quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Leituras Capitais (2005)



Refeição Cultural - CartaCapital nº 356, 24/ago/2005


Memórias

Ao ler esta revista semanal de política, economia e cultura com as informações de agosto de 2005, uma leitura feita em 2024, quase duas décadas depois daqueles acontecimentos e opiniões, me lembrei com facilidade da maioria dos temas abordados no semanário. O ano de 2005 foi um ano inesquecível, para o bem e para o mal.

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Onde estava?

Eu era dirigente sindical da categoria bancária. Havia terminado o meu primeiro mandato como diretor do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região. Nos debates sobre a formação de chapa, me lembro que cheguei a pensar em voltar para o dia a dia do Banco do Brasil. Fui convencido a continuar contribuindo com as lutas da categoria. 

Pedi ao meu grupo político que designasse outra tarefa para mim, não quis continuar na Executiva do Sindicato. Permaneci na diretoria e passei a ser o representante paulista na Comissão de Empresa do BB da Fetec CUT SP e CNB/CUT. 

Seguiria fazendo trabalho de base, a tarefa que mais me completava e que dava sentido ao meu fazer sindical. Aliás, eu estudava muito justamente para fazer um bom trabalho de formação na base.

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Crise do "mensalão" e tentativa de golpe

A revista CartaCapital 356, do final de agosto de 2005, traz matérias sobre a questão do chamado "mensalão", crise política e primeira tentativa de golpe que o governo Lula e o Partido dos Trabalhadores enfrentaram naquele ano. Não tem como esquecer o que enfrentamos. 

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Um militante petista acolhido pela base de trabalhadores do BB

Eu era muito conhecido na base social onde atuava, era um dirigente que fazia muito trabalho de base, nas regionais do Sindicato: Oeste, Osasco e Centro. Neste ano especificamente, eu era o responsável pelo maior complexo de funcionários do BB em São Paulo: o Complexo do BB na Av. São João, o prédio ao lado do edifício Martinelli, sede do Sindicato.

O que posso dizer em um parágrafo é que nunca vou me esquecer da forma como fui acolhido carinhosamente pelas bancárias e bancários do BB por conhecerem meu trabalho sindical e saberem o quanto estava difícil ser pessoa pública de esquerda nos espaços sociais por causa da overdose de acusações na grande imprensa a qualquer pessoa que fosse apoiadora e militante petista. As pessoas que eu representava me acolheram e apoiaram. Essa confiança no meu trabalho foi a base da minha ética sindical e da minha dedicação até o último dia de representação da classe trabalhadora.

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A edição CartaCapital 356

Além das matérias da política, outras me chamaram a atenção.

- Sócrates - O Magrão era vivo e escrevia na revista. Duas décadas atrás, o craque já nos explicava sobre os dois tipos de técnicos de futebol mais característicos: aqueles que conquistavam seus comandados com honestidade e integridade e os que o faziam com terror e opressão. O Dr. Sócrates temia pelo futuro do esporte e de todos nós na sociedade humana.

- Viva o médico de família (artigo de Rogério Tuma) - Outra excelente matéria da revista de agosto de 2005 foi sobre um tema que eu viria a me tornar um bom conhecedor tempos depois. 

Nos anos seguintes, nós do Banco do Brasil fizemos grandes debates sobre o modelo preventivo de saúde baseado na medicina de família e comunidade. 

A Cassi, autogestão dos funcionários do BB, tinha mudado radicalmente sua concepção desde a reforma estatutária de 1996 e estava num processo de construção de um modelo próprio de atenção primária, baseado na Estratégia de Saúde da Família (ESF) com clínicas de atendimento próprias - CliniCassi - e eu acabei sendo gestor eleito do modelo de saúde entre 2014 e 2018.

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É isso! O presidente Lula seguiu firme e até hoje o temos do nosso lado nas lutas da classe trabalhadora.

William 

11/01/24


segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

Diário e reflexões - O 08/01/24


Nas ruas em defesa da democracia.
Foto de Marcolino, em 09/1/23.

Refeição Cultural

Osasco, 8 de janeiro de 2024. Segunda-feira.


De suposições não apuradas, conciliações vergonhosas e impunidades descaradas, o que podemos esperar do presente e do futuro?


Opinião

Hoje faz um ano que o Brasil sofreu a tentativa de Golpe de Estado por parte do grupo que estava no poder antes da eleição de Lula à presidência da república em 2022. 

A "Intentona bolsonarista", como a Fórum nomeia o evento, faz um ano sem a prisão e indiciamento de nenhum responsável político da cúpula bolsonarista. 

Eu me programei para participar de qualquer atividade de rua que fosse ocorrer. Entendo isso como um dever cidadão. Como moro na Grande São Paulo, soube que haverá uma atividade na Av. Paulista. Lá estarei!

Ano passado, no dia seguinte às cenas bárbaras que o povo brasileiro viu na Capital do país, me somei aos manifestantes que ocuparam a Av. Paulista para apoiar o governo recém-eleito, a democracia e para pedir punição aos golpistas. Ler postagem aqui.

Pois é, o que posso registrar após um ano daquela tentativa de golpe? Diria que "supostamente" as autoridades das instituições do Estado Nacional estão atuando como deveriam... supostamente os culpados serão processados, julgados e condenados... supostamente!

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Síndrome do suposto

Vi uma avaliação da jornalista Hildegard Angel na TV 247 neste domingo 07/1/24 que sintetizou muito do que penso sobre a questão: O Brasil vive a "Síndrome do suposto". 

Hilde fez uma ironia maravilhosa com a expressão "suposto" porque em um ano tudo é suposição. O suposto golpe, o suposto líder Bolsonaro, o suposto apoio de empresários do agro, o suposto apoio dos militares etc. 

E com isso, ela lavou a alma daqueles que avaliam que a impunidade é o conceito que resume o que aconteceu um ano depois da tentativa de Golpe de Estado.

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Não vou me alongar na avaliação pessoal. O que vejo após um ano é o seguinte:

A cúpula do partido militar que "supostamente" estaria envolvida em mais um golpe de Estado, assim como estão envolvidos nos golpes anteriores desde 1889, segue livre, leve e solta. Até proposta de mudança para acabar com a farra dos descendentes de militares viverem às custas do erário público foi arquivada. Me parece que os militares ficarão impunes como sempre. E com isso, podem fazer as deles mais quantas vezes quiserem.

E os desgraçados dos financiadores cheios da grana que "supostamente" patrocinaram e patrocinam a máquina de manipulação de consciências através de um sistema bilionário de fake news desde antes da tomada de poder pelos milicianos liderados pelo clã carioca? Seguem livres, leves e soltos.

E o "suposto" líder do golpe e da inesgotável lista de "supostos" crimes cometidos por ele, o ex-presidente por enquanto inelegível? Quantos processos foram abertos contra ele até este momento? Por que ele segue livre, leve e solto, "supostamente" destruindo há um ano provas de "supostos" crimes? A famiglia zomba da nossa cara todos todos todos os dias... a fulana, mulher do mito, flana por aí, assim como os filhos todos supostamente cidadãos sem acusação alguma. Lógico que, "supostamente", toda a fortuna amealhada por eles é fruto do trabalho deles no sistema capitalista.

E o orçamento secreto, ou disfarçado de não ser secreto, mas continuando secreto, orçamento de parte considerável das receitas do Estado brasileiro, manipulado e gestado pelo chamado "Centrão", um disfarce para nomear aqueles coronéis ruralistas, grileiros, banqueiros, empresários da manipulação da fé alheia chamados de "pastores", donos do dinheiro das capitanias hereditárias do chão chamado Brasil? O governo Lula perdeu fatia importante do orçamento que teria para os programas sociais e econômicos para o ano de 2024... e os caras da extrema-direita do Congresso continuam livres, leves e soltos.

