sexta-feira, 16 de junho de 2023

Leitura: Evocación - Aleida March



Refeição Cultural - Cuba (XXV)

Osasco, 16 de junho de 2023. Bloomsday. (se já não fosse raro ser um leitor de Ulisses, eu o li duas vezes...)


"En Evocación están mis remembranzas, no tengo vocación de escritora, volqué en blanco y negro mis recuerdos más queridos, espero que los que lean mis notas aprecien cuánto esfuerzo y dejación hice de mis cartas, mis poesias que hasta ahora guardaba dentro, muy dentro de mi... Gracias." (Aleida March)


A leitura do livro Evocación (2007), é uma leitura de descobertas e surpresas que deixam o leitor num estado de admiração do início ao fim da história contada a nós pela guerrilheira cubana Aleida March, que após a libertação de Cuba, em 1º de janeiro de 1959, viria a ser esposa e mãe de quatro filhos do grande líder revolucionário Ernesto Che Guevara.

Estávamos andando pelas ruas de Havana Velha, com o senhor Luis Caballero nos guiando e contando as histórias de Cuba, do povo cubano e da Revolução, quando vimos um pequeno estabelecimento que vendia livros usados. Acabei escolhendo um só livro que estava em exposição porque estávamos cumprindo um percurso programado e não queria atrapalhar o grupo. Escolhi este livro de Aleida, com essa linda foto de capa, ela e o Che. Que sorte a minha!

Eu que conheço tão pouco a respeito de toda essa fantástica história do povo cubano que lutou por séculos por sua independência e liberdade do jugo de países imperialistas, pego por acaso para ler um livro de memórias, confessional, de uma mulher que desde muito jovem se indignou com a exploração e miséria de seu povo, lá na sua modesta Santa Clara (antes Las Villas) e decidiu se unir aos guerrilheiros que viriam a passar mais de dois anos nos altos relevos da Ilha - Sierra Maestra e Montañas del Escambray - até que a Revolução por fim libertasse Cuba da ditadura de Batista, apoiada e financiada pelo império norte-americano. Aleida tinha pouco mais de 20 anos de idade quando se juntou aos guerrilheiros.

Quando o leitor começa a leitura e percebe o tom pessoal no qual Aleida nos conta sua história, o leitor fica grudado na leitura, é difícil parar porque queremos logo ver o que vem a seguir, e ela vai contando sobre sua infância, depois adolescência, as dificuldades do povo perante a miséria e a violência de viver sob a ditadura de Fulgencio Batista, e as notícias que a jovem ia ouvindo davam conta que jovens cubanos estavam se organizando para dar um basta a toda aquela situação... e ela ficou sabendo a respeito do assalto ao quartel de Moncada em 26 de julho de 1953, a prisão do jovem líder Fidel Castro... só de escrever aqui eu já me emociono...

"El año de 1956 fue decisivo para mí. Leí y estudié con pasión las páginas de La historia me absolverá, el alegato de defensa de Fidel en el juicio que lo condenó por las acciones del Cuartel Moncada, y sentí que en ese documento se expresaban todos mis ideales y la ruta a seguir para conquistar la plena dignidad patria." (p. 27)

A menina Aleida March teve acesso à época a um documento que mudou a sua vida... ela leu A história me absolverá, de Fidel Castro, e decidiu que as palavras de Fidel eram tudo que ela sentia e queria para a vida dela e para o povo cubano. E desde então, decidiu que iria se unir aos jovens revolucionários e lutar pela libertação de seu país.


Para minha sorte, além de pegar por acaso o livro de Aleida, ganhei um valioso presente do senhor Luis Caballero, 3 livros fundamentais na formação e politização do povo cubano, e entre eles está La historia me absolverá. Nuestra América e Manifiesto Comunista completam o magnífico presente.

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PASSAGENS

O custo da militância...

"Recomensaba entonces una febril actividade, al enfrentarnos a un enemigo cada vez más enardecido; incluso la violencia se ejercía sin tregua y la experimenté em mi propia familia cuando, a raiz de la huelga del 9 de abril, un primo mío, Laureano Anoceto March e su hijo, Eduardo Anoceto Rega, fueron torturados y asesinados." (p. 41)

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O comunismo já era um palavrão nos anos 50 (havia um esforço de demonizar a palavra), mesmo em movimentos de libertação e independência dos povos explorados pelo imperialismo e capitalismo.

"(...) Más tarde supe que era Sidroc Ramos, incorporado ya a las filas de la Columna. Aquella imagen de Sidroc nunca se me ha borrado de la mente; me pareció un 'ruso blanco', tamaña ignorancia política la mía que contribuyó a 'corroborar' lo que se decía de la filiación comunista del Che. Es justo afirmar que en esa época los que carecíamos de una correcta formación política éramos la mayoría, y los prejuicios contra el comunismo estaban presentes en casi todos, y yo no era la excepción." (p. 46)

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A luta de libertação de Cuba não era uma revolução socialista, era de independência e Fidel era o líder de uma luta que começou bem antes com outras lideranças do passado como José Martí, o apóstolo da independência de Cuba. Podemos retroceder pelo menos a 1868 em relação às lutas libertárias.

"Tiempo después, el Che me explicó que creía que la dirección del Movimiento de Las Villas, formada en su mayoría por gente de derecha, me había enviado para vigilar sus movimientos y acciones dada su fama de comunista. De ahí su renuencia a que me quedara en el campamento, desconocedor como era de las verdaderas razones que me mantenían fuera de la ciudad." (p. 48)

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A ética e a moral de um grupo revolucionário - Che Guevara sempre acreditou que um grupo de guerrilheiros bem treinados e crentes na causa que defendia teria mais chances de vencer do que um exército maior e sem acreditar na causa a que servia.

"Era alguién que se enfrentaba a un enemigo superior en hombres y en pertrechos, pero carente de moral para vencer a un grupo de rebeldes. Además de su arrojo, los guerrilleros contaban con la conducción de un jefe con extraordinaria capacidad técnico-estratégica, devenido un ejemplo permanente que irradiaba a los demás." (p. 49)

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Quem disse que um revolucionário não pode ser terno e romântico?

"A pesar de lo que estaba ocurriendo a nuestro alrededor, el Che intentaba mostrarme algo de sus sentimientos y lo hacía con la poesía. Después supe que representaba para él una de las formas más hermosas de expresarse." (p. 50/51)

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O Sancho Pança de Che, pelo menos na lealdade e na constância...

"He llegado a pensar que ahí comenzó el Che a conocerme verdaderamente y, sobre todo, a valorar algo que consideraba una de mis mejores cualidades: decir siempre lo que pensaba, aunque supiera que me reprenderían por ello. Al menos por ese lado tenía una compañía que, aunque distaba mucho de ser Sancho Panza en sagacidad y sabiduría, le era leal y constante." (p. 55)

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'Justiçamento" para os crimes de guerra...

