sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

Natais - 1969


Que bom ver meus pais sorrindo!


Refeição Cultural

Estamos em Uberlândia para passar o Natal com meus pais e familiares. Meu momento é de procura pela compreensão, de observação das coisas, devo me esforçar para sentir o instante com a intensidade que significa a fragilidade da vida. O que vejo ao meu redor é a fragilidade. Tudo é frágil e passível de se desfazer num piscar de olhos. Não é assim a própria vida?

As relações são frágeis. A casa é frágil. A natureza é frágil, apesar de sua força e potência. Todo mundo precisa de todo mundo e ainda assim somos feitos para nos sentirmos altamente livres de quaisquer relações com outras pessoas, outros seres, outras realidades. Pura mentira! Autoengano. O real e o imaginário se interligam e seguimos diariamente assim, com a falsa ideia de independência em um mundo cada dia mais interligado e dependente em tudo. Tudo! 

A natureza é nossa casa. A casa da gente é como a natureza. A casa ou a natureza tanto acolhe quanto oprime. Acolhimento e opressão são consequências de fatores interligados sem a nossa capacidade de intervenção - o acaso -, como também somos responsáveis por fazer da natureza e da nossa casa ambientes acolhedores e livres de opressão.

Neste momento do mundo, Natal de 2023, tenho algumas hipóteses sobre o comportamento humano em constante mudança. Me questiono sobre um possível amanhã refletindo a respeito de qual ser humano haverá no mundo. 

Seremos ainda animais passíveis de serem educados no sentido de sermos "homens e mulheres cultivados" (Mircea Eliade) com conhecimentos gerais? Seremos seres sociáveis num futuro próximo? No sentido de sermos seres coletivos e solidários com outras pessoas e espécies e preocupados com qualquer coisa externa a nós mesmos? E, por fim, seremos ainda seres que escrevem, que registram em signos linguísticos a nossa história do mundo e de nós mesmos? Ou seremos sociedades ágrafas, apostando a preservação de toda a nossa cultura e conhecimento em áudios e vídeos e nuvens de empresas capitalistas, as big techs?

Essas hipóteses são baseadas em observações e estudos que venho realizando nos últimos anos. Basta olhar ao meu redor, na cotidianidade de Osasco, de São Paulo ou de Uberlândia, do Brasil, do mundo que chega até mim, para ler a tendência do comportamento humano e do mundo dominado por esse animal.

A fragilidade das coisas me impressiona. Ao observar e compreender um pouquinho melhor o cotidiano das pessoas e da vida na sociedade atual, eu consigo substituir o ódio e a raiva que senti boa parte de minha vida por um sentimento de compaixão, amor e uma certa dor por sentir o quanto as pessoas estão sufocadas nos problemas cotidianos do viver, boa parte deles insolúveis por falta de um novo olhar para as coisas que importam na vida: a própria vida em coletividade, já que não somos nada sozinhos. 

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NATAL DE 1969

O Natal de 1969 foi o meu primeiro Natal na sociedade humana.  

Eu não tenho a menor ideia de como foi. Eu tinha mais ou menos uns 9 meses de idade. 

O que sei é que nasci pouco antes do famoso festival de Woodstock, ocorrido em agosto numa fazenda de gado em Bethel (NY), nos Estados Unidos. 

Não sei se meus pais curtiam aquele tipo de som com solos de guitarra de Jimi Hendrix e aquela voz incrível de Janis Joplin. Eu iria gostar de Rock e daqueles roqueiros e roqueiras quando crescesse...

Pelas fotos dos meus pais daquela época, sei ao menos que meu pai usava um cabelo com topete e talvez brilhantina e minha mãe usava aqueles cabelos mais ou menos curtos, penteados com escova e às vezes com laquê. 

O homem (espécie animal homo sapiens) havia pousado na Lua no mês de junho, imaginem só! Neil Armstrong saiu da Apollo 11, deu uns passos na Lua e acabou vendo que a Terra não é plana, é redonda (hoje tem gente ignorante suficientemente para duvidar até disso!). E aquela façanha espacial do ser humano foi transmitida pela TV ao vivo. 

Como será que meus pais receberam essa notícia? Difícil imaginar! 

Quero acreditar que em alguns momentos daquele ano de 1969, anos de chumbo aqui no Brasil, meus pais tiveram também momentos de alegria e descontração, como na foto que ilustra esta postagem.

O que sei é que tudo anda muito frágil no mundo de 2023, até na casa de meus pais, tudo anda como um castelo de cartas que pode se desmanchar a qualquer segundo com um esbarrão involuntário... 

O tempo vivido com as pessoas queridas e de nossas relações se torna cada dia mais importante e único. Carpe Diem! Aproveitem o seu dia!

Pensem nisso nesses dias de Natal. Eu estou pensando.

William

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Post Scriptum: o primeiro texto desta série de postagens, pode ser lido aqui. O capítulo seguinte pode ser lido aqui.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

Leitura: O Brasil voltou (2023)



Refeição Cultural

Osasco, 20 de dezembro de 2023. Noite de quarta-feira.


"Reafirmamos nosso apreço ao Patrono da Educação Brasileira, Paulo Freire, ao afirmar que 'a esperança é um condimento indispensável à experiência histórica. Sem ela, não haveria história, mas puro determinismo. Só há história onde há tempo problematizado e não pré-dado. A inexorabilidade do futuro é a negação da história'." (Denise e Giovani Costa Ceroni)


A leitura dos artigos do livro O Brasil voltou, organizado por Cleusa Slaviero, foram lidos por mim agora em dezembro, ao completarmos o primeiro ano do governo Lula. 

Quando fizemos os textos entre o final do ano passado e os primeiros dias deste ano, tivemos como tema central a vitória de Lula e a derrota do regime fascista e de morte que havia se instalado no Brasil com aquelas eleições fraudulentas em 2018, quando um complô envolvendo agentes públicos, donos do poder econômico e forças externas do imperialismo prenderam Lula numa masmorra em Curitiba.

Os textos são uma mescla de desabafos, histórias da campanha extraordinária que fizemos para eleger Lula e derrotar Bolsonaro, os textos são declarações de amor ao Brasil, ao povo brasileiro, ao presidente Lula. Os textos são mensagens de esperança e de fé num amanhã melhor para todos nós.

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"Sócrates, Olga Benário, Pepe Mujica, Mandela, Gandhi, Martin Luther King, Lula, Jesus Cristo. Os prisioneiros mais livres da história. Não se aprisiona mentes livres! Aprisionam o corpo. Porém, as ideias, os pensamentos e a mente permanecem livres!" (Antonio D. Santos)

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Lendo o livro após o primeiro ano do 3º governo do presidente Lula, podemos afirmar sem receio de exagerar que nosso estadista humanista fez o possível para cumprir os compromissos que assumiu com o povo brasileiro. 

Imagino, no entanto, que o presidente deve ter ficado espantado com o quanto o cenário encontrado foi pior do que se poderia intuir. Até ele com a experiência que acumulou na política deve ter ficado chocado com tanta destruição de tudo, do desfazimento das bases do Estado brasileiro.

Eu tenho uma opinião construída aos poucos, através de leituras, estudos, reflexões e avaliações, que o Brasil passou por uma revolução! Não nos demos conta disso. 

O golpe de Estado em 2016 e a sequência de acontecimentos dos quais fomos vítimas, incluindo a chegada ao poder daquele monstro e seu clã e sua corja de gente do mal, equivaleram pelos resultados e consequências a uma revolução conservadora e reacionária no Brasil. Tudo foi alterado e se conseguirmos refazer os desfeitos será após um bom tempo de reconstrução.

As instituições do Estado estão contaminadas, estão tomadas por gente que pertence às ideias e ideologias do regime que ocupou o país por sete anos, os três do traidor e os quatro da máfia que se apoderou do poder formal do país.

Não vou me alongar nesta avaliação pois não é este o foco desta postagem, mas registro o que tenho claro como alguém que viveu a política por dentro e que estuda nosso país e nossa história sob o ponto de vista da classe trabalhadora.

E sendo assim, avalio que Lula não decepcionou as esperanças dos articulistas do livro. Porém, muitos articulistas devem ter compreendido que será bem complicado refazer parte do que foi destruído. Pois não temos correlação de forças para isso.

Meu artigo falava da oportunidade de não estarmos mais quatro anos sob aquele regime do mal, da oportunidade de termos Lula na presidência, sem termos que enfrentar a destruição de nosso mundo partindo do Planalto Central. Deixei abaixo minha contribuição para as pessoas que não têm o livro.

Lula fez o que foi possível logo nos primeiros meses, e fez a política como poucos sabem fazer para trazer para nós mais algumas conquistas. Mas eu avalio que nossos inimigos estão articulados e que o risco é enorme nos próximos três anos.

Estejamos atentos e vamos para as ruas e vamos organizar o nosso lado melhor no próximo ano, é o que espero e desejo.

Os textos são emocionantes e nos alimentam as esperanças. Tem muita gente boa por aí, apesar de vermos mais do que gostaríamos as pessoas que abraçaram o mal como forma de vida.

