísticas são baseados na premissa de que a população do grupo vai adoecer conforme os dados existentes na sociedade é que eu, diretor de saúde da Cassi à época, afirmava que era possível precificar com valores menores a sustentabilidade do Plano de Associados e Cassi Família 2, cujas populações com maiores riscos fossem fidelizadas ao modelo ESF (e parte já estava cadastradas e vinculada ao modelo ESF como provamos), porque o adoecimento e uso dos recursos seriam menores do que os dados de mercado tradicional usados nas estatísticas.

Explico melhor: à época (entre 2015 e 2017), tínhamos um sistema com mais de 500 mil participantes, no qual 180 mil estavam cadastrados num modelo de saúde preventivo e que monitorava os assistidos e que atuava para melhor uso da rede, e dentro desses cadastrados perto de 50 mil já eram vinculados (fidelizados) demonstrando comportamento melhor do que os demais participantes do sistema. Essas informações não poderiam jamais serem desconsideradas nos cálculos atuariais da Cassi.

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CONCLUO ESSE PRIMEIRO COMENTÁRIO SOBRE A LEITURA DO LIVRO

Enfim, esses são alguns comentários a partir da leitura do livro sobre saúde suplementar.

Outros pontos podem vir em outras postagens sobre a leitura.

William Mendes


Bibliografia:

ALVES, Sandro Leal. Fundamentos, regulação e desafios da Saúde Suplementar no Brasil. Rio de Janeiro: Funenseg, 2015.


segunda-feira, 25 de março de 2024

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 25 de março de 2024. Segunda-feira.


As imagens e ideias que circulam pelos meus neurônios neste momento de escrita são tantas e tão diversas que fico com dificuldade de escolher temas para registrar nesta reflexão diária.


RACISMO

A entrevista do jovem jogador Vini Jr. falando para dezenas de jornalistas sobre o racismo que tem enfrentado na Espanha é uma das imagens que não saem da cabeça da gente. Que desgraça essa questão do racismo!

Só depois de muito tempo de vida adulta é que consegui pensar com um pouco mais de atenção o que deve ter sido a vida de minha irmã neste país violento e racista desde sua invasão. Nunca saberei o que ela passou e ainda enfrenta hoje por causa da cor de sua pele! Nunca saberei!

Quando estou andando pelo bairro onde moro, à mercê do poder discricionário de uma das polícias mais letais e violentas do país, e agora sob um governo fascista no Estado, eu não tenho como imaginar o que uma pessoa negra sente e ou sofre. Minha pele é branca. Só fui compreender essa verdade depois de me politizar. A maioria nem pensa a respeito do racismo. Isso é foda!

MARIELLE FRANCO

Foram mais de seis anos para avançarem as investigações sobre o assassinato brutal da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ), ocorrido em 14 de março de 2018, quando seu carro foi metralhado no Rio de Janeiro. No atentado faleceu também Anderson Gomes e sobreviveu a assessora da vereadora.

Na minha leitura o crime não está solucionado. É a minha opinião. São muitas questões ainda sem explicações. A prisão dos irmãos Brazão e do delegado do caso à época, Rivaldo Barbosa, foi um passo importante. Não me surpreendeu saber que a principal autoridade de polícia estava envolvida. Isso é uma sociedade dominada pela milícia e a máfia. 

As investigações só avançaram porque o povo brasileiro elegeu Lula em 2022. Não tenho dúvidas sobre isso. Fosse a continuidade daquele regime miliciano que colocaram no poder central em 2018, nem teríamos solução para o assassinato de Marielle e nem teríamos direito de opinar a respeito, pois as coisas teriam piorado muito com o bolsonarismo no poder de todas as estruturas do Estado.

GENOCÍDIO DO POVO PALESTINO

"A índole e a escala do ataque israelense contra Gaza e as destrutivas condições de vida que desencadearam revelam uma tentativa de destruir os palestinos fisicamente como grupo", é o que afirma Francesca Albanese, a relatora das Nações Unidas sobre os direitos humanos. (site de CartaCapital, 25/3/24)

Na era da instantaneidade da vida, tudo filmado e imediato, o mundo assiste ao genocídio de um povo ao mesmo tempo em que ele ocorre. Os palestinos vinham sendo assassinados lentamente há muito tempo. O regime sionista do Estado de Israel ocupou as terras dos palestinos e passou a fazer com os colonizados o que se fazem com colonizados há séculos no mundo: inviabilizar a vida daquele povo. Até que os palestinos reagiram e agora estão sob ataque para que mais de dois milhões de pessoas deixem suas terras.