"Ante tanta barbaríe había que comenzar a actuar con rapidez. Ya en la Comandancia, Marta Lugioyo, nuestra compañera, abogada de profesión, redactó las órdenes de fusilamiento, acompañadas del listado con los nombres de los que debían ser ajusticiados por haber cometido crímenes atroces." (p. 67)

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La Habana e o deslumbramento... A verdadeira luta revolucionária começou assim que Cuba alcançou a libertação e a independência, ali começava em 1º de janeiro de 1959 a verdadeira batalha para implantar uma sociedade mais justa e solidária para o povo cubano.

"En la mañana el Che trabajó en la casa, en una pequeña oficina, para después retornar a la Jefatura. En el trayecto, los que lo seguimos íbamos curioseándolo todo: los jardins, la vista al mar, maravillados de lo agradable del lugar. Éramos los desposeídos, quienes por primera vez nos sentíamos dueños de nuestro destino. Nos enfrentábamos a las primeras brisas. El Che ya había advertido que a partir de ese instante era que comenzaba la verdadera lucha revolucionaria." (p. 73)

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Che e a importância da educação e formação política, a ética como foco.

"Era um movimiento incesante que perseguía como objetivo central la formación del Ejército Rebelde. Se crearon escuelas de alfabetización y seguimiento, con mucho esfuerzo y tesón porque no pocas veces daban las evasivas e indisciplinas de soldados, que en el combate fueron ejemplo de valentía y coraje y, sin embargo, no eran capaces de entender el porqué de las nuevas exigencias." (p. 78)

E mais, mesmo os soldados das escoltas a ele e nos locais onde tinha que permanecer, não faltava o foco na alfabetização e educação:

"(...) Allí también el Che tenía implantado un régimen de disciplina, con maestro y todo, para que los soldados de la escolta continuaran sus estudios." (p. 86)

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Impessoalidade e sem nepotismo. Che e Aleida eram recém-casados e, mesmo ela sendo secretária particular dele, Che foi incisivo em afirmar que ela não o acompanharia na viagem internacional que Fidel pediu que fizesse. Nem o Comandante em Chefe Fidel Castro o demoveu da ideia...

"Fue el momento en que comencé a conocerlo com mayor profundidad, cuando me argumentó que además de secretaria era su esposa y que se vería como un privilegio mi presencia, porque los otros no podian hacerse acompañar de sus compañeras." (p. 95)

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REFLEXÕES APÓS O TÉRMINO DA LEITURA

Durante a leitura das evocações de Aleida March, eu estava viajando na guerrilha ao lado dos revolucionários e revolucionárias e a leitura estava muito fácil e prazerosa. Finda a fase de libertação, começou a fase de construção de uma nova sociedade cubana. E dá-lhe trabalho revolucionário para esta tarefa triunfar...

Uma segunda parte das evocações de Aleida, foi essa da construção da República Socialista de Cuba. Che Guevara foi responsável por grandes tarefas que exigiam um alto nível intelectual. Foi responsável por organizar o sistema financeiro, foi responsável por implantar um sistema industrial no país, e foi uma espécie de porta-voz de Cuba no cenário internacional. Viajou o mundo para isso. 

Ou seja, entre os anos de 1959 e 1965 Che Guevara foi um dos grandes construtores da nova sociedade cubana, um grande parceiro do Comandante Fidel Castro e do povo cubano.

Não teria como citar nesta postagem tanta história sobre tudo isso. Eu recomendo muito às pessoas interessadas na história de Cuba e das lutas por um mundo alternativo ao mundo capitalista que leiam o livro de Aleida March. O livro está disponível em português e vi pela internet que é possível adquiri-lo em sites de livros usados.

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A DESPEDIDA DE CUBA, DE ALEIDA E OS ANOS NO CONGO E NA BOLÍVIA

A terceira parte do livro foi bem mais difícil de ler. Virei um chorão! Já começa pela descrição de Aleida à página 152 e 153 de minha edição em espanhol. 

Além das cartas deixadas, Che deixou fitas cassete com os poemas que eles mais gostavam gravados para a sua amada. As últimas 50 páginas das evocações de Aleida foram muito emotivas. Muito.

Amig@s leitores, por mais que eu tenha lido alguma coisa sobre a história dessa figura lendária, Che Guevara, eu nunca imaginaria tudo que passei a saber após ler as recordações de sua companheira Aleida March.

O período da vida de Che entre 1965 e 1967 me era desconhecido, quer dizer, eu sabia aquilo que já havia lido, de um ou outro escritor, estudioso ou do mundo dos meios de comunicação, sempre enaltecendo ou demonizando o mitológico Che Guevara... mas saber desse período através de sua amada companheira - "mi única el en mundo - como ele a chamava, isso jamais imaginaria saber.

Recentemente, o livro do professor Miguel Nicolelis - O verdadeiro criador de tudo (ler comentário aqui) -, neurocientista que estuda o cérebro humano há 40 anos, me impactou de forma nunca sentida antes ao ler um livro. Encontrei respostas a questionamentos que fazia há décadas na minha vida.

O livro que acabo de ler, de Aleida March, sobre suas recordações pessoais que se dão num período que abrange a Cuba da ditadura de Batista e da guerrilha pela liberdade do país, o encontro e amor vivido com Che Guevara e a construção de uma nova sociedade socialista em Cuba, foi um livro que me impactou muito também. Nem sei explicar o porquê.

É isso! Feita a leitura do 16º livro deste ano. Como nos ensinou Che Guevara e Fidel Castro devemos estudar e ler todos os dias, todos os dias, para criarmos homens e mulheres novos, e uma sociedade nova.

William


Bibliografia:

MARCH, Aleida. Evocación. Fondo Editorial Casa de las Américas, 2008.


quinta-feira, 15 de junho de 2023

Os miseráveis - Victor Hugo (4)



Refeição Cultural

Osasco, 15 de junho de 2023. Quinta-feira chuvosa e fria.


"O cadafalso, com efeito, quando está lá, preparado e aprumado, tem qualquer coisa que alucina. Podemos ter certa indiferença em relação à pena de morte, podemos não nos pronunciar, dizer sim ou não, enquanto não virmos com os próprios olhos uma guilhotina; mas, se encontramos uma, o abalo é violento, temos de nos decidir a favor ou contra..." (p. 55)


PRIMEIRA PARTE - FANTINE

LIVRO 1: UM JUSTO

III. Para bom bispo, bispado difícil

Neste pequeno capítulo, vemos o bom Myriel percorrendo sua base social, ele amassa barro de verdade, vai mesmo às bases.

Como transformou o valor da carruagem a que teria direito em esmolas, anda à pé, à cavalo ou de jumento, respondendo às gozações dizendo "do mesmo meio que usou Jesus Cristo".