Tenho alguns volumes do livro. Caso algum leitor ou leitora do blog tenha interesse, me avise por mensagem. 

William


Post Scriptum: o comentário sobre o livro anterior de artigos que fizemos pode ser lido clicando aqui.


Bibliografia:

SLAVIERO, Cleusa (org). O Brasil voltou. Diversos autores e autoras. 1ª edição - Curitiba, PR: Compactos, 2023


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Artigo

A ELEIÇÃO DE LULA É UMA OPORTUNIDADE

Ao elegermos Lula presidente do Brasil no dia 30 de outubro de 2022, superando a maior máquina de corrupção eleitoral da história do Brasil e quiçá do mundo, nós criamos uma oportunidade de fazermos algumas coisas que precisam ser feitas pelo bem do Brasil e do povo brasileiro, pelo bem da humanidade e do planeta Terra.

São só quatro anos, mas são quatro anos! Façamos, então, o que tem que ser feito. A oportunidade é única!

Pelos próximos quatro anos não virá do poder central a ordem de destruir tudo em relação à natureza e aos nossos biomas como a Amazônia, o Pantanal e os nossos milhares de quilômetros de litoral. Não virá do poder central a ordem de invasão e agressão às terras de nossos povos indígenas e quilombolas e áreas de reservas ambientais.

A eleição de Lula é uma oportunidade de nossa metade da população brasileira - aquela que não abraçou o que significa o mal bolsonarista - de se organizar e cobrar do governo federal o refazimento e fortalecimento dos órgãos de proteção, fiscalização e controle do meio ambiente.

Serão quatro anos para engajarmos pessoas na defesa do meio ambiente. Se essa luta não for popular, a natureza não terá chance alguma, e a questão central do clima será uma causa perdida, e perdidos estaremos todos nós seres vivos deste planeta.

A eleição de Lula é uma oportunidade pelos próximos quatro anos de reconstruirmos as bases do sistema de educação pública em todos os níveis, é uma chance das universidades e escolas técnicas e centros de pesquisas seguirem existindo e com autonomia. É uma chance para o desenvolvimento da ciência e tecnologia no Brasil. É uma chance para o Sistema Único de Saúde e para o cuidado dos 215 milhões de cidadãos brasileiros!

É uma oportunidade para milhões de adolescentes, jovens e adultos que foram pegos no meio do caminho pela destruição bolsonarista. Quanta gente estava estudando e parou, estava estudando e desanimou, iria estudar e desistiu? Gente que poderia mudar sua vida através da oportunidade da educação e ficou pelo meio do caminho, gente que entristeceu, deprimiu, empobreceu, que encontrou no álcool o refúgio pelo abandono da perspectiva da educação. Quanta gente!

A eleição de Lula é uma oportunidade pelos próximos quatro anos, é a esperança na educação. É a esperança de reduzir a destruição do meio ambiente. É a esperança na recuperação e criação de direitos sociais básicos para o exercício da cidadania plena pelo conjunto da população brasileira. É uma chance para combater a fome e para recuperar as políticas sociais e afirmativas. É uma chance de combate ao preconceito, que gera discriminação e desigualdade social.

Então, aproveitemos essa oportunidade! Façamos a nossa parte! Estudemos todos os dias! Nos engajemos nas questões sociais! Que nos unamos pela educação, por um bom desempenho nas conferências que Lula organizará para incluir a população nas decisões sobre que sociedade queremos. A outra metade - a que aderiu ao mal - mostrou que está viva e atuante. Por mais que tentemos resgatar relações e pessoas, uma parte da sociedade seguirá na seita bolsonarista e negacionista.

Lula é uma oportunidade de construir um país e um mundo melhor. Façamos dessa oportunidade conquistas pelos próximos quatro anos.

William Mendes

Blog Refeitório Cultural

Osasco - SP


segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

Vendo filmes (X)



Refeição Cultural

Reflexões a partir do contato com filmes e documentários.


Dois filmes vistos por mim nestes dias me impactaram bastante. Fiquei muito pensativo ao mergulhar nas histórias e nas reflexões geradas a partir deles.

Um filme de curta-metragem acompanha a fase final de vida de uma pessoa de grande religiosidade, um líder espiritual. Pensei sobre o período de minha vida no qual acreditava nesta forma de concepção existencial.

Outro filme de forte impacto sobre mim foi O leitor, que aborda a questão do Holocausto, as discussões a respeito da culpa e a forma como pessoas e sociedades lidam com isso. 

Muito atual para nós, que estivemos sob o poder de um governo genocida no Brasil. 

E tem ainda o genocídio dos palestinos há semanas... 

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Ram Dass - A caminho de casa (2017) - Direção: Derek Peck. Documentário acompanha o dia a dia do pesquisador, autor e professor espiritual Ram Dass (1931-2019) em sua casa no Havaí, no que parece ser uma espécie de despedida e passagem para outro plano existencial (Home). De fato, ele viria a falecer pouco tempo depois.

COMENTÁRIO: Assisti a esse curta-metragem (30') meio que por acaso. Entrei um dia na plataforma da Netflix e fui pescado pelo fundo musical e pela voz debilitada do personagem real Ram Dass falando sobre a vida e a morte. Acabei vendo até o fim e à medida que o guia espiritual ia desenvolvendo suas teorias sobre espiritualidade, sobre outras formas de existência para além da existência material etc fui relembrando a pessoa que era nas primeiras décadas de minha própria existência. 

Se eu tivesse pertencido às estatísticas de mortes de homens jovens entre os dez e os trinta anos de idade, eu teria morrido acreditando em tudo o que Ram Dass afirmou em suas reflexões e ensinamentos. 

Porém, quanto mais estudo e reflito sobre o mundo e as formas de vida no planeta, mais tenho consciência dos porquês e necessidades do homo sapiens criar teorias que deem algum conforto e organização para a existência, só o ser humano desenvolveu um cérebro como o nosso, e explicações para tudo passou a ser uma necessidade de nossa espécie. 

Enfim, hoje tenho clareza que não existe mistério algum para a morte. A morte não é um mistério. A morte é a morte, é o fim da vida de um organismo que vivia antes de morrer. Lógico que essa é a minha visão e respeito todas as outras. 

E o mistério? Seria a vida um mistério? Essa dúvida é mais real que a dúvida sobre a morte. Sim, porque tem vidas que sobrevivem de forma inacreditável! Às vezes, é um mistério como determinadas vidas seguem...

Sigamos em busca das respostas para os questionamentos que fazemos sobre as coisas. Os elefantes e as lesmas do mar não estão refletindo sobre isso, eles não têm o cérebro que nós temos.

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O leitor (2008) - Direção: Stephen Daldry. Com Kate Winslet, David Kross, Ralph Fiennes, Bruno Ganz e elenco. 

Sinopse da Wikipedia com adaptações: O filme conta a história de Michael Berg (Kross e Fiennes), um estudante alemão que, no ano de 1958, mantém um caso com uma mulher mais velha, Hanna Schmitz (Winslet), até que ela subitamente desaparece de sua vida para ressurgir oito anos mais tarde, no banco dos réus de um tribunal alemão, acusada de ter trabalhado para a SS durante a 2ª GM e de ser uma das responsáveis pela morte de prisioneiras judias. Michael percebe que Hanna guarda um segredo que acredita ser pior que seu passado nazista, um segredo que pode ser crucial para a decisão da corte. O filme é baseado no livro de Bernhard Schlink.

COMENTÁRIO: Quando vi esse filme pela primeira vez, fiquei muito impactado, incomodado. Pensativo. Anos depois, ao rever a história, fiquei do mesmo jeito. Outros contextos, outra época, e a temática do filme segue muito atual. 

A complexidade da personagem Hanna Schmitz (Winslet) é uma metáfora do ser humano atual. O segredo que Hanna guarda consigo é mais importante para ela do que se livrar de uma condenação por crimes de guerra. É uma imagem bem atual do mundo do faz de conta, das aparências que escondem a verdadeira pessoa por trás da apresentação "maquiada" na vida virtual.

O que nos envergonha e nos constrange mais? É uma característica pessoal? É uma habilidade humana que quase todas as pessoas adquiriram e a gente não? É difícil não se sensibilizar com a vergonha de Hanna.

E a temática do Holocausto, então? Minha nossa! Neste momento, o mundo assiste sem saber como parar ao genocídio de um povo por um governo de extrema-direita. O regime sionista de Israel já assassinou desde o dia 7 de outubro de 2023 quase 20 mil mulheres e crianças na Faixa de Gaza, Palestina, e os apoiadores do regime de Netanyahu como os EUA seguem fazendo vista grossa ao genocídio como se ele não estivesse ocorrendo em pleno século 21, ao vivo e televisionado para todos.

A cena do diálogo do aluno de direito revoltado com a hipocrisia daquele julgamento de algumas mulheres que trabalharam para o regime nazista, 6 acusadas sendo julgadas entre 18 mil que trabalharam em Auschwitz como disse o professor de direito interpretado por Bruno Ganz. O aluno aponta a hipocrisia ao dizer que todo o povo alemão e o mundo sabia o que Hitler e os nazistas estavam fazendo nos campos de concentração e não fizeram nada... agora julgavam meia dúzia de mulheres.