É assim que estamos um ano depois da pior cena golpista que o povo brasileiro viu em mais de um século de sistema "republicano", aquela "república" nascida para não ser república (sistema para todos, sem privilégios), como nos ensina Antonio Candido, pois os militares e os coronéis do agro deram o golpe em 1889 para se vingarem do imperador por lhes causar prejuízo tirando deles o privilégio da lei que garantia a manutenção de seus escravos.

Eu vou lá para as manifestações como cidadão consciente e politizado, mas minha impressão do presente e do que vem por aí é desalentadora. Não desisto por isso, não podemos desistir.

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08/jan/24, nas ruas, em São Paulo.

Sem anistia!?

Clamo por punição aos cabeças da Intentona bolsonarista! Mas tenho a impressão que a impunidade prevalecerá...

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Fico com o ensinamento do educador Paulo Freire na Pedagogia da Autonomia, quando ele explica que temos que problematizar o futuro e não o ver como algo determinado. Temos que mudar o rumo das coisas!

Somos humanos, somos seres históricos e fazemos a história!

William

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Post Scriptum: e por falar em um ano do nosso governo, pergunto: quem mandou matar Marielle Franco e por quê?


domingo, 7 de janeiro de 2024

Vendo filmes (XI)



Refeição Cultural

Nossos destinos estão à deriva, apontam para o fim da humanidade e destruição da natureza, mas não precisa ser assim


Introdução

Os povos yanomami e a floresta amazônica, Napoleão Bonaparte e o poder dos homens, coisificação e desumanização de seres humanos, o mundo visto sob pontos de vista distintos. As interações entre homens e natureza. Essas temáticas foram destaque nos três filmes que comento abaixo.

Outro destaque nos três filmes que vale a pena observar e comentar, mesmo sendo uma coincidência na sequência que assisti, os três têm fortes cenas envolvendo o elemento água e a questão do mergulho, da agonia do afogamento, da imensidão do mundo aquático. É psicologicamente um "mergulho" o que o telespectador vivencia ao ver essas obras. E com isso, se completa o nosso mergulho nas histórias e nas temáticas dos filmes.

Se uma pessoa não tiver mais a capacidade de se colocar no lugar de outra pessoa, se não for aculturada e educada ao longo de sua vida para se imaginar sofrendo as violências e dores impostas a outras pessoas, seres humanos idênticos a ela em direitos e deveres, estaremos estabelecendo o fim da sociedade humana como nós a criamos através de séculos de acertos e erros na construção da vida em comum de uma espécie animal, a homo sapiens.

Mergulhar em filmes e documentários que nos permitem refletir sobre outras matrizes culturais, sobre eventos da história, mesmo que sob o ponto de vista recortado por um diretor, e nos colocar na condição de um sem-terra, um sem-lugar no mundo, é uma oportunidade para avaliarmos como estamos nos comportando enquanto seres humanos na atual quadra da história humana. Ainda nos sensibilizamos com o outro? Ou não nos importamos mais com ninguém a não ser nós mesmos?

Há em curso uma experiência programada de alteração do comportamento humano através de um sistema global de desconstrução do caráter e da ética humana de se importar com as outras pessoas, com os outros seres vivos do lugar comum no qual todos nós vivemos: o planeta Terra. Estou falando da fase atual do capitalismo e suas ferramentas ideológicas massivas difundidas através das redes de comunicação globais das big techs (empresas capitalistas de poucos donos, os donos do mundo).

Ao sermos fisgados por essas máquinas de captura de nossas mentes e nossas atenções, 24 horas por dia, estamos perdendo a essência do que somos, animais sociáveis e de vivência cooperativa e coletiva. Vocês duvidam que somos seres de necessidades sociáveis e coletivas? Quanto tempo uma cria da nossa espécie precisa para se tornar minimamente autossuficiente na manutenção de sua própria vida? Somos como os outros animais na natureza que em horas, dias e semanas estão aptos a viverem sozinhos? Evidente que não!

É por isso que filmes como A última floresta e Destinos à deriva deveriam nos deixar transtornados e desejosos de mudar agora o rumo das coisas na sociedade humana. Se nada for feito, acabou para nós!

Já filmes como Napoleão nos coloca a pensar sobre como alguns humanos e algumas sociedades humanas podem fazer mudanças gigantescas no mundo ao seu redor, sejam as mudanças positivas ou negativas para as demais pessoas e formas de vida.

Gostei bastante dos filmes que cito abaixo.

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FILMES

A última floresta (2021) - Direção: Luiz Bolognesi. Com Davi Kopenawa Yanomami e outras atrizes e atores yanomamis. Apresentação: o xamã Davi Kopenawa tenta manter vivos os espíritos da floresta e as tradições, enquanto a chegada de garimpeiros traz morte e doenças para a comunidade, que fica localizada em um território Yanomami, isolado na Amazônia. Os jovens ficam encantados com os bens trazidos pelos brancos.

COMENTÁRIO: Enquanto assistia à mescla de documentário e ficção de Bolognesi e Kopenawa sobre a vida e as dificuldades dos povos yanomamis da região Norte do país por causa das agressões e invasões dos brancos, meus pensamentos perambularam por diversas histórias e culturas de povos tradicionais e originários, minha razão ficou brigando com as hipocrisias das culturas dos brancos e povos ocidentais, e me lembrei até da fita cassete que tenho em casa com uma hora de música da natureza, fita gravada num sítio de meu tio Léo em Barra do Garças há muito tempo, numa lagoa após uma chuva noturna: a sinfonia de sapos, rãs, grilos e demais sons daquele espaço da natureza é uma viagem ao paraíso perdido: a Natureza.

MISTICISMO DO OUTRO NÃO VALE - Uma coisa que não me saiu da cabeça tem relação com a hipocrisia dos brancos em relação ao preconceito que eles têm às visões místicas de outros povos e culturas (religiões). O branco acredita em misticismos da mesma forma que outras matrizes culturais e fica arrotando que a sua crença e visão de mundo é melhor que a dos outros. Isso é nojento demais! Arrogante demais! Até em relação a quem não crê em misticismo algum.

O QUE ESTOU FAZENDO PARA SALVAR A NATUREZA? Depois de adquirir um pouco mais de informação sobre as questões do meio ambiente, dos povos indígenas e das consequências trágicas da forma como nós seres humanos estamos consumindo o planeta e inviabilizando a vida nos ambientes terrestres, filmes e documentários como A última floresta me deixam envergonhado por saber o que está acontecendo com a nossa casa - a Natureza - e não estar fazendo algo pessoalmente para interromper a destruição e forma como estamos lidando com o único lugar no universo no qual podemos viver no presente e no futuro. Qualquer pessoa com um mínimo de consciência deveria ter vergonha de não lutar para interromper a destruição da natureza.

Eu e você que sabemos como as coisas são teríamos a obrigação ética do conhecimento adquirido de fazer algo agora para interromper as ações da pequena parcela de humanos que está inviabilizando a vida de bilhões de seres... acho que nem quero me aprofundar nesta questão. Resumo afirmando que é muito sério saber e não fazer nada de fato para alterar a situação. Não basta terceirizar responsabilidades e culpas... não basta.

(depois do filme, fui dormir e sonhei a noite inteira com cenários e pessoas e situações que incluíam água, muita água nas cenas. Dormi mal a noite inteira, acordei ao final das três sessões imaginárias ligadas à natureza. Registro que raramente me lembro de algum sonho... foi como se eu tivesse participado daquele ritual que vi ao final do documentário dos yanomamis...)