Usa de muitos exemplos de comunidades locais para pregar para a sua base. Tipo a citação abaixo:

"Vejam o povo de Briançon. Concederam aos indigentes, às viúvas e aos órfãos licença para ceifar seus prados três dias antes de todos os outros. Reconstroem gratuitamente suas casas quando elas estão em ruínas. Por isso aquela terra é abençoada por Deus. Durante todo o século não houve um único assassinato".  (p. 49)

Que personagem simpático, né não?

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IV. Obras semelhantes às palavras

Interessante este capítulo. Através dos sermões e repreensões do monsenhor Bienvenu, os leitores acabam conhecendo um pouco dos usos e costumes de época, primeiras décadas do século 19.

As casas de pobres e miseráveis não tinham janelas porque se tivessem teriam que pagar imposto por elas. Imaginem o ambiente insalubre no qual viviam as maiorias que não pertenciam às burguesias e nobrezas.

"(...) e, finalmente, trezentas e quarenta e seis mil cabanas, cuja única abertura é a porta. E isso por causa do denominado imposto de portas e janelas! Coloquem pobres famílias, velhas senhoras e criancinhas dentro dessas habitações, e verão as febres e as doenças! Oh! Deus dá o ar aos homens e a lei o vende!..." (p. 52)

JUSTIÇA CORRUPTA - O promotor do rei faz como juízes e procuradores da Lava Jato para condenar pessoas...

O narrador cita às páginas 53 e 54 um caso nos moldes da sacanagem que rolava na "República de Curitiba". Uma mulher que usou moeda falsa feita pelo marido não quer denunciá-lo porque a pena era capital, morte. O promotor inventa que o marido dela tinha uma amante, gera ódio e ciúmes de forma mentirosa na esposa do falsificador e a mulher abalada com a questão entrega o marido para a condenação fatal... O padre Myriel pergunta ao final do caso:

"- E onde será julgado o promotor do rei?" (p. 54)

REFLEXÃO SOBRE A PENA DE MORTE: além da citação que abre esta postagem, temos a sequência dela abaixo:

"A guilhotina é a concreção da lei, chama-se vingança, não é neutra nem permite que se fique neutro..." (p. 55)

O destaque na palavra "vingança" é do autor, não minha.

O capítulo termina com reflexões sobre essa questão da pena de morte. Reflexão muito boa. Me lembrei das reflexões que fiz sobre isso muito tempo atrás. Até hoje, o tema pena de morte me traz grande angústia e reflexões.

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COMENTÁRIO: A PENA DE MORTE NUM MUNDO DE INJUSTIÇA...

Imaginem vocês se houvesse pena de morte no Brasil da operação Lava Jato... imaginem só! Quantos empresários e políticos teriam sido guilhotinados com condenações inventadas ao bel-prazer daquela gente má e psicopata que operava à margem das leis e procedimentos legais?

Mesmo não havendo formalmente pena de morte no país, é possível refletir a respeito de pessoas que morreram devido à sanha incontrolável de procuradores, delegad@s e juízes que manipulavam a lei em nome da Justiça do país para inventar crimes, destruir vidas e empresas impunimente e enriquecer os operadores da Lava Jato. 

Basta um exemplo de morte de pessoa inocente, mesmo sem termos pena de morte formal no Brasil: o reitor da UFSC Carlos Cancellier, que perdeu a vida após uma sessão de tortura e humilhação por parte daquela gente sem freio da "República de Curitiba". A responsável pelo suicídio do reitor segue impune, assim como estão impunes toda aquela gente que fez o que quis com pessoas durante anos sem freio algum.

E para além daquela desgraça da Lava Jato... 

PRETOS E POBRES - Imaginem vocês se houvesse pena de morte no Brasil racista do assassinato em massa de pretos e pobres... imaginem só! As estatísticas estão aí... imaginem se a lei ainda mandasse o Estado matar...

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Em Os miseráveis, o padre Myriel acaba precisando dar assistência a um condenado à morte e após acompanhá-lo até o martírio final, o representante da igreja da época (burguesa e parte do sistema) sai modificado do evento.

Quando entrei para o movimento sindical como representante eleito pelos trabalhadores, tinha um dilema a resolver comigo mesmo: ser a favor ou contra a pena de morte. 

À época, li diversos artigos e estudos a respeito do tema, vi filmes sobre o tema, e após muita reflexão e estudos, cheguei à conclusão que não poderia ser favorável à pena de morte por parte do Estado. 

Mais de duas décadas se passaram sobre minhas reflexões e ainda hoje avalio que o Estado não deve tirar a vida de uma pessoa. 

A pena capital não tem volta para o caso de eventual erro, seja um erro por incompetência da Justiça, seja por má-fé no processo, como vivemos hoje com os processos de lawfare para assassinar reputações e pessoas e empresas.

É isso! A leitura de Os miseráveis acaba sendo uma oportunidade para reflexões. Como disse dias atrás (texto aqui), vivo com um mal-estar que me angustia o viver, e se eu não escrevesse ao menos, acho que não suportaria continuar.

William


Post Scriptum: clique aqui para ler a postagem anterior sobre essa temática. A postagem seguinte sobre esse clássico pode ser lida aqui.


Bibliografia:

HUGO, Victor. Os miseráveis. Tradução de Regina Célia de Oliveira. Edição especial. São Paulo: Martin Claret, 2014.

quarta-feira, 14 de junho de 2023

Viagem a Cuba (VII)



Refeição Cultural - Cuba (XXIV)

Osasco, 14 de junho de 2023. 95º aniversário de Ernesto Che Guevara.


Depois de passarmos os primeiros seis dias em Havana, fomos para a cidade de Trinidad e de lá, dois dias depois, seguimos para Santa Clara, onde passaríamos o dia para seguir viagem até Varadero

Estou fazendo as postagens seguindo uma sequência cronológica da viagem. Abro exceção nesta para homenagear o grande revolucionário Ernesto Che Guevara, que faria hoje 95 anos. 

Santa Clara foi um dos locais onde se desenvolveu no final de 1958 um enfrentamento decisivo às tropas governamentais do ditador Fulgencio Batista: a tomada do trem blindado e da cidade pelas tropas lideradas por Che Guevara. 

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MEMORIAL, MUSEU E MAUSOLÉU DE CHE GUEVARA


Um dos momentos mais emocionantes de nossa viagem pela República Socialista de Cuba foi a visita ao Mausoléu do Comandante Ernesto Che Guevara, na cidade de Santa Clara, capital da província de Villa Clara (antiga Las Villas). Santa Clara está na região central da ilha de Cuba.

Che fez da prática sua conduta revolucionária.
Após lutar pela libertação de Cuba, lutou no Congo
e perdeu a vida lutando para libertar a Bolívia.

Santa Clara abriga um conjunto arquitetônico que contém um grande monumento dedicado ao Comandante Ernesto Che Guevara e na parte inferior do monumento temos o Mausoléu onde se encontram os restos mortais de Che e de seus companheiros de luta.


No Mausoléu a emoção toma conta dos visitantes, principalmente quando chegamos diante da gaveta onde estão os despojos mortais do Comandante Che Guevara. Só em 1997 foram encontrados os restos mortais do líder revolucionário, morto na Bolívia em 1967. Não se pode fotografar no Mausoléu e no Museu.