Foi inevitável a lembrança do recente regime de lesa-humanidade que tivemos no Brasil, o genocida que ocupou a cadeira de presidente da república foi o responsável direto pela morte de centenas de milhares de pessoas sem atendimento e medidas de governo adequadas ao combate da maior pandemia mundial após um século da peste negra. A Covid-19 matou mais no Brasil que na maioria dos países do mundo por causa do governo do clã miliciano, é o que apontou a CPI instalada para investigar os crimes do governo.

O que estou dizendo é que tem certo sentido a acusação que o aluno de direito faz aos seus concidadãos duas décadas depois do Holocausto - pais, professores, adultos mais velhos - de que eles não reagiram ao que estava acontecendo, foram colaboradores ou no mínimo cúmplices por inação e por fazerem de conta que não sabiam o que estava ocorrendo com as vítimas dos nazistas.

A história do filme vai e volta no tempo, no presente e no passado. A história se passa em 1995, volta a 1958, depois 1966, depois 1976, 1988 e volta ao presente. Enquanto vemos a relação amorosa entre o garoto ("kid") e a mulher mais velha, vamos nos encantando com a temática de o leitor, de alguém que lê para alguém a Odisseia de Homero e outros clássicos da literatura mundial. E no decorrer do filme, a questão da culpa é o que nos toca, é a grande temática na vida dos personagens e da gente.

Como não refletir sobre os bolsonaristas do passado recente, apoiadores incondicionais dos crimes comuns e contra a humanidade praticados pelo governo entre 2019 e 2022? Como lidar com esses mesmos apoiadores que seguem apoiando os malfeitos e as ideias malditas desse regime mesmo após serem descobertas diversas suspeitas de crimes, agora investigadas pela lei? 

Enfim, o filme faz a gente pensar em muita coisa! Muita!


(Post Scriptum na manhã seguinte à postagem: pesquisa Datafolha aponta que 90% dos eleitores de Lula e de Bolsonaro não se arrependeram dos seus votos um ano antes... 90% apoiam o monstro! É sobre isso que estou falando!)

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É isso! Sigamos refletindo e experimentando novas histórias e emoções a partir de filmes e documentários.

O texto anterior sobre filmes que vi pode ser lido clicando aqui.

Abraços amigas e amigos leitores.

William


domingo, 17 de dezembro de 2023

A geração que criou a CUT - Avelino Ganzer


Avelino Ganzer. Foto: reprodução da RBA

Refeição Cultural

"Eu acho que a nossa experiência não está bem debatida, não está suficientemente clara porque os princípios da CUT, porque a gente trabalhava sempre, a CUT com os seus princípios - sindicalismo de base, autônomo, independente do Estado, independente dos partidos políticos, o sindicalismo plural e tal -, mas, na prática, quando a gente assumiu o governo, nós fomos ser governistas..." (A geração que criou a CUT, p. 112)


O companheiro Avelino Ganzer faleceu nesta semana (13/12/23), aos 75 anos de idade. Ele foi uma grande liderança dos trabalhadores rurais e esteve nas lutas que criaram a Central Única dos Trabalhadores. 

Estive dias atrás no lançamento do livro A geração que criou a CUT: a história contada por quem a faz (2023) e hoje li a entrevista feita com Avelino Ganzer em 2021. A entrevista é muito emocionante!

Eu fui um dirigente nacional da categoria bancária por quase duas décadas, uma das grandes categorias da Central Única dos Trabalhadores. Quando comecei a representar meus colegas e os trabalhadores brasileiros passei também a estudar a nossa história, origem, princípios, concepções e práticas sindicais. 

Cada vez que ouço uma liderança como Ganzer, mais clareza tenho sobre o papel que a CUT e os sindicatos cutistas desempenharam na história da vida do povo brasileiro.

Quando li o livro de Denise Paraná - Lula, o filho do Brasil (2002) -, tive uma percepção tão grande do que nós éramos que meu desejo era que todos os sindicatos cutistas e dirigentes sindicais lessem e debatessem eixos temáticos a partir das entrevistas contidas no livro (ler comentário aqui). 

A origem do Partido dos Trabalhadores e da Central Única dos Trabalhadores são origens diferentes da origem de todas as outras centrais e partidos que nós conhecemos, tanto no Brasil quanto nas experiências de outros países.



Não tenho dúvidas de que a leitura das 30 entrevistas contidas no excelente trabalho realizado para nos brindar com este livro dos criadores da CUT trará esclarecimento e resgate do fazer sindical pensado por nossas lideranças no final dos anos 70 e início dos anos 80. Nós tínhamos claro o que NÃO queríamos ser em relação a tipos de sindicalismo e de partidos de esquerda que existiam como referência para a classe trabalhadora.

Enfim, cito abaixo mais alguns momentos da entrevista de Avelino Ganzer, pois elas me fizeram relembrar meu aprendizado quando estudei o que era ser um sindicalista da CUT e um militante do PT ao longo de trinta e tantos anos como eleitor, trabalhador e depois como sindicalista.

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RESGATAR A SOLIDARIEDADE DE CLASSE

"Mas para unir o pensamento, tem que ter proposta clara, tem que ter muita gente convencida em torno daquele processo e reconstruir uma coisa que a ditadura tinha ferido de morte, que era a confiança entre as pessoas, a solidariedade."


Essa fala de Avelino Ganzer é muito importante tanto para pensarmos a criação da nossa Central e do movimento de luta dos trabalhadores/as num país sob ditadura civil-militar no passado, quanto para refletirmos sobre o momento atual, do Brasil após os 7 anos de golpe e da revolução conservadora e reacionária empreendida pela extrema-direita através das reformas e desfazimento das instituições do Estado e da sociabilidade entre as pessoas.

Sem resgatar a solidariedade de classe, a solidariedade entre nós, a gente não vai avançar nas conquistas e não estaremos preparados para o próximo golpe de Estado que pode acontecer ainda durante o 3º governo do presidente Lula.

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SINDICATO É SINDICATO, NÃO É PARTIDO NEM GOVERNO

"O sindicalismo não é para ser oposição a nenhum governo, é para ser oposição às políticas que destroem, que perseguem a classe trabalhadora; às vezes, é o próprio governo, mas quem faz oposição aos governos são os partidos políticos que constroem o poder político. Esse debate para as novas gerações não está muito claro."


Aqui está uma fala central para compreender a origem e os princípios de nossa central sindical. E acrescento mais, como alguém que estudou a origem e a prática da corrente hegemônica da CUT, a Articulação Sindical: eu mesmo demorei alguns anos para entender o que era a nossa tendência, que ela era diferente das correntes políticas e sindicais revolucionárias.

Quando as lideranças mais experientes em nosso meio diziam que sindicato é para sindicatear, que governo é governo, partido é partido e sindicato é sindicato, era porque nossa prática sindical tinha como um dos objetivos imediatos da classe trabalhadora organizar as categorias, construir pautas de reivindicações, preparar as mobilizações e buscar negociações coletivas para contratar acordos e convenções coletivas de trabalho. A essência dos sindicatos daquela linha hegemônica do novo sindicalismo era essa, contratar direitos para os trabalhadores.

Resumindo, no meu caso, à medida que fui dirigindo e representando uma grande categoria, que fui estudando nossa origem, nossas concepções e práticas sindicais, fui me politizando e fui me conscientizando de meu papel. Quanto mais me tornava um militante de esquerda, mais tinha firmeza nos propósitos e flexibilidade nas táticas, como dizíamos. A clareza do que era ser um dirigente cutista foi muito importante para tentar fazer uma boa representação ao longo de 16 anos de mandatos eletivos.

É isso. É altamente recomendável que as amigas e amigos leitores experimentem a leitura dessas entrevistas contidas no livro em questão. Tem muita história e muita inspiração de grandes homens e mulheres que fizeram a nossa história da classe trabalhadora.

William


Bibliografia:

A geração que criou a CUT: a história contada por quem a faz. Organizadores: Claudio Nascimento et al. São Paulo: Annablume, 2023.


sábado, 16 de dezembro de 2023

Lembranças - Capítulo 13



Refeição Cultural

Osasco, 16 de dezembro de 2023. Sábado de calorzão.


CONHECI DE PERTO O ÓDIO E A FÉ

"Mas, na ocasião, me lembrei dum conselho que Zé Bebelo, na Nhanva, um dia me tinha dado. Que era: que a gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva mesma nunca se deve de tolerar de ter. Porque, quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a ideia e o sentir da gente; o que isso era falta de soberania, e farta bobice, e fato é. Zé Bebelo falava sempre com a máquina de acerto - inteligência só. Entendi. Cumpri. Digo: reniti, fazendo finca-pé, em força para não esparramar raivas..." (Grande Sertão: Veredas,
Guimarães Rosa)


Amig@s leitores, sempre que tiverem oportunidade tratem com respeito e carinho os trabalhadores e trabalhadoras que prestam qualquer tipo de serviço a vocês, existem trabalhos duríssimos que alguém faz para nós. Por trás de um trabalho duro realizado para nós, existe um ser humano.


