segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Diário e reflexões - Cuba X (06/02/23)



Refeição Cultural - Cuba (X)

Osasco, 06 de fevereiro de 2023. Segunda-feira (a única certeza é a mudança).


Se minha vida segue a mesma após acordar nesta manhã de segunda-feira, o mesmo não se dá com milhares de pessoas na Turquia, Síria e demais países da região onde um terremoto nesta madrugada sacudiu o chão e mudou a vida de todo mundo. Deixo minha solidariedade aos irmãos e irmãs que estão lidando com essa tragédia. Em um instante o solo vibra e já não somos, éramos. Somos a natureza, somos parte da natureza e não senhores dela.

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Cuba

"¿usaremos nuestra libertad para disponer con tiempo y grandeza el modo de servir a la patria infeliz, o mereceremos el estigma de la Historia por no haber unido nuestras fuerzas con el empuje necesario para salvarlas? ¡Estas citas que nos estamos dando a un tiempo, este abrazo de los hombres que ayer no se conocían, esta miel de ternura y arrebato místico en que se están como derritiendo los corazones, y este arranque brioso de las virtudes más difíciles, que hacen apetecible y envidiable el nombre de cubano, dicen que hemos juntado a tiempo nuestras fuerzas, que en Tampa aletea el águila, y en Cayo Hueso brilla el sol, y en New York da luz la nieve, —y que la historia no nos ha de declarar culpables!" (from "Martí en su universo: Una antología (Spanish Edition)" by José Martí)


Na madrugada de 25 de novembro de 1956, partiu do litoral do México com destino a Cuba, num pequeno barco de 63 pés de comprimento - com o nome de Granma - um grupo de pessoas com um sonho de liberdade e de construir uma pátria livre de qualquer potência imperialista, uma pátria solidária e justa para todos que nela vivessem. O grupo de 82 pessoas era liderado pelo jovem advogado Fidel Castro. O médico argentino Ernesto Che Guevara estava no grupo de companheiros que uniriam o povo cubano para derrotar o ditador Batista, pau-mandado dos ricos dos Estados Unidos (o "mercado"). Dos 82 combatentes, somente 13 sobreviveram a esta primeira fase da revolução, dentre eles Fidel e Che. 

Assim começa a história de uma amizade revolucionária contada aos leitores por Simon Reid-Henry. Ganhei este livro de presente nos tempos de sindicalista e vou relê-lo agora que estou fazendo uma imersão na história de Cuba e dos cubanos.

Ao ler os textos de José Martí, os chamados e clamores por unidade do povo cubano para lutar por liberdade, é fácil compreender um pouco da ética e da essência do povo cubano, esse povo guerreiro e orgulhoso de si próprio, um povo gigante de uma pequena ilha do Caribe que não se submete a imperialismo algum, nem no passado nem no presente. 

Me solidarizo com o povo cubano que está passando grandes dificuldades até de alimentação e itens básicos por causa do embargo criminoso imposto a eles há décadas. Espero que o governo brasileiro ajude a reverem esse crime de lesa-humanidade.

Hoje li mais um texto da primeira parte do livro de antologias de José Martí. Viva o povo cubano! Viva Martí! Viva Fidel Castro! Viva Che! Viva a revolução socialista!

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Brasil

Acordei nesta segunda-feira com torcicolo, pescoço duro. Acho que vou sair pra correr agora de noite pra ver se melhora ou piora a minha condição (rsrs). Afinal de contas, correr faz bem pra saúde e reduz a tensão muscular. Correndo, dificulto a manifestação da osteoporose em meu corpo e dificulto a vida daquelas porcarias que querem engrossar meu sangue para entupir minhas veias e artérias. Contudo, também amplio o desgaste que tenho no sistema esquelético na área do quadril. Acho que estou envelhecendo como deve ser, sendo eu um elemento da natureza. Tudo muda o tempo todo. O tempo, o tempo...

O presidente Lula está numa fase de sua vida política surpreendente para nós que o conhecemos há décadas. Lula está mais à esquerda que sua base de apoio! Agora seria necessário que o movimento sindical e partidário se deslocasse um pouco mais à esquerda. Não sei se isso ocorrerá. As forças políticas nas quais me politizei se adaptaram aos tempos e estão mais conciliadoras que o próprio companheiro Lula, um conciliador por natureza. Lula precisaria de uma base fazendo seu papel de mobilização popular para enfrentar o exército de gente inconsciente manipulável pela extrema-direita bolsonarista e nazifascista. As pesquisas dão quase um empate entre apoiadores de Lula e Bolsonaro neste primeiro mês de 2023. Parece algo inacreditável... mas tem explicação: as tecnologias estragaram o ser humano. Não sei se isso tem volta.

Lula está botando o dedo no nariz do neto de ditador que está no comando do Banco Central, Lula está botando o dedo no nariz dos canalhas da casa-grande, os ricos que são chamados de "mercado". Que merda! Até quando o nosso lado vai alimentar esse nome ridículo ao invés de explicar que o "mercado" são os ricos, os bilionários, e não essa coisa etérea "mercado". Onde se encontra esse "mercado" pra falar umas merdas pra ele? Ele está nos restaurantes grã-finos, nas ferraris que desfilam pelas ruas de merda do país, mas como são chamados de "mercado" ninguém identifica esses putos.

É isso, por enquanto! Vamos correr... correr ou morrer. E sei que a gente morre de qualquer jeito... natureza.

O texto anterior sobre o tema Cuba pode ser lido aqui.

William


Bibliografia:

MARTÍ EN SU UNIVERSO - UNA ANTOLOGÍA. Edición Conmemorativa. Real Academia Española e Asociación de Academias de La Lengua Española. Alfaguara - Lengua Viva, Madrid.


sábado, 4 de fevereiro de 2023

Diário e reflexões - Cuba IX (04/02/23)



Refeição Cultural - Cuba (IX)

Osasco, 04 de fevereiro de 2023. Noite de sábado.


Duas leituras a respeito de organização política e social e com temáticas sobre independência e liberdade abordam aspectos antagônicos de certa forma no que diz respeito a experiências no campo da esquerda. Unidade com foco em objetivos comuns ou fragmentações diversas dos grupos de esquerda?

A leitura de José Martí demonstra o quanto um líder pode ser inspirador em seu clamor por unidade na luta do povo cubano por sua independência da coroa espanhola no século XIX. Já a leitura do romance de Leonardo Padura - O homem que amava os cachorros - aborda a quantidade incrível de divisões no campo da esquerda durante a guerra civil espanhola no século XX e durante as primeiras etapas da constituição da URSS.

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A FRAGMENTAÇÃO DA ESQUERDA ERA UMA TRAGÉDIA ANUNCIADA NA ESPANHA

"No caminho para o centro, foi evitando as ruas em que tinham sido montadas as barricadas, de onde se davam tiros esporádicos. Bondes e ônibus detidos cortavam o tráfego e por toda a parte se exibiam bandeiras que revelavam a filiação política dos defensores de cada esquina: comunistas, socialistas, anarquistas, poumistas, catalanistas, sindicalistas da CNT, tropas regulares, milícias e polícia, num caleidoscópio centrífugo que convenceu o jovem da necessidade daquela batida: nenhuma guerra podia ser ganha com uma retaguarda tão caótica e dividida." (p. 193)

Este é o cenário das forças de esquerda na Espanha governada pelos socialistas de Largo Caballero e depois de sua queda por Negrín, que colocou na ilegalidade os trotskistas do Poum. (meados dos anos 30)

"Largo Caballero, acossado por todos os lados, ou talvez finalmente assumindo sua incapacidade para resolver os problemas da guerra e da República, apresentou sua demissão. Nessa altura, com o apoio dos comunistas e dos assessores, Negrín assumiu a chefia do governo e, quase como primeira medida, anunciou a ilegalidade do Poum e a intenção de julgar seus líderes." (p. 194)

Essa divisão no campo da esquerda é mais antiga que andar pra frente, como diziam na minha adolescência.