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Napoleão (2023) - Direção: Ridley Scott. Com Joaquin Phoenix e Vanessa Kirby. Apresentação: filme aborda a vida de Napoleão Bonaparte sob a ótica do diretor, que focou o enredo na relação entre Napoleão e sua esposa Josefine. Uma das referências para a história são as cartas de Napoleão para ela.

COMENTÁRIO: Uma das certezas que continuo tendo é que a melhor dica para ver um filme ou ler um livro é nunca ouvir ou ler as críticas dos críticos. Fora a questão dos spoilers, que detesto, tem a questão central de ser conduzido para uma ou outra leitura e interpretação a respeito da obra, seja a leitura boa ou ruim. No caso do filme Napoleão esse cuidado foi importante para meu momento de entretenimento.

Assistimos ao filme no cinema e eu gostei. Os críticos que ouvi depois, por curiosidade, falaram mal de praticamente tudo. A principal crítica é sobre a abordagem superficial que Ridley Scott adotou em relação à parte histórica sobre a vida do personagem e sobre o contexto político da época. Eu compreendo as críticas sobre as lacunas históricas do filme, mas tenho clareza que se eu quiser saber sobre a história de Napoleão, da França, da Revolução Francesa, das guerras napoleônicas, dos países adversários da França à época etc, eu tenho que estudar sobre isso. Nunca foi diferente essa questão!

Aliás, eu que não me considero um total ignorante (não sabedor) de história mundial (na Fuvest 2000 quase gabaritei a disciplina História, errei 1 pergunta em 20, se não me falha a memória), refleti que preciso estudar a respeito da questão histórica relativa ao personagem do filme Napoleão Bonaparte. Me considero um ignorante em relação a ele. Ponto. E mais: tenho comigo faz tempo que sou ignorante em relação à Revolução Francesa. Se a existência me permitir mais tempo, seria bom eu, qualquer hora dessas, estudar a respeito da história da França e do povo francês.

Me envolvi tanto na história do filme que nem vi a hora passar. Achei a interpretação de Joaquin Phoenix excelente como sempre, gostei das imagens e cenários do filme, e as cenas das batalhas foram bem legais, fazem a gente pensar. 

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Destinos à deriva (Nowhere, 2023) - Direção: Albert Pintó. Elenco: Anna Castillo (Mía) e Tamar Novas (Nico). Sinopse (Wikipedia, com adaptações): Em um governo totalitário e destrutivo, a Espanha inicia a terrível prática de erradicar crianças, mulheres grávidas e idosos para lidar com a escassez de recursos. Mía (Anna Castillo), uma mulher grávida, é separada de seu marido, Nico (Tamar Novas), enquanto tentavam fugir do país em direção à Irlanda. No entanto, a mulher descobre que a sorte não está do seu lado ao se encontrar em uma situação angustiante de sobrevivência depois de ficar presa dentro de um contêiner no mar, ao cair de um navio cargueiro durante uma tempestade.

COMENTÁRIO: Que filme! Que filme! Eu nem gosto de assistir a filmes assim por causa do sofrimento ao qual somos expostos durante o mergulho na estória. No entanto, o drama ficcional da personagem Mía é um mergulho na realidade do mundo atual, um mundo de milhões de refugiados, de gente sem um lugar para viver sua vida. Os roteiristas entrevistaram diversas pessoas que passaram por situações semelhantes à que enfrentaram Mía, Nico e os demais refugiados do filme. A força demonstrada pela mulher e mãe perdida num contêiner em alto mar é uma lição de vida para cada um de nós que às vezes quase desistimos de lutar e de viver por causa das dificuldades que enfrentamos, que são reais e que nos lembram o quanto a vida é dura. 

Vi na luta de Mía pela vida a imponderável força humana de personagens como o velho Santiago de O velho e o mar e o Náufrago, interpretado magistralmente por Tom Hanks. Aliás, Anna Castillo merece receber todos os prêmios que a indústria do cinema concede a interpretações magistrais. Que atriz! 

Aliás, de novo, o que dizer da luta pela vida dos povos yanomamis e demais povos indígenas e tradicionais!?

Vale a pena mergulhar com Mía nesse mar de injustiças da sociedade humana e repensar sobre o rumo de nossos destinos à deriva nas mãos de alguns humanos donos de todos os recursos e poder político no mundo.

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É isso! Essas três obras me colocaram pra pensar no passado, no presente e no futuro, já que só o animal humano tem essa capacidade de alterar a realidade natural através de escolhas racionais.

Temos que mudar agora o rumo do destino trágico e escatológico da espécie humana e da natureza do planeta Terra.

William


Post Scriptum: clique aqui caso haja interesse em ler a postagem anterior sobre filmes.


quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

Natais - 1970



Refeição Cultural

Passamos o Natal de 2023 em Uberlândia, Minas Gerais. Conseguimos repetir a reunião familiar do ano anterior, o Natal de 2022, o primeiro após o auge da pandemia mundial. 

Quase repetimos a reunião da ceia natalina anterior, "quase" porque meu cunhado passou com a família dele neste 2023 e nem sequer nos vimos. Mas tivemos também neste Natal familiares do marido de minha sobrinha. 

Os Natais em família vêm mudando ano a ano. Eu tenho consciência de que tudo muda, pois somos natureza e somos seres históricos. A história humana segue seu curso, seguimos fazendo história, percebamos ou não isso. A mudança é uma das certezas que temos no mundo natural. 

A cada reunião familiar, fica em alguns de nós uma sensação estranha de que talvez aquela confraternização tenha sido a última. Não sei se muitas pessoas têm sentido a mesma coisa, mas comigo tem sido assim. 

Apesar da consciência a respeito das mudanças constantes de tudo na vida e nos ambientes do mundo onde vivemos, algumas mudanças são resultado de transformações pelas quais os seres humanos estão passando e não são mudanças boas, na minha avaliação. Vejo com preocupação para onde vamos enquanto espécie humana.

Tenho elaborado reflexões aqui no blog sobre o risco que a sociedade humana enfrenta neste momento da história. 

Me pergunto se os seres humanos serão ainda passíveis de serem educados, e me pergunto também se seremos no próximo período seres sociáveis. Pode ser que nosso nível de alteração desde a tenra idade nos faça seres frios, insensíveis, autômatos como máquinas e sem as características essenciais dos seres humanos.

Enfim, eu me esforcei para contribuir para que tudo corresse bem neste Natal em família... nunca se sabe se teremos outro. Fiz o que esteve ao meu alcance para reunir as pessoas que amamos, para pôr juntas pessoas que não se dão mais como antigamente e coisas do tipo.

Entendo que o momento pelo qual passa a humanidade nos cobra um esforço consciente para reunir pessoas, uma boa vontade de cada um de nós para tentar restabelecer a comunhão entre as pessoas, a solidariedade, o perdão, a tolerância à alteridade, precisamos resgatar os laços humanos de amor e amizade.

Neste Natal, viajei de coração aberto, busquei energias positivas para o ato desafiador de viver num mundo em desfazimento, num mundo cuja agenda permanente pautada em nossas vidas humanas pelas mídias sociais é a aparência, os extremismos, os ódios e medos, os cancelamentos de pessoas, a guerra.

Em Uberlândia, busquei renascer em mim mesmo nos momentos nos quais estive sozinho no Parque do Sabiá, aquele paraíso. E também busquei a compreensão das coisas nas relações com as pessoas. 

Precisamos encontrar maneiras de unir pessoas em prol de agendas que foquem o bem comum, a paz interior e a paz nas relações sociais. Essa não é a agenda dos donos momentâneos do poder econômico... Mas deve ser a nossa, pessoas de boa vontade. 

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NATAL DE 1970

Como terá sido o nosso Natal de 1970? Onde será que estávamos, o nosso núcleo familiar? Meu pai, minha mãe, minha irmã e eu?