OS ÓDIOS DO MUNDO

Me lembro de pegar o balde, panos, sabão, e mais alguns itens de limpeza e sair a pé de manhã do bairro Marta Helena para atravessar a BR e ir para o bairro Umuarama, onde moravam os ricaços naquelas casas enormes com gramado na frente e carrões nas garagens.

Eu batia palmas ou apertava o botão da campainha e esperava para ver se alguém atendia. 

Era o início dos anos oitenta, nós estávamos em Uberlândia havia pouco tempo, vindos de São Paulo.

Às vezes, dava sorte e a pessoa que atendia era educada e me respondia com respeito quando eu me oferecia para lavar o carro. Não era o jeito mais comum. Mas de vez em quando aparecia alguém e perguntava se eu dava conta de lavar e se lavava direito, e quanto eu cobrava para lavar o carro.

A parte que a gente guarda no fundo do coração ou da alma ou da memória são as agressões e humilhações gratuitas... essas são foda! Como esquecer aquilo? Alguns fdp humilhavam a gente só por tocar a campainha e perguntar se não gostariam que lavasse o carro.

Eu me virava para fazer um serviço bem feito. Eu mal alcançava o teto dos carros. Inventava jeitos de limpar em cima da funilaria. 

Esse foi um dos primeiros trabalhos que me lembro de fazer na infância.

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Me lembro que eu rezava e pedia a Deus e ao filho de Deus e a toda a hierarquia dos céus da religião católica para que o telefone da drogaria não tocasse e, se tocasse, eu rezava para que a entrega não fosse longe ou em alguns lugares foda de entregar o remédio.

Trabalhar naquela drogaria da Rodoviária de Uberlândia foi uma experiência diferente de alguns serviços braçais que já havia feito e foi uma experiência dura também na minha infância. Ainda me lembro da sensação de cansaço e extenuação física após longas entregas.

Minha bicicleta era uma daquelas dos anos oitenta, pesada pra burro se compararmos com as bikes modernas de hoje. 

De memória, me lembro dos nomes de bairros que disparavam as batidas do coração por saber que a entrega seria um sofrimento só: Luizote de Freitas, Custódio Pereira, Segismundo Pereira, Santa Luzia, Cruzeiro do Sul... longe e muita subida para ir até lá.

Confesso que chorava quando o trabalho que fazia era um martírio. Chorava mesmo! Me lembro que chorava de raiva. Era pequeno, mas tinha um sentimento de que aquilo não era justo. Aqueles anos foram me dando um ódio do mundo, de gente endinheirada, um ódio esquisito.

Se fuçar no fundo da memória, consigo me ver ou me imaginar chorando e pedalando aquela bicicleta na chuva indo fazer uma entrega do outro lado da cidade... cresci odiando o "trabalho".

Imaginem vocês como eram os anos oitenta. Os atendentes da drogaria me ensinaram a dar injeção. Eu tinha de quatorze para quinze anos. Aprendi a dar injeção no músculo, intramuscular, e nas veias, intravenosa. 

A frase para ensinar a aplicar injeção na bunda era a seguinte: divide a banda da bunda em quatro partes e aplica no quadrante superior externo. Não tem erro... Puxa um pouquinho o êmbolo antes para ver se não pegou veia e pode aplicar o líquido.

Não era comum aplicar injeção muscular no braço, doía mais, diziam. Também, é só pensar que a gente aplicava aquelas injeções fortíssimas de penicilina e benzetacil. Numa ampola era o pó, na outra o líquido. A gente misturava e aplicava na vítima. Amig@s leitores, eu não era uma "criança" porque a gente tinha que ser adulto cedo...

Apliquei muita injeção depois de andar quilômetros de bicicleta pelas ruas de Uberlândia. O moleque chegava suado, bufando, lavava a mão na casa da vítima e aplicava o remédio em crianças, adultos, idosos, bunda ou braço. E eu era bom para achar veia quando a injeção era intravenosa.

Por ser bom no que fazia, os clientes da drogaria pediam para eu ir... e a raiva que me dava quando era longe pra caralho?

Esse foi um dos trabalhos que me fizeram dormir como uma pedra ao me deitar na cama.

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Me lembro que dos trabalhos pesados e imundos que fiz na minha vida, um dos que me mudaram para sempre foi o de ajudante de encanador. É difícil definir porque embruteci tanto com aquele trabalho. Já fiz um texto sobre a dureza que foi meu primeiro dia de trabalho como ajudante de encanador (ler aqui)

Dias atrás, conversando em casa, o que me veio à memória foi o ódio que senti de uma mulher entojada dona do imóvel onde eu estava trabalhando quando ela soube que algum peão havia usado um vaso sanitário já instalado - a casa ainda estava em obras - e aquela desgraçada mandou o seu Joaquim, meu chefe, retirar o vaso e trocar por outro só porque ele foi usado por um trabalhador da obra... 

Me lembro que na confusão ela ainda decidiu mudar o vaso de lugar e eu tive que quebrar concreto para realocar a porra do vaso daquela sujeita. Na época, os instrumentos de trabalho eram ponteiro, talhadeira e marreta. Não tinha cortador de concreto como hoje.

Esse trabalho é inesquecível para mim, juro para vocês! E o seu Joaquim era um velhinho muito gente boa. Nunca tive problema com ele. Fico tentando me lembrar se o que me marcou foi o quanto era difícil quebrar concreto ou se era mexer em esgotos das casas das pessoas. Minha mão frágil se tornou uma mão incrivelmente grossa e forte.

Me lembro uma vez, décadas depois, de uma bancária da oposição sindical à minha corrente política me tirando (sacaneando) num bar ao dizer que minha mão parecia mão de moça... tive que lembrar a ela que eu era bancário, não era ajudante de encanador... as pessoas não sabem nada da vida dos outros!

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A última lembrança de um trabalho que me marcou e que me levou a ter um conceito muito ruim sobre o "trabalho" foi quando eu trabalhei numa empresa de alimentos, uma fábrica e distribuidora de palmitos, ainda nos anos oitenta, eu com uns 17 anos de idade, já vivendo em São Paulo.

Foi um período duro a começar pela dificuldade de chegar até o depósito onde trabalhava. Os ônibus em meu bairro só passavam lotados no ponto onde eu ficava e fui um dos milhares de passageiros que por muito tempo andou pendurado em portas de ônibus por não conseguir entrar no veículo por estar lotado. A eleição de Luiza Erundina (PT) a prefeita de São Paulo melhorou minha vida de passageiro. Nunca me esqueço disso!

A lembrança ruim não é o quanto é cansativo o trabalho pesado de descarregar caminhão com toneladas de caixas de palmito ou mesmo o trabalho de ficar o dia inteiro pela cidade, andando por corredores escorregadios e subterrâneos de restaurantes chiques entregando o produto. Essa parte é rotina de qualquer ajudante geral de qualquer coisa.

O que me marcou profundamente foram os dias nos quais me colocavam num canto isolado do depósito para abrir e esvaziar latas estufadas de palmito, palmito estragado, podre. A justificativa para aquele trabalho impossível e inacreditável era que a firma não poderia jogar as latas fora daquele jeito porque se alguém abrisse, consumisse aquilo e morresse, a empresa seria penalizada. Ou seja, eu poderia me expor ao botulismo e outras contaminações do tipo, outras pessoas não.

É provável que eu tenha um olfato ruim por causa dos trabalhos com esgoto e por esse de abrir lata de palmito podre. Como o ser humano tem um sistema nervoso altamente adaptável, provavelmente meu cérebro bloqueou parte do meu olfato para sobreviver àquelas condições insalubres nas quais trabalhei na adolescência.

Sentado no chão, eu tinha que fazer um furo na lata primeiro e aí saía um ar podre zunindo com um cheiro insuportável. Após essa etapa, eu abria a lata e jogava o conteúdo fora. Ao final do dia, dos dias de palmito podre, parecia que o cheiro nunca mais sairia de mim. Tomava banho e tinha a impressão que eu estava cheirando a palmito podre... que trampo foda foi aquele!

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A FÉ QUE EU TINHA FOI A LIGA PARA PERMANECER VIVO

Essas lembranças são sobre o ódio que senti por muito tempo em minha vida, um ódio geral, não era de uma pessoa ou algo específico, era uma raiva profunda por achar o mundo um lugar injusto, ruim.

A citação que abre esse texto, do personagem Riobaldo Tatarana, de Grande Sertão: Veredas, fala sobre o ódio que aprisiona a gente, que faz a gente virar escravo daquele(s) ao(s) qual(is) odiamos. É uma reflexão profunda do jagunço aposentado. Tenho claro que não devemos odiar ninguém, nem as piores pessoas do mundo, como vimos no poder no Brasil durante o último golpe de Estado. Odiar é ruim para quem odeia.

Mas essas lembranças também são sobre as diversas concepções de religião que experimentei até uns 30 anos de idade. Fui aculturado e feito gente no ambiente católico de minha família. Aliás, católica é a base religiosa da ampla maioria do povo brasileiro ao longo do tempo - colônia, império e repúblicas. Hoje, a igreja católica vem perdendo espaço no Brasil para as vertentes neopentecostais, muitas delas mais parecidas com empresas de manipulação da fé alheia que espaços de amor ao próximo e solidariedade. 