Ao lado do Mausoléu, está o museu com diversos pertences pessoais de Che Guevara: armas, instrumentos de medicina, câmeras fotográficas, cadernos de anotações, fotografias, roupas etc. O local também é muito impactante. 


Ainda na área do conjunto arquitetônico, temos um cemitério onde estão enterrados militantes combatentes do período revolucionário, tanto os que tombaram durante a Revolução quanto aqueles e aquelas que viveram na Cuba socialista e liberta dos impérios invasores. 


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TOMA DEL TREN BLINDADO - SANTA CLARA


Os revolucionários da 8ª Coluna, comandados por Ernesto Che Guevara, impediram que o trem blindado enviado por Batista abastecesse o exército governamental, trem carregado de armamentos e munições. Foi a Batalha de Santa Clara, decisiva para a Revolução.

Museu do Trem Blindado.

Visitamos o museu da histórica Toma del Tren Blindado, museu a céu aberto e no local onde se deu a batalha de tomada do trem blindado. As paredes dos vagões eram preenchidas com areia molhada para impedir que as balas as atravessassem.


Dois combatentes da velha guarda revolucionária tiveram uma atenção acolhedora comigo e com meu filho e nos explicaram por quase uma hora como se deram os acontecimentos daquela batalha central.


Pudemos entrar nos vagões e receber as explicações detalhadas das façanhas dos revolucionários comandados por Che Guevara.

Trator adaptado à guerrilha revolucionária.

Os revolucionários, utilizando um trator adaptado com inteligência e criatividade, tiraram os trilhos e com isso se deu uma intensa batalha por horas ininterruptas.

Após estratégia revolucionária,
 o comando de Batista se rende.
Olha a bandeira branca ali.

Quando o comandante do exército de Batista acenou uma bandeira branca, se iniciaram as conversações e o Comandante Che poupou a vida de todos os combatentes inimigos, exigindo a entrega do carregamento do trem, armas e munições.

Vitória das guerrilheiras e guerrilheiros.
Viva la Revolución!

O ditador Batista e seus apoiadores acabaram fugindo de Havana um ou dois dias depois e os revolucionários liderados pelo Comandante Fidel Castro Ruz declararam a libertação de Cuba e a vitória do povo cubano sobre os inimigos apoiados pelo imperialismo.

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Hasta la victoria, siempre!
Comandante Che.

Ao ver pela internet o lançamento em Havana, nesta terça-feira 13, da Antología General Ernesto Che Guevara em 7 volumes (Editoriales Ocean Press-Ocean Sur), vieram em mim os sentimentos de emoção que senti ao estar no Mausoléu de Che e dos demais companheiros revolucionários. Essa história deve ser estudada e preservada.

Praça Leoncio Vidal, Santa Clara.
Cuba, um país com belas praças públicas.

A visita de nosso grupo ao Memorial, Museu e ao Mausoléu de Che Guevara foi a primeira agenda ao chegarmos em Santa Clara. Depois foi que visitamos o local onde se deu a batalha que impediu o trem blindado de abastecer o exército de Batista, precipitando a vitória do movimento revolucionário.


Ainda em Santa Clara, visitamos a sede do Partido Comunista de Cuba. O local não é aberto a visitas, é um local de trabalho, e à frente do edifício se encontra a estátua em tamanho natural de Che com a criança, imagem icônica e de grande significado.

Sede do Partido Comunista em Santa Clara, Cuba.

A visita a Santa Clara foi, para mim, um dos momentos mais emocionantes da viagem a Cuba. Parti da cidade com um sentimento de gratidão imensa àqueles homens e mulheres revolucionários que libertaram a Ilha do imperialismo como sonharam e lutaram por isso gerações de cubanos como José Martí e iniciaram a partir de 1959 uma sociedade em outras bases e princípios, antagônicos ao capitalismo.

Um dos livros que trouxe de Cuba, de
Aleida March, companheira de Che.

Esta data de 14 de junho, 95º ano de nascimento do cidadão argentino de Nuestra América, Ernesto Guevara de la Serna, el Comandante Che, é uma data para se lembrar com gratidão e com orgulho, Che será sempre uma referência para nós que desejamos um mundo livre da exploração e miséria dos seres humanos.

Hasta la victoria, siempre, Comandante Che!

William


Post Scriptum: a postagem anterior pode ser lida aqui. O texto seguinte, o 8º, pode ser lido clicando aqui.

Post Scriptum II: Li umas 60 páginas do livro de Aleida March, companheira de Che Guevara e o tom de descrição pessoal da vida deles durante a Revolução e no campo de batalha é impressionante! Foi difícil interromper a leitura. Parei justamente na parte em que eles vão entrar em Santa Clara para a batalha contra o exército do ditador Batista... Incrível conhecer a figura humana do mito e herói Che através das palavras de sua companheira e esposa. Ela já contou como ele é romântico e gosta de poesia na hora de demonstrar algum sentimento por ela... 


terça-feira, 13 de junho de 2023

Diário e reflexões - Mal-estar



Refeição Cultural

Osasco, 13 de junho de 2023. Terça-feira.


Mal-estar

Um mal-estar insistente domina em mim aquilo que costumam chamar de "alma", a essência do que sou, a minha identidade, coisas definidas por meu cérebro humano. Um mal-estar como ser humano talvez. Uma consciência de saber o que somos e a consciência de ler na realidade a tendência de pra onde estamos caminhando enquanto espécie animal. Um mal-estar me domina e angustia.

Neste momento no qual escrevo, sinto um mal-estar por ter mais oportunidades de gozo da cidadania em relação a outras pessoas que deveriam ter as mesmas oportunidades... e não têm. Por que tenho mais oportunidades que outras pessoas? Que direito tenho eu de ter mais coisas do mundo humano que as outras pessoas? Por que eu tenho privilégios em relação a outras pessoas? 

Meritocracia o caralho! Me esforcei da mesma forma que meus pares da classe trabalhadora se esforçam diariamente e ainda assim estão em condições impróprias de sobrevivência. Um mal-estar me oprime.

Como poderia contribuir neste momento para tornar o mundo mais justo para a imensa maioria de seres humanos? O que estaria ao meu alcance fazer para mudar para melhor a vida dos seres humanos? Se poderia fazer alguma coisa para mudar a realidade atual por que não estou fazendo? E o mundo natural para além da espécie animal humana, o que poderia fazer pelas demais formas de vida? Ao ter consciência da realidade ao meu redor, sinto um mal-estar imenso. 

Como diminuir a desigualdade social e a injustiça que domina a sociedade humana na qual vivo? Como impedir que os biomas que ainda restam no planeta sejam destruídos em benefício de alguns humanos e em prejuízo de todo o restante dos seres humanos e das formas de vida? Até que ponto ter uma noção ou uma opinião sobre as causas e os causadores de tantos males à maioria da sociedade humana faz alguma diferença na minha tomada de decisão sobre o que fazer? Vou resolver pessoalmente a questão com algum causador dos males coletivos?