A leitura do capítulo 11 é densa em relação ao contexto no qual se encontravam as diversas forças reunidas na República Espanhola.

Curiosidade - No romance, Padura nos conta que o escritor e jornalista inglês George Orwell, que estava na Espanha naquela época, gostava de cachorros da raça galgos borzóis (págs. 185/186)

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JOSÉ MARTÍ CLAMA POR UNIDADE DO POVO CUBANO NA LUTA PELA INDEPENDÊNCIA


Ao ler os textos de Martí percebemos o quanto ele trabalhou pela unidade do povo cubano para lutarem pelo que eram os objetivos comuns, a independência do país.

"¡Unámonos, cubanos, en esta otra fe: con todos, y para todos: la guerra inevitable, de modo que la respete y la desee y la ayude la patria, y no nos la mate, en flor, por local o por personal o por incompleta, el enemigo: la revolución de justicia y de realidad, para el reconocimiento y la práctica franca de las libertades verdaderas!" (from "Martí en su universo: Una antología (Spanish Edition)" by José Martí)

Vejam abaixo que forma inteligente e apaixonada de enaltecer um povo e dar coesão para a unidade na luta por objetivos comuns:

"¡De todos los cubanos! ¡Yo no sé qué misterio de ternura tiene esta dulcísima palabra, ni qué sabor tan puro sobre el de la palabra misma de hombre, que es ya tan bella, que si se la pronuncia como se debe, parece que es el aire como nimbo de oro, y es trono o cumbre de monte la naturaleza! ¡Se dice cubano, y una dulzura como de suave hermandad se esparce por nuestras entrañas, y se abre sola la caja de nuestros ahorros, y nos apretamos para hacer un puesto más en la mesa, y echa las alas el corazón enamorado para amparar al que nació en la misma tierra que nosotros, aunque el pecado lo trastorne, o la ignorancia lo extravíe, o la ira lo enfurezca, o lo ensangriente el crimen! ¡Como que unos brazos divinos que no vemos nos aprietan a todos sobre un pecho en que todavía corre la sangre y se oye todavía sollozar el corazón! ¡Créese allá en nuestra patria, para darnos luego trabajo de piedad, créese, donde el dueño corrompido pudre cuanto mira, un alma cubana nueva, erizada y hostil, un alma hosca, distinta de aquella alma casera y magnánima de nuestros padres e hija natural de la miseria que ve triunfar al vicio impune, y de la cultura inútil, que solo halla empleo en la contemplación sorda de sí misma! ¡Acá, donde vigilamos por los ausentes, donde reponemos la casa que allá se nos cae encima, donde creamos lo que ha de reemplazar a lo que allí se nos destruye, acá no hay palabra que se asemeje más a la luz del amanecer, ni consuelo que se entre con más dicha por nuestro corazón, que esta palabra inefable y ardiente de cubano!" (from "Martí en su universo: Una antología (Spanish Edition)" by José Martí)

Sigamos lendo Martí e Padura e notícias diárias de Cuba e desse povo guerreiro, o povo cubano. Minha postagem anterior está aqui.

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UNIDADE É FUNDAMENTAL NO CAMPO DA ESQUERDA

Por mais de duas décadas, militei no movimento sindical bancário brasileiro. A escola política na qual me formei foi importante para que eu me tornasse a pessoa que sou. Uma das orientações que marcaram a minha formação era buscar o consenso progressivo e evitar o voto em qualquer questão sem antes esgotar as possibilidades de acordos. Isso era fundamental porque nenhum proponente se sentia derrotado e a unidade na ação era o resultado do processo político.

Pena que isso foi mudando. As pessoas foram perdendo a paciência necessária para se fazer as discussões políticas e passou-se a votar por qualquer tema sem antes tentar o consenso progressivo. Alguns "caciques" já chegavam dizendo que tinham maioria de votos e mandavam votar sem esgotar os debates.

Perdemos todos com essa forma de ganhar votações estabelecida por aquel@s que tinham mais "garrafinhas" como diziam e os rachas nos grupos foram acontecendo e a fragmentação política nos enfraqueceu e com isso nós facilitamos a nossa derrota para as representações patronais e para as forças de extrema-direita no Brasil.

Desejo que reaprendamos a construir a unidade no campo da esquerda. 

E por falar em unidade, estive hoje numa excelente reunião com dezenas de lideranças comunitárias e militantes de partidos de esquerda da região onde estou militando. Vamos ver se consigo me envolver novamente com as lutas sociais organizadas.

William


Bibliografia:

PADURA, Leonardo. O homem que amava os cachorros. Tradução de Helena Pitta. 2ª ed. - São Paulo: Boitempo, 2015.

MARTÍ EN SU UNIVERSO - UNA ANTOLOGÍA. Edición Conmemorativa. Real Academia Española e Asociación de Academias de La Lengua Española. Alfaguara - Lengua Viva, Madrid.


Leitura: rio pequeno - floresta



Refeição Cultural

Osasco, 4 de fevereiro de 2023. Manhã de sábado. Noite mal dormida.


"pedra de amolar

amolar muito bem as facas
uma a uma na pedra
afiar a lâmina da minha língua
como quem vai pra guerra
" (floresta)


Após dormir um sono picado, dormindo e acordando, porque o filho saiu pra um rolê e não voltou, um sono de poucas horas, me levantei, fiz um café preto no copo e peguei o livro de poesias rio pequeno (2022), de floresta. Sim, @ poeta grafou tudo com letras minúsculas. Li do início ao fim.

Que obra interessante! Poemas intimistas, linguagem prosaica, poemas que envolvem o leitor no cenário do eu-lírico. Imaginem um leitor como eu, que nasci no cenário descrito por floresta. Cara, que viagem ao passado e que viagem ao mundo atual através das palavras e imagens criadas por floresta!

O livro me foi sugerido por um amigo poeta, Sérgio Gouveia, e agradeço a ele pela indicação. Gostei dos poemas, gostei das temáticas, gostei da poética de floresta.

Gostei de muitos poemas do rio pequeno, de muitos! Vou deixar dois aqui na postagem e convidar a leitora e o leitor a lerem a obra toda, é um livro muito bom, conteúdo e edição. 

O projeto  "Círculo de poemas" é bem legal. Junto ao livro rio pequeno veio outro livro de poesias - Rastros - de Prisca Agustoni, poemas feitos a partir de uma pintura rupestre na Patagônia.


No pontinho vermelho, minhas
próprias enchentes da infância

"alagado

a memória das águas
invadiu ontem minha casa
com este medo até de chuva rala
e inunda
ainda inunda
2 metros d'água

naquele dia molhou as canelas
apenas
salvei meus livros
no chão do quarto
ou que dentro da cabeça
conservaram intactas
suas páginas

enchente é como eles chamam
eu digo é medo
até de chuva rala
que mesmo hoje
me gasta

o córrego do jaguaré
não dava pé
nem dentro de casa
e ainda hoje quando chove
corro a fechar janelas

a memória
não me falha
"


O poema "alagado" me levou direto à infância. Nunca me esqueci de uma das enchentes no Rio Pequeno na qual vi pela janela um barquinho azul navegando naquela água marrom. Eu tanto insisti para que pegassem o barquinho pra mim que pegaram. Eu tive aquele barquinho azul até bem depois da adolescência.

"depois de muito

meu pai saiu de casa
eu não tinha nem nascido
meu pai saiu porque
a um homem como ele
não é permitido ficar
eles não têm lugar no mundo
vim saber depois de muito
e minha mãe queria
eu também gostaria
se tivesse vontade ali
naquela barriga
uma vontade maior
que espreguiçar
e me alimentar
das substâncias que eram
minha mãe
e seu desejo de que ele ficasse

penso se meu pai
um dia não quis voltar
penso se meu pai um dia
não quis ter seu lugar
no mundo
que ele não teve
"


Dedico o poema "depois de muito" ao meu filho e a sua mãe. O Rio Pequeno foi palco de tempos duros, tanto na minha infância quanto na minha vida madura. Ao menos da infância guardo boas lembranças, fui feliz mesmo com as enchentes.