Além da formação católica, também vivenciei as experiências religiosas dos espíritas e das religiões de matriz africana. É inegável que a religiosidade brasileira por muito tempo foi uma mescla de diversas crenças e misticismos. Costuma-se chamar essa mescla de espiritualidades de sincretismo religioso. 

A gente cresce acreditando em Deus, é batizado, faz primeira comunhão (eu não concluí a minha), vai às missas e se casa na igreja e também vai ao centro espírita tomar um passe ou ao terreiro de umbanda ouvir conselhos dos guias espirituais e pedir favores. Ora acreditamos que vamos para o céu, ora acreditamos que temos diversas vidas e voltamos para cumprir missões na terra etc.

Eu fui muito religioso, intenso na fé como tudo que já fiz na vida. Me persignava o dia inteiro. Frequentava as missas, estudava os textos da bíblia e de outras matrizes religiosas. A religião teve um peso importante na formação do meu caráter e da minha ética. 

EU SEI O QUE SENTE UMA PESSOA RELIGIOSA

Em minha busca atual por compreensão da vida, do mundo e do comportamento das pessoas, tento o tempo todo me colocar no lugar das outras pessoas para facilitar meu esforço na interação com os seres humanos, para insistir em ser um ser social ou sociável, de relações sociais com os outros, com a alteridade, com o diferente, dentro da compreensão de que não somos nada sozinhos, sem a relação com os outros.

E revendo minha vida nas primeiras décadas, tenho a consciência de que a concepção religiosa de mundo teve o seu papel no meu percurso pela existência. Teve sim. Para o bem e para o mal.

Quando eu não suportava mais a vida ruim, injusta, quando estava com raiva, com medo, a fé numa outra vida, já que a vida material era uma bosta, me dava uma base de apoio para o momento seguinte, para o sobreviver mais um dia. Acreditar que em outra vida as coisas poderiam ser melhores é a maior das criações e explicações de mundo que o animal homo sapiens desenvolveu ao longo de sua história na Terra. Não tenho dúvida sobre isso.

O que me lembro sobre ódio e religião no meu percurso de vida me faz refletir muito sobre as pessoas ao meu redor neste momento de minha vida e do mundo.

Aconteceu comigo o inverso do que aconteceu com Saulo de Tarso, o Paulo evangelizador do cristianismo. Ele passou de perseguidor dos cristãos a um dos maiores divulgadores da palavra de Cristo no mundo antigo. Li livros sobre Paulo. 

Eu vivi um período insuportável de fúria com vinte e tantos anos e rompi com qualquer tipo de crença mística. Óbvio que à medida que vivia e que estudava, também questionava as contradições dos dogmas religiosos em geral. O fato é que perto dos trinta anos, minha leitura de mundo não comportava mais a crença religiosa como explicação da vida e do mundo. 

Ficou o respeito ao momento de cada um e cada uma, à visão de mundo de cada pessoa. O que sei é que às vezes sou mais dogmático e seguidor dos princípios cristãos que muita gente que se diz religiosa e praticante. Os Mandamentos estão cristalizados no fundo do meu ser...

Compreender a visão de mundo das pessoas, visões diferentes da minha, é algo básico para uma pessoa como eu, que já mudou tanto, já experimentou tanto, e que ainda procura por pertencimentos, por motivações, que precisa encontrar causas a se engajar.

Cansei por hoje, essas memórias são importantes para o processo de busca de sentidos e compreensões, mas elas nos cansam também.

Abraços às leitoras e leitores.

William


Post Scriptum: a leitura do capítulo anterior desta série de textos de lembranças pode ser feita aqui.


sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Natais - 1968


Natal de 2022, Uberlândia, MG.

Refeição Cultural

Para os cristãos o Natal é uma data na qual se comemora o nascimento de Jesus Cristo, filho de Deus. Mais que um simples nascimento, a data tem uma simbologia religiosa na qual Deus se fez presente no mundo humano, através de seu filho em carne e osso. 

Jesus, o filho de Deus, esteve entre nós por cerca de três décadas e suas mensagens foram de amor ao próximo, solidariedade ao se dividir o pão e de paz na terra. As elites da época não concordaram com ele e o crucificaram por isso. 

Foi numa comunidade com esse tipo de cultura religiosa que eu nasci em 1969. 

Ano passado, após ausências por causa da pandemia mundial de Covid-19, passei o Natal com meus pais, irmã, sobrinhos, esposa e filho, tia e primo e respectivos/as cônjuges.

Como Natal significa nascimento, no Natal de 2022 também houve uma expectativa na comunidade onde nasci, o Brasil, do nascimento de uma nova era, um período de mais esperança para o povo brasileiro por estarmos vivendo o fim de um período macabro do qual sobrevivemos ao genocida e miliciano que ocupou a presidência do país, e por estarmos começando um período que seria comandado por Lula e pela frente ampla que venceu as eleições. 

É sabido por todos, até pelos adversários minimamente honestos do presidente Lula, que o foco do governo ao longo do mandato de quatro anos será seguir algumas das mensagens que o filho de Deus pregou durante sua passagem pela Terra: amor e acolhimento ao próximo, solidariedade ao incluir o pobre no orçamento público e diminuir a desigualdade social, trazendo um pouco de paz nesta terra.

Estamos terminando o primeiro ano do governo Lula, um cristão daqueles que podemos dizer que faz de sua vida prática o critério da verdade. Lula correu o mundo pregando a paz entre os povos, a distribuição da riqueza produzida pelos seres humanos e a proteção aos biomas do planeta Terra. 

O risco de suas propostas serem desconsideradas pelas elites do mundo segue alto, como aconteceu com Jesus dois milênios atrás.

Sigo apoiando e torcendo pelo sucesso de nosso querido presidente Lula nesta tarefa de melhorar a vida dos pobres e despossuídos do Brasil e do mundo, pois sabemos que Lula é um legítimo cristão. 

Repito, sabemos que as elites vão tentar crucificá-lo por tentar dividir o pão (o orçamento público)... essa história é bem antiga... nós temos que estar alertas e preparados para defender pessoas como o presidente Lula, pessoas que defendem um mundo mais justo e solidário para todas as pessoas e seres vivos.

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NATAL DE 1968

Como terá sido o Natal de meus pais em 1968? 

Eu não sei. Eu estava no ventre de minha mãe, havia sido concebido mais ou menos em julho e nasceria no início de abril do ano seguinte. 

O que sei é que o Brasil passava por um momento duro de sua história política. Não havia democracia. 

O imperialismo financiava golpes em toda a América Latina. A ditadura civil-militar havia começado em 1º de abril de 1964, dia da mentira, e naquele mês do Natal de 1968 o regime ditatorial havia decretado o Ato Institucional nº 5 (AI5) e tudo seria pior para o povo trabalhador brasileiro. 

Meus pais e a pequena filha adotiva com pouco mais de 1 ano de idade faziam parte do povão que sofreria as consequências daquela desgraceira toda promovida pela elite tupiniquim com apoio dos Estados Unidos. 

Por lá, Martin Luther King havia sido assassinado a tiros em 4 de abril, na cidade de Memphis, Tennessee. King era uma liderança do movimento negro, pastor batista e um pacifista e defendia a igualdade de direitos entre todas as pessoas, independente de origem, etnia, gênero, crenças, visões de mundo.

Por aqui, os metalúrgicos de Contagem (MG) desafiaram patrões e ditadores e realizaram greve histórica. Em Osasco, na grande São Paulo, uma greve iniciada em julho na Cobrasma e depois expandida para outras fábricas enfrentou o regime fascista dos militares e endinheirados e deixou para a classe trabalhadora brasileira grande exemplo que cresceria mês após mês num movimento que daria origem ao Novo Sindicalismo.

Pensei na foto que tenho de minha mãe aos 22 anos com aquele barrigão de uns 6 a 7 meses de gestação. Seu olhar me passa a impressão de preocupação. Eram tempos duros para a classe trabalhadora brasileira.

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Começo aqui uma nova série de postagens no blog. Imaginar e relembrar os natais que vivi e que vivemos neste mundo mundo vasto mundo.

William


Post Scriptum: o capítulo seguinte desta série pode ser lido aqui.


sábado, 9 de dezembro de 2023

Tomei um puxão de orelha de Paulo Freire



Refeição Cultural

Osasco, 9 de dezembro de 2023. Sábado fresco.