O que sei fazer que poderia contribuir para mudar a realidade ruim da sociedade humana e a tendência de destruição do planeta Terra? Que habilidades tenho como indivíduo que poderia contribuir para a coletividade? Essas são algumas das questões que me angustiam desde que deixei de atuar nos movimentos sociais de forma orgânica e como dirigente da classe trabalhadora. Agora, fora, só imagino saber escrever. O que eu sabia não tem mais utilidade. Pra que sirvo atualmente? Hoje, não servimos pra nada sequer nos círculos domésticos. Só servimos de forma utilitária. É pouco.

Passados alguns anos, ainda não me encontrei enquanto cidadão. Talvez não encontre resposta para esse mal-estar. Vivi muito além do que qualquer expectativa que suporia na adolescência. Fui responsável por muito mais coisa do que jamais imaginaria ser.

Um mal-estar me oprime neste instante do viver. Não vislumbro solução para esse sentimento. É a minha condição atual que me faz sentir o que sinto. E tenho que lidar com isso. O que passou, passou.

A dor e o sofrimento são sentimentos possíveis em todos os seres humanos, independente das condições materiais em que se encontram. Até privilegiados sentem dor e sofrimento.

Meu mal-estar não é suficiente para me deixar morrer. Viver é uma oportunidade. Enquanto se vive, temos até serventia utilitária para alguma coisa.

Será que não estou fazendo mal a ninguém? rsrs, isso é pouco...

Contudo, sou uma coisa útil estando vivo. Então, sigamos vivendo.

William


Os miseráveis - Victor Hugo (3)



Refeição Cultural

Osasco, 13 de junho de 2023. Terça-feira fria e nublada.


"Guiados por uma espécie de afetuoso instinto, entre os nomes e apelidos do bispo que, como era costume, apareciam no princípio das pastorais e circulares, os pobres da terra escolheram aquele que lhes oferecia um sentido. Assim, só o chamavam de Monsenhor Bienvenu..." (p. 48)


PRIMEIRA PARTE - FANTINE

LIVRO I: UM JUSTO

II. O senhor Myriel torna-se Monsenhor Bienvenu

Ao chegar a sua paróquia, o senhor Myriel viu que a igreja onde estaria com sua irmã e criada era muito maior que o hospital local, ao lado da igreja, e decidiu mudar-se para o lugar menor, mandando deslocar os doentes para a igreja secular com grandes salões.

Ao lermos as anotações das despesas de Myriel, cujo salário de bispo de 15 mil francos é pago pelo Estado, vemos que ele é todo distribuído em benefício de pobres, presos por dívidas, apoios caridosos diversos etc. Somente mil francos é destinado a despesas pessoais.

O senhor Myriel estabeleceu em sua rotina arrecadar ofertas de dinheiro e distribuir tudo que arrecadava entre os mais necessitados da paróquia. 

"(...) Como, de ordinário, há sempre mais miséria entre as camadas inferiores do que fraternidade entre as superiores, tudo era doado, por assim dizer, antes de ser recebido; era como água sobre uma terra seca; por mais que recebesse, o bispo nunca tinha dinheiro, e então despojava-se." (p. 48)

Vemos de início a descrição de um homem justo, é como Victor Hugo nos apresenta o personagem Myriel.

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COMENTÁRIO

Neste capítulo, vimos que o senhor Myriel é uma espécie de padre Júlio Lancellotti da atualidade, padre brasileiro pedagogo e presbítero da igreja católica, da paróquia de São Miguel Arcanjo, no bairro da Mooca, São Paulo. Uma pessoa de práticas caridosas e solidárias em relação aos pobres e necessitados.

O cenário de Os miseráveis é o cenário de uma sociedade do século 19 surgida após a implantação do regime capitalista, ambiente social resultante da Revolução Francesa, uma revolução burguesa. Os burgueses ascenderam ao poder do Estado, contudo, o povo em geral ficou na miséria na qual já vivia antes.

A São Paulo do padre Júlio Lancellotti tem 53 mil pessoas em situação de rua, sem um lar e sem a certeza de um prato de comida para matar a fome por algumas horas do dia. E as temperaturas nesta semana chegarão a 10º durante as noites de junho... e esses milhares de seres humanos estão nas ruas e praças e a todo momento a prefeitura manda retirar as barracas que eles ganham para se protegerem das intempéries.

RELIGIÃO E PODER

Os miseráveis... Por mais que tenhamos figuras louváveis e abnegadas como Lancellotti hoje e Myriel na França burguesa do século 19, é da natureza do capitalismo gerar milhões de miseráveis, miseráveis e miseráveis. Não temos lancellottis e myriels que deem conta... 

E sempre tem a religião misturada com o poder do capitalismo e do Estado burguês... sempre. E naturalmente sempre tem muitos miseráveis... os exércitos de mão de obra disponíveis... coisa boa pra economia, segundo alguns economistas canalhas ou cretinos.

E meus pares da classe trabalhadora talvez nem parem pra pensar a respeito da forma como o nosso país está organizado pelo capitalismo. E pelo poder das religiões mescladas ao capitalismo. Registro que não tenho nada contra a fé legítima das pessoas. Tenho bronca da manipulação da fé, isso tenho!

Vocês notaram que o salário do bispo de Digne, de 15 mil francos, é pago pelo Estado? Aqui no Brasil também temos a política e a religião imbricadas uma na outra. É uma mentira cabeluda dizerem que o Brasil é um país laico... fake news!

A Constituição Federal cidadã de 1988, com avanços importantes após as duas décadas de ditadura civil burguesa militar, registrou que o Brasil não seria um país laico, de cara, no preâmbulo, citando uma divindade de uma das religiões. País laico... piada, né!

A CF fala "promulgamos sob a proteção de Deus"... Imaginem se escolhessem outra divindade... sob a proteção de Alá, sob a proteção de Xangô, de Buda etc...

E as igrejas diversas recebem milhões de dinheiros do Estado brasileiro para fazer o que quiserem com essa riqueza do Brasil e dos brasileiros... na forma de isenções absurdas. 

O que sabemos de fato por ser público é que a riqueza acumulada pelas autoridades constitutivas dos templos da fé está toda na forma de propriedades, dinheiro na conta de bancos e muito dinheiro na conta de alguns humanos, isso sabemos.

Então, menos né! Menos! Não me falem em país laico.

SEM EMPREGOS PARA OS HUMANOS: SÓ O SOCIALISMO E OU COMUNISMO FARÃO DISTRIBUIÇÃO DA RIQUEZA PRODUZIDA PELA HUMANIDADE

Os miseráveis seguirão existindo e aumentando porque a tendência de fim do emprego e dos trabalhos e serviços feitos por seres humanos é real, está aí.