Nas conversas com minha mãe, tentei especular essas coisas do passado, mas as memórias já vão ficando distantes e de difícil organização. Vendo fotos antigas, vi que os lugares eram diferentes do nosso lar.

Minha mãe me disse que quando era possível, a família viajava para a casa de alguns familiares. Goiás ou Minas Gerais eram destinos possíveis em um final de ano. Nós vivíamos em São Paulo à época.

Hoje, com a formação política e a experiência de vida que tenho, e sendo alguém que gosta de estudar a nossa história enquanto classe trabalhadora e povo brasileiro, consigo imaginar bem melhor a vida de meus pais e familiares nos anos sessenta, setenta e oitenta.

Para ilustrar o clima e o cenário nos quais meus pais viviam as nossas histórias, como estou fazendo nesta série, destaco alguns eventos que fizeram parte do contexto brasileiro e mundial naquele ano de 1970, que chegava ao fim no Natal e naqueles dias de Ano Novo.

No Brasil, a ditadura civil-militar estava num período muito violento para os dissidentes e adversários do regime de extrema-direita, bancado pela elite do país e pelos Estados Unidos da América.

COPA DO MUNDO DE FUTEBOL

O Brasil se tornou tricampeão de futebol no México, em junho. Pelé brilhou e a seleção da Copa de 1970 talvez tenha sido uma das melhores de todos os tempos (assim como a de 1982, imagino eu). Vencemos a Itália por 4x1 no Estádio Azteca, na Cidade do México. 

O regime ditatorial usou de todas as formas a conquista da seleção canarinho para fazer política favorável ao governo. Perguntei aos meus pais sobre a Copa do Mundo de 1970 e eles se lembraram daquela onda positiva no dia a dia do país.

MORREM JIMI HENDRIX E JANIS JOPLIN

Na postagem sobre o ano de 1969, falei sobre o evento cultural que marcou o mundo em agosto daquele ano, o Festival de Woodstock. O ano em que nasci... Hendrix e Joplin estavam no auge de suas carreiras no mundo do Rock and Roll.

Pois é! Eles morreram antes do Natal de 1970. Hendrix em setembro e Joplin em outubro, ambos com 27 anos de idade. Foram perdas terríveis para o rock mundial. Eu não sei se isso afetou meus pais proletários no Brasil. Talvez não.

Os Beatles também já não existiam mais naquele Natal, uma das maiores bandas de rock de todos os tempos formalizou o fim do grupo naquele ano de 1970, após rompimentos internos desde 1969.

O SOCIALISTA SALVADOR ALLENDE É ELEITO NO CHILE

Só para finalizar a contextualização da véspera do Natal de nossa família e do Brasil e do mundo em 1970, nosso vizinho sul-americano, o Chile, terminava aquele ano com um presidente marxista eleito pelo povo numa eleição disputadíssima em setembro. Salvador Allende obteve 36,2% dos votos, à frente do candidato da direita com 34,9% e do terceiro colocado da democracia cristã com 27,8%. O congresso referendou o resultado e a América do Sul tinha naquele momento um presidente eleito defendendo o socialismo.

Provavelmente meus pais, como milhões de brasileiras e brasileiros, estavam focados em sobreviver diariamente na labuta de seus dias.

É isso! Aquele garotinho da foto que abre a postagem sou eu, ainda experimentando os momentos iniciais da vida naquele final da década de sessenta.

William


Post Scriptum: o capítulo anterior dessa série pode ser lido aqui. E o capítulo seguinte pode ser lido aqui.

Post Scriptum II: as informações sobre o ano de 1970 que incluí no texto foram pesquisadas na enciclopédia livre, Wikipedia.


segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

Diário e reflexões - Ano Novo?



Refeição Cultural

Osasco, 1º de janeiro de 2024. Noite de segunda-feira.


Ano Novo?

Primeiro dia do Ano Novo. Essa invenção do ser humano, o calendário e a contagem do tempo, é uma ferramenta extraordinária para lidar com a realidade da natureza e das coisas da sociedade humana. Ano Novo... 

As coisas da sociedade humana seguem neste dia "novo" da mesma forma que ontem. O Estado de Israel segue eliminando um segmento humano de uma certa área daquela região do mundo. Dezenas de crianças, mulheres, idosos e homens seguem sendo mortos sob ataques a bombas na Faixa de Gaza, Palestina. O povo sendo eliminado é o povo palestino. Segundo o jornalista Luis Nassif - por Twitter (X) -, Israel já destruiu 70% das casas na Faixa de Gaza. Ano Novo...

A realidade da natureza não mudou de ontem para hoje, primeiro dia do "Ano Novo". A emergência climática segue alterando a condição de vida no planeta Terra para todos os seres viventes. A humanidade não tomou consciência de ontem para hoje de que precisamos mudar agora, já, a forma como estamos destruindo todos os biomas da natureza. Alguns animais humanos detêm quase a totalidade dos recursos disponíveis e o poder econômico e estatal no mundo enquanto bilhões de seres humanos sofrem neste instante em que escrevo estas reflexões. O combate ao capitalismo não é mais sequer pauta dos poucos movimentos organizados que ainda estão por aí. Não temos tempo sobrando para isso. Ano Novo...

No entanto, tirando as coisas da sociedade humana e a realidade da natureza, a mente humana, que criou esse mundo como nós o conhecemos - como nos explica o neurocientista Miguel Nicolelis -, é uma fantástica máquina de criação de abstrações, que viram realidade, que passam a criar pensamentos e ideias e leituras de mundo (ideologias), e que sequer deixam rastros identificáveis de o que criou o que... Transformamos em normalidade qualquer coisa a partir da criação de abstrações que viram referências para os animais humanos. Uma pessoa ter 100 bilhões de dólares é tido como algo "natural" e "normal". Um animal humano destruir sozinho áreas da natureza do tamanho de estados nacionais é "normal", ao invés de se interromper na hora a destruição sem volta, se discute depois "indenizações" na "justiça". Ano Novo...

Ano Novo, sociedade humana velha, envelhecida, embrutecida, idiotizada, alienada e drogada pelos prazeres sensoriais momentâneos, sociedade humana em vias de morrer de velha... o pior é que vai morrer levando outras formas de vida.

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MEU ANO NOVO

É Ano Novo para cada ser humano na terra (cada um com seus calendários arbitrários, lógico!)

E, no entanto, inventamos o calendário e a contagem do tempo. Criamos as realidades na sociedade humana.

Durante muitos anos de vida laboral, tinha no mês de janeiro o período de férias do trabalho e ou da representação sindical. Era o período que tirava para tentar esquecer um pouco das nossas agendas de lutas da classe trabalhadora. Nos meses de janeiro, sempre procurava ler bastante, ter um pouco mais de contato com o mundo da cultura, arte, cinema, lazer.

Por serem os meses de janeiro um período de boas memórias, o desejo que senti neste primeiro dia do Ano Novo do nosso calendário arbitrário foi de ler contos e outros gêneros literários e discursivos e ver alguns filmes neste mês de "férias".

Se as coisas da sociedade humana e a realidade da natureza e o acaso me permitirem, minha intenção é ler vários contos do livro Os cem melhores contos brasileiros do século (2000), organizado por Italo Moriconi, e contos machadianos do livro 50 contos de Machado de Assis (2007), selecionados por John Gledson. Vou ler outras coisas também.

Na seleção de Italo Moricone, comecei pela seção "Anos 60 - Conflitos e desenredos", de onde havia parado quando manuseei o livro faz uns dois anos.

Li "A força humana", de Rubem Fonseca; "Amor", de Clarice Lispector; "Gato gato gato", de Otto Lara Resende; "As cores", de Orígenes Lessa; "A máquina extraviada", de José J. Veiga e "O moço do saxofone", de Lygia Fagundes Telles.