"Por tudo isso me parece uma enorme contradição que uma pessoa progressista, que não teme a novidade, que se sente mal com as injustiças, que se ofende com as discriminações, que se bate pela decência, que luta contra a impunidade, que recusa o fatalismo cínico e imobilizante, não seja criticamente esperançosa. A desproblematização do futuro numa compreensão mecanicista da história, de direita ou de esquerda, leva necessariamente à morte ou à negação autoritária do sonho, da utopia, da esperança. É que, na inteligência mecanicista portanto determinista da história, o futuro é já sabido. A luta por um futuro assim a priori conhecido prescinde da esperança." (from "Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática educativa" by Paulo Freire)


Ao ler pela manhã dois subtítulos do segundo capítulo - "Ensinar não é transferir conhecimento" do livro Pedagogia da autonomia, do educador Paulo Freire, recebi com humildade o puxão de orelha que o mestre nos dá, a nós desesperançosos do mundo e do futuro. Os subtítulos são "Ensinar exige alegria e esperança" e "Ensinar exige a convicção de que a mudança é possível". Básico, isso, não acham?

O educador nos fala sobre resignação, determinismo, problematizar o futuro, esperança como algo inato ao ser humano e outros conceitos que nos fazem refletir, ainda mais quando já acumulamos certa história de militância em movimentos políticos e sociais com objetivos de mudar realidades ruins estabelecidas para as classes trabalhadoras e despossuídas das condições mínimas e aceitáveis de vivência humana.

Ao mesmo tempo em que o pessimismo da razão nos coloca numa condição de desacorçoo em relação ao presente e ao futuro - pois basta ter um mínimo de consciência e percepção para ver que estamos caminhando para o fim das condições de vida na terra -, sinto que não podemos de forma alguma nos resignarmos com a tendência de caminhar para o fim e não fazermos nada, numa atitude passiva e determinista.

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AINDA É POSSÍVEL EDUCAR OS SERES HUMANOS?

Quando reflito sobre a realidade ao meu redor, fico pensando se o ser humano deste momento da história ainda seria passível de ser educado. 

Não que tenhamos deixado de ser homo sapiens, seres absolutamente diferentes dos demais seres vivos na natureza. Seguimos com nossos sistemas cerebrais aptos à educação, cultura, criatividade e realização de mudanças do ambiente no qual vivemos. 

O questionamento sobre sermos passíveis ainda à educação ou não é pela observação da tendência das coisas na sociedade humana. Tenho dúvidas, por exemplo, se ainda seremos seres sociáveis num futuro bem próximo. Tenho algumas hipóteses que me deixam pessimista em relação a isso.

No século passado, os seres humanos ainda foram capazes de construir coletivamente, enquanto espécie, decisões que nos preservaram para a posteridade, ou seja, para o momento atual. Se algumas das bombas atômicas fossem utilizadas numa guerra de um agrupamento humano contra outro agrupamento humano, a vida na terra teria se inviabilizado já em meados do século XX.

A tecnologia seguiu evoluindo porque seguimos fazendo ciências - educação, cultura, criatividade e mudanças nos ambientes -, o que poderia provar que somos seres históricos, que seguimos fazendo história e que o futuro não é determinista ou determinado, que não está dado, como as visões místicas do mundo apregoam por aí e convencem a amplíssima maioria dos homo sapiens. Criamos deuses e passamos a acreditar que os deuses nos criaram.

O problema não é criarmos deuses, é deixarmos de agir esperando que os deuses façam as mudanças necessárias por nós.

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O PESSIMISMO DA RAZÃO

Ponto de não retorno em relação à destruição dos biomas, emergência climática, ascensão da extrema-direita no mundo, difícil superação do capitalismo enquanto sistema inviável que consome o único mundo no qual a vida se sustenta, as tecnologias das redes sociais e algoritmos que vêm destruindo a essência do comportamento humano nos transformando quase que em bois e galinhas com automatismos inumanos... e aí? Para onde estamos indo?

A miséria se alastra pelo planeta terra. As tecnologias que nós humanos inventamos estão a cada dia sendo mais apropriadas por alguns humanos para dominar tudo e todos. Como a sociedade humana está organizada pela visão capitalista de vida, normaliza-se que é assim mesmo: alguns terem tudo e a maioria não ter nada. A tecnologia vai extinguir, inclusive, as principais formas de trabalho humano. Mais da metade da população não terá como vender sua força de trabalho e o sistema fará com que a culpa seja atribuída às pessoas despossuídas de tudo... normaliza-se alguns terem tudo e a massa ser desumanizada...

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O PUXÃO DE ORELHA A TODOS NÓS PROGRESSISTAS E HUMANISTAS

"A realidade, porém, não é inexoravelmente esta. Está sendo esta como poderia ser outra, e é para que seja outra que precisamos, os progressistas, lutar. Eu me sentiria mais do que triste, desolado e sem achar sentido para minha presença no mundo, se fortes e indestrutíveis razões me convencessem de que a existência humana se dá no domínio da determinação. Domínio em que dificilmente se poderia falar de opções, de decisão, de liberdade, de ética." (from "Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática educativa" by Paulo Freire)


Eis aí o que Paulo Freire me disse nesta manhã...

Aí fiquei pensando no que eu sou, no que eu fui, no que eu posso ser. Fiquei pensando em nós, nós todos e todas e todes...

Por algum tempo fiquei olhando para trás, relembrando minha caminhada pela vida. Fiquei pensando na questão de que a esperança é um sentimento nato ao ser humano, a esperança no sentido no qual Paulo Freire nos explica: a esperança da ação, do fazer, do interceder e no mudar a realidade, algo que só é possível ao ser humano. 

Ser humano. Um ser no mundo que está muito além dos demais seres no mundo, que está para além da resignação e adaptação ao meio, nós podemos mudar o meio, mudar a tendência das coisas, só nós humanos somos aptos a educação, cultura, criatividade e realização de mudanças do ambiente no qual vivemos.

Só nós humanos podemos criar o futuro, problematizar o futuro, mudar a tendência do futuro. 

Pensando no puxão de orelha, no alerta que o educador Paulo Freire nos faz, a nós progressistas e lutadores e humanistas, tanto é verdade que a realidade está bem fodida para nós e para o mundo, quanto é verdade que devemos mudar a realidade fodida para nós, a ampla maioria da humanidade e das outras formas de vida no planeta único.

Enfim, eu seguirei refletindo sobre o que Paulo Freire nos ensina. Eu quero mudar a realidade. Sinto que não suporto com resignação a realidade que alguns poucos nos impõem. Sinto desejo de mudança. 

Não há outra atitude humana para um progressista e humanista a não ser seguir se indignando com a realidade ruim e buscando formas de mudar a realidade para uma realidade melhor.

William


quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

Diário e reflexões - Livros essenciais


Lançamento do livro 
A geração que criou a CUT.

Refeição Cultural

Osasco, 7 de dezembro de 2023. Noite de quinta-feira de calor extremo.


NOSSA HISTÓRIA DE LUTAS PRECISA SER PRESERVADA

Nos dois últimos dias, tive a alegria de participar de dois lançamentos de livros importantíssimos para a história do povo brasileiro e da classe trabalhadora.

Na terça 5, fui ao lançamento do livro A geração que criou a CUT: a história contada por quem a faz (2023), organizado por Claudio Nascimento, Iram Jácome Rodrigues, João Marcelo Pereira dos Santos, Maria Silvia Portela de Castro e Sandra Oliveira Cordeiro da Silva. O livro traz entrevistas de 30 lideranças que participaram da fantástica história da criação da Central Única dos Trabalhadores, e também da criação do Partido dos Trabalhadores.


Ao participar do evento no centro da capital paulista, na Fundação Escola de Sociologia de São Paulo, revivi na memória os sentimentos de pertencimento por ter participado dessa história de décadas de lutas da classe trabalhadora. As intervenções dos/das participantes do evento nos emocionaram bastante. Revi grandes amigos/as e companheiros/as de jornadas de lutas por democracia, melhoria das condições de vida de nosso povo e a busca por uma sociedade mais justa e solidária.

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Ontem, quarta 6, estive novamente no centro da capital paulista para o lançamento do livro Greve e Negociação Coletiva - Dimensões Complementares da Luta Sindical (2022), do amigo e companheiro Carlindo de Oliveira, economista e educador do Dieese. O evento se deu no auditório da Escola Dieese, na Rua Aurora.


Eu já li o primeiro volume do estudo (comentário aqui) a respeito de nossas lutas por direitos sociais, políticos e civis, já que a história de lutas trabalhistas envolve governos e patrões, bem como as instituições oficiais do Estado brasileiro. Como disse no comentário que publiquei, o livro é fantástico e quem dera existisse um livro desses quando comecei na vida sindical. Torço para que as entidades sindicais utilizem os conhecimentos disponibilizados por Carlindo para a formação das novas gerações de dirigentes da classe trabalhadora.

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O CAOS NO QUAL OS PRIVATISTAS NOS COLOCAM

Ao me deslocar de transporte público - trens e metrôs - para os dois eventos, algo que fiz durante toda a minha vida de trabalhador, fiquei refletindo sobre o caos ao qual nos colocaram. Os trens foram privatizados pelos governos de direita e extrema-direita e a vida do povo está muito ruim. 

Que caos virou a rotina das pessoas que precisam do transporte público de massas para se locomoverem na região metropolitana de São Paulo! Calor, multidão tentando entrar em vagões lotados... (Eu era um dos únicos no vagão lotado com máscara...). O caos!

Aí ao descer na região central de São Paulo, o medo do assalto, da violência, somos como animais predados numa savana de predadores ferozes... o caos!