William


Bibliografia:

floresta. rio pequeno. São Paulo: Círculo de poemas, 2022. Editoras Luna Parque & Fósforo.


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Diário e reflexões - Cuba VIII (01/02/23)



Refeição Cultural - Cuba (VIII)

Osasco, 01 de fevereiro de 2023. Noite de quarta-feira.


Li mais um capítulo do livro do escritor cubano Leonardo Padura, O homem que amava os cachorros. O capítulo 10 se passa nos anos trinta e nele vemos Liev Davidovitch, Trótski, exilado de um lugar pra outro. Após uns 4 anos numa ilha em Istambul, Turquia, ele vai para uma pequena cidade da França e termina o período abordado no capítulo na Noruega.

O livro vai alternando períodos e personagens e locais da história. A cada capítulo o leitor vai aos anos 30, aos anos 70, aos anos 2000. Vai à União Soviética, vai a Barcelona, na Catalunha, e a Madri, vai aos países por onde Trótski viveu exilado, vai a Cuba no passado e no presente da narrativa. 

É um livro de ficção e de história, é um enredo fenomenal. Como disse, é uma leitura de fôlego. Quis ler 3 capítulos hoje, umas 50 páginas... Não é tão simples assim! Foi difícil ler um capítulo inteiro, esse com o foco em Trótski.

No capítulo anterior, o nono, o foco foi em Cuba nos anos 70. Também foi uma leitura concentrada. O leitor começa a conhecer mais a respeito do "homem que amava os cachorros", apelido dado por Iván ao estranho que ele conheceu na praia, que andava com dois cachorros belíssimos, galgos borzóis, Ix e Dax.

No capítulo 10, sentimos a tristeza de Trótski ao enterrar sua borzói Maya, que morreu aos 9 anos de idade. O revolucionário russo vinha de uma sequência de perdas pessoais terríveis. 

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Momentos de leitura

No capítulo 9, com foco no personagem cubano Iván, ficamos sabendo que ele tinha um irmão, William, que sofreu consequências severas em sua vida por ser homossexual. Ele era universitário e ao assumir sua orientação sexual foi apenado pelo Estado. O estudante tinha uma relação com seu professor.

"Mas William, depois de rejeitar durante semanas e com enorme veemência aquela acusação, lançou mão de uma coragem que eu desconhecia, revoltou-se contra uma clandestinidade desgastante e repressiva e disse que sim, que era homossexual, que desde os treze anos agia como tal, ativa e passivamente, embora tenha se recusado a confessar com quem tinha realizado semelhante atividade porque esse era um assunto privado que só interessava a ele e a mais ninguém. Ainda que não tenha sido possível relacionar as inclinações sexuais dos processados com suas atitudes como professor e estudante, apesar de os resultados laborais e docentes de cada um serem notáveis, a sentença estava decidida de antemão, e a comissão de representantes aplicou suas medidas: o professor seria expulso indefinidamente do Partido e do sistema nacional de ensino, e William seria afastado por dois anos da universidade, mas definitivamente dos estudos de Medicina." (p. 147/148)

Que foda! E pensar que a esquerda agiu assim por décadas!

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No capítulo 10, num certo momento, Trótski fica indignado ao saber que os comunistas apoiaram o partido nazista. A história se passa em meados dos anos trinta, Hitler já encaminhava seus projetos de poder.

"A indignação de Liev Davidovitch explodiu quando soube que o Executivo da Internacional Comunista tinha emitido uma declaração vergonhosa de apoio ao Partido alemão, qualificando sua estratégia política como irrepreensível e repetindo que a vitória dos nazis era apenas uma conjuntura transitória, da qual as forças progressistas sairiam vitoriosas. O mais preocupante era o fato de os domesticados alemães, tal como o restante dos partidos filiados ao Comintern, terem acatado em silêncio aquele documento, revelador de um suicídio político de consequências previsíveis..." (p. 155)

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BRASIL, 1º/02/23. 

ELEIÇÃO DAS MESAS DO CONGRESSO NACIONAL

Naquela hora da leitura, de manhã, fiquei pensando na votação no Congresso Nacional do Brasil para eleger o presidente da Câmara no dia de hoje, 1º de fevereiro. 

O governo Lula e quase todo mundo apoiou a reeleição do tal deputado bolsonarista Arthur Lira, o cara que comandou o orçamento secreto por anos, o cara que só está com mandato por liminar da justiça, acusado de ser ficha-suja, o cara que foi o braço direito do governo fascista dos milicianos do clã Bolsonaro até dias atrás. O cara que junto com Eduardo Cunha derrubou a presidenta Dilma e o governo do Partido dos Trabalhadores. 

É assustador! Lira foi eleito com 90% dos votos da Câmara para presidente (464 votos em 513 possíveis). 

É assustador! Isso não vai acabar bem para nós, não pode acabar bem! Tá na cara!

Sem mais comentários...

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Sigo estudando história, literatura, linguagens humanas; sigo conhecendo um pouco mais sobre Cuba e os cubanos. E, claro, sobre a história das experiências socialistas e alternativas ao capitalismo, essa desgraça que vai acabar com a humanidade.

As postagens anteriores a respeito de leituras cubanas podem ser lidas a partir daqui.

William


Bibliografia:

PADURA, Leonardo. O homem que amava os cachorros. Tradução de Helena Pitta. 2ª ed. - São Paulo: Boitempo, 2015.


terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Diário e reflexões - Janeiro (31/01/23)



Refeição Cultural - Janeiro de 2023

Osasco, 31 de janeiro de 2023. Terça-feira.


INTRODUÇÃO: UMA REFLEXÃO

Vale a pena o esforço pela produção de textos escritos? 

Escrever numa época dominada pela imagem, pelo vídeo e pelo áudio ainda tem algum sentido? Imagino que sim porque a linguagem escrita é uma invenção da espécie animal homo sapiens e os símbolos linguísticos não são inatos ao ser humano como é o caso da linguagem falada. Insistir no registro escrito é um esforço em preservar uma invenção humana que revolucionou a nossa caminhada pelo planeta Terra. 

A extinção da espécie humana é uma possibilidade real?

Tenho a impressão que os seres humanos estão numa encruzilhada da história, num momento de definição sobre a nossa extinção ou a nossa permanência na Terra enquanto espécie homo sapiens e subespécie homo sapiens sapiens (ainda somos sábios?). Não falo de uma extinção física por causa de guerras e catástrofes com grandes mortandades, falo de extinção da espécie humana como aquilo que nos define como animais homo sapiens (de novo, seguiremos sendo sábios?). 

Teríamos consciência e coragem para interromper processos tecnológicos que podem extinguir a própria espécie?

As crianças que estão nascendo nesta época, mais as que estão crescendo, mais os adultos que deveriam ser "sábios" são sábios? Deveríamos fazer um esforço coletivo da espécie homo sapiens para responder a essas questões e, se entendêssemos ser necessário, mudarmos a realidade que pode estar contribuindo para o nosso fim, a nossa extinção. Avalio que as tecnologias da informação e as redes sociais - concentradas em poucas mãos no planeta - estão contribuindo para a destruição da espécie humana de forma muito acelerada. 

Fica registrada a minha impressão sobre essas questões.

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JANEIRO

Avançamos mais um mês no calendário humano. Em tese, essa é uma boa notícia, haja vista que até as mortes causadas pela pandemia mundial de Covid-19 diminuíram após 3 anos do início dos contágios. Nos últimos 28 dias morreram no mundo 136.056 vítimas da doença (segunda a Johns Hopkins University). Todavia, a instabilidade para sobreviver na sociedade humana está num nível muito alto se olharmos o cenário global.