Até o momento, toda a estrutura física da Faixa de Gaza foi destruída após mais de 5 meses de bombardeios. É um exército contra um povo desarmado. Mais de 30.000 mortos, sendo a maioria de crianças, mulheres, idosos e civis. Se o governo de Israel obtiver êxito total na expulsão de 2.000.000 de palestinos de suas terras, o "case" pode ser a referência para os demais casos de potências ricas e com armas querendo ocupar terras e expulsar seres humanos de suas terras ancestrais.

CUBA BLOQUEADA HÁ DÉCADAS

Após ir a Cuba duas vezes e depois de me interessar mais pelo país socialista e a história extraordinária de luta de seu povo pela liberdade e autonomia em relação a qualquer país agressor, compreendo um pouco melhor o quanto é injusto o que Cuba sofre por causa do bloqueio criminoso e também genocida imposto pelo imperialismo norte-americano. Inviabilizar a vida de um povo é uma das formas de genocídio que se conhecem.

A hipocrisia que recheia a vida cotidiana dos seres humanos é algo que envenena diariamente corpo e mente das pessoas que têm um pouco mais de consciência e formação política. É duro passar o dia lendo, vendo, ouvindo merdas que pautam os nossos dias e a nossa agenda de vida! É duro! E o que são essas máquinas de produção em escala de mentiras e desinformações retransmitidas através das mídias (meios) dominadas pelas big techs? São vírus informacionais, vírus para minar a saúde da sociedade humana.

Por trás da Guerra com a Rússia, tendo a Ucrânia como bucha de canhão; por trás da Guerra de extermínio do povo palestino por parte do governo sionista de Netanyahu; por trás da miséria material imposta ao povo cubano há mais de seis décadas; por trás dos golpes de Estado no Brasil em 1964 e 2016... por trás dessas merdas todas estão sempre eles, sempre eles, aqueles que definiram de suas cabeças que o mundo é um quintal deles, que as Américas todas são para o bel-prazer e exploração deles...

Quanta hipocrisia e quanta ignorância temos que ver, ler, ouvir diariamente na sociedade humana! Viva os Estados Unidos e os idiotas que idolatram essa forma destrutiva de sociedade humana! Foi uma ironia... que se fodam eles e aqueles que idolatram eles!

SEM PERTENCIMENTO

Ainda não encontrei uma solução para me libertar do cárcere no qual estou acorrentado. A sensação psicológica é de agonia. Não consigo radicalizar uma solução porque não sou mais radical. Hoje sou cerebral. Isso te faz uma pessoa que calcula, que não age por instinto. Isso te faz conviver com a dor, com o incômodo. E te faz preservar portas cerradas, mas não inacessíveis para sempre. Ilusões.

Em alguns momentos, a coisa que queima por dentro, te faz pensar em voltar a ser como antes, e liberar todos os impulsos que o animal ferido tem. Já vivi meus tempos de fúria. Foram terríveis! Não gostaria de reviver aquilo.

Percebo, no entanto, que a coisa está me dilacerando. Algo precisa ser feito. Talvez devesse me desfiliar de todas as instituições que me vinculam ao passado que me traz dor. Sindicato, partido, associações. Talvez devesse ter coragem de me desfazer de tudo que me lembrasse minha história de décadas. Aí vem o cálculo e me põe na dúvida se isso é justo. E sigo no limbo.

Hoje, estou como o personagem Bill, do terceiro episódio da série The Last Of Us, que me inspirou no texto de ontem (ver aqui). Gostaria de viver num mundo onde pudesse ter vínculos com muito mais coisas que as relações pessoais com pessoas que amamos ou que precisam da gente. Gostaria de ter um motivo para seguir caso o acaso me tirasse os meus. Não vejo um mundo assim neste momento.

O meu liame com a vida são pessoas que amo. Que elas tenham vida longa!

William

(dias atrás, me senti útil naquilo que posso ser útil. Depois disso, me deu um vazio terrível... quase me afoguei em meus oceanos internos)