E a tendência é da maioria das formas de trabalho ser feita por máquinas e isso vai gerar uma população cada dia mais miserável. Alguns estudos falam em desemprego da ordem de mais de 50% das pessoas.

Os humanos continuarão a produzir coisas que geram valor de uso e valor de venda (mercadorias), riquezas. Precisamos pôr fim ao modo de produção e apropriação capitalista. Distribuir a riqueza gerada pela produção humana a todas as pessoas é a solução para nossa continuidade na terra.

Temos que falar, refletir e atuar para criarmos uma população mundial educada e politizada, com consciência ambiental e social, e sedenta por salvar-se e ciente de que temos que pôr fim a essa merda do capitalismo e sua lógica individualista.

Os miseráveis de Victor Hugo, uma ficção pensada a partir de uma realidade social real de 160 anos atrás, me faz pensar muita coisa de nosso momento e realidade. É isso, por enquanto.

William


Post Scriptum: clique aqui para ler a postagem anterior sobre essa temática. A postagem seguinte da leitura do clássico pode ser lida aqui.


Bibliografia:

HUGO, Victor. Os miseráveis. Tradução de Regina Célia de Oliveira. Edição especial. São Paulo: Martin Claret, 2014.

segunda-feira, 12 de junho de 2023

Os miseráveis - Victor Hugo (2)



Refeição Cultural

Osasco, 12 de junho de 2023. Segunda-feira. "Dia dos namorados" (para o comércio).


"Verdade ou não, o que se diz a respeito dos homens ocupa muitas vezes em sua vida, e sobretudo em seu destino, um lugar tão importante quanto aquilo que fazem." (Victor Hugo, Os miseráveis, p. 41)


PRIMEIRA PARTE - FANTINE

LIVRO I: UM JUSTO

I. O senhor Myriel

O romance começa nos apresentando o senhor Charles Myriel, um padre que se torna bispo de Digne por ter caído nas graças do imperador Napoleão por um simples elogio de passagem num encontro fortuito. Myriel foi tratado como um "simplório" e disse que o imperador era "um grande homem".

O senhor Myriel é bispo há 9 anos em Digne, o ano é 1815. Ele é viúvo e tem 75 anos de idade. Quase nada se sabe a respeito da vida anterior dele. Myriel vive com a irmã mais nova Baptistine e com a criada Magloire, ambas com 65 anos.

É interessante como as descrições físicas e subjetivas das personagens por parte do narrador e ou autor são marcantes em romances bem construídos. É interessante notar que algum tipo de marca social fica em qualquer produto feito pela mão humana, aqui, no caso, um texto de romance do século XIX.

Vejamos a descrição das três personagens apresentadas no início do romance: o senhor Myriel, a irmã Baptistine e depois a criada Magloire. Primeiro a irmã do bispo:

"Alta, magra, pálida, delicada e afável, a senhorita Baptistine era a mais completa expressão da palavra 'respeitável', posto que, para ser considerada venerável, parece necessário que uma mulher seja mãe. Nunca foi bonita; toda a sua vida, uma ininterrupta série de boas obras, acabou por inundá-la de uma espécie de alvura luminosa que lhe dava, ao envelhecer, aquilo que poderíamos chamar de beleza da bondade. O que na juventude fora magreza tornou-se na maturidade, uma transparência diáfana, que deixava entrever um anjo. Era mais uma alma que uma virgem. Sua pessoa parecia ser feita de sombra; corpo apenas suficiente para distinção do sexo; um pouco de matéria contendo uma chama; olhos grandes sempre baixos; um pretexto para que uma alma permaneça sobre a terra." (p. 43)

Interessante a descrição, não? E complexa na avaliação. Percebem as marcas da sociedade da época? Como são vistas as mulheres? E a classe social delas?

Vejamos a descrição da criada Magloire:

"A senhorita Magloire era uma velhinha clara, baixa e muito gorda, sempre atarefada, sempre arquejante, não só por causa de sua natural atividade, como também por causa de sua asma." (p. 43)

Ponto. É o que foi dito da senhora Magloire. As descrições feitas de irmã e criada do senhor bispo de Digne, o senhor Myriel, trazem marcas do tempo, mesmo sendo o escritor um Victor Hugo.

A caracterização do personagem central, o senhor Myriel, foi feita na descrição de sua vida pregressa, em duas páginas, ele foi filho de parlamentar antes da Revolução e fisicamente era:

"Apesar de casado, Charles Myriel, dizia-se, dera bastante o que falar. De muito boa aparência, embora de baixa estatura, era elegante, gracioso, espirituoso; toda a primeira parte de sua vida fora dedicada à sociedade e aos galanteios." (p. 41)

Nada mais se sabe dele, a não ser que quando voltou do exílio na Itália, onde ficou durante o período da Revolução, voltou como padre.

Literatura é uma delícia! Ler é algo central em nossa vida como sujeitos alfabetizados e em busca de novos saberes. Seguiremos lentamente na leitura dessa obra gigante e clássica da literatura mundial.

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COMENTÁRIO

"Verdade ou não, o que se diz a respeito dos homens ocupa muitas vezes em sua vida, e sobretudo em seu destino, um lugar tão importante quanto aquilo que fazem." (Victor Hugo, Os miseráveis, p. 41)


Ao ler essa reflexão em Os miseráveis, acabei pensando a respeito da atualidade dela nos dias que correm, a era das redes sociais que expandiram de forma inimaginável o diz que diz a respeito das pessoas e das coisas na sociedade humana. 

Antes da tecnologia das redes sociais, gastava-se um tempo no boca a boca para se divulgar uma mentira ou uma ilação sobre alguém. Vemos isso em clássicos como as peças dramáticas de Shakespeare ou nos textos claustrofóbicos de Kafka. Quem não conhece a famosa abertura de O processo

"Alguém devia ter contado mentiras a respeito de Joseph K., pois, não tendo feito nada de condenável, uma bela manhã foi preso..." (Franz Kafka, O processo, p. 5)

Hoje, em segundos, pode-se assassinar uma reputação sem que a vítima sequer saiba o que se diz sobre ela. Antes, as ferramentas tecnológicas de comunicação ao menos eram de conhecimento geral, públicas, como rádios, televisões, jornais e revistas. Agora não, as mentiras são espalhadas em milhões de disparos em redes pessoais. Só a pessoa vê.

Na campanha presidencial em 2018, o que se disse, por exemplo, sobre o Fernando Haddad, candidato do PT à Presidência, foi algo inimaginável. Até de estuprador e pedófilo ele era acusado nas redes de mentiras do submundo bolsonarista.

Enfim, a frase de Victor Hugo me deixou por alguns instantes pensando a respeito de eventual consequência sobre o que possa ter sido dito sobre alguém, algo que talvez suplante o que esse alguém fez na prática, na vida real. Se se disse algo de alguém, o alguém talvez nunca saiba...

Hoje, tem uma reunião no mundo sindical bancário sobre causas e efeitos do fechamento de unidades de atendimento à saúde - CliniCassi - da Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil na região Norte do país.