O MUNDO - Os Estados Unidos, os países obedientes a eles e a Otan querem aniquilar a Rússia enquanto uma das nações independentes do imperialismo decadente estadunidense. Os russos podem não querer serem aniquilados enquanto grupamento humano de tradição milenar. O Ocidente está usando a Ucrânia e seu povo, através do idiota que governa o país, como bucha de canhão para fazer a guerra contra a Rússia. Ninguém quer paz, a não ser o Lula, recém-eleito presidente do Brasil. A insistência na continuidade da guerra de eliminação da Rússia pode nos trazer como consequência uma guerra de grandes proporções globais. Que foda isso! (homo sapiens...)

O BRASIL - Completamos um mês de tentativa de reconstrução da civilidade no Brasil. De propósito, evitei acompanhar o dia a dia da política nacional (estou de "range rede" da política). Algumas coisas chamam a atenção por terem sido possíveis a partir da eleição de Lula e derrota do genocida miliciano e parte de sua gangue. 

LULA (A SENZALA) tomou posse do mandato presidencial em um dia histórico e cheio de simbologia. Brasília estava tomada pelo povo e a faixa presidencial foi entregue a Lula por pessoas constituintes do país que somos, dentre elas uma catadora de recicláveis, um indígena, um jovem negro e uma pessoa com deficiência. A diversidade brasileira estava representada na posse e a frente ampla está representada no ministério de Lula: tem até ministro que fez parte do golpe contra a presidenta Dilma, tem ministra com familiares envolvidos com milícia etc. O PT vai apoiar o criador do orçamento secreto no Congresso para eleição da presidência da Câmara. Conciliação de classes é assim... Nem só de contrariedades pela governabilidade e pelas indicações da frente ampla vivem os progressistas de esquerda: Lula nomeou ministros Silvio Almeida, Sonia Guajajara, Marina Silva, Anielle Frranco; nomeou Maria Rita Serrano na Caixa Federal e pela primeira vez na história do Banco do Brasil uma mulher é presidenta: Tarciana Medeiros. Simbologias, como eu disse.

A CASA-GRANDE brasileira, que é composta por tudo que há de pior no gênero humano, mostrou que está viva e que o governo de frente ampla de Lula será de disputa de rumos e de instabilidade permanente. As investigações até agora indicam que setores do partido militar, e com financiamento de endinheirados do agro pop, são os responsáveis pelo pior ato terrorista e de vandalismo que se tem notícia na história do país ocorrido no dia 8 de janeiro. Os caras invadiram e destruíram as 3 casas dos poderes da república. Também da casa-grande é o rombo bilionário das Lojas Americanas, que apresentaram "inconsistências" de uns 40 bilhões em benefício dos donos, que receberam os dividendos nos últimos anos e figuram entre os maiores bilionários do país. E aquele Banco Central autônomo que erra em bilhões também em favor de um determinado segmento social? (que merda!). Por fim, o genocídio dos povos indígenas, em especial a questão trágica dos Yanomamis em Roraima, é fruto do garimpo ilegal e de toda a cadeia de gente endinheirada que se dá bem com a destruição da floresta amazônica e das reservas indígenas. (homo sapiens...)

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MEU JANEIRO

Em respeito ao amor que tenho por pessoas próximas, me esforcei em fazer a minha parte para manter meu corpo animal funcionando minimamente. Sou natureza! Não como tudo que gostaria e poderia comer. Não consumo bebida alcoólica como poderia. Busquei a manutenção e bom funcionamento de meus sistemas endócrino e digestório, cardiorrespiratório, musculoesquelético e neurológico. Sou natureza.

Se não pratico alguma atividade física aeróbica e com impacto e que exija força e resistência, posso ter doenças sérias como osteoporose, perda de massa muscular, aumento descontrolado de pressão arterial e colesterol ruim e risco de diabetes, e disso tudo entupimento de veias e artérias, risco maior de infarto, AVC e outras merdas do tipo. Se pratico, tenho que administrar as dores que foram surgindo nos últimos anos, até por desgaste do próprio corpo, que é mais rodado do que a idade que tem, como carro de aplicativo e táxi. Sou natureza.

Corri 7 vezes no mês, uns 50 Km, andei e pedalei também. Fiz um pouco de musculação. Superei a preguiça toda vez que ela quis mandar em mim. Fiz o esforço de ler e escrever para exercitar meu cérebro (minha alma). 

Li dois livros - A estranha vontade de um morto (ler comentário aqui) e Torto arado (comentário aqui)- e um volume de mangá: Gen Pés Descalços - O trigo é pisoteado v. II (veja aqui a respeito). 

Vi alguns filmes. Sigo estudando lentamente idiomas que gosto. Decidi estudar um pouco sobre Cuba, sua história e seu povo. Estou lendo dois livros de autores cubanos. Um dos idiomas que estou revendo é o espanhol. 

Encontrei alguns amigos neste mês e a família passou uma semana na Colônia de Férias do Sinpro SP na Praia Grande. Felizmente, meus familiares adoecidos neste mês tiveram melhora no quadro clínico. Vencemos esse mês de janeiro.

Sigo buscando sentidos e tentando dar um significado à minha existência pessoal e como ser social.

William


domingo, 29 de janeiro de 2023

Vendo filmes antigos (I)



Refeição Cultural

Osasco, 29 de janeiro de 2023. Domingão.


Dias atrás peguei alguns filmes antigos para assistir. Tenho um monte de filmes gravados em fitas VHS, a forma como víamos filmes antes dos DVDs e dos filmes totalmente virtuais e digitais como hoje em dia nas plataformas de streaming.

A ideia é me desfazer de dezenas e dezenas de fitas antigas. Eu não sou tão exigente a ponto de ficar incomodado com a qualidade maior ou menor das imagens etc. Nunca fui. 

Acumulei essas mídias durante a vida toda no intuito de ver os filmes e documentários e aprender algo com eles, contudo nunca tive tempo livre pra isso por causa do trabalho e estudo e os materiais foram se acumulando. Poderia só me livrar de tudo? Poderia. No entanto, não me parece certo jogar fora algo que nunca foi usado.

Tenho a mesma dificuldade para dispor de centenas de revistas, livros, apostilas e materiais escolares sem nunca ter usufruído de parte desse material por absoluta falta de tempo. Parece um desperdício imperdoável. Até pensando a natureza.

Porém, como já refleti diversas vezes, morro qualquer hora dessas e tudo que acumulei de mídia de cultura vai pro lixo. Tudo. Quem vai querer coisa "velha" com algum tipo de conhecimento ou cultura num mundo onde se incentiva a ignorância, o aqui agora, e o apagamento total do passado, qualquer que seja ele?

Enfim, que dilema eu vivo ao ver minhas coisas de cultura acumuladas por uma vida sem tempo e que agora entulham o meu mundo.

Para dificultar o objetivo que eu tinha de ver várias fitas em VHS, o videocassete parou de funcionar e não se consegue consertá-lo por ser coisa sem peças de reposição. Ou eu consigo um outro aparelho ou não tenho mais onde ver as fitas que tenho... que foda!

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OS FILMES QUE VI

- Corpo em evidência (1993) - Filme dirigido por Ulrich Edel e estrelado por Madonna no auge de sua carreira e demais atores e atrizes conhecidos. Eu achei o enredo interessante. Uma bela mulher se faz irresistível para dominar os homens numa sociedade na qual quem a domina são os homens. A caça se torna caçadora usando o corpo e o sexo como arma. Se não tiver spoiler, o espectador pode se surpreender com o final da trama. Mas até o trailer oficial dá spoiler...

- Lua de fel (1992) - Filme dirigido por Roman Polanski e estrelado pela exuberante Emmanuelle Seigner e demais atores e atrizes. O enredo coloca num mesmo cenário um casal inglês pacato e tradicional com um casal que viveu as maiores extravagâncias na vida sexual. Na trama, o espectador vai conhecer Mimi e sua história com Oscar, o marido bem mais velho que ela e paraplégico. O final também é surpreendente!