De cara, de supetão, o conto que mais me chamou a atenção pelo final da estória foi o de Otto Lara Resende. Que foda! O conto me incomodou! No geral, gostei de todos. O mais hermético para mim foi o de Clarice Lispector, como sempre! Adoro os contos de J. Veiga e não conhecia textos de Orígenes Lessa e da Lygia Fagundes Telles. O mais profundo na temática foi o de Rubem Fonseca.

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É isso! Ano Novo! A minha busca por conhecimento seguirá firme. Sou um ser incompleto como nos ensina Paulo Freire. Somos.

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Estou fazendo na postagem anterior, a última do Ano Velho, a retrospectiva e o balanço do ano de 2023. É texto que dá um trabalhão. Não terminei ainda. Estou incluindo conteúdo aos poucos.

Desejo saúde às leitoras e leitores do blog e sonho com a unidade da espécie humana na luta por uma nova forma de convivência entre os seres humanos e as demais formas de seres da natureza. 

Temos que construir unidade na luta pelo fim do capitalismo. Essa abstração vai destruir o mundo, a começar pela espécie que a criou.

William


domingo, 31 de dezembro de 2023

Diário e reflexões - Retrospectiva 2023



Refeição Cultural - 2023

Osasco, 31 de dezembro de 2023. Domingo.


Para reflexão: que perspectivas de futuro teremos caso prevaleça a tendência nas gerações que estão chegando ao mundo de serem aculturadas para desejarem ser youtubers e "influenciadores digitais" sem conhecimento de nada, sem o sonho de serem pessoas educadas, formadas e cientistas?


RETROSPECTIVA E BALANÇO 

Como começo esta retrospectiva pessoal? Do fim para o início ou do início para o fim? Ou in medias res para chamar a atenção das leitoras e leitores? Talvez essa seja a melhor estratégia de narrativa do meu ano vivido.

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VIAGENS


Praia Grande (SP) - A primeira viagem do ano foi uma das que mais gostamos na família: passamos alguns dias da segunda quinzena de janeiro na Colônia do Sindicato dos Professores de São Paulo, Sinpro, na Vila Caiçara, Praia Grande. Desta vez, levamos o Lost, amigo do filhão, e os dias foram muito legais.

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Guarapari (ES) - Minha companheira sempre quis que eu conhecesse a cidade turística de Guarapari, no Espírito Santo. Ela ia para lá nos anos noventa e nosso filho chegou a ir também quando criança. Nossos tios ficavam numa casa bem legal no alto de uma ladeira no centrinho da cidade, entre a Praia das Castanheiras e a Praia dos Namorados. Perto também da Praia da Areia Preta. Eu não conhecia a região ainda. 

Ficamos num hotel bem de frente para a Praia dos Namorados e passamos dias bem legais, lá. Caminhei e corri quase todos os dias. Valeu a pena e vamos voltar.

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Uma viagem ao mundo de Monet

Em março, fomos ver a exposição Monet à beira d'água, no Parque Villa Lobos. A Ione adora as obras do pintor francês. A professora tinha um projeto educacional para as crianças com obras e pintores famosos e Monet sempre estava presente. Foi uma viagem o passeio!

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Uberlândia (MG) - Antes de viajar para Cuba, fui ver meus pais e familiares em Minas Gerais. Foi uma viagem rápida. Também fui me encontrar em minhas caminhadas e reflexões no Parque do Sabiá, lugar que amo. Na oportunidade, decidi visitar o Zoológico local. O Sabiá é um dos lugares que mais gosto no mundo. Sério mesmo!

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Cuba - Finalmente conheci Cuba. Fui pra Cuba! Foi uma experiência interessante! E para ser mais legal a experiência, meu filho foi comigo, foi sua primeira viagem para fora do país.

Antes da viagem, procurei ler um pouco a respeito da história da Ilha e do povo cubano. Li uma obra impactante - O homem que amava os cachorros (2009), de Leonardo Padura -, impactante tanto do ponto de vista da própria história do povo cubano após a Revolução em 1959, quanto do ponto de vista da Revolução Russa e a história de Leon Trótski. Foi difícil a leitura. Mas ela me colocou em reflexões duras a respeito do mundo humano.

Conheci um pouco da história de José Martí, grande figura humana e um dos principais pensadores da história cubana, referência na educação do país. Aliás, a leitura do livro da professora Maria Leite - Cuba insurgente - Identidade e Educação (2023), leitura terminada após a viagem a Cuba, deu clareza à minha hipótese de por que até hoje Cuba resiste ao embargo e ao capitalismo. Li o livro de Fernando Morais A Ilha (1976 e 2001) e essa leitura também me deixou em alerta para quando chegasse a Cuba em abril deste ano. 

Da permanência em Cuba por duas semanas, eu tanto fiquei impressionado e me questionando como é possível a manutenção até hoje, 65 anos depois, do regime socialista na Ilha, quanto compreendi por que até hoje o regime socialista se mantém em Cuba... pode parecer estranho afirmar isso, mas tenho a impressão de que a pedagogia da educação cubana é um dos alicerces do amor-próprio que aquele povo tem. Cubanía e Cubanidad... Os revolucionários liderados por Fidel Castro nos anos cinquenta tinham noção disso, eram martianos...

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Romaria em terras mineiras 

Em agosto, depois de alguns anos sem caminhar entre Uberlândia e Água Suja, voltei para a estrada. Antes de caminhar os quase 80 Km, fiz várias caminhadas preparatórias pela região onde nasci e vivo até hoje, Zona Oeste da Grande São Paulo. 

Antes de partir como peregrino e romeiro, tive meus momentos com a família.

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Casório nas Minas Gerais

Em outubro, a família teve nova oportunidade de visitar meus pais e familiares em Uberlândia, para fazer parte de um momento importante de nossa sobrinha Stefani, em seu casamento. Desejamos muitas felicidades ao casal.

As viagens a casa de meus pais é sempre um momento de Carpe Diem, porque a vida é o presente. 

Para todos nós, a vida é uma oportunidade e o tempo presente é o que importa. Tenho refletido sobre o tempo passado, que de fato pode ser como o futuro, do ponto de vista pessoal. Eu não tenho o tempo que passou, nem sei se tenho o tempo que não veio ainda... não tenho! 

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Jaboticabal (SP) - No final de outubro, visitamos a cidade que abrigou nosso filho por alguns anos no interior paulista. Lá fizemos amigos e até hoje temos um carinho especial por Jaboticabal e pelas pessoas queridas da cidade.

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Praia dos Carneiros (PE) - Em novembro, fizemos um passeio muito especial. Fomos passar alguns dias na Praia dos Carneiros numa pousada bem tranquila e com poucos chalés. E também fomos fora de temporada, o que contribui para que os ambientes internos e a praia estejam com pouca gente, permitindo um contato mais introspectivo com as belezas naturais do local. Foi muito bom!

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Seriemas no Parque do Sabiá. Deslumbramento!

Natal em Uberlândia (MG) - A tradicional reunião em família para a ceia de Natal foi nas Minas Gerais. Se, por um lado, os conflitos familiares enchem os nossos corações de amarguras e incertezas quanto ao futuro, por outro, este Natal foi um momento inesquecível em minha vida por causa do meu reencontro com a energia interna de meu corpo. 

Cheguei a Uberlândia tendo desistido de tentar correr a São Silvestre porque meu corpo me dava sinais de que não conseguiria percorrer os 15 Km da prova. E não é que fui três vezes ao Parque do Sabiá e realizei uma façanha incrível, trotei longas distâncias e voltei decidido a correr a prova na virada do ano. Deu tudo certo e aquele meu momento com o Sabiá me emociona demais só de recordar aqueles dias. A natureza do local me inunda e a gente se descobre ali. Obrigado Parque do Sabiá!