Aí naquela mesma noite o sujeito eleito governador de São Paulo usou da maior violência possível para votar a entrega de nosso patrimônio público - a Sabesp - aos parças dele. 

Esses caras privatistas tinham que ter medo como nós temos de viver no mundo caos que eles nos proporcionam... é o que penso.

É isso!

William

segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

Diário e reflexões


A São Paulo privatizada...

Refeição Cultural

Osasco, 4 de dezembro de 2023. Noite de segunda-feira.


PRIVATIZAÇÃO

O governador de São Paulo vai privatizar a Sabesp. Percebe-se que nem o poderio bélico dos Estados Unidos da América impediria o sujeito de cumprir o compromisso que ele amarrou com os seus "parças", chamados de "apoiadores" e "parceiros". A empresa é fundamental para o povo paulista e para a questão ambiental e o cara está se lixando para a vontade do povo. Capitalismo... quanto mais água se consumir, mais lucro pro "parça".

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Ano passado, a poucos meses do fim do mandato, o sujeito que ocupou a cadeira da presidência do Brasil privatizou a Eletrobras. Eram tantas irregularidades listadas que se o Brasil fosse uma República (forma de governo na qual se deveria estender direitos a todos e não focar em privilégios de poucos) aquela entrega aos "parças" jamais teria acontecido.

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Essa entrega de patrimônio público para uns "chegados" de governos privatistas é antiga. Nunca acontece nada com esses sujeitos. Eles doam nossas riquezas e continuam flanando pelas ruas e locais chiques sem que nada aconteça a eles, nem incomodados são.

Antes desses governos golpistas de 2016 a 2022 - e a consequência do fascismo no poder, que coloca sujeitos como esse de SP no poder -, os governos tucanos fizeram o mesmo (1995 a 2002), e o sujeito de Alagoas também (eleito em 1989 e impedido em 1992 por contrariar os "parças"), e nada aconteceu a eles por entregarem patrimônio público e enriquecer os "parças" e privar (priva-tização) o povo de direitos básicos da cidadania.

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Um ministro do FHC, pego em confissão em conversas telefônicas, disse que eles estavam privatizando a telefonia no "limite da irresponsabilidade". Os tucanos capricharam - governo lesa-pátria - nos dois mandatos na presidência do Brasil. Aliás, o 2º mandato de FHC saiu de uma Emenda à Constituição muito esquisita. Mudaram a lei maior para beneficiar quem estava no poder... e com acusação de compra de votos. E com total apoio da imprensa comercial dos donos do poder (casa-grande)

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Esses desgraçados que citei acima, privatistas, entregaram a distribuição de energia elétrica e, de safadeza em safadeza, fomos parar na mão da Enel, uma porcaria que manda os recursos do povo para o exterior, enxuga o quadro de funcionários, não faz investimento algum em melhoria, deixa o povo paulista dias e dias sem energia elétrica e tudo segue na boa (para os donos do dinheiro que recebem dos paulistas). Foda demais não termos revoltas insurrecionais do povão acostumado a ser tratado como gado na fila do abate.

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E para finalizar o tema em reflexão ou em indigestão, tem os 682 milhões de reais que o nosso "querido" governador privatista de SP decidiu doar para a ViaQuatro, a empresa da linha 4 do metrô privatizado. Acreditem, milhares de empresas do Brasil de regime capitalista quebraram por causa da pandemia mundial de Covid-19. Mas a empresa privada ViaQuatro não pode ter redução de seu lucro por causa da pandemia. O governador achou justo dar nosso dinheiro público para eles.

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Mais uma, para finalizar de verdade...

O Alckmin... ele mesmo, o Alckmin, de trágicas memórias para nós da classe trabalhadora paulista, agora "companheiro" do presidente Lula, no arco de alianças de frente ampla para derrotar a máquina de dinheiro e mentiras da tentativa de reeleição do agora inelegível ex-presidente B., o Alckmin parece estar liderando os projetos de privatizações dos presídios no Brasil. 

Pois é, o modelo norte-americano será o modelo de encarceramento da parcela gigante da população brasileira indesejável aos olhos dos 5% donos de tudo (os inimputáveis de crimes no Brasil), os caras que podem tudo, os brancos e ricos e donos dos latifúndios e das empresas e farialimers (o mercado).

...

Não sei nem o que dizer sobre essa da privatização dos presídios num país onde mais de 40% da população carcerária de mais de 800 mil pessoas nunca foi julgada e ou condenada... país onde a maioria absoluta de presos é de afrodescendentes e pobres... capitalismo... quanto mais gente presa, maior o lucro... pqp!

Que digo?

Nem posso falar da Petrobras porque acabo morrendo de tristeza... e ainda tenho coisas importantes a fazer.

William


quinta-feira, 30 de novembro de 2023

Diário e reflexões - Novembro



Refeição Cultural - Novembro

Tamandaré (PE), 30 de novembro de 2023. Quinta-feira. Praia dos Carneiros.


"Gosto de ser homem, de ser gente, porque não está dado como certo, inequívoco, irrevogável que sou ou serei decente, que testemunharei sempre gestos puros, que sou e que serei justo, que respeitarei os outros, que não mentirei escondendo o seu valor porque a inveja de sua presença no mundo me incomoda e me enraivece. Gosto de ser homem, de ser gente, porque sei que a minha passagem pelo mundo não é predeterminada, preestabelecida. Que o meu “destino” não é um dado, mas algo que precisa ser feito e de cuja responsabilidade não posso me eximir. Gosto de ser gente porque a história em que me faço com os outros e de cuja feitura tomo parte é um tempo de possibilidades, e não de determinismo. Daí que insista tanto na problematização do futuro e recuse sua inexorabilidade." (from "Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática educativa" by Paulo Freire) 

Post Scriptum: inseri esse pensamento de Paulo Freire depois da publicação do texto (em 01/12/23, às 8h53). É que o conceito se encaixou perfeitamente no sentido do que estou refletindo.


INTRODUÇÃO

Mais um mês do ano se encerra hoje. Sobrevivi mais um mês num mundo que caminha rapidamente para se tornar um lugar de difícil sobrevivência para milhões de espécies, para milhões de seres humanos. Provavelmente, sobrevivi por diversos privilégios que tenho em relação a milhões de pessoas expostas a mais riscos do que eu. Viver é muito perigoso, já dizia Riobaldo Tatarana.

A cor da minha pele infelizmente é fator de privilégio em um dos países mais racistas do mundo. Por minha pele ser branca, estou menos exposto ao risco de as forças repressivas do Estado abusarem de mim só por me verem andando pelas ruas como qualquer cidadão. Se minha pele fosse preta ou parda, maior seria o risco de ser humilhado por alguns brucutus fardados me dando uma geral, talvez batendo na minha cara, até me agredindo e inventando posse de coisas que não estavam comigo. Minha cor é um privilégio no Brasil.

Passei o mês sem ter um acidente comum aos humanos do mundo onde vivo. No Brasil e no mundo, grande parte da população está acumulando fatores de risco de morte ou adoecimento sério por causa dos hábitos alimentares e de vida e por dificuldades em se obter informação e acesso a uma boa alimentação e a uma boa condição de vida. Não tive nenhum acidente vascular cerebral, não tive um infarto do miocárdio, mas sigo acumulando riscos para ter um treco desses qualquer dia. Estou tentando diminuir o peso, a circunferência do abdômen e readquirir um pouco de massa muscular. Cara, nunca pensei no passado que seria tão difícil fazer isso após meio século de vida.

Minha família sentiu a tristeza da perda de nosso tio Léo, que lutou bravamente para sobreviver um bom tempo ao lado da família e amigos após o diagnóstico da doença degenerativa. 

Quando penso na vida e na morte, reflito a respeito de minha própria vida e da consciência que tenho a respeito da fragilidade do viver, sendo eu um materialista como sou. Todos os dias busco um sentido para o esforço de viver. A resposta sempre brota de minha responsabilidade como uma pessoa estudada e menos ignorante que a média, apesar de saber que não sei nada. Viver é uma oportunidade de fazer algo pela coletividade humana, pela natureza, e até por si mesmo. Sigamos lutando pela vida e por um mundo mais justo para todes.

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O BRASIL E O MUNDO EM COLAPSO CIVILIZACIONAL

Estamos fechando o penúltimo mês do ano de 2023, o ano no qual pensamos acordar do pesadelo da longa noite de terror iniciada naquele domingo 17 de abril de 2016. Aquele ano duraria muitos anos. Vivenciamos as consequências nefastas do golpe de 2016, ano após ano, com os desgovernos de Temer e Bolsonaro. 

Aliás, esse animal que vociferou elogios ao torturador de Dilma Rousseff não saiu preso daquela sessão, virou líder popular da extrema-direita e presidente do país. Bolsonaro aglutinou milhões de pessoas que reúnem o que há de pior no ser humano. E mesmo sendo Lula o adversário desse monstro, ele obteve 49% dos votos dos brasileiros em outubro de 2022. Dizem que esse poder aglutinador arrefeceu... eu discordo dessa leitura.