- Dom (2003) - Filme dirigido por Moacyr Góes e estrelado pela bela Maria Fernanda Cândido e pela dupla Marcos Palmeira e Bruno Garcia. A história é uma versão moderna do clássico machadiano Dom Casmurro. Bento reencontra Ana, chamada por ele de Capitu na infância, e eles se apaixonam loucamente e se casam. Para completar o enredo, temos o amigo do casal, e com ele vêm o ciúme e a dúvida (antiga na cabeça do Bentinho de Machado) se Capitu o traiu ou não. Achei bem-feita essa adaptação do clássico.

- Irmãos gêmeos (1988) - Filme dirigido por Ivan Reitman e estrelado por Arnold Schwarzenegger e Danny DeVito e demais atrizes e atores. No enredo cientistas criam um bebê com as melhores características de diversas pessoas através de eugenia e durante o parto nasce um segundo bebê que não era esperado. Eles são criados longe um do outro e um dia o homem perfeito e ideal sai em busca de seu irmão gêmeo, que é uma pessoa bem diferente dele em todos os sentidos. 

- O meninão (1955) - Filme dirigido por Norman Taurog e estrelado por Jerry Lewis. Um rapaz ajudante de barbeiro (Wilbur) se vê em apuros quando um ladrão de diamantes coloca a pedra roubada em seu bolso após um assalto num hotel. Para fugir do bandido, Wilbur precisa se disfarçar de menino para embarcar num trem e aí a trama começa. Ele vai parar numa escola só para mulheres e ali ele vira o centro das atenções. No filme vemos Dean Martin, que é o galã da história e namorado da professora que se encantou pelo menino-homem (que só no filme não veem isso). O humor inocente das piadas de Jerry Lewis é de uma época distinta da que vivemos hoje. Eu gostava dos filmes dele.

- O predador (1987) - Filme dirigido por John McTiernan e estrelado por Arnold Schwarzenegger e demais participantes do elenco. A trama é bem interessante na minha opinião. Um monte de brucutus sai em uma missão na selva e lá viram caça de um alienígena que vem à terra para caçar humanos e colecionar seus crânios como troféu. O que pareceria um filme comum com tiros e bombas e excesso de testosterona dos machos alfa se transforma num quase terror com uma sonoplastia de suspense do início ao fim. Acho que foi um dos melhores filmes com a participação de Schwarzenegger (além da série do exterminador do futuro).

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COMENTÁRIO

Os dois filmes dos anos noventa, com Madonna e Emmanuelle Seigner, são muito representativos da época. Mulheres exuberantes em posição de objeto sexual num mundo coisificado pelo capitalismo. Os diretores tentam subverter a ordem colocando no enredo personagens mulheres sedutoras e ou dominadoras. 

No entanto, na ideologia do capital, no mundo dos homens, as mulheres estão com seus destinos traçados... mesmo quando vencem os homens, perdem.

Até quando será assim eu não sei, mas ainda hoje estão destinadas a não ocuparem todos os lugares que querem e fazem por merecer. Quando chegam nas posições principais da sociedade humana, algo interrompe o processo. Que o digam a ex-presidenta Dilma Rousseff e a primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinta Ardern, que renunciou dias atrás.

O filme brasileiro Dom acaba dando o mesmo destino para a personagem feminina, a Capitu do passado e do presente. Quando vence, perde.

Em relação às duas comédias, a dos anos oitenta com Schwarzenegger e Danny DeVito, e a dos anos cinquenta com Jerry Lewis, elas desempenharam o papel de entretenimento esperado. Vi os filmes e deixei de pensar nas merdas da vida durante aqueles momentos.

O filme com o alienígena que caça humanos, mesmo sendo os humanos brucutus cheios de músculos e armas de grosso calibre, gostei. Nós só somos natureza, não somos os donos dela, só estamos nela. Até seres invisíveis e microscópicos nos eliminam com facilidade, vejam os vírus da Covid-19. Nossa soberba é foda! Não somos tudo isso que achamos que somos.

É isso!

William

sábado, 28 de janeiro de 2023

José Martí - Apóstolo da independência de Cuba



Refeição Cultural - Cuba (VII)

Osasco, 28 de janeiro de 2023. Noite de sábado.


Hoje se comemora 170 anos do nascimento do herói cubano José Martí, El apóstol de la independencia de Cuba.

Dentro dos estudos que venho fazendo a respeito de Cuba e sua história, adquiri o livro Martí en su universo - Una antología, edição comemorativa organizada pela Real Academia Espanhola e demais academias de língua espanhola.

Do livro, já li os quatro textos iniciais de apresentação, textos de Rubén Darío, Gabriela Mistral, Juan Ramón Jiménez e Guillermo Díaz-Plaja. Após as leituras dos críticos, comecei a primeira parte da antologia: "Cuba".

A 1ª parte "Cuba" contém textos bem interessantes.

"El presidio político en Cuba"

I

"Dolor infinito debía ser el único nombre de estas páginas.

Dolor infinito, porque el dolor del presidio es el más rudo, el más devastador de los dolores, el que mata la inteligencia, y seca el alma, y deja en ella huellas que no se borrarán jamás..."

Martí diz no texto que se Dante estivesse estado num presídio teria copiado o que viu ali ao invés de criar a descrição da primeira parte de A divina comédia, o Inferno.

"Dante no estuvo en presidio.

Si hubiera sentido desplomarse sobre su cerebro las bóvedas oscuras de aquel tormento de la vida, hubiera desistido de pintar su Infierno. Las hubiera copiado, y lo hubiera pintado mejor."

VI

Martí nesta parte fala de Don Nicolás del Castillo.

"¿Quién era aquel hombre?

Aquel anciano de cabellos canos y ropas manchadas de sangre tenía 76 años, había sido condenado a diez años de presidio, y trabajaba, y se llamaba Nicolás del Castillo..."

Já no século XIX, Martí era um homem a frente de seu tempo e denuncia os abusos contra um ancião martirizado no presídio.

VII

Nesta parte, Martí denuncia o outro extremo dos abusos dos espanhóis: a prisão de uma criança de 12 anos naquele presídio.

"Doce años tenía Lino Figueredo, y el Gobierno español lo condenaba a diez años de presidio.

Doce años tenía Lino Figueredo, y el Gobierno español lo cargaba de grillos, y lo lanzaba entre los criminales, y lo exponía, quizás como trofeo, en las calles.

¡Oh! ¡Doce años!"

O intelectual libertador expõe a crueldade dos colonizadores espanhóis descrevendo o que eles fazem com pessoas do povo, velhos e crianças.

"Los representantes del país no sabían la historia de don Nicolás del Castillo y Lino Figueredo cuando sancionaron los actos del Gobierno, embriagados por el aroma del acomodaticio patriotismo. No la sabían, porque el país habla en ellos; y si el país la sabía, y hablaba así, este país no tiene dignidad ni corazón."

Esse texto é datado de "Madrid, 1871".

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VIVA, MARTÍ!

O dia de hoje foi celebrado em diversos locais do mundo. Aqui no Brasil foi inaugurado um busto no Memorial da América Latina em homenagem a José Martí. Pensei em ir até lá, mas não deu.

Em Cuba, foram diversas atividades ao longo da semana para comemorar o aniversário de 170 anos do herói cubano, libertador, poeta e escritor, político e grande intelectual.

É isso! Feito o registro sobre Martí. Sigamos lendo e estudando. O texto anterior sobre estudos de Cuba pode ser lido aqui.

William


Bibliografia:

MARTÍ EN SU UNIVERSO - UNA ANTOLOGÍA. Edición Conmemorativa. Real Academia Española e Asociación de Academias de La Lengua Española. Alfaguara - Lengua Viva, Madrid.


sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Diário e reflexões - Cuba VI (27/01/23)



Refeição Cultural - Cuba (VI)

Osasco, 27 de janeiro de 2023. Fim de noite de sexta-feira.