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LEITURAS

Durante o ano de 2023 tive a oportunidade de ler e completar a leitura de 32 livros dos mais diversos gêneros literários e discursivos. O homem que termina o ano é uma pessoa diferente daquela que iniciou a jornada da vida em janeiro. 

O esforço para ser uma pessoa melhor continua e sei que através dos livros podemos evoluir, diminuindo aquela incompletude que Paulo Freire nos explica no livro Pedagogia da autonomia.

Livros finalizados

1. A estranha vontade de um morto (2022) - Sandro Sedrez (ver aqui)

2. Torto arado (2018) - Itamar Vieira Junior (ver aqui)

3. rio pequeno (2022) - floresta (ver aqui)

4. Diário de um bandeirante ligeiramente atrasado e totalmente desarmado (2006) - Roberto Buzzo (ver aqui)

5. Manifesto do Partido Comunista (1848) - Marx e Angels (ver aqui)

6. Os sentidos do lulismo - Reforma gradual e pacto conservador (2012) - André Singer (ver aqui)

7. O homem que amava os cachorros (2009) - Leonardo Padura (ver aqui)

8. A Ilha (1976 e 2001) - Fernando Morais (ver aqui)

9. A vida não é útil (2020) - Ailton Krenak (ver aqui)

10. O trono no morro (1987) - José J. Veiga (ver aqui)

11. O governo no futuro (1970) - Noam Chomsky (ver aqui)

12. A impureza da minha mão esquerda (2020) - Henry Bugalho (ver aqui)

13. A Quinta-Coluna (1938) - Ernest Hemingway (ver aqui)

14. A comédia dos erros (1591) - William Shakespeare (ver aqui)

15. A bíblia em crônicas livres (2023) - Roberto Buzzo (ver aqui)

16. Evocación (2007) - Aleida March (ver aqui)

17. Lawfare: uma introdução (2019) - Cristiano Zanin, Valeska Zanin Martis & Rafael Valim (ver aqui)

18. A megera domada (1594) - William Shakespeare (ver aqui)

19. La historia me absolverá (1953) - Fidel Castro Ruz (ver aqui)

20. Novos poemas (1948) - Carlos Drummond de Andrade (ver aqui)

21. Quatro anos das sombras (2022) - org. Cleusa Slaviero (ver aqui)

22. Nuestra América (1891) - José Martí (ver aqui)

23. A verdade vencerá: Lula (2018) - Ivana Jinkings (ver aqui)

24. Operários sem patrão: gestão cooperativa e dilemas da democracia (2001) - Lorena Holzmann (ver aqui)

25. Cuba insurgente: identidade e educação (2023) - Maria Leite (ver aqui)

26. Educação como prática da liberdade (1965) - Paulo Freire (ver aqui)

27. O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado (1978) - Abdias Nascimento (ver aqui)

28. Banzeiro Òkóto: uma viagem à Amazônia centro do mundo (2021) - Eliane Brum (ver aqui)

29. Os sertões (1902) - Euclides da Cunha (ver aqui)

30. Os mortos vivos (1979) - Peter Straub (ver aqui)

31. Greve e negociação coletiva: dimensões complementares da luta sindical (2022) - Carlindo Rodrigues Oliveira (ver aqui)

32. O Brasil voltou (2023) - org. Cleusa Slaviero (ver aqui)

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LEITURAS CAPITAIS

Dos livros que li, alguns me deram compreensão de muitas coisas de nossa vida em sociedade. 

Não estou desvalorizando alguns dos livros que li, mas o fato é que algumas leituras e formas de arte e filmes são para entretenimento, para curtição. Outros são para nos causar impactos marcantes, modificadores do ser e do comportamento humano e social.

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LULISMO - O livro de André Singer sobre o conceito de "lulismo" foi um livro impactante para mim. Reforçou algum conhecimento que tinha e me ajudou a compreender por que as coisas são como são no Brasil. A tese de Singer mereceria uma leitura coletiva nos sindicatos, partidos de esquerda e nos movimentos sociais organizados.

Modéstia à parte, as postagens que fiz sobre a leitura do livro de Singer dão uma boa ideia do que o intelectual nos explica sobre o fenômeno. O ideal é sempre ler a obra, mas se os leitores fizerem a leitura de minhas postagens terão uma noção do que Singer defende (ver aqui).

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SOCIALISMO EM CUBA, NA URSS E O "NOVO SINDICALISMO" NO BRASIL - Outro livro impactante para mim e que ao reler a postagem sobre a leitura (ver aqui) me deixou impressionado foi o livro do escritor cubano Leonardo Padura. De novo, modéstia à parte, a postagem tenta contribuir para o debate político, é um ponto de vista honesto de quem viveu duas décadas dentro do movimento sindical. Deem uma conferida nela, comentem à vontade.

Que leitura densa! Que leitura que me fez pensar toda a minha vida sindical e de representação de classe! Enquanto lia nos primeiros meses do ano e do 3º governo Lula, ia revivendo meu dia a dia na principal corrente política da CUT, a Articulação Sindical. Livrão!

CHE GUEVARA E ALEIDA MARCH - O livro Evocación da guerrilheira e companheira de Che Guevara, Aleida March (ver aqui), foi uma das leituras que mais me impactaram no ano de 2023. Foi uma descoberta! Nunca imaginei conhecer tantas informações pessoais da figura humana Ernesto Guevara como conheci através das memórias de sua esposa. Olha, na postagem comento que o livro me marcou como a leitura do livro de Miguel Nicolelis sobre o cérebro humano, um livro que me fez ver a vida de forma mais compreensível.

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AMBIENTALISMO, EMERGÊNCIA CLIMÁTICA E A VIDA - Duas leituras que me trouxeram muita reflexão e desejo de mudança da maneira como o mundo está organizado e da própria vida foram as leituras de Ailton Krenak e de Eliane Brum. 

São leituras imprescindíveis às pessoas de boa vontade e desejosas de um mundo melhor para todas as espécies viventes no planeta Terra.

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ENTENDI QUE SOU ESCRITOR

Edições de livros e produções textuais em andamento:

- Um livro de memórias sindicais

- Um livro sobre o balanço do mandato eletivo na gestão da Cassi (2014-2018)

BLOGS

As publicações nos blogs começam a fazer sentido para mim em 2023 como faziam à época em que era um representante da classe trabalhadora.

A temática das reflexões nos textos produzidos e a quantidade de pessoas que tem acessado os textos me fazem ter cada dia mais responsabilidade com o que escrevo.

O blog Refeitório Cultural recebeu 168 mil acessos em 2023 - média de 14 mil acessos por mês. Avalio que é muita gente que visitou o blog! Me sinto honrado com isso.

Considerando que o blog não é um ambiente da moda atual, na qual a comunicação se dá por imagem e vídeo, 168 mil é uma quantidade respeitável de acessos para um ambiente de textos sobre cultura em geral e política.

De vez em quando recebo algum retorno de leitores e leitoras dizendo que meus textos são bons e que contribuem para as reflexões deles. Isso é gratificante e dá sentido ao esforço que faço ao escrever.

Para fazer este balanço do ano de 2023, reli os textos sobre as leituras que fiz e os textos de fechamento de mês e percebi que minhas reflexões vêm amadurecendo bastante quando comparo com os textos que releio do período inicial do blog.

Talvez por isso, e por ter pessoas lendo o que escrevo no ano e os textos da história de publicações do blog, eu comece a trabalhar meu psicológico para aceitar a ideia de que eu seja um escritor, de difícil definição do estilo, mas um escritor, ou alguém que escreve com regularidade.