REVOLUÇÃO BRASILEIRA - Aqueles regimes golpistas (2016-2022) realizaram uma revolução reacionária no Brasil. Tenho uma leitura que o meu campo político não se deu conta de que houve uma revolução no país. Talvez por isso a esquerda, o governo Lula e os movimentos sociais continuem fazendo as mesmas coisas e sonhando com resultados diferentes. Não entenderam que houve uma revolução e só uma nova revolução pode alterar os efeitos da revolução anterior.

O FUTURO SERÁ PIOR - Por causa das consequências da atual fase do capitalismo, que mudou as perspectivas de sobrevivência no mundo para humanos e demais espécies, quem consegue capturar melhor a frustração das massas miseráveis acaba se aproveitando disso. Quem prega a mudança, não importa para onde porque as pessoas estão cada vez mais ignorantes de mundo, quem prega palavras de ordem contra o "sistema" (mesmo sendo o sistema) ganha a adesão das massas. Bolsonaristas, aquele sujeito da Argentina, o bilionário Trump, outros bilionários, estão fazendo a festa nos processos eleitorais. Enquanto isso, a esquerda quer seguir buscando conciliar, ser limpinha e cheirosinha... Quer fazer "reformas" no capitalismo... quer entregar ao "mercado" (o sistema) o que é do povo miserável... Fala sério! Aonde vamos com isso? (pro buraco)

O governo Lula buscou nesses onze meses consertar ou refazer diversas políticas sociais em áreas nevrálgicas da vida do povo brasileiro não proprietário das riquezas do país, concentradas nas mãos de umas poucas famílias de brancos e gringos, gente que nem aqui vive, só explora e destrói nosso país.

Lula devolveu um mínimo de dignidade ao povo ao destinar verbas públicas para a educação, para as políticas sociais, para a saúde, para o enfrentamento à destruição dos biomas, e para construir uma política de geração de empregos e renda. O foco absoluto do 3º governo Lula é melhorar a vida do povo não proprietário de tudo, como são as castas da eterna casa-grande. O Brasil nunca deixou de ser uma terra de capitanias hereditárias, de privilégios para poucos e nada para quase 99% do povo.

Mesmo assim, as tais pesquisas de popularidade do governo apontam que a aprovação de Lula e de seu governo estão baixas, muito aquém do que imaginaríamos após a tragédia que vivemos com Temer e Bolsonaro. 

As hostes raivosas, violentas e animalescas de bolsonaristas não estão para conciliação. Acabaram os tempos de conciliação. Aquelas poucas famílias bilionárias das capitanias hereditárias e das casas-grandes, chamadas hoje de "mercado" e "Faria Lima" e os latifundiários do "agro pop", estão associadas às hostes bolsonaristas. A política formal, a formal!, hoje é dominada por esse segmento que estando nos espaços da política não quer política, quer a guerra. 

Não há chances de convivência pacífica com a extrema-direita e com os ricos. Não há! O presidente Lula não consegue mais ser o Lula num mundo de gentes bolsonaristas. Não há respeito mínimo como havia entre direita e esquerda, liberais e conservadores, e nomenclaturas do tipo pós 2ª Guerra Mundial. Isso acabou! Houve uma revolução no Brasil e a esquerda tem que entender isso.

"LULA LADRÃO" - Enquanto a esquerda discute cargos e espaços de poder na estrutura formal do Estado porque Lula venceu Bolsonaro pela diferença de 1%, a conversa aberta ou fechada no cotidiano das gentes é a mesma conversa disseminada por quem tem mais poder de disseminar ideias, não importa se verdadeiras ou falsas, é o que chamamos de pós-verdade, quem tem mais capacidade de comunicação cria a "realidade". Se já não bastassem as centrais de disparos de milhões de fake news via redes sociais, temos as mentiras sendo produzidas diariamente pela imprensa golpista como, por exemplo, a Globo na cobertura da guerra na Palestina e o Estadão sobre o governo Lula. E com isso, nas ideias populares, a percepção dos comuns é a imagem de que Lula é ladrão. É triste, mas é a realidade. 

Pessoas como nós, o povão que trabalha e que dá duro para sobreviver, sejam aquelas pessoas em condições miseráveis, sejam aquelas pessoas situadas nas chamadas classes médias, que têm recursos para sobreviver, quando você menos espera, numa conversa informal, ou ouvindo numa mesa ao lado da sua, arrotam suas crenças e ideias sobre Lula e sobre nós que não somos do grupo apoiador da direita e do conservadorismo. O neurocientista Miguel Nicolelis chama de vírus informacional essas ideias que aglutinam milhares e milhões de cérebros humanos num mesmo sentido de percepção de mundo, uma brainet.

Ontem, na mesa do restaurante na pousada onde estamos, ficamos ouvindo três senhoras falando sobre Lula e Bolsonaro, é uma conversa tão distópica, tão sem pé nem cabeça que a gente nem quer acreditar. Lula é ladrão, o comunismo... ainda é melhor alguém que defende deus pátria e família que a miséria que Lula significa... É o que temos na realidade. E olha que elas disseram que só indo para as ruas para enfrentar esse fantasma do comunismo... as tias do zap é que vão para as ruas hoje!

Outro dia, papo vai papo vem com um conhecido de longa data - que vende churros -, ele me solta que o mundo é foda e o Brasil tá foda por causa da política... "não tiraram o Lula da cadeia pra voltar a merda de antes!"... Eu nem imaginava que ele pensava assim. E o rapaz que se hospedou em casa e que não aguentou nosso comentário na sala sobre uma matéria que falava de uma absolvição de Lula e correu da cozinha para dizer que era um absurdo isso, porque Lula era ladrão. Não adiantou argumentos civilizados, provas etc. Lula é ladrão porque é ladrão. Ele e sua família acredita nisso e pronto.

Enfim, se observo racionalmente os objetivos, estratégias e táticas do campo ao qual dediquei a minha vida, percebo que meus conhecidos estão se esforçando da forma deles em conseguir algum avanço para as classes populares, mas é claro e notório que o efeito de se fecharem em bolhas de concordância e subserviência de amigos e pessoas que só dizem amém e elogios à hierarquia pode não ser a forma ideal de mudar alguma coisa de fato e de forma duradoura para a classe a qual nós pertencemos e deveríamos politizar, as classes trabalhadoras. 

Os cancelamentos no nosso campo, até entre amigos, além da questão do antigo companheirismo das lutas, é algo trágico, até ridículo. O ano vai terminando e eu não fui chamado sequer para dar um depoimento elogioso na comemoração dos 100 anos do Sindicato ao qual ajudei a fortalecer por mais de 30 anos... isso é algo tão pequeno... até comentar isso é ridículo. No entanto, isso dói porque a disputa pelo futuro da humanidade está muito séria e essas bobagens pautam o dia a dia das organizações principais da classe trabalhadora brasileira. Picuinha interna.

Vida que segue, como diz o Kotscho.

Post Scriptum: é imperativo registrar o genocídio do povo palestino pelo Estado de Israel. O mês de novembro foi um mês de massacre e expulsão do povo palestino da terra onde eles viviam: a Palestina. O governo sionista de Netanyahu é um regime racista e de extrema-direita. Ser antissionista não tem relação alguma com a confusão que os sionistas fazem tentando chamar de antissemitas quem é contra o grupo político no poder em Israel.

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CULTURA E BUSCA POR CONHECIMENTO

Para finalizar esse breve registro sobre o mês que passou, anoto para rememorar no futuro alguns atos e fatos pessoais deste blogueiro, que lê, reflete e escreve sobre as coisas.

Em relação à saúde e condicionamento físico, e ao projeto de participar da Corrida de São Silvestre deste ano, percebi que dificilmente realizarei o objetivo traçado. Estou muito mal e não acredito que possa correr em trote 15 Km no último dia do ano. Triste isso, mas uma pessoa consciente precisa avaliar a realidade, gostando ou não dela.

Terminei neste mês a leitura de mais alguns livros. Com o livro do Carlindo Oliveira (ver aqui), completei 30 livros lidos até agora. Acho difícil ler mais 6 e chegar ao que projetei. Estou lendo alguns livros ainda. Um do colega do BB, Arnaldo Onça, e um de Paulo Freire. Esses devo acabar a leitura. O que importa é que cada leitura na atualidade tem sido percebida de forma muito mais consciente que antes.

EDIÇÃO DE LIVROS - Estou produzindo um livro para publicação em breve. É um livro de memórias das lutas sindicais. Outro que estou editando também é sobre o trabalho que realizamos na Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil, a Cassi. É um livro que resgata o balanço do que realizamos na área da saúde. Por mais que sejam tempos difíceis no mundo humano e das relações sociais na política, os relatos nesses livros resgatam uma época, um fazer político e sindical, e as contribuições daquele sujeito histórico foram reais para a nossa coletividade enquanto classe. Vamos ver o que vai dar.

Acho que é isso. Paro o registro por aqui. Já escrevi bastante para falar dos fatos e sentimentos neste mês de novembro.

William Mendes


Post Scriptum - Para ler sobre a postagem anterior desta série, é só clicar aqui.