Neste início de ano incluí em meus temas de interesse conhecer mais sobre Cuba e o povo cubano, sua história, seus momentos marcantes, suas personalidades, sua cultura, seu sistema político e social. 

Tenho comigo que é melhor estudar e conhecer mais sobre o mundo e a vida do que não estudar. Observo que o ser humano está emburrecendo. A espécie homo sapiens deixará de existir. Não me dobro a essa lógica, vou até o fim de meus dias tentando ser menos ignorante em todos os sentidos.

Estou lendo um livro de um autor cubano, Leonardo Padura, autor da atualidade, que se encontra na plenitude de sua produção literária. O livro O homem que amava os cachorros é um romance que aborda a vida de Trótski. A leitura vai demorar bastante. 

Estou lendo José Martí e sobre José Martí. Comprei um livro de antologia de seus textos, porém comprei a edição virtual. Já me arrependi por não ter adquirido a edição impressa. Dá até vontade de deixar a virtual de lado e comprar de novo em papel. Não me adapto a essa forma de mídia.

A data é comemorativa do aniversário de 170 anos do nascimento de José Martí, o apóstolo da liberdade cubana. Ainda não entendi se ele nasceu no dia 27 ou 28 de janeiro de 1853, mas as comemorações estão acontecendo entre hoje e amanhã.

Estou lendo matérias jornalísticas sobre o dia a dia de Cuba em dois veículos de informação de lá: cubadebate.cu e granma.cu e tenho gostado bastante dos conteúdos.

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Eu tenho uma certeza: sou anti-imperialista e anticapitalista. 

O capitalismo será o responsável pelo fim da possibilidade de vida no planeta Terra.

A espécie humana se quiser seguir existindo terá que superar essa forma de organizar as sociedades humanas. 

Minha postagem anterior sobre o tema Cuba pode ser lida aqui.

William


quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Leitura: Torto arado - Itamar Vieira Junior



Refeição Cultural

Osasco, 26 de janeiro de 2023. Quinta-feira. (atualizado às 21h55)


Li dias atrás o romance Torto arado (2018) de Itamar Vieira Junior para participar da aula do curso "13 livros para compreender o Brasil" do Instituto Conhecimento Liberta (ICL). Estava na Praia Grande (SP) e no dia da aula presencial acabei chegando tarde a São Paulo e não pude participar do encontro.

O romance de Itamar Vieira Junior é muito bem escrito, é surpreendente e sensível, é triste também, mas é um livro fundamental para todos nós que sonhamos com um novo Brasil, um país que coloque em prática algum dia uma reforma agrária justa e que assente milhões de pessoas com as condições necessárias para que elas possam viver plenamente através do fruto de seu trabalho com a terra.

Li Torto arado durante uma semana de estadia em um espaço da classe trabalhadora, uma colônia de férias de um sindicato de uma importante categoria profissional, os professores paulistanos. A Colônia do Sinpro SP é um lugar onde nos sentimos plenos, é um local acolhedor para as professoras e professores da ativa e aposentados descansarem alguns dias. Minha esposa é associada há décadas deste importante sindicato.

Itamar Vieira Junior é geógrafo e servidor público do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e conhece muito a respeito do tema que tratou no livro de ficção. Vi uma entrevista dele à TVT e fiquei encantado com a figura humana que ele é. Itamar nos conta que o que ele é é fruto muito mais da convivência com os trabalhadores rurais do que com a convivência nos ambientes de formação acadêmica. Nos 15 anos como servidor do Incra, o escritor soube de muitas mortes ocorridas por causa da luta pela terra.

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UM ROMANCE DO POVO BRASILEIRO

Durante a leitura de Torto arado revivi os anos setenta e oitenta de minha própria família, principalmente a família que vivia em Minas Gerais, onde vivi entre os 10 e os 17 anos. Durante essa vivência foram diversos trabalhos braçais, inclusive com enxada, enxadão e cavadeira de terra, e também trabalhos com marreta, talhadeira e ponteiro, foram casas humildes de todos nós da família. Tempos de marmitas, de corpos cansados da longa labuta.

A história de Bibiana e Belonísia, de seus pais, tios, primos e da comunidade de Água Negra - descendentes de escravizados que viviam ali há dezenas de anos - é um pouco da história de todos nós da classe trabalhadora e das massas exploradas que não compõem o pequeno grupo de privilegiados nascidos e criados nas casas-grandes da atualidade, a pequena parcela da elite rica e rentista que se esconde atrás da abstração "mercado", que inclui os famigerados canalhas do "agro pop". 

Água Negra representa uma comunidade quilombola no sertão da Bahia. Mas poderia representar também as comunidades carentes e sem apoio algum do Estado nos centros urbanos, as favelas.

Lá em Uberlândia onde cresci tem dessa gente da elite de merda do "mercado" e do "agro pop", aquela gente que jogou merda por drone no comício do presidente Lula em 2022. 

Lá em Uberlândia e nas mais de 5 mil cidades brasileiras tem uma multidão de gente como os trabalhadores de Água Negra, descendentes de escravizados e povos indígenas, pessoas negras, pardas, vermelhas, amarelas e brancas, povo brasileiro miscigenado por séculos de nascimentos através de mães negras, índias, cafuzas e mamelucas muitas vezes violentadas por brancos de origem estrangeira.

Me lembrei muito de minha vida em Uberlândia ao ler Torto arado... 

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NARRADORES NOS SURPREENDEM

Uma coisa boa na leitura do romance de Itamar Vieira Junior é a sua excelente capacidade narrativa. O escritor nos surpreende ao variar as personagens que narram a história da família e da comunidade quilombola de Água Negra.

O romance é dividido em 3 partes - Fio de corte, Torto arado e Rio de sangue - e cada parte tem um narrador que se destaca. Essa variância na narrativa dá uma dinâmica fantástica ao romance, os leitores têm diversas nuanças e pontos de vista de personagens dentro da história daquela comunidade.

Na primeira parte, quem narra a história é Bibiana, a irmã mais velha. Na segunda parte é Belonísia, a irmã mais nova. Ambas têm as vidas interligadas por um acidente que aconteceu na infância delas, quando tinham 7 e 6 anos.

A terceira parte é narrada por uma "encantada", um espírito que se expressa a partir de um cavalo, uma pessoa que empresta seu corpo físico para que os espíritos se comuniquem conosco. É maravilhoso isso!

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"Meu cavalo morreu e não tenho mais montaria para caminhar como devo, da forma que um encantado deve se apresentar entre os homens, como deve aparecer por esse mundo. Desde então, passei a vagar sem rumo, arrodeando aqui, arrodeando acolá, procurando um corpo que pudesse me acolher. Meu cavalo era uma mulher chamada Miúda, mas quando me apossava de sua carne seu nome era Santa Rita Pescadeira. Foi nela que cavalguei por um tempo, não conto o tempo, mas montei o corpo de Miúda, solitária. Sou muito mais antiga que os cem anos de Miúda. Antes dela, me abriguei em muitos corpos, desde que a gente adentrou matas e rios, adentrou serras e lagoas, desde que a cobiça cavou buracos profundos e o povo se embrenhou no chão como tatus, buscando a pedra brilhante. O diamante se tornou um enorme feitiço, maldito, porque tudo que é bonito carrega em si a maldição..." (p. 203)

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Eu cresci frequentando ambientes diversos da religiosidade brasileira. O catolicismo no qual fomos aculturados no século XX era esse no qual os cristãos frequentavam as missas nas igrejas católicas e também frequentavam os terreiros de umbanda, onde tomavam a benção, e passes nos centros espíritas.