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COISAS DOS HUMANOS, ANIMAIS DEMASIADAMENTE HUMANOS

Meio Ambiente

O ano de 2023 seguiu sendo de destruição do planeta Terra, da vida humana e da sociabilidade humana. Uma percepção da realidade que aprendi ao ler Eliane Brum e seu duríssimo livro Banzeiro Òkòtó: uma viagem à Amazônia centro do mundo (2021) me pareceu muito clara: o futuro será pior que o presente. Eu nunca tinha pensado nisso! Estamos destruindo rapidamente as condições de vida no planeta.

O pior é que é verdade essa questão da destruição do planeta, penso eu, mesmo não tendo leitura determinista de futuro, como nos alerta o educador Paulo Freire ao dizer que temos que problematizar o futuro e mudar as situações ruins porque elas não são "naturais", são consequências de nossas escolhas e nosso comportamento humano. A realidade pode mudar porque somos nós que fazemos a realidade. Mas no momento, e observando as tendências, a perspectiva é de um futuro pior que o presente.

Guerras

Ucrânia e Israel, guerras por procuração dos EUA - No início de 2023, convivíamos com algumas guerras no mundo. A que se desenvolvia em solos ucraniano e russo era a que chamava a atenção da pauta das mídias hegemônicas porque se tratava de uma guerra por hegemonia global, envolvendo o império decadente dos Estados Unidos. 

Terminamos o ano com dois meses de bombardeios genocidas na Faixa de Gaza, na Palestina. Seguimos na mesma. A guerra de um país só - o governo do Estado de Israel -, de um lado, contra civis palestinos, de outro. É mais uma guerra por hegemonia global e com os EUA por trás dela. Humanos, demasiadamente humanos somos nós...

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ALGUNS OBJETIVOS E PROJETOS (TALVEZ DESEJOS)

Ao finalizar o ano de 2023 e olhar para trás e ver o que aconteceu na vida pessoal e no mundo ao redor, sinto que imaginar o amanhã é algo mais difícil que antes, o amanhã que não nos pertence, como bem nos explica o filósofo Ailton Krenak. 

Fico pensando a respeito de projetos de vida ou objetivos a perseguir e acho tudo tão estranho... quero dizer, tão instável, frágil, talvez ilusório. Não queria ter passado a vida deixando a vida me levar, e acabei passando a vida tendo a vida me levado pelos caminhos que trilhei.

Quando era um adulto jovem, tinha os objetivos básicos, à época, de ter uma casa própria, queria ter uma moto, acho que queria ter uma profissão e uma remuneração estável, queria ser erudito (algo do tipo) e queria namorar (talvez ser amado). Quase todo mundo da minha classe social tinha esses objetivos na vida. 

Me lembro de não querer trabalhar em coisas humilhantes e extenuantes, pois era essa a minha realidade na infância e adolescência sendo explorado pelos outros. Talvez por isso odiasse trabalhar e odiasse rico.

E hoje? O que uma pessoa como eu poderia esboçar mentalmente como objetivos e projetos para os próximos meses, talvez anos à frente? O que está sob meu domínio ou controle mínimo no viver cotidiano? O quê?

Percebi que não temos controle de nada, não temos. Deveria então, sabendo disso, deixar a vida me levar, com mais leveza e vivendo o momento da melhor forma possível como se não houvesse o amanhã... pois é, deveria. Mas não consigo. 

Minha natureza não facilita meu viver à toa, "gozar" essa fase da vida. Me sinto culpado por ter conseguido sair daquela condição dos trabalhos humilhantes e extenuantes. Vejo o povo de onde vim se fodendo em trabalhos humilhantes e extenuantes, explorados como escravos, e me sinto mal por isso.

Estou lendo os livros de Paulo Freire e ele fala o tempo todo sobre mudança, sobre não aceitarmos o determinismo que tentam nos vender.

Freire nos ensina que um dos papéis centrais da educação e das pessoas que lidam com a profissão de educar é perceber o mundo e mudar o mundo porque somos seres incompletos e passíveis de educação. 

A tomada de posição para mudar a realidade desfavorável das classes subjugadas e excluídas da cidadania é central na pedagogia freireana. Acho que fiz isso na fase que lutava por mim mesmo e na fase que representava pessoas de minha classe. Isso me deu um sentido no viver, mesmo olhando agora para trás, mesmo que não percebesse isso durante.

Hoje, me sinto deslocado no mundo, após todos os papéis relevantes que desempenhei como ser social, constituinte de ambientes humanos. Não sinto pertencimento em nada. Não me sinto parte de nada. Isso tem dificultado muito meu existir. E nos ambientes onde existo, não tenho influência alguma, não tenho capacidade de mudar realidades de forma dialogada.

Termino um ano calendário e entro outro ano calendário na mesma. Sem sentimento de pertencimento a algo.

Se em termos políticos tenho militado num diretório do partido no qual admiro o trabalho do presidente, o companheiro Daniel do DZ Butantã -, a realidade me lembra o tempo todo que sequer é o diretório onde me localizo pela legislação partidária. Não posso votar nas pessoas que conheço, sequer no PED, pois moro em Osasco, que dirá na vereadora Luna Zarattini e no Guilherme Boulos no ano de 2024. Não pertenço a lugar nenhum. Não tenho militância na cidade onde resido.

Imagine se for falar do movimento político que ajudei a construir por mais de duas décadas, o movimento sindical bancário. O Sindicato fez 100 anos, eu vivo o sindicato há 35 anos - sou sindicalizado desde 1988 e ainda pago mensalidade -, e sequer para um videozinho fui convidado. A Cassi fez 80 anos nestes dias e fui um dos diretores eleitos que mais defendeu a associação e os direitos dos associados, sem falsa modéstia; idem para o apagamento. A Contraf-CUT completou 18 anos, fui o responsável por apresentar a marca da nova entidade no lugar da famosa CNB e fui secretário de formação; idem ao apagamento. Alguém ou "alguéns" mandou apagar a minha foto da história dessas entidades, como ouvimos dizer na história das esquerdas no mundo.

Enfim, quais poderiam ser meus objetivos e projetos de futuro para 2024 e quiçá algum tempo mais? Ou desejos, torcida?


- Ser professor e dar aula em algum projeto voluntário em 2025, me preparar em 2024?

- Voltar a Cuba e seguir estudando experiências de sociedades não capitalistas?

- Viajar à Itália e já falar italiano quando for?

- Vai que eu descubra em mim uma forma de ainda correr uma maratona...

- Ler alguns livros, uns clássicos como, por exemplo, Os miseráveis (comecei já), Guerra e Paz, e mais alguns autores que nunca li.


De verdade, de verdade, eu tenho algumas torcidas, desejos, coisas que não dependem de mim.

Desejo que as pessoas de meus afetos tenham saúde e sobrevivam ao ano de 2024. Gostaria de ver as pessoas que amo se encontrarem, se realizarem, serem um pouco felizes. Serem humanistas e tolerantes umas com as outras.

Desejo ter saúde, não perder minha visão e não piorar minha condição de desgaste nos quadris. Gostaria de correr com regularidade. Minha vista e minhas pernas são importantes para mim. Torcer para não ter infarto, AVC e câncer.

Desejo seguir estudando e o que posso fazer neste momento para a coletividade é escrever o que aprendo e o que penso, escrever com honestidade, e tentar passar adiante o que sei de forma gratuita, porque hoje sobrevivo do meu benefício do fundo de pensão para o qual contribuí por quase três décadas.

Acho que só isso. As outras possibilidades de projetos e objetivos são referências de norte (utopia para andar adiante) não muito realizáveis, a minha vida foi sempre vivida pelos acontecimentos do dia.