Eu fui diretor eleito justamente da área responsável pelas unidades CliniCassi da autogestão em questão. Nosso mandato ficou marcado na história da Cassi como um mandato muito próximo às bases sociais, não tem como apagar ou negar isso.

Estudei profundamente a estrutura e o modelo de saúde da Cassi, as CliniCassi, a Estratégia de Saúde da Família, o modelo de custeio etc. Esclareci para a representação dos trabalhadores os motivos pelos quais as CliniCassi deveriam ser próprias, fortalecidas e ampliadas em todas as regiões do país.

Até o início de dezembro de 2021, eu era uma das pessoas mais consultadas em nossa comunidade dos bancários, principalmente do banco público BB, sobre as questões relativas à Cassi. De repente, do nada, fui cancelado. Talvez pelos motivos que Hugo ou Kafka abordam em seus universos ficcionais. Vai saber.

A Fetec-CUT CN, organizadora da reunião de hoje sobre fechamento de unidades CliniCassi no Norte, abrange bases sindicais dos Estados e capitais da região Norte e Centro-Oeste do país. Durante o nosso mandato, fiz agendas presenciais de gestão 42 vezes nesses Estados, fortalecendo a Cassi e o modelo assistencial nas bases. 

Tenho certeza de que jamais outro dirigente fará o mandato presencial nas bases como fiz. Aliás, quando passei a ser atacado pelo lado patronal, me boicotando internamente na autogestão, passei a pagar do bolso minhas idas às bases sociais para esclarecer e organizar os associados e seus representantes sobre questões técnicas de gestão de saúde e defender os direitos da comunidade.

Até hoje eu não sei se algo circulou a meu respeito ou se fiz algo que fizesse com que eu fosse cancelado por algumas representações do movimento sindical que ajudei a construir e fortalecer por um quarto de século. Sei que mantive a prática política como aprendi a fazê-la, expondo opiniões francas e honestas e construindo no debate as soluções.

Desejo boa reunião sobre a Cassi e os direitos em saúde dos bancários do BB para as entidades de representação dos trabalhadores. Fechar e terceirizar as unidades de atendimento próprio da Cassi em qualquer Estado, principalmente em Estados como os do Norte e Estados de pouca população assistida, é muito ruim para os participantes e para a autogestão em si. 

Às vezes, vemos na literatura cenas que nos fazem refletir sobre a vida real. Essa é uma das maravilhas da literatura e da leitura.

Vida que segue, como diz o jornalista e escritor Ricardo Kotscho.

Seguimos lendo Os miseráveis... esse clássico vai nos fazer lembrar de nossas misérias materiais e imateriais provavelmente todos os dias... a gente vive numa miséria danada neste mundo mundo vasto mundo.

William


Post Scriptum: a primeira postagem sobre Os miseráveis pode ser lida aqui. A postagem seguinte com comentários sobre a leitura em andamento, pode ser lida aqui.


Bibliografia:

HUGO, Victor. Os miseráveis. Tradução de Regina Célia de Oliveira. Edição especial. São Paulo: Martin Claret, 2014.

KAFKA, Franz. O processo. Tradução: Manoel Paulo Ferreira. Edição do Círculo do Livro.

domingo, 11 de junho de 2023

Leitura: A bíblia em crônicas livres - Roberto Buzzo



Refeição Cultural

Osasco, 11 de junho de 2023. Domingo.


Opinião

Ao saber da publicação do novo livro do Roberto Buzzo - A bíblia em crônicas livres (2023), soube na hora que viria coisa boa por aí. O cara é muito bom com as palavras, com os textos e com a forma de expor e narrar causos. Basta ler seus textos de olhares cotidianos - crônicas - em seu perfil de rede social para ver o quanto o escritor é bom. 

No finalzinho do livro, Buzzo nos conta que anda uns 10 Km por dia em São Paulo... demais isso! Bem característico de um andarilho e de um cronista dos bons.

O tema do livro é um tema bem delicado de se abordar - a bíblia -, por tudo que significam as religiões e as crenças ao longo da história de todas as sociedades humanas do passado e do presente. É foda falar sobre religiões e fé. E o Buzzo decidiu ler a bíblia inteira, o Antigo e o Novo Testamento, mais de 2.200 páginas, para nos contar de forma humorada passagens clássicas deste clássico dos clássicos.

Quando ele disse em sua rede social durante a pandemia que iria ler a bíblia assim como nós leitores e leitoras estávamos lendo livros e mais livros - eu li dezenas de obras durante a pandemia -, fiquei imaginando a empreitada ousada que o Buzzo iria fazer... me deu até vontade de incluir a bíblia entre os ulisses, moby dicks e os decamerãos da vida (rsrs). Mas não fui tão ousado assim.

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"Fico pensando. Como fazer esse povo incréu acreditar em Deus sem deixá-lo com medo? Aliás, isso é mais fácil do que chuchu na serra. Porque coisa mais fácil é amedrontar ignorante. E a nossa ignorância do mundo é incrível. Incrível de admirável, de notória. Assim como é notória nossa incredulidade." (from: "A BÍBLIA EM CRÔNICAS LIVRES" by: Roberto Buzzo)

Aliás, ousadia é a primeira impressão que temos ao pegar pra ler o livro do Buzzo. O cara é corajoso! Eu não sei se teria coragem de narrar com ironia e humor os textos sagrados como ele faz... não, não teria coragem. 

Se não teria coragem hoje que não acredito em religião alguma, imagina se teria coragem quando tinha muita fé e medo mortal dos pecados todos que nos freiam na religião... já estaria me persignando só de ter pensado nisso.

Neste mundo no qual vivemos hoje, em que não se sabe quase nada e não se separa mais ficção de realidade, que não se sabe mais o que é referência científica e histórica e o que não é, ficou difícil a vida de escritores em geral, já que a desinformação fez com que seja comum humanos de verdade acharem que é mentira que voamos até o espaço, que a Terra não é plana e que a gravidade nos segura nela quando estamos de "cabeça pra baixo" etc.

Eu fui muito religioso durante a metade de minha vida humana. Conhecia bastante a parte da bíblia mais usada na religião dos cristãos católicos apostólicos romanos: os Evangelhos, os Salmos, Atos dos Apóstolos, Cartas de São Paulo, e também conhecia o principal do Antigo Testamento, os livros do Pentateuco, por exemplo. 

Ainda sobre religiões e mitos da fé, li livros sobre Paulo de Tarso e Lucas - o médico, e um dos livros de ficção - que o autor jura não ser ficção - que mais me encantaram até hoje foram os livros da série Operação Cavalo de Tróia, do J. J. Benítez, li até o 4º volume. 

Enfim, chegando aos trinta anos de idade, as abstrações mentais e culturais que coordenam nossas vidas humanas foram mudando para mim. Outras referências de vida passaram a balizar minha caminhada pela existência. Cada pessoa tem seu tempo e seu percurso. Deixei de acreditar nesses mitos da religião e passei a ter outras abstrações humanas como balizadoras da vida e do mundo. 