O pai das meninas e demais líderes espirituais da comunidade de Água Negra - Zeca Chapéu Grande, filho de Donana e companheiro de Salu -, que benzia e curava corpo e alma de sua gente é o equivalente de minha infância e adolescência à Dona Nenzinha, nos tempos de Uberlândia, e essa comunicação com os espíritos foi também a minha realidade ao receber as bençãos de Maria Baiana e Fabinho, que nos acolhiam e cuidavam de nós ao longo de anos já vivendo em São Paulo.

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Enfim, está feito meu registro sobre a leitura do belo romance de Itamar Vieira Junior, Torto arado. Vale a pena a leitura! Vale a pena! 

Pensando um pouco a respeito do que discutimos nas leituras do curso no ICL, o romance de Itamar nos traz de forma muito aguda a questão das "permanências" entre o ontem e o hoje na história brasileira.

Até quando veremos a exploração do homem pelo homem (ser humano)? Essa é a questão! Quando iremos superar esse passado injusto, desumano e opressor em relação à maioria do povo brasileiro, povo descendente dos povos escravizados e originários, explorados até o limite do viver? Até quando?

William


Bibliografia:

VIEIRA JUNIOR, Itamar. Torto arado. São Paulo: Todavia, 1ª ed. 2019. 264 páginas.


terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Diário e reflexões (24/01/23)


Já estava com saudades do
céu da minha janela.

Refeição Cultural

Osasco, 24 de janeiro de 2023. Terça-feira, fim de noite.


"Não sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."

(Tabacaria, Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa)


Por uma semana eu não liguei o notebook para escrever. Até entrei por pouco tempo em páginas de veículos de informação na internet. Também vi um pouco das exposições das pessoas através de suas redes sociais. Enfim, não escrevi nem comentei nada sobre as coisas, mas vi de forma não aprofundada as tragédias sociais de nosso tempo. Que desacorçoo em relação ao ser humano!

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O Brasil

GENOCÍDIO INDÍGENA - Veio a público o genocídio dos povos indígenas no Brasil. Muita gente da sociedade está fazendo cara de espanto e de surpresa... quanta hipocrisia em nossa espécie animal! Era sabido que havia um genocídio dos povos indígenas desde que o genocida e seus financiadores, apoiadores e cúmplices assumiram o poder em 2019. O inominável e seus ministros são responsáveis pelo genocídio do povo yanomami e pela invasão e destruição de dezenas de reservas indígenas de diversas etnias. 

Nos tempos de Hitler e o 3º Reich, a Europa inteira fazia de conta que não sabia do genocídio de judeus, ciganos, pessoas com deficiência, gays, adversários do nazismo e qualquer pessoa que discordasse dos "patriotas" da Alemanha, os poderosos alemães bem armados e com maior capacidade de eliminação de inimigos entre todos os povos da primeira metade do século XX. O ser humano é um animal hipócrita!

CARTÃO CORPORATIVO - E o cartão corporativo da presidência da república na mão do miliciano e sua família e seus financiadores, apoiadores e cúmplices, então? Esse fato, essa verdade, pelo menos o povo não sabia dos detalhes porque estava sob sigilo de 100 (cem) anos. 

Enquanto as crianças e idosos e adultos yanomamis morriam de fome e sede e de contaminação provocada pela mineração dos "parças" do inominável, milhares e milhões de reais do erário público eram gastos em motociatas, picanhas, vibradores, lanches, comidas, regalias diversas do clã, gastos num mesmo endereço e com notas fiscais bem estranhas... E tem gente que não acha nada demais a famiglia comprar dezenas de imóveis em dinheiro vivo... O ser humano é um animal hipócrita!

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Piscina da Colônia do Sinpro SP, no litoral.
O que mudou na paisagem foram esses prédios
que a especulação imobiliária traz a Praia grande.

VIAGEM COM A FAMÍLIA

Nesta semana que passou, estivemos na Colônia do Sinpro SP na Praia Grande (SP). Adoramos aquele lugar simples e tranquilo. Durante a estadia por lá, li o livro Torto arado (2019), de Itamar Vieira Junior. Que romance duro! Que texto bem escrito! Também li um pouco dos textos do cubano José Martí. A leitura do romance de Itamar Vieira era para a aula presencial de hoje do curso "13 livros para compreender o Brasil" no Instituto Conhecimento Liberta (ICL), mas não deu certo comparecer à aula porque chegamos um pouco além do horário que havíamos programado. Paciência!

É isso! Obrigado presidente Lula por tanta mudança em pouco mais de três semanas de mandato! Sua disposição para ajudar as pessoas e reconstruir o país e as relações com o mundo lá fora é notável! Você nos representa presidente.

NÃO SOU NADA...

Ah, ia me esquecendo...

A citação que abre o diário é porque fiquei pensando algo que já me traz certa inquietação há tempos.

Hoje é Dia do Aposentado. Recebi email de felicitações por parte de nossa Caixa de Previdência, a Previ. Sou beneficiário da nossa Caixa. Mas não sou ainda aposentado pela previdência pública. Gozo o benefício antecipado por ter cumprido as regras conquistadas por nós na luta ao longo da história do funcionalismo do BB. 

Pago contribuição mensalmente à previdência pública para poder gozar do direito à aposentadoria. Já são 33 anos de contribuição. Porém, as reformas que fizeram para que nós da classe trabalhadora nunca mais nos aposentássemos foram bem-sucedidas. Nos fodemos. A gente morre antes, mas não aposenta nunca.

Como diz a música da banda The Verve: "I'm a lucky man". Sou um afortunado, um homem de sorte por ter sido funcionário de um banco público. Todo cidadão brasileiro deveria ter direito a uma previdência. Como poucos têm esse direito, o benefício acaba sendo um privilégio de poucos.

Eu convivo com um incômodo antigo. Não sou professor. Não sou contador. Me formei em Letras e Contábeis, mas nunca atuei nas áreas nas quais estudei. Fui bancário, que é uma ocupação. Minha esposa foi professora a vida toda. Hoje é aposentada. É professora aposentada. Fez por merecer ser reconhecida como uma profissional da educação e ela educou crianças por décadas.

Antes eu era funcionário de um banco público. Não sou mais. Virei beneficiário de previdência privada, mas não sou aposentado... que foda!

Não sou professor, não sou contador, não sou funcionário do BB, não sou aposentado... acho que não sou nada. 

Não sou nada... E mesmo assim, "tenho em mim todos os sonhos do mundo", como diz o poeta.

Parei por hoje.

William


terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Diário e reflexões - Cuba V (17/01/23)


Seguem os estudos sobre Cuba.

Refeição Cultural - Cuba (V)

Osasco, 17 de janeiro de 2023. Noite de terça-feira.


Li hoje mais um capítulo do livro do escritor cubano Leonardo Padura. A cada capítulo que leio, percebo o quanto a leitura é densa. Li o capítulo 8. Esse que li e o capítulo 6 se passam num cenário espanhol, anos trinta, e a Espanha está em guerra civil. O personagem focado é Ramón Mercader.

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DIGRESSÃO DE LEITOR

Antes de seguir com algum comentário ou anotação sobre a leitura do romance de Padura, fiquei pensando numa questão de leitor: cara, não sou leitor pra essas coisas digitais e virtuais, o Kindle. Não sou! Que saco! Até estou me esforçando, mas como é ruim não ter o livro impresso na mão!

Já li alguns livros que acabei comprando ou baixando gratuitamente no Kindle, mas é como se eu não tivesse o livro. O último que adquiri foi o livro comemorativo com textos do escritor cubano José Martí (1853-95), uma antologia. Já me arrependi. Deveria ter comprado o livro impresso. Que saco!

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REVOLUÇÕES

Voltando à leitura do livro O homem que amava os cachorros, o romance alterna idas e vindas no tempo histórico, e a parte que conta a história da revolução russa e demais revoluções em andamento e seus personagens é uma parte fascinante e me lembra um pouco o excelente texto "Trótski - A paixão segundo a revolução", do poeta e intelectual paranaense Paulo Leminski. (ler comentário aqui)

Aliás, a difícil questão das divisões históricas entre nós do campo da esquerda é bem retratada na obra de Padura e me faz lembrar o tempo todo os mais de 20 anos envolvidos na militância sindical bancária, inclusive como dirigente eleito por 16 anos, atuando na corrente Articulação Sindical da CUT. 