Se eu conseguisse, eu esqueceria todo esse passado que sequer existe e esqueceria também tudo o que me oprime a alma e viveria a tal vida gozando o dia a dia, ligando um foda-se para os outros e para o mundo... mas isso não é da minha natureza. Gostaria de mudar isso e esquecer essa merda que me dilacera.

Mas vamos seguir o norte racional que imaginei (o lugar nenhum a se alcançar), seguir lendo e escrevendo, indo em mobilizações de rua que chamam a cidadania etc.

Ajudando quando der e não atrapalhando os outros. Mas falando o que penso, é meu dever e minha obrigação falar baseado no que conheço e penso.


William Mendes

Mais um na multidão


São Silvestre 2023 - Minha história de superação


Fui, corri, completei os 15 Km.

Refeição Cultural

E no fim, corri para fazer uma pessoa feliz, alguém com o coração apertado... eu mesmo! A sensação de concluir o percurso da prova é incrível! Desejaria a emoção a todas as pessoas do mundo!


"Daqui alguns dias teremos no Brasil mais uma edição da tradicional Corrida de São Silvestre. Queria correr a prova. Não dou conta. A natureza e a realidade são implacáveis com os seres naturais. Fui para o Sabiá conversar com o meu corpo. Corri, andei, senti minhas energias. Para me arriscar numa empreitada que exigisse a quantidade de energia que o percurso da prova exige, teria que ser algo cuja finalidade fosse um feito grandioso, que valesse para a coletividade, ou para um coração apertado; gastaria toda essa energia para salvar uma vida, para lutar contra uma injustiça, para mudar o mundo, para fazer uma pessoa feliz." (minha reflexão em 23/12/23, em Uberlândia)


No filme icônico Forrest Gump - O contador de histórias (1994), o personagem Forrest (Tom Hanks), após uma grande tristeza em relação à mulher amada, decide pegar seu tênis, calçá-lo e sair correndo para lidar com a dor que está sentindo em seu peito. Corre, corre, corre de uma ponta a outra do país, vai de um oceano ao outro e volta. Depois, quando sua amada Jenny diz que gostaria de ter estado lá com ele, Forrest diz a ela que sim, ela estava lá... é uma das cenas mais lindas do cinema que eu conheço!

São Silvestre 2009.


Uma vez eu corri a São Silvestre como o personagem Forrest... teve até pessoas que gritaram pra mim - "run Forrest, run!". Foi legal!

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11ª participação na São Silvestre

Eu não corria a São Silvestre desde 2019, ano anterior à maior pandemia que o mundo viu em um século. Nós que estamos aqui sobrevivemos ao genocídio empreendido pelo governo brasileiro à época. Infelizmente, 700 mil pessoas morreram, muitos amig@s e pessoas queridas de cada um de nós. Somos pessoas de sorte! Eu sou uma pessoa de sorte, como diz a música I'm Lucky Man, da banda The Verve. Eu sempre registro isso, porque entendo que é uma realidade.

A minha condição física após a pandemia regrediu bastante. Percebi isso.

Neste ano, tentando retomar um pouco do condicionamento físico, pensando na saúde e na qualidade de vida, voltei a praticar algum tipo de atividade física. A corrida de rua é o meu esporte favorito. Apesar de saber que tenho desgaste na estrutura do quadril, decidi retomar a caminhada e a corrida em trote leve.

Fiz um treinamento intensivo de caminhadas antes de agosto para fazer uma romaria de cerca de 80 Km (ver aqui), romaria que não fazia também desde 2019. Deu tudo certo e acabei me animando no final de setembro para voltar à São Silvestre.

Assim que me inscrevi no início de outubro, vi que a coisa seria mais complicada para mim. Fiz um planejamento para treinar nos três meses até a prova no dia 31 de dezembro e na segunda corrida do treino (8/out) senti uma contusão. Fiquei arrasado... andar 80 Km sim, correr 15 Km, não!

Repensei tudo ainda em outubro. Passei semanas me recuperando e sem poder correr. Pedalei um pouco, fiz um pouco de musculação e andei, andei, andei. Decidi que precisaria diminuir meu peso para ficar mais leve para minha estrutura física. Cortei algumas coisas que sempre comi, o pastel da feira, carnes muito gordurosas, o pãozinho, diminuí o arroz, doces e chocolates etc.

Quando voltei a correr meus trotes no meio do mês de novembro, aí foi que vi que o buraco era mais embaixo... que dificuldade da porra pra correr pequenas distâncias. Não era só a estrutura musculoesquelética que estava ruim, a cardiorrespiratória também. Ferrou geral!

Meio que desistindo sem desistir, corri três vezes em novembro, distâncias bem pequenas, só para avaliar batimento cardíaco, energia corporal, músculos e tendões das pernas etc. E segui andando bastante e emagrecendo um pouco. Corri mais duas vezes na primeira quinzena de dezembro. Diminuí 3 Kg no peso. E assim fui para o Natal com a família em Uberlândia. Já não pensava mais correr a São Silvestre neste ano.

Pq. do Sabiá, o paraíso.


Aí, em Uberlândia, tudo mudou entre os dias 22 e 26 de dezembro. Sou apaixonado pelo Parque do Sabiá! Quem não conhece precisa conhecer um dia aquele lugar. Pista de 5K, banheiros limpos em diversos pontos, água gelada, natureza impecável. Sério, acho que se eu morasse lá, até uma maratona eu ainda correria, mesmo fodido do quadril.

No feriado do Natal, decidi ir para lá nos dias 22, 24 e 26. Queria ficar algumas horas lá. Além da questão mental que se cura lá, tem a pista pra correr e caminhar.

No dia 22, me concentrei e decidi correr um pouco. A ideia era ver se corria 5K e sentir minha energia. Corri a volta e andei mais uma. Terminei relativamente bem. Mas pensei nos 15 Km e decidi não correr a São Silvestre. Foi o dia que joguei a toalha (citação acima).

Aí no dia 24, fui pro Sabiá pensando em outra estratégia de treinamento e para encontrar minha energia vital perdida. Amig@s, corri 9 Km acompanhando a pulsação e andando alguns metros sempre que estava alta, para voltar ao aceitável. Fiquei tão admirado que pensei que se tivesse mais algumas semanas, eu correria os 15K da São Silvestre.

No dia 26, antes de ir embora, acordei bem cedo, tomei um café, e fui para o Parque do Sabiá me despedir daquele paraíso. Meio pesado do café, andei rápido o 1º Km sem trotar. Depois mergulhei no trote, chuva leve, silêncio e pouca gente naquela manhã. Completei os 10K de boa. A alegria que senti internamente, só quem corre pode entender...

Chegando em São Paulo, fui retirar o Kit da prova no dia 29. Aquele clima das pessoas na maior expectativa me deu uma comichão incrível! Fiquei daquela hora em diante pensando se iria ou não para a Paulista pelo menos para correr um pouco e parar caso achasse que estava sem energia para a prova toda.

Av. São João. BB, Banespa e
Martinelli. Parte de minha vida
está ali para sempre.


Amig@s, fiz minha corrida concentrado, tranquilo, andei um pouquinho quando precisou. Curti o percurso e a festa como todo mundo curtiu. O centro de São Paulo é lindo!!!

Subi a Brigadeiro correndo a maior parte do trajeto. Cheguei com tanto arrepio e emoção no corpo que repito o que disso no início. Desejaria que todas as pessoas do mundo sentissem o quanto é gostosa a sensação que os corredores e corredoras têm quando terminam uma prova... É de encher os olhos... de alegria, não de tristeza.

É isso! Depois de uma superação dessas, a gente termina o ano sonhando até em correr provas maiores em 2024, do jeitinho que a gente pode.

Feliz Ano Novo a todas, todos e todes! A gente pode muita coisa, basta acreditar e perseverar!

William