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PASSAGENS

Exemplos de passagens de leitura que me fizeram refletir, rir, me incomodaram, me trouxeram memórias do passado etc.

"A primeira coisa que Iahweh fez foi apartar o povo para fazer seu proselitismo sossegado, levando-o para longe dos opositores, do outro lado do Mar Vermelho. Estacionou o rebanho aos pés de um vulcão, para ele ficar amedrontado e aderir com entusiasmo. Então, chamou Moisés lá em cima, só ele, que aquilo não era democracia direta, era teocracia representativa, Ele comandava Moisés, que falava para o povo." (from: "A BÍBLIA EM CRÔNICAS LIVRES", by: Roberto Buzzo)

Em várias passagens, Buzzo faz sua leitura do regime político envolvido na passagem bíblica: democracia, teocracia, ditadura, comunismo, socialismo, liberalismo etc.

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"Até que algum ou muitos gaiatos começaram a questionar: “que que adianta a gente observar direitinho todas as leis de deus se, só por causa de alguns infiéis, que ficam por aí adorando aos ídolos, todos nós nos fodemos?

Nessa passagem do capítulo "O pessimista" os judeus começam a perceber que esse negócio de socializar as consequências das merdas dos outros é uma roubada, que o melhor seria ser julgado individualmente por Iahweh...

Daí a conclusão:

"Foi, portanto, simples acabar com o pessimismo. Foi só trocar o socialismo pelo individualismo."

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"Um detalhe tardio. Gostoso. Fatal. Dalila era linda. Bem, isto não está na história, é dedução minha. É que acho que uma mulher com o nome de Dalila só pode ser linda.

Cara, ri muito nessa passagem! Fala sério!

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"Jesus, além de não ser bobo, era sagaz. Porque, às vezes, a gente não é bobo, mas também não é esperto, sabe como é? Quase todos somos assim, a gente não faz grandes besteiras, só pequenas… Jesus não fazia besteira nenhuma, aí que está a diferença. E, por isso, preencheu os 12 cargos com gente da sua laia, entenderam? (Tudo bem, Paulo tinha instrução e posição social, mas só entrou no partido depois que Jesus morreu. E, vai saber, pode ser que a Igreja resultou mais parecida com Paulo do que com Jesus).

Jesus foi o cara!

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"Acontece que Jesus, sentado à direita do Pai, lá de cima acompanhava a caravana e havia decidido levar Saulo para seu time. Ora, se tá cheio de palmeirense que, mediante um bom contrato, faz muitos gols pelo Corinthians, era possível fazer aquele craque jogar para Ele. Porque craque é craque, não importa a posição nem a agremiação.

Nos dois livros que li sobre Saulo de Tarso que se converteu em Paulo, o evangelista, pude perceber o quanto esse homem foi importante para a expansão do Cristianismo por todas as regiões da antiguidade.

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"Antioquia, então capital da Síria, província romana, às margens do rio Orontes, hoje é a moderna Antáquia, território da Turquia. Era a terceira cidade do Império Romano, depois de Roma e Alexandria. Situava-se no vértice norte do fundão do mar Mediterrâneo, enquanto Alexandria, no delta do Nilo, dominava o vértice sul.

Vejam a erudição e o cuidado com a geografia que o autor tem.

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"Tem fiel que todo domingo pinga na sacola de coleta uma reles nota de dois reais e aí, na hora da precisão, quer exigir. Dá dois reais por semana e, na hora do pedido, pensa como todo pequeno-burguês: “Tô pagando, tenho direito!” Claro que tem direito! Tem direito ao retorno equivalente a dois reais. Não, quatro reais. É que Deus sempre dá em dobro…"

Demais essa passagem! (rsrs)

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"Acontece que no território de Pedro só tinha judeu, enquanto no território de Paulo só tinha gentio. Na época, gentio era tudo que não fosse judeu. Até aí tudo bem, acho que Pedro – assim como Fidel Castro – não botava muita fé no estrangeiro, não estava muito interessado em implantar o comunismo no mundo inteiro e aquele arranjo de manter Paulo fora de Cuba foi bem providencial, aquele chato…

Olha aí a erudição do homem! Conhece a história de Fidel Castro, a Revolução Cubana etc. A todo momento no livro, Buzzo faz diversas referências sobre os mais diversos assuntos do passado e do presente. É de se admirar!

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O PRAZER DA LEITURA

Já na leitura da primeira parte - Antigo Testamento - Buzzo me fez rir várias vezes. E assim se seguiu até o fim.

Amig@s leitores, isso não é uma tarefa fácil! Sou uma pessoa pouco humorada, e tenho um coração amargurado por viver no mundo no qual vivemos. Eu não consigo ser feliz em meio à miséria social que vivemos. Sou um ranzinza.

Mesmo sendo de pouco riso, o autor nos presenteia com uma forma de contar causos de personagens bíblicos de maneira engraçada e diferente daquilo que estamos acostumados.

Outra qualidade que salta aos olhos é a erudição do autor. Mesmo imaginando o quanto deve ter sido difícil a empreitada de ler 2.200 páginas da bíblia para escrever crônicas de algumas passagens, sem dúvida, a erudição do Buzzo deve ter tornado a tarefa mais palatável. Nós que ganhamos com isso.

Fecho a leitura com essa sacada do Buzzo em relação ao Pai e ao Filho, duas figuras centrais da Bíblia, Iahweh e Jesus Cristo. Sempre achei o Deus do Antigo Testamento uma divindade tensa, vingativa, de dar medo. Já Jesus, como não simpatizar com essa figura humana, parceira, compreensível, que transmite bondade e amor?

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"Pelo que vi até agora, o Pai era partidário dos ricos e poderosos, admirava as pessoas bem-sucedidas aqui na Terra e, se preciso, fazia até guerra para conquistar um pedaço de terra. Já o Filho gostava dos pobres e humildes, compreendia os fracassados e não gostava de violência. Se alguém lhe chutava a canela, ele só ficava olhando, com aquele olhar de tristeza. Preferia morrer a fazer uma guerra. Mas mandava Simão Pedro anotar todos os desaforos num caderninho, para cobrar lá na porta do Céu." (from: "A BÍBLIA EM CRÔNICAS LIVRES" by: Roberto Buzzo)

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É isso! É um livro para se abrir e ler trechos sempre que se desejar dar uma descontraída nas tensões vividas e tentar ver a vida de forma mais leve e engraçada.

Roberto Buzzo é um refinado cronista e contador de causos, para nossa sorte.

Este foi meu 15º livro lido no ano. Ler é fundamental para a manutenção e desenvolvimento de nosso cérebro e nossas capacidades humanas.

William


Bibliografia:

BUZZO, Roberto. A bíblia em crônicas livres. 1ª edição. São Paulo, 2023. Livro digital.