Ontem e hoje, me parece não haver mudanças significativas nas concepções e práticas das mais diversas correntes políticas no campo da esquerda brasileira e mundial. A divisão é a regra, é quase como a lei da gravidade na Física...

Nos capítulos já lidos, relativos ao cenário espanhol dos anos trinta, o embate entre a direita e os fascistas versus a esquerda e um conjunto de grupos diferentes - republicanos, anarquistas, socialistas, comunistas, trotskistas - me passa a impressão que a história da esquerda no mundo nunca mudou: a unidade é impossível, quando é construída a duras penas tem duração pequena, é uma unidade efêmera.

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Alguns excertos interessantes do romance O homem que amava os cachorros:

ESPANHA: ANOS 30

"A orientação partidária do momento era primeiro consolidar uma república para mais tarde radicalizá-la, e por isso, os jovens comunistas apoiaram naquele instante crítico as acanhadas medidas do governo contra os latifundiários e o poder da Igreja, pela igualdade entre mulheres e homens, pelos direitos dos trabalhadores e, sobretudo, da grande massa camponesa espanhola, atrasada e paupérrima..." (p. 102)

TROTSKISTAS X COMUNISTAS

"(...) afirmou sua convicção de que os trotskistas eram os mais sibilinos inimigos dos comunistas e de que anarquistas e sindicalistas só podiam ser encarados como companheiros de viagem descartáveis na escalada em direção aos grandes objetivos, que seriam divergentes quando eles, comunistas, estivessem em condições de promover a verdadeira Revolução, que conduziria a uma necessária ditadura do proletariado." (p. 103)

REVOLUÇÃO NO AR

"(...) Madri, onde os partidos da Frente Popular tinham organizado uma grande manifestação para comemorar a vitória e a formação do novo governo. Na capital, encontraram aquele ambiente festivo e nervoso que imperou na Espanha até o início da guerra. Os galões de vinho saltavam das calçadas para os caminhões dos recém-libertados, as moças atiravam-lhes flores, cruzavam-se vivas à liberdade e morte à monarquia, à burguesia, aos latifundiários e à Igreja. Podia-se sentir a revolução no ar." (p. 108)

BARCELONA

"Ser trabalhador, militante, miliciano ou soldado da República transformara-se num sinal de distinção..." (p.130)

DIVISIONISMO

"O maior perigo que as forças republicanas enfrentavam, segundo a jovem, era o divisionismo, exacerbado desde o início da guerra. Nacionalistas catalães, sindicalistas de tendência anarquista ou de filiação socialista e renegados trotskistas como os do Partido Operário de Unificação Marxista (Poum) - à frente do qual estava agora a espinha atravessada do obstinado Andreu Nin, membro do próprio governo da Generalitat - já se opunham à estratégia comunista e tinham colocado sobre a mesa a questão mais transcendente do momento: a guerra com revolução ou a guerra com vitória mas sem revolução." (p.130/131)

Enfim...

O capítulo descreve as divisões, as desconfianças e as traições que iriam movimentar o atribulado campo da esquerda naquele período.

Os comunistas sob ordens diretas dos soviéticos estavam insatisfeitos com o governo socialista de Largo Caballero, etc.

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ESTUDAR É MELHOR QUE NÃO ESTUDAR, SEMPRE!

Seguimos lendo e estudando e observando o que ocorre no mundo da política em nosso Brasil do governo Lula. E a cada dia vou conhecendo um pouco mais sobre Cuba e o povo cubano. Já estou ouvindo, também, canções de Pablo Milanés, recém-falecido. 

Estudos cubanos anteriores podem ser lidos aqui. Meu blog é uma espécie de fichário de estudos, consigo rever várias coisas nele. Estudar é sempre melhor que não estudar. 

Não consigo entender a perda de interesse nos estudos como vejo ao meu redor nos tristes dias que correm. Há uma espécie de incentivo à ignorância! É assustadora a ignorância (não saber) em tanta gente por aí.

William


Bibliografia:

PADURA, Leonardo. O homem que amava os cachorros. Tradução de Helena Pitta. 2ª ed. - São Paulo: Boitempo, 2015.


Leitura: Gen Pés Descalços (2) - Keiji Nakazawa



Refeição Cultural

Gen Pés Descalços - O trigo é pisoteado 

Volume 2


A leitura do volume 2 do mangá Gen Pés Descalços - O trigo é pisoteado é uma leitura dura, difícil, que gera muito sofrimento e reflexão no leitor. No entanto, minha leitura foi mais fácil. Diferente do 1º volume, que levei muito tempo pra ler e reler, este li em dois dias.

No 1º volume do clássico (ler aqui um comentário), conhecemos a família Nakaoka, na qual Gen nasceu, uma família pacifista e contrária à guerra. Essa postura ética e ideológica traz consequências sérias à família porque o governo tem uma máquina de propaganda implacável em defesa da guerra e a família é tratada por todos ao redor como antipatriotas, como traidores, como covardes.

O cenário da história é Hiroshima, cenário no qual conhecemos o dia a dia da família Nakaoka e do povo japonês entre meados de abril e o dia da destruição total através da bomba atômica detonada sobre a cidade no dia 6 de agosto de 1945. O governo japonês faz parte do Eixo e o cenário da história é o final da 2ª Guerra Mundial, já vencida àquela altura pelos Aliados.

O primeiro volume termina com a detonação da bomba e o segundo começa com a consequência da explosão e destruição de Hiroshima.

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Raro momento sem fome, mas isso dura pouco.

AUTOR DESCREVE UM MUNDO RUIM E DE GENTE RUIM

O que se percebe no 1º e no 2º volume de Gen Pés Descalços é a descrição de um mundo ruim, independente do ângulo em que se observa aquele cenário. Talvez a escolha do autor seja pela sua vivência pessoal, haja vista que Keiji Nakazawa é uma vítima real da guerra e da bomba de Hiroshima. Ele tinha 6 anos quando a cidade foi destruída e sobreviveu juntamente com sua mãe.

Neste volume, o foco muda da guerra em andamento para a sobrevivência na cidade de Hiroshima após a explosão da bomba atômica. Os desenhos entre o final do volume 1 e este são muito fortes, pessoas sobreviventes com as peles derretidas, muita sede, cadáveres das mais diversas formas, espalhados por terra e rios. Se já havia fome antes, muita fome, agora temos a fome e as consequências da bomba.

É notória a falta de solidariedade entre as pessoas. Que chocante! A minha geração pelo menos não tratava essa falta de solidariedade de forma tão natural como se vê ali. Ao se pedir uma porção pequena de arroz, a negativa é "te vira" porque a pessoa quer cuidar de si e dane-se os outros. Cresci no Brasil do último meio século sendo aculturado em ambientes pobres nos quais uns ajudam aos outros, principalmente nas comunidades mais carentes, favelas etc. No cenário de Nakazawa isso não existe, cada um por si e tudo pelo imperador e pelo Japão.

Tenho que dar o devido crédito ao autor, afinal de contas ele deve ter seus motivos para retratar um país e um contexto tão duro, autoritário e individualista como vemos no mangá. 

Considerando a metáfora da história, o trigo verde foi pisoteado e agora veremos como Gen irá sobreviver e se comportar no próximo volume da História em Quadrinhos. O sofrimento e humilhação que ele e a mãe passaram são indescritíveis! Aperta o peito da gente!

É isso! Novas culturas, velhos problemas humanos retratados nas diversas formas culturais.

William


Post Scriptum: para ler os comentários sobre a leitura do volume 1, clique aqui. O texto seguinte, do volume 3, pode ser lido aqui.